A causa do recorrente fracasso político brasileiro

Quem nunca leu José Ortega Y Gasset não sabe o que é desmistificar com propriedades de vidência aquilo que vivemos hoje no Brasil

Postado dia 04/05/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

 

gasset

Foto: Reprodução/Internet

Introdução:

Quem nunca leu José Ortega Y Gasset não sabe o que é desmistificar com propriedades de vidência aquilo que vivemos hoje no Brasil. Aliás, já dizia um grande mestre meu: “um grande intelectual sempre mostra aspectos de profeta”, Y Gasset foi, com certeza, um destes. Quem já leu sua obra: A rebelião das massas[1], um clássico da filosofia ocidental, consegue em algumas poucas páginas identificar as características do homem brasileiro atualmente.

É verdade que Y Gasset escreveu com intuito de dissecar um fenômeno que estava acontecendo na década de 30 em toda a Europa, ou seja, a massificação da sociedade, o desprezo pela alta cultura e a tomada do poder por homens incompetentes. Isto estava ocorrendo de forma gradativa e acelerada em toda a Europa. Um breve intercurso histórico nos alertará para a revolução de Lênin na Rússia, o nacional socialismo na Alemanha, as sub-revoluções geradas destas anteriores em outros países, os movimentos sindicais crescendo de forma estrondosa em toda a Europa, além do feminismo, escolas marxistas (Frankfurt) e socialistas de vieses secundários. Sem deixar de citar as revoluções, ditaduras e golpes ocorridos aqui na América Latina, decorrências das debandadas revolucionárias citadas anteriormente. A história tem o papel de nos alertar e mostrar que certos caminhos não devem mais ser trilhados, ela nos conta o que decorreu destes movimentos de massa. Isto é: uma política tomada por pessoas que não possuem capacidade intelecto-cultural, homens e mulheres que colocaram as cartilhas partidárias acima de princípios e valores humanos, ultrapassaram quaisquer tipos de regras éticas em busca de suas utopias disformes. Por força de imposições transformaram a Europa em um grande matadouro humano. A política tornou-se palco de estúpidos e incapazes que nunca tiveram compromisso com a cultura humana ou com princípios ordenadores mais basais da sociedade, consideraram apenas as suas vontades como dogmas, como motivo auto justificável para sacrifícios humanos.

Obviamente, quem quiser conhecer todo o desenrolar argumentativo de Y Gasset sobre o assunto, não deve se conformar com este artigo, até porque minha intenção é mostrar como as principais linhas de indicação deste autor para o homem-massa se conforma de maneira impressionante no antropos (homem) brasileiro atual. Podem questionar: “mas Pedro, você está dizendo que no Brasil, ou na América Latina, nascerá novos Lênins, hitleres e Stalins”, não sei, não sei porque, com certeza a Europa também não previu o surgimento destes. Homens como estes, por vezes, são iguais a catástrofes, acontecem sem aviso prévio. O que intelectuais como Y Gasset e Michael Oakeshott previram, foi um sistema político extremamente degradado, pessoas altamente incapazes que tomavam decisões que não estavam aptas a tomarem. Acima da prudência que a política requer, colocaram suas utopias e radicalismos de práxis como: revoluções armadas e penas capitais sem julgamento. Toda esta conjectura de degradação cultural, relativização da moral, educação direcionada a fins revolucionários, foram os ingredientes postos neste caldeirão de desumanismo. O materialismo histórico foi o tempero que faltava, colocou toda a política sob pé de guerra, transformando diplomacia de palavras em diplomacia de bombas e tanques de guerra; tudo isto transformou a Europa num campo perfeito para a banalização do homem. Se isto é um novo prelúdio de ditaduras, bom, rogo a Deus que não, mas o campo esta tornando-se fértil e tempero aqui é o que não falta.

O homem-massa possui várias características, segundo Y Gasset, mas destrincharei apenas uma, a que, em minha opinião, é a causa principal para o fracasso político no Brasil. Para me dirigir a este tipo de homem brasileiro, o denominei de: “antropos-brasileiro”. Ou seja, o Homem brasileiro[2] usado como massa de manobra, homem de poucas competências e pouco conhecimento político. Tentarei mostrar a decorrência do engajamento deste homem na política e como seu mal agir interfere em uma cadeia de acontecimentos que tende a descer o país próximo a barbárie.

1 – A ignorância histórica e cultural

Uma das características mais acentuadas do homem moderno é sua total ignorância histórica e cultural ante o mundo ocidental, digo ocidental não por preconceito ao mundo oriental, mas porque toda nossa gama intelectual, moral, religiosa e de costumes, de uma forma quase que exclusivamente, é herança direta da Europa ocidental e do oriente médio: cultura judaico-cristã — que, posteriormente, desenvolveu-se no ocidente com muito mais força do que no oriente. Sendo assim, mesmo que por motivos políticos-ideológicos não gostemos desta verdade histórica, teremos de aceitá-la. Não se conhece o mínimo destas matizes que fizeram nossa sociedade prosperar. Vejamos algumas das possíveis causas.

