Caroliner: A dor e a delícia do século XIX

Baseada em uma antiga lenda, a banda traz uma proposta completamente original e bizarra.

Postado dia 24/01/2017 às 08:00 por Luis Misiara

caroliner

Foto: Divulgação

Antes de mais nada, vou pedir a sua licença para falar de um grupo que produz sons estranhíssimos, talvez até desagradáveis. Ruídos, estouros de sintetizador, barulhos industriais, banjos desafinados, órgãos que lembram filmes de terror. Pode parecer contra-intuitivo ouvir algo potencialmente desagradável, mas quem sabe até o final desse e dos próximos artigos você mesmo não acabe sacudindo o esqueleto ao som dessa balbúrdia? Vamos juntos entender o porquê dessa fuzarca:

caroliner 1

Reza a lenda que, nos idos dos anos 1800, havia um touro que cantava no Wisconsin, EUA. Suas canções descreviam as agruras da vida na época – além de personagens surrealistas, como caminhões vivos, gêmeos siameses usados para adivinhação e esquilos famintos com 12 cabeças. A dona desse touro, que chamava-se Caroliner, o levava do campo para a cidade para cobrar dinheiro de quem ouvisse seus lamentos melódicos. Posteriormente, o touro foi morto e desmembrado, sem no entanto deixar de cantar.

Façamos agora um salto no tempo para meados dos anos 80 em San Francisco, Califórnia. Um grupo relativamente anônimo de músicos e artistas, capitaneados por uma misteriosa figura a quem chamam de Buttonup Skeletone, tomou para si a empreitada de ressuscitar o cancioneiro do tal touro. Estas canções formam o material musical em torno do qual foram criados LPs e apresentações ao vivo elaboradíssimos – embora fossem, à sua maneira, sujos e aterrorizantes – da banda Caroliner.

caroliner2

Tudo envolvendo essa banda fascina pelo hermetismo. O nome da banda muda de disco para disco (seguindo a fórmula “Caroliner Rainbow _______”, com o segundo trecho sendo preenchido por trechos de letras ou frases crípticas). Todos os seus integrantes são conhecidos por pseudônimos confusos – embora alguns membros do grupo possam ser descobertos com certo grau de pesquisa e paciência. Ao assistir uma apresentação ao vivo, dá-lhe mais confusão: todos os músicos se apresentam fantasiados e mascarados com vestes e cores indescritíveis (o mais familiar são as máscaras, que imitam crânios de boi ou mesmo igrejas) contra um pano de fundo colorido e fantasmagórico – além de objetos cênicos e motorizados, todos cobertos da característica tinta e iluminados por luz negra.

[Sim, as imagens que enfeitam esta matéria são registros visuais dessas apresentações. Acredite.]

caroliner3

Segundo um porta-voz oficial e anônimo do grupo, a montagem do palco podia levar entre uma hora (para shows em turnê com menos elementos), um dia inteiro ou até mesmo uma semana (caso todos os objetos fossem posicionados). Motores, papelão, tecido, instrumentos, fantasias, lâmpadas de luz negra… Tamanho é o esforço para trazer a público uma proposta e atitude que é justamente avessa à fama e ao lucro. Não deixa de ser tão admirável quanto bizarro.

Para o entretenimento/envenenamento por ergotismo domiciliar, a banda lançou, de 1983 até 2007, LPs e CD-Rs com os títulos mais escabrosos (algumas traduções, para exemplificar: “Estou Armado com Quartis de Sangue”, “A Besta do Fogão”, “Anéis em torno da Sombra Estranha”, “Selar, Curar, Berrar” e, o meu favorito pessoal, “Teatro de Fantoches da Hérnia Lombar”). As embalagens não ficam devendo: ao encomendar os discos através da gravadora Subterranean Records, corre-se o risco de receber um LP embalado com lixo encontrado nas ruas de San Francisco – há relatos de discos que vieram com fraldas usadas, baratas mortas, livros destruídos e cartões de colecionador.

Confira aqui alguns vídeos que trazem uma amostra desses sons. Há mais de 14 álbuns de estúdio para buscar – todos disponíveis para compra no site do selo Subterranean Records.

caroliner4

A segunda parte dessa matéria trará, de maneira inédita, depoimentos de pessoas que estão ou já estiveram no grupo – todos creditados sob pseudônimos, já que a ideia do projeto é evitar também o culto à personalidade e deixar a música e o visual falarem por si. Também analisaremos de maneira mais aprofundada os álbuns lançados até hoje, cada um deles único e “caoticamente organizado”, por assim dizer.

Agradeço sua companhia ao acompanhar esse grupo fantástico e espero você aqui novamente na próxima matéria!

Veja vídeos abaixo:

Caroliner Rainbow – Figodean Doctor of the Lariat Rope

Caroliner Rainbow – Live at the Dreamland Theater 1/3

Caroliner Rainbow – Day of the Terrible Cocksuns 

 

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Luis Misiara

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter