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Priscila Nicoliche

Profissão: Atriz

Cidade: Mogi das Cruzes

Priscila Nicoliche é atriz, diretora de teatro, produtora cultural por necessidade, estudiosa livre e fundadora do grupo Quântica Teatro Laboratório.

  • Ser artista inclui pensar no futuro

    Os debates sobre os meios de produção cultural são cada vez mais comuns e fazem parte do processo de amadurecimento da sociedade e do artista (que faz parte da sociedade)

    Postado dia 22 de junho de 2016 às 08h em Cultura e Lazer

    artistas

    foto: Reprodução/Internet

    Aos poucos os conceitos vão se modificando e vai se percebendo que o artista não é aquele sujeito bicho-grilo (pode até ser, nada contra) que vive de luz tanto quanto a planta vive da fotossíntese.

    O artista, como qualquer cidadão, trabalha (muito!), produz, pensa, realiza, luta por direitos (não apenas os seus), como vimos em várias situações ao longo da História do mundo e, recentemente, do Brasil, com as ocupações por ocasião do fim do Ministério da Cultura e contra este governo (para mim) ilegítimo.

    Mas quando falamos de meios de produção, falamos em como obter recursos para produzir, circular, divulgar arte e cultura. Sabemos que este cobertor é muito pequeno e não cobre  todos nós e acabamos, teimosos que somos, como produtores e patrocinadores de nós mesmos.

    A regra é ter uma ideia, ensaiar, levantar fundos com algum evento, rifa, ou cada um investe seu próprio recurso para realizar o espetáculo e quando este estreia dificilmente se paga por meio do ingresso (os espaços são pequenos, os ingressos são praticamente uma esmola que se dá ao artista e mesmo assim sempre tem aquele amigo que pede uma cortesia e por aí vai…).

    Mas aonde quero chegar com isto? Quero refletir sobre o quanto aguentamos tudo isto.

    Quem escolheu ser artista escolheu uma profissão como qualquer outra. Estudamos, pesquisamos, treinamos corpo e voz, damos nosso melhor como qualquer profissional deveria fazer em sua área. Mas a última coisa em que se pensa é que devemos receber como qualquer profissional de qualquer área.

    E o que nós mesmos esquecemos é que também envelheceremos, e por fim teremos uma vida de ‘investimentos’ na arte que não nos dará nenhum conforto na velhice.

    Debater políticas culturais precisa ser mais profundo e ir além do que pensar como faremos agora o espetáculo deste ano ou como, em quantas cidades ele vai circular, quantas cartas de anuência serão necessárias. É também pensar em direitos que garantam alguma estabilidade para o artista no futuro, pois nosso material é o corpo em toda a sua potência – e este se cansa, se desgasta, se enverga, mesmo que a vontade de fazer seja a de uma criança que não se cansa nunca de brincar.

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  • Fusão do ministério da cultura com o da educação

    Impossível ficar alheio aos acontecimentos políticos atuais e mais ainda, deixar de olhá-los com preocupação

    Postado dia 17 de maio de 2016 às 08h em Cultura e Lazer

    cultura

    Foto: Reprodução/Internet

    O presidente-interino (me recuso a nomeá-lo presidente) já anunciou ações que representarão enormes retrocessos. Eu poderia me alongar falando das perdas sociais e trabalhistas que se anunciam porque a visão e o modelo políticos que serão instaurados são por si excludentes, Ponto. Entenda-se pobres, negros, gays, mulheres… Ponto.

    Mas vamos falar sobre Teatro, Cultura.

    Com a já anunciada fusão do Ministério da Cultura com o Ministério da Educação, que ao que tudo indica ficará sob a tutela de Mendonça Filho (DEM – PE), da turma que defende o modelo de privatizações, entre outras coisas, o que ocorrerá é um retrocesso sem dimensões. Isto é fato.

    Vejamos: foi a partir da criação e da autonomia do MINC, em 1985, que entre idas e vindas foi possível pautar questões e obter conquistas e espaços até então impensáveis. A partir dele surge Ancine, Lei Rouanet, que tem problemas? Tem muitos. Mas existem.

    Pontos de Cultura! O programa que desescondeu o Brasil. Que colocou no centro do palco a diversidade do nosso país. O Brasil criolo, a literatura de cordel, a capoeira, a dança, o teatro, a criação digital!

    E mais uma vez falamos no protagonismo do negro, do periférico, da mulher, do caboclo, agora ameaçados.

