Cinema do Futuro: o que as pessoas esperam dos novos filmes?

Creio que algo novo realmente pode surgir, embora os desafios também se amplifiquem e mesmo o desafio maior, ampliar o interesse das pessoas por algo efetivamente novo em termos de conteúdo, também deverá perdurar por muito tempo

Postado dia 22/12/2015 às 00:00 por Peterson Queiroz

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Outro dia postei em minha página da rede social uma matéria com o grande Francis Ford Coppola falando sobre o cinema do futuro. E claro que ele não traz nenhuma novidade quando diz que definitivamente o 3D é coisa do passado. Lembrei-me de uma piada sobre isso que circulou também pela rede há um tempo, dizendo que o cinema do futuro já existe faz tempo e chama-se Teatro. Mas acho que o grande cineasta ítalo-americano, que foi de clássicos como a trilogia dos chefões a Apocalipse Now, passando por filmes menores, mas não menos importantes como “O Selvagem da Motocicleta” e “Peggy Sue: seu passado a espera”, até chegar a filmes ainda menores (em termos de investimento na produção, bem entendido) e independentes como “Tetro” e “Youth Without Youth” (numa tendência que pretende seguir e que chama a atenção pelo frescor e por não haverem perdas significativas em termos de seu sempre caprichado desenho de produção) trouxe ao menos algo novo. Coppola diz que o cinema do futuro será uma espécie de live act, filme ao vivo (e, de certo modo, teatro mesmo… rsrsrs), só que com uma superprodução espalhando câmeras, improvisação, direção de arte (enfim, tudo o que o cinema profissional sempre busca), mas tudo sendo rodado ao vivo e diante dos olhos do público, sem abdicar de ficar gravado para que também possa ser visto posteriormente “à moda antiga”.

Vindo de quem veio esta informação e sendo eu um entusiasta tanto de hibridismos de expressões artísticas quanto de novidades em meio a tanto marasmo mercantilizado, não é que acabei vendo uma luz no fim do túnel? Não que eu acredite numa revolução em curto prazo, ainda mais se considerarmos que tudo tem seu preço e nunca é o público que acaba decidindo o que será e o que não será “o grande lance” daqui por diante. Mas creio que algo novo realmente pode surgir, embora os desafios também se amplifiquem e mesmo o desafio maior, ampliar o interesse das pessoas por algo efetivamente novo em termos de conteúdo (e não da mera forma), também deverá perdurar por muito tempo. Tanto que isto estimulou-me a refletir sobre essas projeções de futuro que tanto fazemos ao final de cada ano e que, de tempos em tempos, pretendem cravar algo que de fato vingará (e claro que não estou falando de Os Vingadores: esse modelo já vingou, né? Mas aqui podemos tentar ver como mesmo ele pode vir a tornar-se coisa do passado). Ou não? Enumero aqui 3 temas que acho serem interessantes em relação a esta reflexão sobre o futuro do cinema então:

1- Já é um clichê um tanto batido dizer que o público é sempre “sedento por novidades”. Será mesmo? Neste momento as salas de cinema do mundo inteiro novamente sucumbem ao modelão blockbuster alavancado pela velha e boa Jornada do Herói e anabolizada pelo também velho e bom marketing americano que dissemina não apenas projetos biliardários, feito o dessa “nova” franquia Star Wars, como também todo um culto a este modelo por meio de Comic Cons e afins, gerando uma legião de fiéis adeptos consumidores. Alguém pode dizer: “mas, ah, Star Wars é um clássico! Você é muito chato!”. Veja bem: eu até gosto de conferir de vez em quando. Eu gosto de super-herois, de ver como os caras fazem algo tão extraordinário em termos de efeitos e etc. Mas faço parte do outro lado também. Por isso tenho certeza que para o estúdio que o produziu, é apenas mais um filme, um produto – claro, cercado de pressões e com tudo o que de melhor o dinheiro pode comprar, mas, em termos de produção e de projeto econômico de cinema, você acha mesmo que há diferenças significativas entre ele e os novos filmes de super-herois?

2 – Outro clichê é o de acreditar que está ligado à tecnologia o futuro do cinema. E lá ficaram para trás as invencionices de Cameron com seus Avatares e Titanics faturando sempre alto sem que efetivamente alguma novidade chegasse pra podermos alçar em definitivo qualquer de seus filmes como sendo o tal “Cinema do Futuro” que tanto dizem que as pessoas querem, quando, na verdade, as pessoas continuam (e talvez sempre continuarão) interessadas mesmo é em boas histórias. Ou  será que não? Vamos seguir.

