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Tiago Cordeiro

Profissão: Jornalista

Cidade: Suzano

Tiago Cordeiro é Jornalista pós graduado em Literatura Brasileira. Entre passagens pelas revistas Veja, Época, Aventuras na História e Galileu, entre outras, desenvolveu um gosto pessoal pelas áreas de tecnologia, história e principalmente religião, tornando-se o especialista no assunto em diversas editoras. Hoje, Tiago é editor freelancer e colunista de história aplicada à religião na Editora Abril. Apaixonado por futebol, cinema e por sua filha Nina Morena.

  • Páscoa, a celebração da vida

    Um homem que volta dos mortos. Coelhos que se reproduzem às pencas. Chocolates. Tudo nessa festa tem uma motivação: celebrar a vida, exatamente como fazemos há 5 mil anos

    Postado dia 14 de abril de 2017 às 12h em Editoriais

    páscoa

    Foto: Reprodução

    Pode ter sido por conveniência ou por respeito às outras culturas – provavelmente foi por conveniência mesmo. Mas os primeiros líderes do cristianismo sempre respeitaram as datas mais importantes do calendário da Antiguidade. Elas são basicamente sempre as mesmas: podemos mudar os nomes, os pretextos, mas, desde que fundamos a civilização, e talvez até antes, nós damos uma atenção toda especial às mudanças no ciclo da natureza. O começo da primavera é importantíssimo: marca o recomeço da vida. O início do inverno também: marca tempos duros que estão para começar.

    Os cristãos sabiam disso. Dataram o nascimento de Jesus para o começo do inverno no Hemisfério Norte (não vamos nos iludir, quase tudo o que de mais importante que acontece para a humanidade está acima da linha do Equador, e não abaixo). E celebram a Páscoa no primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o começo da primavera. Essa escolha complicada, aliás, faz com que a Páscoa possa cair em algum dia entre 22 de março e 25 de abril. Muda, com isso, o carnaval, uma festa tão mais importante para tanta gente.

    Não é por acaso. Trocamos os nomes, abandonamos os muitos deuses e assumimos a crença em um só (ainda que complexo e multifacetado), mas preservamos a ligação íntima com nosso planeta, suas voltas em torno do sol e as consequências de cada momento do ano para nossas vidas. Pensando assim, fica mais fácilentender porque nem a Páscoa nem o Natal fazem a menor referência a possíveis datas em que Jesus teria de fato nascido ou morrido.

    Por isso não me parece nenhum absurdo juntar a ressurreição de Cristo com os ovos de chocolate e as homenagens a coelhos, animais que se reproduzem com tamanha facilidade. No fundo, mesmo quem não professa o cristianismo nem dá a mínima para os coelhinhos no resto do ano, estamos todos falando uma mesma língua, muito mais íntima. Estamos louvando a fertilidade, a força que faz uma semente virar uma árvore com dezenas de metros de altura. A energia impressionante que mantém a Terra viva, nossa espécie em pé e milhões de animais e plantas em crescimento. O sabor doce de uma fruta, o cacau, que surgiu entre os maias – que, aliás, a preparavam como um caldo extremamente apimentado.

    A vida, sozinha, parece mesmo um milagre – se fosse mais comum, já a teríamos encontrado facilmente em outros planetas. Ela deve existir fora da Terra, mas parece ser frágil o suficiente para a valorizarmos e lembrarmos que ela pode seperder com facilidade. Diante disso, lembrar que, na crença cristã, o filho de Deus voltou a respirar no terceiro dia é apenas coerente.

    Feliz Páscoa!

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  • Bichos sagrados

    A Bíblia lista animais ao longo de praticamente todos os seus livros. Eles são tratados como criações menores do que os humanos – mas nem por isso deixam de ser respeitados

    Postado dia 23 de fevereiro de 2017 às 08h em Ciências e Espiritualidade

    animais

    Foto: Reprodução

    Noé tinha uma missão descomunal: não só transformar sua família no novo começo para a humanidade. Todas as outras pessoas que existiam iriam morrer sem deixar legado, um sinal do tamanho da raiva de Deus diante das injustiças e da violência que seus seres favoritos estavam praticando. Mas essa era apenas uma parte da missão. A arca que deveria fugir do apocalipse líquido deveria ser grande o suficiente para abrigar um casal de cada um dos animais que existiam na Terra. Os humanos podiam ser fundamentais, mas os demais bichos precisavam continuar existindo.

    Faz todo sentido: eles também eram criação divina. Haviam sido projetados para viver nas águas, nos ares e na terra. Receberam, segundo a tradição judaica, o sopro divino que faz com que judeus, cristãos e muçulmanos acreditem ainda hoje que todos os animais têm alma. Têm alma porque preservam o sopro de vida divino. Porque têm sentimentos – coisa que a ciência não cansa de confirmar. Mas também porque são inteligentes e, no caso de polvos, aves e mamíferos, no mínimo, são conscientes de sua própria existência. Têm empatia, são capazes de se colocar no lugar do outro e de sofrer com o sofrimento de um semelhante.

    Todo esse respeito aos animais, expresso na história de Noé e no próprio relato da criação do mundo, se mantém ao longo do texto bíblico, incluindo o Novo Testamento cristão. Jesus exorta seus ouvintes a seguir o exemplo de diferentes animais, que não se importam em acumular bens porque acreditam na providência divina. Os pássaros, em especial, recebem grande atenção de Cristo. “Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros”, ele prega. “Contudo, o Pai celestial as alimenta.”

    Foto: A serpente que em Gênesis, influenciou Eva

    Foto: A serpente que em Gênesis, influenciou Eva

    Já os leões são temidos. Mas mesmo eles respondem aos comandos divinos – vide a história extraordinária do profeta Daniel, lançado numa cova de leões pelo rei da Babilônia. Pois os animais famintos simplesmente ignoraram a presença do humano protegido pelo Criador. Por outro lado, antes como hoje, as vacas são consideradas objeto de uso diário: se nós as comemos fatiadas em churrascarias, os judeus que peregrinavam pelo deserto realizavam sacrifícios a mando de Moisés. Jogavam tinas cheias de sangue do animal sobre o povo, em pedido de purificação.

    E existe também a cobra. Diferentes religiões, apoiadas em diversas mitologias, reforçam o temor que nós humanos temos dos répteis. O ser que anda sem patas, que se arrasta sobre a própria barriga, que se esgueira pelo solo da mesma cor da sua pele, só poderia mesmo despertar medo e desconfiança. Ligada ao anjo caído, ao mal em sua forma mais perigosa, a cobra representa o perigo em sua pior forma: sedutor, belo, discreto. Com sua língua bifurcada e sua capacidade de rastejar, o mal sussurra.

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  • O fim de tudo

    O livro do Apocalipse ensina que a vitória de Deus não será fácil nem imediata. E que o planeta vai sofrer verdadeiras convulsões antes que os justos sejam glorificados

    Postado dia 30 de janeiro de 2017 às 08h em Ciências e Espiritualidade

    apocalipse

    Foto: Reprodução – Os quatro cavaleiros do Apocalipse

    É difícil pensar numa mitologia religiosa que não inclua batalhas entre o bem e o mal. Gigantes parceiros da humanidade contra monstros que querem nos destruir – geralmente, de povos centenários da América do Sul a civilizações milenares do Sudeste Asiático, os seres que não gostam de nós são retratados como variações de répteis, principalmente cobras ou dragões.

    Em muitas religiões, a própria fundação do mundo acontece como resultado de alguma luta épica, no melhor estilo Os Vingadores. Não na Bíblia cristã: os seguidores de Jesus mantiveram o texto sagrado do judaísmo, que tem início com um Deus único e, aparentemente, solitário. Ele cria tudo com o poder de sua palavra. Mas os cristãos tiveram a sacada de garantir um final apoteótico para essa história. Se o início é pacífico, o fim vai ser violentíssimo.

    O Apocalipse é creditado ao apóstolo João e descreve, com uma riqueza de detalhes maravilhosa, a luta decisiva entre Deus e o diabo, que vai revirar o planeta do avesso. O autor diz estar na ilha da Patmos e endereça sua carta às “sete igrejas da Ásia”. Nelas, descreve uma série de visões proféticas lindíssimas.

    Logo no primeiro dos 22 capítulos, a descrição do ser que mostra as visões a João é de perder o fôlego: “E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa comprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro. E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo; E os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha, e a sua voz como a voz de muitas águas. E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.”

    O livro segue explicando como Deus, acompanhado de animais com seis asas e 24 anciãos sentados em 24 tronos, precisará da ajuda do Cordeiro para romper os sete selos que lacram um livro sagrado. Quando ele abre os selos, liberta quatro cavalos, um branco, um amarelo, um preto e um vermelho.

    “E, havendo aberto o sexto selo, olhei, e eis que houve um grande tremor de terra; e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue; E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte. E o céu retirou-se como um livro que se enrola; e todos os montes e ilhas foram removidos dos seus lugares.”

