Caminho do Sal: Uma rota histórica

Muitas dessas rotas ainda persistem às constantes mudanças da paisagem da região

Postado dia 07/06/2016 às 08:00 por Renato Castrezana

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Foto: Divulgação

O Estado de São Paulo, sem dúvida, foi e é um dos mais importantes para o Brasil. Foi nesta região que algumas das primeiras vilas brasileiras começaram a surgir, fundada por colonos portugueses. O avanço dos tropeiros para o interior do Brasil se dava através de rotas idealizadas e traçadas pela população indígena que vivia no local, já que eram os caminhos mais rápidos e seguros para transpor a Serra do Mar e alcançar o seu topo.

Muitas dessas rotas ainda persistem às constantes mudanças da paisagem da região e, com mais de 300 anos, ainda mantêm viva nossa rica história colonial. O Caminho do Sal, que interliga São Bernardo, Santo André e Mogi das Cruzes, por meio de três partes denominadas Caminho de Zanzalá (com 16 quilômetros), Caminho dos Carvoeiros (com 10 quilômetros) e Caminho de Bento Ponteiro (com 27,5 quilômetros), é uma das rotas mais antigas do Brasil.

O traçado começa em São Bernardo, no km 34 da Estrada Velha, e recebe o nome de Caminho de Zanzalá, que tem os primeiros registros ainda em 1640, quando foi idealizado para o abastecimento de sal entre alguns povoados que habitavam o alto da serra. Ao longo desse caminho, e pela necessidade de se fazer pausas durante a viagem, nasceu a cidade de Rio Grande da Serra, inicialmente como um ponto de paragem. Com chão de terra, seu traçado revela lindas paisagens, assim como alguns pequenos riachos que o cortam durante todo o trajeto. É possível também observar animais típicos da região e parte da flora da Mata Atlântica que ainda resiste. O trecho também é margeado, em grande parte, por tubulações do antigo Oleoduto da Serra, que chega até a empresa Solvay Indupa e, tirando a parte que foi inundada devido à criação da Represa Billings, em 1922, permanece quase inalterado.

100_4036Uma das histórias mais interessantes sobre a trilha é a de que o próprio rei de Portugal D. João V pediu para que se interditasse o Caminho de Zanzalá em 13 de maio de 1722, pois a rota estava sendo utilizada para desviar ouro e pedras preciosas que pertenciam à coroa portuguesa. Este foi um dos motivos que quase levou o caminho de Zanzalá ao esquecimento.

Na Estrada Velha de Paranapiacaba se inicia o Caminho dos Carvoeiros, ou Caminho dos Lenhadores, que recebeu este nome devido à função de escoar a produção de lenha para as antigas locomotivas e olarias que existiam na região. Logo no seu início podemos observar a estação ferroviária do Campo Grande, inaugurada em 1889, pela São Paulo Railway. Um local histórico que hoje não passa de um esqueleto que resiste ao tempo e à ferrugem. O roteiro do Sal conta com ricos atrativos como a Capela do Bom Jesus da Boa Viagem, que ostenta a estátua do Divino Redentor no topo da pequena igreja. Diz a história que a estátua perdeu uma das mãos quando virou alvo de Angelin Arnoni, que disparou contra a imagem entre os anos de 1930 e 1935, após 25 dias ininterruptos de chuva que dificultavam o trabalho dos carvoeiros. Após o tiro, talvez por coincidência, o sol voltou a brilhar alegrando os trabalhadores e até hoje é possível reparar a ausência da mão do Cristo.

O Caminho dos Carvoeiros segue mata adentro. Na verdade, das três partes que formam o Caminho do Sal, a dos Carvoeiros conta com pouca mudança de paisagem, porém é possível ver trabalhadores e caminhões que ainda circulam na trilha em busca de lenha e carvão. O final do trecho dos Carvoeiros se dá na Vila de Paranapiacaba, porém pela parte baixa. É nela que termina o Caminho dos Carvoeiros e se inicia o Caminho de Bento Ponteiro, que liga Santo André até Mogi das Cruzes, passando pela Vila de Taquarussu e seguindo até Taiaçupeba. O trecho recebe o nome do comerciante que foi um dos primeiros moradores do Alto da Serra, que deu origem à Vila de Paranapiacaba. Bento José Rodrigues da Silva era português e tinha terras em Mogi das Cruzes. Por saber construir pontes e estradas de ferro, recebeu o apelido de Bento Ponteiro.

A ligação de Bento Ponteiro com a região é tão grande que seu corpo está enterrado no Cemitério do Bom Jesus de Paranapiacaba, desde 31 de julho de 1911. O terreno onde fica o cemitério da vila inglesa foi doado pelo próprio Ponteiro. Com 27,5 quilômetros de extensão, esse trecho é o maior dos três que formam o Caminho do Sal. Oferece ótimas paisagens e por ficar dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, abriga uma diversidade de espécies de fauna e flora intacta da Mata Atlântica. Pelo Caminho de Bento Ponteiro chega-se à Vila de Taquarussu, em Mogi das Cruzes. O pequeno vilarejo remonta à chegada de imigrantes italianos em meados de 1910. Em seu tempo mais glorioso, chegou a ter 40 casas, um empório e até uma bomba de gasolina. A vila, assim como Paranapiacaba, também coletava lenha para as máquinas da São Paulo Railway. Com o fim dos motores a vapor a vila foi perdendo moradores e hoje, apesar de muito bem conservada, aparenta ter pouquíssimos habitantes. Desdo o início de 2015, o proprietário da Vila de Taquarussu resolveu cercar o vilarejo, impedindo a entrada de quem caminha pela trilha.

A rota de Bento Ponteiro segue então, em meio às paisagens bucólicas, até Quatinga, que é um distrito do município de Mogi das Cruzes, que foi criado pela administração municipal em 1997. Está distante 35 quilômetros do centro de Mogi das Cruzes e é cercado pela Serra do Mar. Quatinga recebe muitos turistas que procuram atrações locais como a Igreja de Nossa Senhora da Piedade (construída em 1950) e a Pedra Grande – um granito de cem metros encravado na serra do mar, de onde pode se ver o litoral.

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O caminho se encerra no distrito de Taiaçupeba, em Mogi das Cruzes, que tem este nome devido à grande quantidade de Tayassu Pecari (porcos selvagens), que existiam na região que os índios chamavam de Tai (dentes) assu (grande) peba (branco), na beira do Rio Jundiaí, que corta a região e que deságua no rio tietê. A sua colonização iniciou-se em 1864 quando o local passou a ser utilizado por bandeirantes para repouso e acampamento. Na época, tinha o nome de Capela do Ribeirão.

É conhecido como Distrito Natureza, já que a maior parte do seu território está em área de preservação ambiental. Lá estão localizados atrativos como o Parque das Neblinas, Capela de São Sebastião, Taia Golf, a Fazenda Rio Grande e a represa do Rio Jundiaí.

E assim, encerra-se essa rota ecoturística indicada para ciclistas e caminhantes dispostos a percorrer um longo trajeto que carrega muita beleza natural e parte da rica história do nosso Brasil.

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Sobre o Autor

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Renato Castrezana

Publicitário e professor de marketing, chefe de divisão de marketing e projetos turísticos na Prefeitura de Mogi das Cruzes

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