Bretanha mole e Rocha dura

A força de Ava Rocha, o rock adolescente do Libertines e o aguardado show do Wilco no Popload Festival em São Paulo

Postado dia 21/11/2016 às 09:00 por Guillermo Gumucio

Palco dia

O espaço do Urban Stage, nas imediações do metrô Portuguesa-Tietê recebeu a edição especial de 10 anos de festas gabaritadas organizadas pelo Popload, a coluna que cresceu e virou portal com a assinatura de Lúcio Ribeiro, jornalista que se especializou em promover, descobrir e noticiar algumas das fileiras do que foi alcunhado como rock “alternativo”. No sábado ensolarado de 8 de outubro, cerca de 7.800 pessoas passaram pelo local para conferir uma escalação bastante interessante de atrações musicais. O plantel do Popload Festival estava completo com Ava Rocha, Battles, Ratatat, Wilco e The Libertines, uma seleção de consistência e certo ecletismo na medida dentro da proposta. Apenas alguns dias antes da data marcada, os nova-iorquinos do Battles voltaram atrás na sua participação alegando que o cancelamento de outras datas no continente inviabilizavam a empreitada.

Com os admiradores do intricado rock do conjunto frustrados, a expectativa era de que a produção escalasse algum cartaz nacional na mesma verve, mas não foi o que aconteceu. O Bixiga 70 é sempre sinônimo de diversão e boas vibrações com muitíssima competência, mas, convenhamos, há um sem-número de oportunidades de conferir a big band na cidade nos espaços culturais e unidades do SESC e os nomes naturalmente ventilados para cobrir o Battles seriam Hurtmold ou Macaco Bong, por exemplo. Não há qualquer julgamento a respeito da qualidade do grupo que foi escolhido pelo staff de ninguém menos, ninguém mais que Marlena Shaw, uma das maiores divas da Blue Note e ainda deixando muita menina no chinelo do alto dos seus mais de 70 anos, quando da sua passagem pelo Brasil em agosto do ano passado. A questão em pauta é que a decisão mais acertada teria sido suplantar um cancelamento com uma substituição de mesmo DNA.

Dia

A reportagem chegou com a devida pontualidade para o show do Bixiga 70, o primeiro do dia, mas a produção atrasou a entrada dos meios de comunicação no local, alegando que revogara de última hora mais de 50% dos credenciamentos aprovados. Após comprovar que tal decisão não afetara o Sociedade Pública, a entrada foi liberada, mas não em tempo de conferir o show do Bixiga 70, infelizmente.

Ava Rocha entra e traz consigo bacantes melodias. (Foto: Elayne Diniz)

Ava Rocha entra e traz consigo bacantes melodias. (Foto: Elayne Diniz)

Soavam as primeiras notas do contrabaixo de Pedro Dantas para anunciar que chegava Ava Rocha e a sua carga inevitável de brasilidade visceral. Ava não enganaria alguém nem que ocultasse o sobrenome: é impossível olhar para a intérprete e não se confundir com aqueles olhos, aqueles olhos cheios de vida e gana. Aqueles mesmos olhos que botaram o Brasil no mapa mundial da sétima arte com uma obra enfurecida que nos deu manifestos definitivos em película como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe.

Ava Rocha foi impactante do início ao fim em São Paulo. (Foto: Elayne Diniz)

Ava Rocha foi impactante do início ao fim em São Paulo. (Foto: Elayne Diniz)

A cantora invade o palco como uma metralhadora com “Auto das Bacantes”, uma releitura antropofágica da mais nova ordem mundial em que sugere matar a você mesmo, comer do seu morto e desalinhar o corpo, ficar louco, e então convoca: “tome espaço do Estado, da polícia, da NSA, da Mulher-Maravilha e meta o grelo na geopolítica”. Ainda possuída pela entrada triunfal, emenda na mesma dobradinha de Ava Patrya Yndia Iracema (Circus, 2015) com “Hermética”. Um belíssimo cartão de visitas com duas metades que se equivalem qualitativamente, uma enfurecida, outra doce, respectivamente. O guitarrista Eduardo Manso dá conta não só das seis cordas, mas também do sintetizador Micro Brute, que dá um charme irresistível ao encontro das tradições do Velho e do Novo Mundo no palco.