    Enquanto isso, os justos vivos são marcados na testa e os mártires mortos esperam, impacientes, o momento da justiça divina. Sete anjos tocam trombetas que exterminam árvores e animais em quantidades capazes de enlouquecer um ativista do Greenpeace. Na sequência, os pecadores que não foram marcados são torturados por gafanhotos gigantes, do tamanho de cavalos, com rosto de homens, dentes de leão e cabelos de mulheres, ao longo de intermináveis cinco meses. “E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles.”

    É curioso o quanto a humanidade sofre nas mãos de anjos, e não de demônios. Quem pecou é torturado por anjos que circulam sobre cavalos que cospem fogo e enxofre. O dragão vermelho de sete cabeças e dez chifres, por exemplo, é rapidamente derrotado quando tenta comer o filho da mulher vestida de sol, tendo a lua sob seus pés. Aqui, como na Bíblia em geral, a mensagem é coerente: Deus é todo-poderoso e temível para quem não obedece a seus mandamentos. Seu maior alvo nem mesmo é a besta que representa o demônio, mas as pessoas que insistem em segui-lo, em adorar falsos deuses, em roubar, em fornicar fora do casamento.

    O livro é coerente com o momento em que possivelmente foi escrito: o fim do século 1, quando ainda se esperava que Jesus fosse voltar a qualquer momento e os judeus tinham sido massacrados em Jerusalém – e seu templo, destruído mais uma vez, agora para sempre. As visões que ele proporciona encantam os maiores mestres da literatura desde então. E continuam estimulando profetas de todos os estilos, de pastores do século 21 até o Antônio Conselheiro, que em Canudos prometia uma versão curiosa para o fim: o sertão vai virar mar.

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  • Papai Noel é um bom cristão

    O Papai Noel é muito cristão. Presentes são provas concretas de carinho. Relembrar de Jesus menino é importante. E a somatória de tudo isso é que o Natal é a festa que, de fato, marca a virada de ano e uma mudança de ciclo

    Postado dia 23 de dezembro de 2016 às 09h em Especial de Natal

     

    Papai Noel

    Foto: Reprodução

    Natal é ritualística. Não existe uma civilização da nossa espécie que não mantenha seus próprios rituais em datas marcantes, por um motivo muito simples: precisamos marcar a passagem do tempo. Não basta crescer, ter filhos, comer, beber, fazer sexo, dormir, superar dificuldades e tristezas, morrer tentando deixar um legado. Os ciclos precisam ser celebrados, é importantíssimo para manter nossa sociedade coesa e nosso psicológico no lugar.

    Parece cruel, mas não é. Rituais são deliciosos. Envolvem celebrações lindas, encontros inusitados, comida diferente (quem compra tender em abril?), abraços apertados ou constrangidos, presentes. Sim, presentes. Eles fazem parte da nossa cultura natalina ocidental há tanto tempo que focamos nos gastos exagerados e nas filas nas lojas lotadas e abafadas e esquecemos o mais simples: um presente é uma demonstração física de afeto. É uma maneira concreta de dizer “te amo”, “desejo seu bem”, “pensei em você”.

    É claro que muitas dessas reuniões de família nesta época do ano são tensas – provavelmente metade dos filmes de Natal já feitos (excluindo os desenhos animados fofos) realçam o quanto famílias que se encontram uma vez por ano se veem forçadas a lavar a roupa suja, com o resultado de muitas pessoas passarem mais um ano inteiro sem se falar. Mas é sempre bom lembrar que este contato forçado não deixa de ser terapêutico. E, quem sabe, não possa, em algum momento, levar a uma reconciliação. Mesmo que ela só dure até o próximo Natal…

    Sabemos que o cristianismo não conhece a data exata do nascimento de Jesus e se apropriou de uma festa pagã, que no hemisfério norte marca o início do inverno, para celebrar o nascimento do filho de Deus. O Papai Noel não está tão longe dessa tradição: ainda que sua imagem clássica tenha sido cristalizada pela Coca-Cola nos anos 1930, São Nicolau, que inspirou o velhinho caridoso, é um bispo grego de carne e osso, que viveu entre os anos 270 e 343 e hoje é o padroeiro da Rússia, da Noruega e da própria Grécia. Reverenciado pelas igrejas cristãs ortodoxas antes de adotado pelo Vaticano, o bispo milagreiro teria salvado muitas crianças e tem sua imagem diretamente ligada à do menino Jesus.

    Ou seja, Papai Noel não é um invasor capitalista em uma festa cristã: ele mesmo nos lembra dos valores que tentamos reforçar no Natal: a importância dos nascimentos, o cuidado com os pequenos, a caridade, a importância do perdão.

