Contradições, funk e feminismo

Os poetas do funk tratam as mulheres como sendo verdadeiras maquinas de sexos, como bonecas para satisfazer os desejos vadios de alguns, como petisco de bar

Postado dia 13/10/2016 às 12:23 por Pedro Henrique

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Eu já cansei de sublinhar as contradições e idiotices de muitos movimentos políticos da modernidade. Para mim, como devem bem saber se me acompanham, o problema da modernidade está na falta de uma alta cultura e no monopólio da opinião nas mãos dos ideólogos. Esta última é o mal que mais faz barulho, a causa das pirotecnias sociais; enquanto que o primeiro é a base e origem do problema.

Nós conseguimos analisar qualitativamente uma ideologia ou filosofia quando ela guarda em si a capacidade de manter seus argumentos sem cair em contradição. A contradição é o sinal primordial do erro discursivo, eu considero que é uma espécie de pane filosófica. A contradição é parte integrante de nossas vidas.

Como somos seres falhos e possuímos uma razão também falha, não é nada espantoso que caiamos em erros. O que é realmente espantoso é tomarmos os nossos erros como fonte de plausibilidade argumentativa. É como se, ao defendermos que um homem, com toda sua estrutura biológica e genética, não pode ser uma mulher, surgissem milhares de algozes apontando dedos em minha face me tachando de milhares de coisas simplesmente porque eu fui empírico demais. Como eu bem já disse, certa vez, eis a ditadura dos tolerantes[1]. E mais, afirmarão que, se eles quiserem, poderão ser mulheres com pênis; afirmarão que eu sou transfóbico, homofóbico, gayfóbico, lesbofóbico, eurofóbico, etc.

Ainda que eu esteja do lado da mais medular e gritante verdade factual, ainda que esteja com a mais elementar lógica dos fatos. Esperam que eu aliene a minha razoabilidade em troca de uma tolerância baseada em mentiras fofas.

Enfim, a realidade é que a verdade dos fatos pouco importa; os ideologizados assistem um noticiário que afirma que um homem foi atropelado por um caminhão e, com toda a autoridade de suas mentes relativas, eles levantam os pulsos no ar e dizem: “Não concordo”.

Sim, a modernidade aprendeu a duvidar do fato e ainda tomou isso como método. No século em que devemos provar que o homem é homem e a mulher é mulher, com um supremo medo de sermos processados por isso, não podemos esperar nenhuma tolerância daqueles que pregam a subjetividade desses fatos. As inclinações e desejos íntimos de cada indivíduo pouco importam a mim e à sociedade. O que dentro de quatro paredes cada um faz com seus órgãos é tão somente problema seu, o que não posso aceitar é a inversão da realidade com o objetivo de apaziguar as paixões de alguns. E aqui entra o nosso ponto.

Esse fim-de-semana eu fui obrigado a escutar uma coletânea completa de funk, isso mesmo, obrigado. Pois meus vizinhos muito cordialmente ligaram o som no último volume e me concederam uma boa noite de estupro auditivo. Eu, sinceramente, nunca tinha parado para ouvir funk nenhum, até porque, como já devem ter percebido, não sou nenhum admirador do ritmo.

Todavia, o meu espanto foi em descobrir que a indústria pornô lançou mais uma diretriz, o pornô em áudio. As músicas tratavam as mulheres como sendo verdadeiras maquinas de sexos, como bonecas para satisfazer os desejos vadios de alguns, como petisco de bar. A mulher no funk não passa de brinquedos sexuais e divertidas distrações de flertes. Hão de negar isso?

Comecei a buscar na internet, e nos meios feministas que conheço, algum texto da comunidade feminista contra o funk. Afinal, tratá-las como “putas”, “vacas”, “vadias”, iam contra os princípios de luta do feminismo e de qualquer cidadão com um mínimo de moral aflorada. O funk sim é um verdadeiro expoente da dita “cultura do empoderamento masculino das mulheres” — Cabe ressalvar, a grande maioria das músicas eram grunhidas por homens. Enfim, adivinhem, não achei NADA. Absolutamente NADA, nenhum protesto feminista formal contra o funk.

Achei alguns artigos que tratavam do tema de uma forma tão periférica e dissimulada que não mereciam nem a minha atenção. Na busca de justificar o funk, muitos tinham a pachorra de culpar a abstrata e vazia “cultura do estupro presente em nosso cotidiano”[2].

Rio de Janeiro – Mulheres fazem ato contra a cultura do estupro na igreja da Candelária, centro do Rio (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Rio de Janeiro - Mulheres fazem ato contra a cultura do estupro na igreja da Candelária, centro do Rio (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Se há alguma “cultura do estupro” essas estão bem asseguradas nos próprios bailes funks, minha cara, e creio que não são precisos mais que alguns vídeos no YouTube para provar minha afirmação. São essas mesmas feministas, essas mesmas ideologizadas que irão entrar nas igrejas para protestar contra o Pai-Nosso dos cristãos, são essas que dirão que o cristianismo empodera as mulheres? Aquela religião que, depois de Jesus, tem uma mulher (Maria) como a mais soberana das criaturas?

Aqui jaz uma contradição latente: a religião cristã é considerada pelas feministas como sendo o auge do patriarcalismo e do machismo institucionalizado[3]; não obstante, uma música que manda mulheres “sentar com força” é o que? A mulher que é vista como a Esposa de Cristo, a Igreja celeste e o tabernáculo da salvação, no cristianismo, é a mesma que é vista como “vadia” e “puta” no funk. Agora, mais uma vez, adivinhem em qual lugar as distintas feministas vão protestar e pichar seus símbolos? Pois é…

Aconselho aos diretórios feministas desse país a começarem a reparar nas letras de funk. Sei que isso causa um bug enorme em vossas convicções políticas, pois, o funk advém diretamente das comunidades pobres que recebem indistintamente apoios socialistas em prol de suas culturas – inclusive a cultura do funk.

Os poetas da era romântica dividiam-se entre razão e emoção, Max Scheler que o diga; hoje em dia, porém, vejo a divisão entre “empoderamento machistas” e “cultura das favelas”. Uma contradição que jaz no seio do socialismo que irriga todo o discurso feminista. E aí,feministas, qual defender e qual abolir? Deve estar surgindo uma mensagem tipo essa em vossas cabeças: “HTTP 404”. Pois bem, essa contradição é difícil de desfazer, afinal ambas são os palanques do socialismo moderno, não é?

Para finalizar meus comentários, deixo-vos com a declamação de uma poesia moderna, algo tão inspirador que torna-se quase emocionante. Com vocês, Mc Jhey:

 

“Essa delícia tá sensacional

Eu fui no baile no funk

E vi ela sarrar no pau

 

Pepeca nervosa

No pau você se joga

Quica e se lambuza

Sei que tu adora

Depois faz de brinquedo

A minha piroca”[4].

 

[1] < https://medium.com/do-contra/a-ditadura-dos-tolerantes-b470442426d4#.k9o9sqg33>
[2] <http://www.brasil247.com/pt/247/favela247/238705/%E2%80%9CFunk-entre-o-santo-e-o-profano-prefiro-o-empoderamento-da-mulher%E2%80%9D.htm>
[3] <http://blog.opovo.com.br/ancoradouro/integrantes-da-marcha-das-vadias-quebraram-imagens-e-realizaram-sacrilegios-na-jmj/>
[4] < https://www.vagalume.com.br/mc-jhey/pepeka-nervosa.html>
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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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