O miolo do show foi revelador em termos antropológico-sociais (de boteco). Com um segmento inteiro recheado de batidas regionais e de raiz afro, Rocha empunhou de novo o seu cocar de facas para mostrar, talvez sem querer, que o flerte de parte do público urbano com a sua história musical é puro discurso vazio. O público, que vinha acompanhando o espetáculo com as devidas cargas de deleite e admiração, se mostrou estático e pouco interessado na fonte de que bebe Rocha desde o berço. O baterista Thomas Harres, que já usara as próprias mãos para fazer soar os tambores de seu kit anteriormente no show, assume o caxixi e empresta seu ritmo à incursão de Rocha e banda pelas raízes musicadas do país. No segmento mais cênico e autorreferente de toda participação da cantora no festival, houve espaço para “Olorozui”, um cântico de candomblé entoado a plenos pulmões por Rocha, e até mesmo uma versão de “Canoa, Canoa”, celebrizada por Milton Nascimento e sua turma no Clube da Esquina 2 (EMI, 1978).

Antropofagia e cênico lancinantes de Ava Rocha. (Foto: Elayne DIniz)

Antropofagia e cênico lancinantes de Ava Rocha. (Foto: Elayne Diniz)

A fuga para colocar as coisas novamente no eixo do rock de arena se deu com “Boca do Céu”, faixa de abertura do disco de estreia produzido pelo carioca Jonas Sá. De poesia ímpar, a música esbanja joga uma cama de deliciosos e aguados arpeggios para que Rocha brinque com um trava-línguas de poesia concreta com versos como “Olhos nos céus / seus que são meus / olhos nas bocas, nas bocas do céu / Saliva a chuva caindo da nuvem / Chuva saliva caindo da língua”. Finalmente, Rocha encerra a sua impecável apresentação no Popload Festival com a engajada “Você Não Vai Passar”, uma cativante faixa que poderia ser entoada em protestos de grupos feministas, bastante natural para uma música que desenha “um cara que nunca tomou conta de mim” e que “não vai passar com a dor quando me flagrar dando sopa por aí”.

Ava Rocha

Sem sombra de dúvida, o ponto mais baixo da noite foi o Ratatat. A dupla nova-iorquina, que já não contava exatamente com uma legião de fãs ensandecidos pela sua vinda ao país, não emplacou. No começo, o público até que foi bastante receptivo à proposta que mistura riffs de guitarra de videogame com batidas eletrônicas, mas a tolerância e a força de vontade no Urban Stage cessaram depois da primeira meia hora de apresentação, quando o constrangimento era visível em cada espectador na fila do pão do Wilco.

Mike Stroud bem que tenta, mas quem fala mesmo é o vídeo. (Foto: Elayne Diniz)

Mike Stroud bem que tenta, mas quem fala mesmo é o vídeo. (Foto: Elayne Diniz)

Usando o recurso do vídeo como pesada muleta, o Ratatat faz muzak para hipster ouvir. Uma equação que talvez funcione em consultórios, elevadores e lounge bars dos Jardins, mas a performance só não

O tímido Evan Mast no baixo do Ratatat. (Foto: Elayne Diniz)

O tímido Evan Mast no baixo do Ratatat. (Foto: Elayne Diniz)

foi pior porque, graças aos deuses de Nova Iorque de passagem por São Paulo, já fazia noite quando Mike Stroud e Evan Mast iniciaram a tentativa frustrada de fazer remexer alguns esqueletos, o que favorecia o impacto do fator telão no show. O problema não é o fato de ser instrumental, tampouco a presença do trabalho de VJ, mas a composição pobre, previsível até para os padrões populares do rock que só quer divertir, e pouca variação da dinâmica entre os elementos eletrônicos e os licks de guitarra. Com a execução de “Wildcat”, provavelmente a faixa mais conhecida do duo por aqui, e com o show já indo para os finalmentes, já era tarde para tapar o buraco no barco e salve-se quem puder.