    Se tudo isso vier acompanhado de uma bela champanhe, um panetone de verdade (nada de chocotone, chocolate é na Páscoa!) e palavras de carinho para quem você ama, pode ter certeza: o Natal já valeu a pena. Na prática, ele marca a virada de ano, mais até do que o réveillon, que mais parece uma balada comum, de preferência realizada na beira da praia e que costuma transformar o primeiro dia do ano num momento desagradável de ressaca.

    Feliz Natal e um 2017 melhor do que 2016!

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  • Jesus, o exorcista

    Os Evangelhos contam diversos casos em que o filho de Deus expulsou demônios com grande facilidade. Para os primeiros biógrafos de Cristo, os seres do inferno estão entre nós

    Postado dia 5 de dezembro de 2016 às 08h em Ciências e Espiritualidade

    exorcista

    Foto: Reprodução

    Maria Madalena tornou-se seguidora de Jesus Cristo quando ele expulsou sete demônios diferentes de seu corpo. Um morador de Gerasa, na Galileia, vivia nu, deitado em covas de cemitério abertas, até que o filho de Deus expulsou de dentro dele tantos seres infernais que eles ocuparam mais de 2 mil porcos! Os animais se lançaram sobre um abismo e a população, assustada (e, quem sabe, irritada com o prejuízo…), convidou o profeta a se retirar e nunca mais voltar.

    Jesus era um exorcista de mão cheia. Retirava demônios com grande facilidade porque eles se apavoravam quando encontravam pela frente o filho de Deus. Mas Cristo foi além: deu este poder a seus seguidores. O evangelista Lucas conta que o profeta mandou 72 discípulos, dois a dois. Eles voltaram tão eufóricos com a capacidade de dominar espíritos do inferno que tomaram uma bronca: eles deveriam estar felizes por ajudar as pessoas, e não por terem algum tipo de poder.

    Em outra situação, um garoto possuído constrangeu os apóstolos de Jesus, que não conseguiram colocar o demônio para fora de maneira nenhuma. “Este tipo de espírito só pode ser expulso com oração”, o profeta explicou, segundo o evangelho de Marcos, depois de retirar o mal do jovem.

    É impressionante a naturalidade com que os evangelhos lidam com a existência de demônios. Eles não estão presentes, de forma alguma, no Antigo Testamento – lá, a obsessão é com os falsos deuses e mesmo Lúcifer aparece muito pouco. Mas, para os cristãos, a existência de seres infernais está mais do que comprovada e faz parte do dia-a-dia.

    Jesus exorciza tanto quanto cura doenças ou ressuscita mortos. Mas não existem registros de que padres ou bispos contemporâneos tenham herdado o poder da ressuscitação ou da cura de problemas de saúde. Agora, eles ainda hoje, 2 mil anos depois, se mostram capazes de exorcizar.

    O Vaticano treina exorcistas e publica manuais com instruções detalhadas. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) publica regularmente um livro, chamado Ritual de Exorcismo e Outras Súplicas, onde se leem orações como esta: “Eu te esconjuro, Satanás, inimigo da salvação do gênero humano. Afasta-te deste servo que o Senhor criou à sua imagem”.

    A cúpula do cristianismo recomenda cautela no trato de supostos casos de possessão. Alerta que menos de 5% dos pedidos de exorcismo realmente merecem atenção espiritual – os demais casos são encaminhados para médicos e psiquiatras. Mas a igreja católica continua fiel à crença: demônios existem, podem invadir pessoas e atormentá-las e podem muito bem ser expulsos.

    Mas é preciso tomar um cuidado. O próprio Jesus sugere que corpos que já foram possuídos podem voltar a abrigar demônios: “Quando um espírito mau sai de alguém, anda por lugares sem água, procurando onde descansar”, ele diz, em Lucas. “Se não encontra nenhum lugar, ele diz: ‘Vou voltar para a minha casa, de onde saí’. Vai buscar outros sete espíritos piores ainda, e todos vão morar ali. E assim a situação daquela pessoa fica pior do que antes.”

    Toda essa proximidade com o demônio marcou fundo as mentes dos teólogos que desenvolveram o cristianismo ao longo dos séculos. O próprio manual de exorcismo da CNBB ensina: o mal é tão real, tão presente, que desafiá-lo e superá-lo faz parte da missão de todo religioso. Dizem as autoridades religiosas, bem calcadas nos exemplos de Jesus, que é preciso encarar os demônios para alcançar a salvação suprema. Em suma: eles estão entre nós e somos obrigados a lidar com eles.

