Circo pegando fogo

Ao sentir que o cerco se fecha, deputados correm para aprovar medidas que pecam por falta de consistência

Postado dia 02/12/2016 às 08:30 por José Iwabe

 

câmara

Foto: Reprodução

Aqueles que sentem que o cerco se fecha, sabendo que suas consciências os acusam de pertencer ao bando de culpados e que os seus crimes poderão muito em breve ser escancarados, desesperadamente se unem e cavam trincheiras legais para colocar obstáculos aos ataques que virão, como um turbilhão de tiros certeiros, provindos das delações da Odebrecht, que já antecipou ter ao menos 200 políticos em suas alças de mira.

Foi com essa preocupante motivação que os deputados vararam a madrugada de quarta-feira aprovando destaque após destaque, numa tentativa famigerada de cortar a eficácia das “dez medidas contra a corrupção”.

Tiveram êxito?

Se você, caro leitor, houver lido com atenção o que tão afoitamente os deputados aprovaram, terá percebido que foi um amontoado de incoerências que, ou pecam por ambiguidade ou por falta de consistência, e quase tudo passível de ser arguido como inconstitucional perante o STF.

O que mais me causa espécie e o estardalhaço que faz a equipe de promotores – que com certeza conhece melhor que eu as leis: sabendo da quase inocuidade das ações destrambelhadas e que bastaria acionar o STF para anular os seus efeitos, age como se fosse o fim do mundo, inclusive com a teatral ameaça de “renúncia coletiva”.

Procedem como crianças birrentas contrariadas, batendo seus pés, abrindo um berreiro e exigindo atenção. Agir como adultos e com a dignidade que o cargo impõe seria apontar com serenidade o que fere a Constituição e pedir a intervenção da instância adequada.

Ainda bem que o Senado reagiu com bom senso e impediu Renan Calheiro, o “apressadinho”, de votar imediatamente a matéria enviada pela Câmara. É bem provável que boa parte das emendas feitas pelos deputados seja revistas e que as “Dez Medidas” voltem à sua forma original.

Como ainda Sérgio Moro e Deltan Dallagnol deverão ser ouvidos, caso estes se comportem com a dignidade de seus cargos (e não como membros de uma corporação), terão a oportunidade de jogar água na fervura e devolver um pouco de sanidade ao conturbado contexto de entrechoque entre os dois poderes, o Legislativo e o Judiciário, acabando com o clima de um circo pegando fogo.

 

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José Iwabe

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