Pedro Vasconcelos

Pedro Vasconcelos, 30, aprovou a escalação do festival. (Foto: Elayne Diniz)

O fato era que muitos suportavam ali o Ratatat porque atrás das cortinas quem se preparava era o Wilco. A banda nunca se apresentara em São Paulo, de modo que estava mais do que claro que não faltariam os principais sucessos do vasto repertório que se iniciou há mais de 20 anos, com A.M. (Sire, 1995). Muitos fãs vieram à cidade para prestigiar a passagem da banda, como Lucas Sallum e Carolina Abras de Belo Horizonte, que não hesitaram em aproveitar a facilidade do Airbnb, popular aplicativo de hospedagem comunitária, para encontrar um cantinho por aqui e não perder a ótima oportunidade musical que se apresentava no Popload Festival deste ano.

Lucas e Carolina vieram de Belo Horizonte para o festival. (Foto: Elayne Diniz)

Lucas e Carolina vieram de Belo Horizonte para o festival. (Foto: Elayne Diniz)

Embora Lucas, ex-baixista do Radiotape, banda da capital mineira que lançou o mais novo EP Luz com quatro faixas em setembro, ostentasse uma camiseta em homenagem ao Wilco, fazia parte do público que ficaria também para conferir o The Libertines. “Compramos os nossos ingressos assim que foi confirmado o nome do Wilco e ficamos aguardando quais seriam as outras atrações. Como também somos muito fãs do Libertines, ficamos muito felizes com a escalação do festival e a chance de assistir às duas bandas de que tanto gostamos em um único dia”, contou Lucas.

Foco e diversão na medida perfeita. (Foto: Elayne Diniz)A fórmula mágica do Wilco: foco e diversão na medida perfeita. (Foto: Elayne Diniz)

Com um repertório que contou com 28 músicas e foi iniciado no mais alto astral com “Random Name Generator”, manteve o ritmo com a mais recente “The Joke Explained” e botou o público para cantar em uníssono com Jeff Tweedy em “I Am Trying to Break Your Heart” já nos primeiros quinze minutos de espetáculo, o Wilco mostrou que estava disposto a retribuir o carinho do fã brasileiro que chegou até mesmo a fazer uma extensa campanha para que a banda volte ao país após a apresentação na etapa carioca do TIM Festival nos idos de 2005.

Capitão Tweedy e seu mais fiel companheiro. (Foto: Elayne Diniz)

Capitão Tweedy e seu mais fiel companheiro. (Foto: Elayne Diniz)

Depois da bela trinca inicial veio “Art of Almost”, a estupenda faixa de abertura de The Whole Love (dBpm, 2011), com sua batida pulsante e constante e final arrebatador. Na sequência, mais hits que não poderiam faltar na ocasião e que revelam a trajetória de sucesso e competência incontestáveis do conjunto. Faixas como “Misunderstood”, “Side with the Seeds”, “Handshake Drugs”, “Heavy Metal Drummer” e “Via Chicago” são executadas há anos pelo sexteto com perfeição e uma dedicação nítida. No recheio, momentos do recém-lançado Schmilco (dBpm, 2016), breve bolacha com pouco mais de trinta minutos que não dividirá o mesmo espaço dos exemplos de polimento esmerado e alto refinamento de Being There (Reprise, 1996), Summerteeth (Reprise, 1999) e Yankee Hotel Foxtrot (2001), mas tem seu próprio mérito descompromissado.