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  • Inimigo número 1

    O diabo aparece pouco na Bíblia, mas a Idade Média transformou o Coisa Ruim numa grande obsessão. E com razão: ele é bem perigoso

    Postado dia 8 de novembro de 2016 às 08h em Ciências e Espiritualidade

    inimigo

    Foto: Reprodução/Internet

    Ele mal é citado no Antigo Testamento. Até que, de repente, Satanás aparece no céu, diante de Deus, para bater papo. Acaba induzindo o criador a torturar seu mais fiel seguidor, Jó. Assim é o capeta: não precisa aparecer o tempo todo. Mas, quando entra em cena, suas mentiras e artimanhas são terríveis. Jesus que o diga: precisou aguentar o mesmo Satanás charmoso e bom de papo enquanto jejuava no deserto – mas o filho de Deus, talvez escaldado pela experiência do pai, não cai na conversa e se mantém fiel.

    É curioso que mesmo a história das origens de Lúcifer nem sequer seja descrita na Bíblia judaica. O caso do anjo vistoso, que afronta Deus por ciúmes da atenção do chefe aos humanos e é derrotado numa batalha épica, só veio a público graças a obras secundárias, a maior parte delas posterior ao relato canônico que conhecemos. Mas os autores do texto sagrado sabem muito bem que Satanás existe e é perigoso: os casos de possessão se multiplicam nos livros bíblicos. Vide o episódio em que Jesus expulsa um grupo de demônios, lança-os sobre porcos e os animais se jogam em um abismo.

    Ao longo da Idade Média, também por influência do antigo deus Pã, dos gregos, o diabo foi ganhando o visual com que é mais conhecido: pele vermelha, cascos, rabo, chifres. E também recebeu apelidos mil – nosso João Guimarães Rosa, no clássico dos clássicos Grande Sertão Veredas, cita dezenas, como Coisa Ruim, Cão, Cramulhão, Severo-Mor, Tristonho, Danador, Pé-de-Pato.

    É curioso que até mesmo religiões que não aceitam a existência de um único criador reconheçam que seres maléficos existem e nos atormentam, nos fazem desviar de nossos caminhos – é o caso do budismo. Fica fácil entender o motivo: alguma coisa, algum ser, precisa ajudar a explicar os absurdos que nós humanos somos capazes de cometer.

    O capeta chegou a tempos mais recentes como chefe de sua própria religião. Na corte do rei francês Luís XIV, por exemplo, no século 17, virou moda participar de missas negras, variações bizarras da missa cristã que envolviam pentagramas, cruzes de ponta-cabeça e, dizem, sacrifícios humanos e de animais – tudo acompanhado de orgias e a contaminação de hóstias e taças de vinho consagrado.

    Ainda hoje fazem muito barulho os grupos satânicos, o mais famoso fundado por Anton LaVey nos anos 1960. LaVey, que interpreta o Tinhoso no filme Bebê de Rosemary, criou a Igreja de Satã. Outras seitas satanistas continuam provocando polêmica – uma delas tentou, em 2014, realizar uma missa negra dentro das dependências da Universidade de Harvard e acabou barrada.

    O tempo passa e Lúcifer continua sedutor. Mas, do ponto de vista da Bíblia, ele não é páreo para Deus. Afinal, é apenas uma das criaturas entre tantas, um anjo egoísta e invejoso que foi expulso do palácio celestial se mudou para o andar de baixo.

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  • Mulher maravilha

    Viúva de grande beleza (e capaz de decepar a cabeça do inimigo), Judite é uma das heroínas mais impressionantes na Bíblia

    Postado dia 23 de setembro de 2016 às 09h em Ciências e Espiritualidade

     

    judite

    Foto: Reprodução/Internet

    Existe entre os autores do Antigo Testamento uma verdadeira obsessão por Nabucodonosor. Diferentes livros situam seus personagens na época em que o grande rei da Babilônia viveu e realizou conquistas militares expressivas – incluindo a destruição de Jerusalém. O profeta Daniel interpreta sonhos de Nabucodonosor. O livro de Jeremias prevê a chegada deste imperador poderoso, capaz de lançar todo o povo para o cativeiro. Outro relato, bastante curioso, não aceito pelo cânone judaico (logo, também recusado pelos protestantes), é o de Judite. Sua história se situa no começo da dominação babilônica. E conta o episódio de uma vitória militar dos judeus. Uma vitória alcançada à base de sedução.

    O livro conta que Nabucodonosor convocou seu comandante militar e segundo homem mais importante do império, Holofernes (um estranho nome grego, que dificilmente seria usado na Babilônia), para dominar e arrasar os territórios vizinhos. Ele seguiu com 120 mil soldados e 12 mil cavalos. Ao saber das mortes de jovens e das cidades destruídas e colheitas queimadas nos países vizinhos, os israelitas pediram clemência a Deus.