    Mas nos últimos anos já víamos o desgaste ocorrendo. Editais não pagos, outros que não saíram da promessa, recursos cada vez menores, a reforma da Lei Rouanet que não saiu do papel, o Programa Mais Cultura, cuja as caravanas pelos país me lembram o filme ‘O Sétimo Selo’ de Ingmar Bergman, onde um grupo maltrapilhos de artistas tenta fugir da peste negra e um dos personagens joga xadrez com a Morte que o acompanha na jornada, de perto.  E agora com esta fusão nefasta não será possível pautar nenhuma destas questões porque voltamos à estaca zero: teremos que começar brigando pelo direito de existir.

    E isto poderá ainda ter um outro reflexo.

    Nada impedirá que as cidades ou os prefeitos que serão eleitos neste ano entendam isto como uma orientação a ser seguida para enxugar a máquina pública, ou seja, em municípios onde a Secretaria de Cultura não esteja assegurada por Lei, que não tenham a existência da Pasta aprovada em seu Plano Municipal de Cultura e onde não haja Conselho Municipal de Cultura atuante, não será de se espantar que haja fusões e, as já capengas em muitas cidades, Secretarias de Cultura se juntem à Educação, ao Meio Ambiente, aos gabinetes e se transformem em uma pequena sala, com ações que servirão apenas para fotos das primeiras damas com laquê no cabelo.

    Para quem acordou feliz, achando que com a abertura do processo de impeachment teremos um novo país, acertou. Teremos. Só resta saber para quem. Aliás, isto nós já sabemos. E não é para nós.

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  • Na encruzilhada em que estamos só nos resta lutar

    Alguns personagens nefastos e sem moral que munidos de peripécias impensáveis tentam a qualquer custo chegar ou manter-se no poder

    Postado dia 14 de abril de 2016 às 08h em Cultura e Lazer

    poder

    Foto: Reprodução/INternet

    Tendo em vista o triste cenário atual, cheio de escombros, com personagens que ultrapassam todos os limites da ficção com a desenvoltura que só um artista habilmente canastrão, que não vê problemas em ser mentiroso em suas verdades é capaz de representar, nos encontramos todos em uma grande encruzilhada.

    Na encruzilhada do pensamento. Da ação. Do temor pelo nos espera no futuro.

    Não sei dizer se o que vivemos é uma tragédia grega, uma obra genial de Shakespeare ou se é um dramalhão mexicano, daqueles exibidos à tarde. Fico com a última opção, o que explicaria esta relação de amor e cegueira-útil que parece existir entre o público e alguns personagens nefastos e sem moral que munidos de peripécias impensáveis tentam a qualquer custo chegar ou manter-se no poder.

    Outro dia um amigo me dizia que estas montagens atuais de Shakespeare eram quase desnecessárias pois já não lançavam luz alguma sobre a História, já que o jogo atual que vivemos é muito mais potente. Em nosso país a vida ultrapassou a arte.

    As perdas sociais já estão anunciadas. O cinto vai apertar mais ainda para aquele que já está quase sem calças para segurar.

    E nas Artes?

    E para esta Deusa insana que ao mesmo tempo que traduz o humano ao Homem, coberta de louros,  é contraditoriamente a primeira a ser expulsa da festa?

    Os ventos já vinham anunciando a tempestade. Nestes últimos anos tivemos poucos avanços. Debates e reformas tão necessárias sobre as Leis para a Cultura não saíram do plano das ideias, programas, como o Cultura Viva por exemplo, andam sempre em caravanas anunciando para o futuro seu retorno glorioso. Mas o futuro não chega nunca. Assim como Godot.

    E mesmo assim é preciso defender o futuro.

    Sair às ruas.

    Dizer de que lado de estamos.

    Defender a democracia, o direito de dizer aquilo que precisa ser dito.

    E mais uma vez se preparar para torcer, sem quebrar.

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  • Por que deu errado, Botelho?

    No teatro soberana é a plateia, na democracia, soberano é o povo

    Postado dia 24 de março de 2016 às 00h em Cultura e Lazer

    botelho

    Foto: Reprodução/Internet

    Para mim ser artista é ser político. Não necessariamente partidário. Mas é político. Porque para ser artista de verdade é preciso tomar posições. Mesmo quando se faz um singelo espetáculo para crianças.

    E não é de hoje que a arte é muitas vezes utilizada como ferramenta de construção de um ideário político, haja vista a arte apolínea incentivada por Adolf Hitler como reflexo de sua Alemanha asséptica ou o Construtivismo Russo inspirando a criação de uma sociedade socialista.

    Tudo certo.

    Criadores e criaturas (para o bem ou para o mal) estavam em harmonia. Havia coerência.