2 – Causa

Há uma aporia largamente constatável no Brasil: a ignorância histórica e a relativização cultural, a grande causa do fracasso brasileiro na política. Algumas causas deste mal podem ser elencadas: 1) primeiramente, a educação extremamente falha nesta área. Existem reais problemas estruturais e desleixo do poder público na educação brasileira, desleixos estes que vertem em: falta de recursos, professores que ganham muito mal, além de possuírem um verdadeiro desinteresse pela educação causado pela má remuneração e/ou por falta de vocação. Vivemos num Brasil que nem a merenda aos alunos os nossos políticos garantem, não é mesmo Alckmin? 2) Uma educação firmemente ideologizada: por vezes, educadores omitem, ou transfiguram a sua maneira, aspectos basais do conhecimento histórico humano, pois, ensiná-las, poderia criar oposições às suas inclinações políticas pessoais. Há pouco tempo o MEC lançou um plano de educação de história no ensino médio, plano esse que excluía quase que inteiramente a história Europeia medieval, o principal berço do intelecto humano, o principal tempo de florescimento da arte, filosofia cristã, moral ocidental e etc. 3) Professores extremamente militantes, por vezes tendo atos de pura insanidade racional, não é raro vermos uma universidade acovardada perante atitudes criminosas de alunos que juram-se politizados por taparem a face como bandidos e atearem fogo em departamentos públicos em nome de um revolução tola que nunca dá certo. Professores que apoiam, difundem, e, não raro, participam de manifestos onde o nudismo é o aspecto mais leve destas insanas formas de reivindicações; há dias atrás uma pedagoga do ensino público defecou sobre a foto de Jair Bolsonaro em pleno céu aberto, já não bastasse a atitude animalesca é totalmente patética que é defecar em cima de uma imagem impressa num sulfite, este ser doa seu conhecimento à crianças, conhecimento que, com certa propriedade, penso ser um conhecimento também à base de excrementos.

São nestas matizes problemáticas, para não dizer caóticas, que a população brasileira é educada, nesta matiz que o brasileiro firmemente acredita ser educado na mais alta intelectualidade humana. Destas intempéries educacionais que se forma a manta racional brasileira, destas que surgem outros educadores, criando assim um ciclo interminável de homens e mulheres que aprenderam as mais altas táticas de revolução, mas não sabem quem foi São Tomás de Aquino ou Descartes, não sabem quem Lênin, Stalin ou Jango.

3 – O homem de direitos

Estas são apenas algumas ilustrações básicas de possíveis causas desta tal dita: ignorância histórica e cultural do antropos-brasileiro; obviamente, existem mil outras, entretanto, creio serem estas as principais. O homem-massa europeu e o antropos-brasileiro possuem uma certa demência ou déficit, isto é, acreditar que ele é um ser solto no espaço e tempo, que nele não há nenhuma ligação histórica humana. Ele é o princípio e o fim, o Alfa à Ômega.

O homem, durante milhares de anos, foi conseguindo uma certa estabilidade dentre muitos estorvos humanos e técnicos que se apresentaram; com rara habilidade intelectual, foi vencendo tais dificuldades e deixando a nós como herança humana um certo conforto social e intelectual. Foram estas lutas travadas por sociedades que nos precederam, que permitiram que chegássemos ao tempo atual com uma inédita força industrial, múltiplos vises filosóficos, e um verdadeiro pensar democrático. De maquinários industriais que permitem vestuários a preços acessíveis, até uma educação básica e avançada a todos que a buscassem com sincera vontade e garra. Todavia, o antropos-brasileiro, assim como foi o homem-massa, crê que todas estas bonanças são direitos deles mesmo que nada por estas tenham labutado. Homem que facilmente levanta foices por direitos, mas nunca levanta a bunda da cama por seus deveres. O antropos-brasileiro acredita que ele deve ser sustentado, mimado, acariciado, amado, bajulado dia e noite, porque ele possui, sabe-se lá que direito divino, de conseguir tudo sem luta. O homem que quer ser doutor em tudo deitado numa rede entre coqueiros.

Toda esta crença surge quando o antropos-brasileiro passa a crer ser uma classe de humanos escolhidos para usar de todas as coisas que humanidade criou sem precisar repô-las de alguma forma, seja com o trabalho em prol do seu próprio sustento e o da coletividade, seja com o trabalho intelectual que busque conhecer as bases culturais da sociedade e dá-las seu devido respeito, passando aos demais cidadãos o conhecer de tal labor histórico.