3 – “As pessoas querem é boas histórias”. Tornou-se outro clichê também. Falaram há alguns anos em crise do roteiro. Pois quando houve a greve dos roteiristas, pra mim ficou provado que não: o público continuou indo pro cinema e não se desligou da TV, como se não fizesse tanta diferença assim a trama do que estavam vendo. Como roteirista e dramaturgo, particularmente eu acho que há muito o que se conquistar e explorar ainda em termos de experimentação sobre temas, personagens, situações mais complexas, linguagens e estruturação narrativa. Isso sem nem falar sobre o hibridismo com o qual mostro-me muito interessado ao ponto de acreditar que talvez seja, isso sim, uma possibilidade efetiva de se alcançar o futuro. Mas por quê? Digo isso porque o público parece ter sido vencido pelos departamentos de marketing dos grandes estúdios: eles sim os grandes deuses que determinam o que vai ser produzido e, portanto, do que você DEVE gostar e até O QUE VAI SER O FUTURO. A bola da vez. E então as pessoas fazem filas e elevam os índices de audiência destas coisas todas, como se fossem zumbis. Exagero? Não sei. Acho que poucas coisas efetivamente novas surgiram em termos de séries de TV e filmes. Ou seja, houve muita, mas muita mesmo, produção, mas pouca novidade se compararmos justamente com o volume desta produção e os bilhões gastos pra alavancar a produção do mais-do-mesmo.

Então, porque me entusiasmo ainda? Porque ainda acreditar uma virada? Porque ainda ter esperança em coisas como essa que o Coppola disse? Creio que este modelo atual pode sofrer muita retração com o agravamento da crise econômica mundial e, simplesmente, pode então haver mais critério na hora de se decidir qual será a bola da vez. Business, com futuro ou sem futuro, sempre será Business, não é? Creio que a internet está tornando o público mais exigente e menos disposto a seguir a boiada. Creio que ela se tornou um problema grave. Creio sim que o público queira novas histórias, mas não só isso: também querem novas maneiras de serem contadas, querem novas experiências (e não só um par de óculos). Mais do que uma lente vermelha e outra azul, creio que o público esteja sedento mesmo é por algo vivo e pulsante, mas que também ultrapasse barreiras culturais e supere preconceitos, que o público tem agora mais interesse em acompanhar obras com proposições filosóficas mais densas, que possam abordar a religião, a intolerância, o preconceito, a política, mas de um modo novo, sagaz, podendo, inclusive, brincar com os clichês existentes todos em torno de cada gênero cinematográfico, inspirando-se no espectro muito mais amplo em termos narrativos e estéticos que o próprio Teatro tem. E tudo sem abdicar da clássica história de amor, ou do filme de tirar o fôlego entre uma ou outra correria, ou mesmo da coisa da superação de uma situação extremamente difícil e etc, etc, etc. Então, talvez, o futuro do Cinema esteja na experiência, algo que nos fascina há tanto tempo. Meu grupo de teatro, a Companhia Vagabunda, está iniciando pesquisas nesse sentido com nosso espetáculo novo: “Madrugether – cenas de uma noite que nunca termina”. Mas há grupos muito avançados nessa pesquisa já, como o hoje radicado na Alemanha (ou na Bélgica… não sei ao certo porque os caras rodam muito pela Europa toda), chamado Peeping Tom (quem quiser dar uma conferida no que estou falando sobre hibridismo de linguagens, dá uma conferida só no site dos caras e caia de quatro por querer saber quando será possível ver coisas assim por aqui ou mesmo dentro desse conceito novo de Cinema que o Coppola falou. Eis aqui o link: http://www.peepingtom.be/en/). Assim, pra mim, o cinema do amanhã é o futuro do pretérito. Do contrário, continuaremos agregando sempre novas peças para o velho Museu de Grandes Novidades que o Cazuza bem falou. Agora, se vão ou não botar dinheiro suficiente pra coisa acontecer como merece, aí já é outra história, claro.

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Sobre o Autor

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Peterson Queiroz

Peterson Queiroz é cineasta, ator e dramaturgo. Estudante de filososia e amante de literatura beat.

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