De um lado de Tweedy nas seis cordas, Pat Sansone... (Foto: Elayne Diniz)

De um lado de Tweedy nas seis cordas, Pat Sansone… (Foto: Elayne Diniz)

No palco, a banda é irrepreensível. Não importa o segundo em que o público olhar para o baixista John Stirratt, único membro fundador junto com Jeff Tweedy, ele estará sempre na batida perfeita, balançando a cabeça e sondando se estão todos ali com ele o acompanhando devidamente (e estão, sempre estão). Na ala direita de Tweedy está Nels Cline, o mago das muitas cordas do Wilco. Músico completo e com um estilo agressivo que casou maravilhosamente sabe-se lá como com as pretensões country do capitão Tweedy para a confecção de Sky Blue Sky (Nonesuch, 2007), Cline responde pela maior carga de improvisação entre os seis wilcos, com solos memoráveis e o holofote central na sempre aguardada “Impossible Germany”.

... e do outro, a de Nels Cline. (Foto: Elayne Diniz)

… e do outro, o inspiradíssimo Nels Cline. (Foto: Elayne Diniz)

Um registro bastante fiel de muitas das faixas apresentadas pelo Wilco no Popload Festival pode ser encontrado no bootleg Live at the Pitchfork Festival, quando a trupe de Chicago brilhou como headliner no primeiro dos três dias de shows do evento organizado por uma das publicações mais cultuadas do cenário musical com 21 músicas, contando com o disco Star Wars (dBpm, 2015), lançado online gratuitamente apenas dois dias antes, executado na íntegra. Para quem não pôde prestigiar esta última passagem do conjunto pelo país com única apresentação em São Paulo, é uma ótima pedida. As grandes virtudes musicais e o legado de ser uma ponte entre o rock alternativo pós-Cobain e toda uma herança de country music estadunidense estão
todos lá.

O carisma certeiro de Tweedy ao violão fez a graça dos fãs em São Paulo. (Foto: Elayne Diniz)

O carisma certeiro de Tweedy ao violão fez a graça dos fãs em São Paulo. (Foto: Elayne Diniz)

Depois dos mais incessantes pedidos de bis, mesmo com vários corações se sentindo já devidamente atendidos após “Jesus, Etc.” e “I’m the Man Who Loves You”, a banda retorna rapidamente ao palco para selar magistralmente a sua participação no Popload Festival com duas de A Ghost Is Born (Nonesuch, 2004), também muito conhecido como “o disco do ovo”: “Spiders (Kidsmoke)” e “The Late Greats”. Com a reverência dos seis integrantes ao seu público, não houve quem reclamasse, ou tivesse o que reclamar. O Wilco mostrou como se monta uma reputação, ano a ano, disco a disco, apresentação após apresentação, sempre acreditando no rock da mais alta qualidade e fazendo de tudo para manter as suas preferências criativas e profissionais, com um extenso e conhecido histórico de brigas com gravadoras.

O “problema”, na falta de termo melhor, é a perfeição do show que o Wilco entrega. Estamos falando de um nível de execução artística em que até as microfonias e dissonâncias propositais são impecáveis. Não de uma forma matemática, intrinsicamente calculada, mas do melhor jeito, à moda de quem sabe exatamente onde está pisando e reconhece a canção como um organismo vivo, à mercê dos amores e dos humores. E a banda parecia bem à vontade na sua estreia na Terra da Garoa.

The Libertines - Faixa

Ao contrário das expectativas de quem tivesse uma visão otimista a respeito da evolução do rock por estas bandas, havia um público em grande número cujo maior interesse na ocasião era o The Libertines. Marcela, 21 anos, era uma dessas fãs, que chegou na metade do show do Wilco e aguardava ansiosa no Heineken Space pela entrada da dupla Carl Barât e Pete Doherty com a cozinha do baixista John Hassall e as baquetas de sotaque estadunidense de Gary Powell. “Conhecia apenas algumas músicas do Wilco, mas gostei muito do que vi, eles são muito bons”, admitiu Marcela. Quem queria ver o lado mais pesado da banda também era Letícia, 21 anos, em sintonia com a programação do Popload: “Estou ouvindo muito a Julia Holter, uma das minhas cantoras preferidas no momento, e pretendo ver o Air no Popload Gig em novembro”.