    “Todos os homens de Israel, e as mulheres e crianças que residiam em Jerusalém, prostraram-se diante do templo, cobriram suas cabeças de cinza e desdobraram seus mantos de penitência diante do templo do Senhor”, diz a Bíblia. “Também o altar, cobriram-no com panos de saco e clamaram ao Deus de Israel com unânime veemência.”

    Ao mesmo tempo, se prepararam para a guerra, bloquearam os caminhos de acesso para Jerusalém e se recusaram a enviar emissários a Holofernes para pedir clemência. Curioso, o general ouviu a história do povo de Javé. Ao que respondeu: “Quem é deus senão Nabucodonosor, o rei de toda a terra? É este que enviará o seu poder e os riscará da face da terra, sem que seu Deus possa livrá-los.” Ao chegar a Betúlia, seu primeiro alvo e porta de entrada para o corredor que levava a Jerusalém, Holofernes optou por tomar as fontes de água e organizar um cerco.

    Depois de 34 dias, o povo começou a desfalecer de sede quando Ozias, o líder dos hebreus, pediu mais 5 dias de paciência. Ao fim desse prazo, se Javé não se manifestasse, ele apresentaria a rendição. Não parecia justo, diz o livro. Desta vez, o povo estava sendo fiel a Javé. E, nestas situações, sempre se saía vitorioso. Era quando abandonava a Deus que vinham as desgraças.

    Judite, viúva fazia 3 anos e 4 meses, não aceitou o pedido de Ozias. Para ela, dar prazo para Javé era sinal de falta de fé. Ela procurou os líderes da cidade e pediu para sair em direção ao inimigo, junto a uma serva. Foi liberada em sua missão.

    A heroína improvável vivia da herança do marido Manassés, dono de “ouro e prata, servos e servas, rebanhos e campos”, diz o texto. “Era muito bela de aspecto e formosa de rosto, prudente de coração e com bom senso, e muito honrada”. Judite seguiu direto para o acampamento de Holofernes e pediu para falar com o general. Mentiu para ele: disse que sabia quando seu povo iria pecar e garantiu que, assim que o pecado acontecesse e Javé baixasse sua proteção, a vitória seria fácil. Holofernes gostou do que ouviu e manteve a bela estrangeira em seu acampamento.

    Uma noite, ela topou participar de um jantar com o general. Todos, menos ela, beberam muito. Todos, menos ela, foram embora da tenda do comandante – que, desde o primeiro dia, tentava dormir com a hebreia bonita, bem vestida e sempre sedutora. “Só Judite foi deixada na tenda, onde Holofernes caíra em seu leito, afogado no vinho”, afirma a Bíblia. Foi quando veio o ataque.

    “Aproximando-se da coluna do leito, junto à cabeça de Holofernes, dali retirou a espada.  Depois, chegou perto do leito, agarrou a cabeleira da cabeça dele e disse: ‘Ó Deus de Israel, fortifica-me, Senhor, Deus de Israel, neste dia!’ E golpeou com toda a força, por duas vezes, o pescoço de Holofernes, cortando-lhe a cabeça”. Desesperados pela morte do comandante, os mais de 100 mil soldados teriam fugido correndo. Covardemente, os israelitas os teriam perseguido e massacrado. Judite passou o resto de sua vida em glória. Recusou todos os pretendentes de seu povo e morreu com 105 anos.

    O livro não é preciso historicamente. Cita batalhas que nunca ocorreram e parece usar o nome Nabucodonosor como um inimigo genérico, mais do que um rei específico. Trata-se de uma parábola, uma história com uma moral ao final: o povo precisa confiar em Javé sempre, mesmo quando a situação parece irreversível. O caráter de ficção fica mais claro quando se pensa no nome Judite, que significa “judia”, e na pouco conhecida, quase misteriosa, cidade de Betúlia (expressão que, em hebraico, significa “virgem” e que pode indicar o fato de que, neste episódio, o território israelita ficou intocado).

    É curioso que o livro, que aparentemente defende a fé do povo hebraico e o poder de Deus, dê tanto o crédito de uma vitória militar a uma mulher que usou as armas da sedução para conquistar a confiança do inimigo e depois trai-lo. A obra aqui parece longe dos tempos em que Javé abria mares para vencer faraós ou fazia trombetas derrubarem muros. Mas Judite permanece uma personagem única: mulher, bonita, forte, inteligente, que não se dobra diante do poder masculino (seja do comandante israelita, seja do chefe dos inimigos). E assim supera um exército inteiro.