Temos de fato uma nação de homem mimados, que não conseguem enxergar toda a herança real da humanidade, toda dificuldade e toda a luta intelectual de pesquisa, de estudos humanos e técnicos para que a sociedade continuasse a pé de crescimento. Este homem ecológico crê que toda a evolução cultural, intelectual e técnica é renovável por si próprio, assim como naturalmente uma ave deixa cair uma semente em solo fértil, sem que ele, o homem, precise fazer algo além de observar a natureza se renovando. Acreditam que quando um farmacêutico tira uma caixa de comprimidos da prateleira, outra caixa surge momentaneamente numa espécie de bruxaria natural; crê que quando um químico cria uma pílula para enxaqueca, ele não precisa mais estudar, que ele tenha alcançado o tal auge sobrenatural que, quando aquela pílula acabar, surgirá outra no lugar instantaneamente, sem que seja necessário nenhum esforço industrial de produção em massa. O antropos-brasileiro crê que a própria indústria não tenha ligação com a herança histórica da ciência e do conhecimento, que engenheiros são frutos somente do século XX. Creem que não há nenhuma necessidade de estudar esta balela de lógica, história ou filosofia. Afinal, quem precisa de lógica, história e filosofia, não é mesmo? A sociedade evoluiu por causa dos altos e digníssimos cantores de Rock e Mc’s. O que historiadores e filósofos fizeram de uteis a humanidade, não é mesmo?

4 – O homem que não toca o chão

Por fim, o antropos-brasileiro é um avatar nascido sem cordão umbilical, um adolescente mimado largado à deriva no mundo com a instigante missão de colonizar a sociedade com suas diversões pops, com suas recreações circenses e suas estúpidas filosofias baseadas em revistas teens, Superinteressante, e quebrando o tabu. O antropos-brasileiro acredita que autenticidade é criar um sistema de pensamento baseado tão somente em seus egos, ignorando qualquer riqueza cultural, qualquer enfrentamento histórico factício, uma filosofia do Ego, uma filosofia que não parte da grande corrente humana que há milênios se desdobra em estudos sistemáticos árduos. Não são capazes de escutar os mortos. Nunca foram capazes de experimentar a “democracia dos mortos”[3] aquela sensação de saber que não precisa começar sempre do início, que você faz parte de um grande corpo. Na democracia dos mortos você pode conversar com Agostinho sobre sua ideia de moral, voltar e dialogar com Newton sobre seus conceitos primários de física moderna; a cultura é um grande corpo interligado onde não se concebe um membro flutuante, quando um membro é amputado deste corpo chamado humanidade ele gangrena e morre. Não à toa estamos num Brasil entupido de intelectos necrosados, vivendo dos próprios vermes aceitos por eles como sendo as mais raras e excêntricas formas de sanidade.

O antropos-brasileiro é uma árvore que nasce sem tocar no solo, flutua entre mil ideias sem bases, em utopias que não tocam o solo firme da história humana. Estes vivem mundos amorfos, nutrem-se de vislumbres psicodélicos que nunca chegam ao mínimo de realidade. Suas raízes não têm onde buscar sais minerais, não possuem firmeza pois estão soltas. É uma árvore pronta para morrer pelo tempo ou por uma leve rajada de ventos e argumentos que a desconstrua.

5 – Conclusão

O cenário brasileiro padece por causa destas coisas aqui descritas, não possuo dúvidas disso. Hoje somos uma nação que pede por intervenção militar jurando que uma gaiola é mais espaçosa que uma floresta; somos um povo que olha para Lênin, Stalin, Pol Pot, Mao Tse, Fidel Castro e Che Guevara, ignorando toda esta robusta voz histórica que nos diz: caminhos repetidos darão em fins repetidos, após ouvir tal conselho repetimos a nós mesmo: bom, quem sabe agora dá certo. Somos uma nação feitas de muitos homens que sempre possuem uma dica salvadora, um palpite para mudar o mundo, mas nunca sequer teve a prudência de parar quinze minutos para ler um livro. Padecemos do populismo que coloca incompetentes no poder, somos reflexo de uma teoria avassaladora: os que menos sabem, melhor governam. Eis o resultado, eis o Brasil, um país nascido sem tocar o solo, com raízes rasas, uma árvore prestes a cair pelo poder incessante da nossa incompetência. E a culpa é nossa!

 

Referências:

[1] GASSET, José Ortega Y. A rebelião das massas, 5ª Edição, Vide Editorial: Campinas SP, 2016

[2] Obviamente, generalizações acontecem quase que instantaneamente nestes casos, mas entendam que eu não coloco todos os homens como massa de manobra, ou como ideologizados. Confio no poder de hermenêutica de cada um para entender que me direciono a parcelas da sociedade, mas não nego que, em minha opinião, está parcela que descreverei é maior.

[3] Conceito criado por Gilbert Keith Chesterton, um escritor e filósofo Inglês dos finais do século XIX e início do século XX. Este termo foi utilizado por ele em sua obra: Ortodoxia.

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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