Bichos sagrados

A Bíblia lista animais ao longo de praticamente todos os seus livros. Eles são tratados como criações menores do que os humanos – mas nem por isso deixam de ser respeitados

Postado dia 23/02/2017 às 08:30 por Tiago Cordeiro

animais

Foto: Reprodução

Noé tinha uma missão descomunal: não só transformar sua família no novo começo para a humanidade. Todas as outras pessoas que existiam iriam morrer sem deixar legado, um sinal do tamanho da raiva de Deus diante das injustiças e da violência que seus seres favoritos estavam praticando. Mas essa era apenas uma parte da missão. A arca que deveria fugir do apocalipse líquido deveria ser grande o suficiente para abrigar um casal de cada um dos animais que existiam na Terra. Os humanos podiam ser fundamentais, mas os demais bichos precisavam continuar existindo.

Faz todo sentido: eles também eram criação divina. Haviam sido projetados para viver nas águas, nos ares e na terra. Receberam, segundo a tradição judaica, o sopro divino que faz com que judeus, cristãos e muçulmanos acreditem ainda hoje que todos os animais têm alma. Têm alma porque preservam o sopro de vida divino. Porque têm sentimentos – coisa que a ciência não cansa de confirmar. Mas também porque são inteligentes e, no caso de polvos, aves e mamíferos, no mínimo, são conscientes de sua própria existência. Têm empatia, são capazes de se colocar no lugar do outro e de sofrer com o sofrimento de um semelhante.

Todo esse respeito aos animais, expresso na história de Noé e no próprio relato da criação do mundo, se mantém ao longo do texto bíblico, incluindo o Novo Testamento cristão. Jesus exorta seus ouvintes a seguir o exemplo de diferentes animais, que não se importam em acumular bens porque acreditam na providência divina. Os pássaros, em especial, recebem grande atenção de Cristo. “Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros”, ele prega. “Contudo, o Pai celestial as alimenta.”

Foto: A serpente que em Gênesis, influenciou Eva

Foto: A serpente que em Gênesis, influenciou Eva

Já os leões são temidos. Mas mesmo eles respondem aos comandos divinos – vide a história extraordinária do profeta Daniel, lançado numa cova de leões pelo rei da Babilônia. Pois os animais famintos simplesmente ignoraram a presença do humano protegido pelo Criador. Por outro lado, antes como hoje, as vacas são consideradas objeto de uso diário: se nós as comemos fatiadas em churrascarias, os judeus que peregrinavam pelo deserto realizavam sacrifícios a mando de Moisés. Jogavam tinas cheias de sangue do animal sobre o povo, em pedido de purificação.

E existe também a cobra. Diferentes religiões, apoiadas em diversas mitologias, reforçam o temor que nós humanos temos dos répteis. O ser que anda sem patas, que se arrasta sobre a própria barriga, que se esgueira pelo solo da mesma cor da sua pele, só poderia mesmo despertar medo e desconfiança. Ligada ao anjo caído, ao mal em sua forma mais perigosa, a cobra representa o perigo em sua pior forma: sedutor, belo, discreto. Com sua língua bifurcada e sua capacidade de rastejar, o mal sussurra.

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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