     

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  • O pai do monoteísmo

    Ninguém foi tão decisivo para o povo de Israel do que o rei Josias. Ao encomendar uma edição do Pentateuco e dar o crédito a Moisés, ele transformou a crença em um único Deus em política de estado

    Postado dia 7 de setembro de 2016 às 08h em Ciências e Espiritualidade

     

    Josias

    Foto: Reprodução/Internet

    O templo de Deus em Jerusalém passava por reformas. O ano era aproximadamente 630 a.C. e Josias estava à frente do reino de Judá. Enquanto supervisionavam a obra, sacerdotes encontraram um livro – na verdade, um conjunto de pergaminhos formando cinco livros. Era nada mais nada menos do que o Pentateuco inteiro, as obras fundamentais de toda a Bíblia que teriam sido escritas por Moisés e estariam desaparecidas. De repente, a população tinha a seu dispor a história do mundo, as origens grandiosas do povo hebreu e uma vasta lista de normas de conduta. Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio: estava tudo lá, pronto.

    Depois de ler as obras, Josias rasgou as roupas, rolou nas cinzas em sinal de contrição e se levantou, às lágrimas, decidido a recolocar o povo no caminho da fé. Ele se mostraria um rei importantíssimo, responsável por perseguir os politeístas e abolir todos os costumes que não estivessem previstos pelos livros sagrados.

    Josias existiu mesmo – diferentemente do que a arqueologia afirma a respeito de Abraão, Noé ou Moisés. É certo que ele promoveu uma reforma religiosa profunda. Mas os historiadores em geral concordam que a lenda do aparecimento milagroso do Pentateuco é exatamente isso: uma lenda. Fica bem mais fácil de imaginar que, decidido a instaurar o monoteísmo e a reescrever a história de sua nação, Josias teria encomendado uma edição dos relatos que já estavam na boca do povo fazia muitas décadas.

    A compilação final jamais teria impacto se ele apresentasse como obra sua. Daí ele ter dado o crédito a Moisés e ter tratado a obra como um texto há muito perdido no tempo. Prova dessa teoria é o fato de que, veja só, o Pentateuco inclui a profecia de que o grande rei da reforma religiosa e reunificação de todo o povo seria descendente de Davi e se chamaria… Josias.

    Os hebreus haviam se dividido entre Israel, ao norte, e Judá, ao sul. Na verdade, durante o reinado de Josias, o reino de Israel já não existia mais, destruído que fora pelos assírios. Havia o temor de que Judá tivesse o mesmo destino. Portanto, era importante reunir os relatos orais que ajudavam a reforçar o vínculo do povo com sua própria história e sua religiosidade mais recente – surgidos como uma tribo do povo da Canaã, os hebreus foram politeístas por muito tempo, e com frequência, ainda sofreriam recaídas em sua relação com os deuses antigos.

    O Pentateuco é obviamente uma obra bem posterior aos tempos descritos no livro em si. Abraão, por exemplo, passa por cidades como Hebron e Bersheba, que ainda não existiam na época em que ele teria vivido, por volta de 1850 a.C. Ele teria usado camelos, um animal que só foi domesticado depois. Na época o rei Josias, estes relatos eram conhecidos, mas estavam em baixa. O templo de Salomão tinha virado ruínas e igrejas erguidas para outros deuses prosperavam e atraíam multidões. Ao reunir os hebreus numa nova edição e apresentá-los com toda pompa e circunstância, Josias foi decisivo para judeus e israelitas mergulharem, de fato, no monoteísmo que hoje os define.

    Josias nasceu em 640 a.C. e se tornou rei com 8 anos, quando seu pai, o rei Amom, foi assassinado. Governou por 31 anos, até 609 a.C., quando morreu em batalha contra os egípcios. Neste meio tempo, reformou o templo de Javé e mandou colocar abaixo todas as estátuas e os templos dedicados a outros deuses. Perseguiu e prendeu os infiéis mais teimosos. Em uma ocasião, mandou matar 3 mil bois para celebrar a Páscoa.

    Num primeiro momento, logo após a morte do rei, a grande reforma deuteronômica foi abandonada. Mas ela já havia deixado marcas profundas no povo. Durante as muitas experiências de derrota militar e exílio, começando pelo fim do reino de Judá em 587 a.C., o povo mergulhou em definitivo no mundo de Javé, o Deus que criou o mundo, governou para todos até se cansar da humanidade e, como resultado de seu profundo desgosto, decidiu apostar todas as fichas num só povo, que nunca foi poderoso e nem mesmo fiel.

