Caleidoscópio brasileiro

Impeachment, renúncia, manifestações, violência, processos, condenações, recessão, desemprego, desastres ambientais... E a complexidade do cenário tende a aumentar

Postado dia 04/12/2015 às 00:00 por Janaína Leite

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Foto – Reprodução/Internet

Fosse agora a Roma Antiga, as mulheres estariam preparando-se para celebrar neste 4 de dezembro os mistérios de “Bona Dea”, a deusa romana da fertilidade, da cura e da abundância. A festa costumava ser guiada pela esposa do sumo-sacerdote e assistida por jovens vestais. Homens eram proibidos. Mas a gaiatice também faz história e um patrício chamado Públio Clódio Pulcro garantiu seu lugar nos livros ao vestir-se de mulher e entrar de modo sorrateiro na casa de Júlio César, então “pontifex maximus”. O malandro acabou preso, sob a suspeita de interesses amorosos em relação à mulher do futuro imperador, Pompeia Sula. Durante o julgamento, entretanto, César defendeu a companheira. Públio foi absolvido. Quando tudo terminou, o general repudiou Pompeia, que seguiu para o ostracismo. Cobrado por sua incoerência, ele respondeu: “À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta.” O restante é sabido.

Como não é a Roma Antiga, mas o Brasil contemporâneo, a única abundância que poderia ser celebrada atualmente é a de problemas. O governo está sem dinheiro, a economia seca a cada dia, desastres ambientais sucedem-se por todos os lados, a corrupção parece ter se tornado a única forma de vida pública, a força policial dá mostras de ter escapado totalmente ao controle, o desânimo mescla-se a uma infinita espiral de mentiras reveladas de supetão.

Vivemos em situação de risco. A Lava Jato expôs as entranhas do país – e elas estão recobertas por varejeiras. O Executivo e o Legislativo sofrem uma falência conjunta, afogando-se em chorume verborrágico e acordos espúrios. Ambos os Poderes calcaram suas práticas em uma lógica soberba e aética.

O resultado é que o Executivo transformou-se em sinônimo de arrogância, alienação, estupidez e incompetência. E a imagem do Legislativo é a de um covil, um lugar onde malfeitores sem nenhum compromisso com ideias, distanciados de seus respectivos eleitorados, usam os mandatos para favorecer empresas, obstruir a Justiça e enriquecer pessoalmente por meio de subornos.

Sobra o Judiciário, particularmente o Supremo Tribunal Federal, onde algumas das batalhas mais importantes serão decididas. É aí que a mulher de César, mais de dois mil anos depois de seu desterro, ganha relevância. Juízes, assim como as esposas de poderosos, têm de parecer honestos.

De modo que as gravações do senador Delcídio do Amaral citando os ministros do Supremo tornaram-se, na prática, a grande arma da oposição. Certas contemporizações e interpretações benevolentes da lei, que poderiam beneficiar o governo, talvez pudessem ter lugar antes da divulgação dos áudios. Agora, nem tanto.

“Aviso aos navegantes: nas águas turvas, criminosos não passarão na navalha da desfaçatez e não passarão sobre juízes, não passarão sobre novas esperanças do povo brasileiro”, avisou a ministra Carmen Lúcia em seu voto.

Não é bem assim. A despeito das belas palavras da ministra, e de sua justificada indignação, as gavetas da Justiça guardam extremas distorções salariais e desmandos. No espaço de tempo em que os magistrados usarem a toga de mocinhos, porém, tais mazelas ficarão em segundo plano. Enquanto o Judiciário mantiver-se ocupado com os outros poderes, levará a mídia a reboque.

O Judiciário também é o berço de Sergio Moro e de STF Joaquim Barbosa, os homens públicos com maior capital político da atualidade. Eles personificam para grande parte dos brasileiros um ideal de cavalaria, o uso da coragem em prol dos mais fracos. Não precisam concorrer diretamente para interferir na dinâmica do poder. Basta que continuem travestidos de símbolos, convertendo admiradores dentro do Judiciário e, mais tarde, sinalizem apoios.

Impeachment ou renúncia

Quais são as chances de Dilma? Cada vez menores. Mais de 60% dos brasileiros, segundo o Datafolha, defendem o impeachment ou a renúncia. O PT precisará fazer uma escolha de Sofia. Se apoiar a presidente com força total, arrisca-se a ver o processo de impeachment sangrar ainda mais a popularidade dos políticos da sigla em período que antecede as importantes eleições municipais.

Outro fator é que os holofotes da mídia com um possível afastamento da presidente Dilma Rousseff obrigatoriamente mudariam — haveria menos espaço para a Lava Jato e seus desdobramentos nas primeiras páginas, permitindo que os medalhões acusados do partido pudessem manobrar melhor nos bastidores pela sua absolvição.