Marcela, fã de The Libertines, no Heineken Space. (Foto: Elayne Diniz)

Marcela, 21, no Heineken Space. (Foto: Elayne Diniz)

 

Originalmente, já se tratava de tarefa da mais alta complexidade tentar entender como algo tão insosso e convencional ganhou um numeroso séquito para além do Tâmisa. Como explicar os milhares de fãs que compareceram ao Urban Stage e continuam idolatrando os ingleses em pleno 2016 é quase um exercício de matemática pura.

Mas nada disso importa quando milhares vibram ao som do rock standard dos caras. Abriram com “The Delaney” e mandaram uma trinca de faixas do disco novo lançado no final do terceiro trimestre do ano passado, Anthems for the Doomed Youth (Virgin, 2015): “Barbarians”, que abre o álbum, “Heart of the Matter”, e “Fame and Fortune”.

Letícia veio ver o Libertines, mas quem não sai do toca-discos é Julia Holter. (Foto: Elayne Diniz)

Letícia veio ver o Libertines, mas quem não sai do toca-discos é Julia Holter. (Foto: Elayne Diniz)

 

 

Pete Doherty é figura que expõe algo de muito errado no cenário britânico há tanto tempo e faz compreender como funciona o mainstream roqueiro no Reino Unido. Tudo parece convergir à força que a imprensa marrom ainda desempenha na ilha e remonta aos Sex Pistols, que não precisou fazer muito em termos musicais para ganhar um destaque desproporcional como ícone da juventude inglesa à época. Johnny Rotten, os irmãos Gallagher e Doherty fazem todos parte de uma mesma tradição que denuncia uma nação economicamente desenvolvida que coloca a ação espetacular da vida desregrada da celebridade em primeiríssimo plano.

The Libertines

Carl Barât, uma das duas vozes do The Libertines. (Foto: Elayne Diniz)

Carl Barât, uma das duas vozes do The Libertines. (Foto: Elayne Diniz)

Com um setlist de 23 músicas, o grupo incluiu mais algumas do disco que promove nesta turnê, “Gunga Din”, “You’re My Waterloo”, além da faixa que dá nome ao álbum, todas do lado A. O público que ficou para conferir o quarteto britânico teve exatamente o que esperava e não viu as suas expectativas irem por água abaixo com o constante receio de Doherty simplesmente não aparecer para fazer o seu trabalho, um comportamento que funciona mais como estratégia de marketing do que dor de cabeça para contratantes.

A despedida do grupo e encerramento do festival foi tão clichê quanto tudo que o The Libertines representa, com “Don’t Look Back Into the Sun”, hit máximo de um empreendimento roqueiro que parece passar mais tempo na frente do espelho alinhando a bandana e ajeitando a boina do que efetivamente tentando construir uma obra ou expressar a voz de uma determinada realidade, seja lá ela qual for, dos camarins ou das ruas.

John Hassall comanda os graves do The Libertines. (Foto: Elayne Diniz)

John Hassall comanda os graves do grupo inglês. (Foto: Elayne Diniz)

Quem se informasse pelo material de divulgação do festival sem ter ido às três edições anteriores poderia incorrer em engano de interpretação. O texto afirma: “Desde 2013, o Popload Festival se destaca por seu formato inovador, intimista, aconchegante e onde tudo funciona, proporcionando a vivência de um grande festival, mas com uma estrutura mais intimista que aproxima o público das bandas”. A iniciativa de trazer um ou outro artista do palco principal para uma pequena tenda com capacidade para aproximadamente 100 pessoas é louvável. É interessante colocar a Ava Rocha para uma sessão de autógrafos no Heineken Space ou o Gary Powell, baterista do The Libertines, para discotecar no mesmo espaço, mas a experiência como um todo está longe de ser “intimista”, considerando a dificuldade natural em fazer com que quase 8.000 pessoas se sintam na sala de estar durante as apresentações no palco principal. Além disso, a julgar pelos três jovens que a reportagem observou serem instruídos por um segurança para não sentarem no chão e se levantarem, tampouco tão confortável assim.A organização contou com food trucks e grande facilidade na compra de bebidas. (Foto: Elayne Diniz)A organização contou com food trucks e grande facilidade na compra de bebidas. (Foto: Elayne Diniz)