    O que deu errado no triste episódio com o ator (???) Claudio Botelho que, em cena, durante um espetáculo com músicas de Chico Buarque, atacou o governo, a presidenta e se disse um rei que não poderia ser peitado por um negro, filho da p**** da plateia?

    O que deu errado foi a falta de coerência.

    Vamos fatiar os acontecimentos: Primeiro. O musical de Botelho tem patrocínio obtido através da Lei Rouanet e, embora a empresa diga em qual produto cultural quer investir, o dinheiro é público! É meu, é seu. Presta-se contas publicamente sobre ele ao Governo Federal. Segundo. Eram músicas de Chico Buarque! Todo mundo conhece a posição política do Chico Buarque e não é nem no branco do olho igual a de Botelho. Terceiro. Em sua opinião, Botelho deflagrou seu pensamento racista, preconceituoso, odioso e nojento. Quarto. Ele, e isto parece estar virando uma lógica do nosso momento atual, inverteu a ordem das coisas: se colocou como rei e subestimou a plateia.

    Não tem perdão.

    Somos, antes de mais nada, trabalhadores como qualquer outro, inclusive deveríamos receber dignamente por nosso trabalho como qualquer um (então para de chamar seus amigos artistas para uma palhinha, na faixa, para divulgar o trabalho) e no teatro soberana é a plateia, na democracia, soberano é o povo.

    Nada de mais Botelho ter sua opinião, seja ela qual for. Só que tem ter coerência. Não dá para cuspir no prato que se come. Fosse um musical com músicas do Lobão e da família Camargo (é o amor!) com apoio da FIESP e tudo estaria certo.

    Botelho, deu ruim pra você.

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  • O que é ser mulher em 2016?

    Neste momento, vem uma reflexão: quais são as pautas na mulher de hoje?

    Postado dia 9 de março de 2016 às 07h em Dia Internacional da Mulher

    mulher

    Foto: Divulgação/Internet

    Neste momento vem uma reflexão: quais são as pautas na mulher de hoje?

    Resposta difícil.

    Seria lutar para ter direitos que quando conquistados, parecem tão óbvios como salários igualitários para as mesmas funções exercidas?

    Seria lutar pelo direito ao corpo, mexendo em questões que pertencem a um imaginário de dogmas que acompanham a civilização há mais de 2.000 anos?

    Isto merece um parágrafo a mais no texto, porque que é algo muito complexo e demostra de modo exemplar quão louco é mundo em que vivemos: as vezes as mulheres lutam pelo direto a ter celulite.

    Pois é.

    Algo que 99,99% das mulheres tem.

    Mas de alguma maneira é proibido ter. Quando a moça funkeira mostra que os furinhos estão lá no vasto bumbum é quase o início da 3ª guerra mundial!

    Seria então ter o direito de ser gordinha? De ter o cabelo crespo? Liso? Black power total? Seria o direito de não ser perfeita segundo a ditadura de alguém?

    Seria ter o direito de ser mãe em público e amamentar ‘sem o lencinho’? Este ‘desconforto’ das pessoas com o assunto é tão absurdo que parece uma daquelas regras das sociedades previstas nos livros de George Orwell, onde o controle do indivíduo passa por uma assepsia representada pela vergonha com relação ao corpo e tudo aquilo que vem dele.

    Ou seria ainda o direito de usar shortinhos muuuito curtos nas sala de aula com direito a aparição na TV em horário nobre para defender a causa?

    Neste momento, vem uma reflexão: quais são as pautas na mulher de hoje?

    Acima listei alguns assuntos que com exceção da questão da amamentação e do aborto são, de certo modo, mais fáceis de contornar ou resolver. Porque  com um pouco de auto estima sempre poderemos dizer: F***** o cabelo é meu, o corpo é meu, a gordura é minha, a celulite é minha e eu vivo como quiser!

    Mas tem outras coisas que não podem ser ignoradas. Dias destes eu esperava o ônibus em dos terminais em Mogi e vi uma senhora pequena, menor que eu, que tenho 1,59m, vendendo doces e balas junto com o filho, um rapaz que deveria medir 1,70m mais ou menos, demostrando alguma deficiência mental. O rapaz seguia a mãe parecendo um cabide: com os sacos de doces e produtos pendurados nos braços, nas mãos, no pescoço.

    Fiquei olhando um longo tempo para ação dos dois.

    Para aquela mulher não existem pautas feministas. Ela não pensa se está acima ou abaixo dos padrões de beleza.  Ela interpreta um papel que para outros seria insuportável, e o faz com toda a dignidade que é possível ter nesta situação.

    Talvez por ser mulher.

    Feliz dia para todas nós.

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