A saída de Dilma forneceria aos petistas aquilo que perderam, uma bandeira de luta, com a adoção do discurso de golpe e a simpatia que uma renúncia em tom emocional poderia trazer. Por fim, o PT fora do governo estaria livre de tomar medidas antipopulares quando a economia piorar ainda mais, como é quase certo que aconteça nos próximos meses, e teria condições de voltar a dialogar com setores da legenda, menos fisiológicos, que ficaram relegados ao segundo plano ao longo dos últimos anos.

Aqui, parênteses. A Lei do Impeachment fala que o governante pode ser afastado por vários tipos de descumprimento da lei. Não está restrita a enriquecimento ilícito, como os petistas querem fazer parecer. Quando isso começar a ficar claro, as manifestações de rua deverão readquirir força.

Dilma talvez não saiba, mas está miseravelmente só. Mais do que se imagina.

Balaio de gatos

Ao PMDB, a renúncia e o impeachment também cairiam como uma luva. O partido, fortemente enraizado nos rincões do país, tem condições de manter um acordo de cavalheiros com o setor produtivo, uma vez que o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, milita em suas hostes. O setor financeiro (com exceção do Bradesco, que sempre alinhou-se bem ao petismo) prefere o PSDB, mas cederá facilmente aos peemedebistas, caso a legenda leve adiante os compromissos que assumiu com o documento econômico divulgado em outubro.

O PMDB precisa desfocar a atenção da Lava Jato. Talvez até mais que o PT. Isso porque o rodo da Justiça já emborcou os principais nomes petistas. O mesmo não acontece no PMDB. Peemedebistas importantes podem cair, como o presidente do Senado, Renan Calheiros, alvo de investigação. O próprio vice-presidente, Michel Temer, foi citado nas delações.

Quanto ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está praticamente fora da conta, por mais que a mídia ainda engula suas arrancadas vazias como demonstração de força. As lambanças suíças fizeram com que ele se tornasse radioativo. Dentro do PMDB muitos querem vê-lo pelas costas, de olho em abocanhar os nacos de seu dito poder. Por outro lado, como ninguém confia em Eduardo Cunha, há o medo de uma possível delação premiada do deputado fluminense. Assim como o senador alagoano Fernando Collor (PTB), Cunha é um dos que estaria disposto a levar muitos consigo para a cadeia.

José Sarney continua em silêncio. Repare-se.

Do outro lado do balcão

E a oposição? A oposição só começará a se mexer de maneira incisiva quando as delações dos grandes empreiteiros forem homologadas e houver a certeza que os mísseis verbais caíram somente em território inimigo.

Além disso, os principais nomes de enfrentamento ao governo — Marina Silva, da Rede de Sustentabilidade, e o tucano Aécio Neves — não podem ficar superexpostos no momento. O motivo é a tragédia de Mariana, envolvendo a Samarco e a Vale.

Se colocar a cabeça fora do casco, Marina terá de falar de maneira firme sobre o desastre ambiental, pois a defesa do meio ambiente é a sua área de atuação por excelência. Teria de modificar a postura ambígua com a qual vem jogando. Muito mais fácil posicionar-se contra o impeachment de jeito discreto, de olho em uma esquerda que apóia Dilma e ficará desamparada com uma possível saída da presidente. Parte do eleitorado irá vê-la como prudente. Parte, como sonsa, ou covarde.

A respeito de Aécio, a lama destruiu o estado pelo qual foi eleito senador. A maçada é que brigar com a gigantesca Vale não é uma boa política. O dinheiro da mineradora pode abastecer os caixas de campanha em 2016 e ajudar a irrigar as pretensões dos aliados políticos na região. Outro ponto é que em algum momento a perícia deverá mostrar que a barreira de Mariana rompeu-se depois de anos de fiscalização frouxa. Ou seja, quem estava no poder antes pode acabar implicado na rede de negligência.

De olho mesmo é bom ficar no PSB do finado Eduardo Campos. O partido rachou no ano passado, colocando em ringues opostos os sulistas e nordestinos. Um grupo, mais afeito ao governo, queria compor com Marina; outro, mais ligado aos tucanos, queria fechar com a oposição. Como ficarão agora?

Bandeira paulista

Há também Geraldo Alckmin. Enquanto Delcídio Amaral, líder do governo, tornou-se o calo mais doído do PT, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, é a personagem política que involuntariamente melhor serve aos petistas e aos peemedebistas (principalmente Paulo Skaf e Marta Suplicy) no momento. Depois de ter permitido que São Paulo ficasse quase a seco, ele decidiu pelo fechamento de escolas de maneira atabalhoada e impositiva, abrindo espaço para que a Polícia Militar, aparentemente fora de controle, descesse o cacete em adolescentes que protestam para manter seus colégios funcionando.

Alckmin teve sorte até aqui. Se os jovens das escolas públicas começarem a chamar os colegas que estudam em instituições privadas para tomarem as ruas junto com eles, a história muda. A PM batendo em gente que estuda de graça é uma coisa, a PM machucando filhos da classe média é outra. Foi por conta disso, aliás, a agressão a garotos bem-nascidos e a uma repórter da Folha de S.Paulo, que os protestos de 2013 estouraram de vez.

 

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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