Depois de 13 horas de música, é possível afirmar que entre os pontos positivos da organização estão a pontualidade britânica de todos os espetáculos e algumas soluções que de tão simples, chegam a provocar ainda mais a ira do público frequentador de outras paragens, como as garrafas de água distribuídas gratuitamente na saída do local e o bilhete do metrô inserido no folder em formatinho. O esquema de caixas ambulantes com cardápios com parte gráfica cuidadosa que facilita a vida de todos também é outra ideia claramente inspirada na vasta experiência da equipe do Popload em festivas estrangeiros. Ninguém achará um frequentador de show que reclame por uma boa ideia ser copiada, o espírito é esse.

Até quem ficou sem um real no bolso conseguiu voltar para casa de transporte coletivo no Popload Festival.

Festival de médio porte, ótimas sacadas e uma sensação de “por que ninguém fez isto antes por aqui?”.

Pequenas sacadas que têm custo irrisório para ações encomendadas por grandes marcas internacionais das passarelas e do setor de bebidas e, ainda assim, surpreendem pelo simples motivo que o público está bastante acostumado a ser tratado como gado em show de rock, seja da vertente que for. Seria ótimo se pelo menos esses dois simples gestos fossem copiados daqui para frente, já seria uma evolução considerável. Noves fora e a despeito dos revezes bastante pontuais citados, a organização está muito acima da imensa maioria dos shows e festivais que reúnam mais que um punhado de fãs em São Paulo.

Cerveja e celular

Ao fim e ao cabo, quem mandou o maior recado foi Ava Rocha. Mesmo depois de rodar com o show de Ava Patrya Yndia Iracema, a baiana continua com a mesmíssima pegada, apresentação após apresentação. Dona de um cênico que sabe exatamente o seu lugar, sem tirar nem por, ensaiado à exaustão sem parecer mecânico, Rocha figura no feliz rol de intérpretes viscerais que estão fazendo jus a tempos e manchetes que exigem que o artista trabalhe como nunca, no melhor dos sentidos – e nisso ninguém foi mais feliz que o Macaco Bong ao dar nome ao seu primeiro rebento de Artista Igual Pedreiro (Monstro Discos, 2008). É uma imensa satisfação que se constata que seria possível fazer um dia inteiro só de shows com mulheres no centro do espetáculo e muito em comum. Ava Rocha, Tulipa Ruiz, Karol Conka, Karina Buhr, Duda Brack, Juçara Marçal. Lamentável que as marcas de cosméticos multinacionais prefiram continuar gastando seus milhões para levar Paula Toller e meia dúzia de seus amigos à Praça da Paz todos os anos em vez de investir em um projeto desse tipo.

Valeu a pena esperar: fãs do Wilco se emocionam na primeira fila. (Foto: Elayne Diniz)

Valeu a pena esperar: fãs do Wilco se emocionam na primeira fila. (Foto: Elayne Diniz)

Em uma entrevista reproduzida no telão após o show do Wilco, era possível ver um Jeff Tweedy bastante descontraído e sem papas na língua ao reconhecer o esforço dos fãs brasileiros para que a banda trouxesse o seu repertório o quanto antes e ouvisse os gritos histéricos da primeira fila entre uma música e outra. É esse fã e todos os apreciadores saíram de alma absolutamente lavada do Popload Festival com o rock sofisticado do Wilco e da poesia de Tweedy. Muitos ficaram para conferir o The Libertines, mas houve quem já sabia que ficaria plenamente satisfeito com e voltasse para casa findo o espetáculo do pessoal de Chicago. Em qualquer uma das hipóteses, fica a boa lembrança de um dia de shows eclético e bem organizado e a espera para que uma nova edição não demore a vir e faça parte do calendário roqueiro da cidade.

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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