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  • Pai, esse perdido

    No começo, a experiência de ter um filho é assustadora. Depois, é transformadora. Faz reviver a própria infância e muda a sua relação com seus próprios pais

    Postado dia 12 de agosto de 2016 às 08h em Dia dos Pais

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    A Nina Morena vem me ensinando a ser pai há um ano e meio. Quer dizer: há um ano. É que a baixinha tem um ano e meio, mas nos primeiros seis meses eu simplesmente zanzei pela casa, desesperado. Eu não podia ajudar a alimentar a criança. Não adiantava acordar nas longas madrugadas para ajudar a mãe, a Joyce, porque só a amamentação acalmava a bebê. Não sabia o significado dos choros sem fim. Tinha medo de pegar no colo – ela era tão pequena, tão frágil. Dar banho, nem em sonho. Levar no carro, só com apoio da mãe e da avó da bebê, a dona Eunice. Eu, que sempre gostei de me movimentar pela casa, fazendo coisas ou inventando coisas para fazer, me senti um grande inútil. Enquanto isso, a mãe da Nina se arrastava com suas olheiras gigantes e lutava para dar conta de sustentar um ser humano de 4 quilos para mais, sempre mais.

    O pessoal do Sociedade Pública me pediu uma análise do papel do pai. Comecei logo de cara falando da minha experiência porque é basicamente tudo o que eu tenho. Minha família da Suzano, que me adotou como filho depois que eu casei com a Joyce, não tem muitas crianças novas. Minha família de Curitiba, onde vivem meu pai e meus tios, é cheia de pimpolhos. Mas eu visito a cidade uma vez por ano, não tive convívio a não ser brincar um pouco durante as festas. Eu não fazia a menor ideia sobre o que era ser pai.

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    Foto: Começo de uma família com Tiago, Nina e Joyce

    Lembro que os pais da minha geração (estou beirando os 40 anos) não eram muito ativos em casa. Não faziam papinha, não davam banho. Estavam sempre ocupados durante a semana, correndo muito. Meu pai passava semanas inteiras viajando a trabalho. Foi só na medida em que eu cresci que ele começou a interagir conosco com mais, digamos, naturalidade. Saíamos juntos para jogar bola, eu o acompanhava em uma ou outra viagem – que orgulho de ver meu pai em ação! Agora, na idade adulta, meu pai é meu parceiro, meu amigo. Aliás, um feliz Dia dos Pais, seu Altevir! E um feliz Dia dos Pais, seu Clóvis, meu sogro, pai por adoção e paixão.

    Mas, enquanto eu e meus três irmãos éramos menores, minha mãe é que gerenciava toda a nossa rotina, de lavar as roupas a cozinhar seu bife com arroz, feijão e batata frita. E olha que ela trabalhava, muito!

    Entre os meus amigos, muitos deles pais frescos, vejo o quanto os tempos mudaram: todo mundo quer participar de tudo, desde o começo. Lava, passa, cozinha, fica em casa sozinho com o bebê. Os mais velhos olham e acham bonito, como se fosse algum grande mérito nosso. As esposas, coerentes com a nossa geração, olham todas sempre com aquela cara de “não tá fazendo mais do que a obrigação!”

    Elas têm razão. Ser pai, do meu ponto de vista, não é mais tão diferente de ser mãe. Os papeis antigos se complementam, se misturam. A Joyce adora cozinhar pratos especiais para a Nina, mas quem se preocupa em sempre ter uma papinha a postos, todos os dias, no mesmo horário, sou eu. Eu dou frutas. A Joyce dá chocolate – e o que seria da vida sem frutas E chocolate? Eu lembro de escovar os dentes da Nina. A Joyce ensina a bebê a escovar sozinha.

    Hoje eu não saio de casa sem o meu chaveirinho. A bebê vai comigo até ao mecânico. É uma companhia deliciosa. Eu caminho com ela para dormir, tanto que a bichinha agora imita todos os meus trejeitos com as bonecas dela. Gosto, muito, muito mesmo, de ser mãe-pai. Gosto da parceria com a Joyce, a pai-mãe. Sou feliz como nunca – sabendo que a bebê muda toda semana e que fases muito diferentes virão. Com algumas eu vou conseguir lidar melhor. Com outras… Não gosto nem de pensar em quem vai ser o primeiro namorado da minha filha.

    Agora, de uma coisa eu não tenho dúvida: para qualquer geração, ser pai é fascinante e transformador. Muda nossa vida inteira, nos faz reviver nossa própria infância e repensar toda a nossa história com os nossos pais. É uma bênção tão grande que eu não vejo a hora de ter um segundo filho!

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