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Peterson Queiroz

Profissão: Cineasta

Cidade: Suzano

Trabalhou com Carlos Reichenbach, Sérgio Bianchi, Sara Silveira e Marçal Aquino. Caio Gullane o colocou num estágio no "Encarnação do Demônio" (de José Mojica Marins). Fez “Eletrodomésticos” (Mostra do Filme Livre 2009, CCBB - RJ) com o ator e dramaturgo Mário Bortolotto. Criou um Estúdio Público de Cinema em Suzano (hoje fechado). Cursa Filosofia na UNIFESP. Está filmando “Triângulo Escaleno”, um longa. É ator, dramaturgo e um dos fundadores da Cia Vagabunda de Teatro.

  • Plataformas de Streaming: o canto do cisne do Cinema

    Amazon e Netflix travam atualmente uma batalha pelo estabelecimento de uma nova hegemonia: o triunfo do Video On Demand

    Postado dia 1 de fevereiro de 2016 às 01h em Cultura e Lazer

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    Seria bom pensar que os recursos aplicados pela Netflix para ampliar seu modelo de negócio e estabelecer-se como uma nova plataforma/janela de distribuição, que assim vêm injetando um novo gás na produção audiovisual do mundo todo (vide os fenômenos de “House of Cards” de Kevin Spacey e “Narcos”, com indicação de Wagner Moura ao Globo de Ouro), são um alento frente à hegemonia dos grandes estúdios e da dinâmica canhestra de se gastar praticamente a metade do orçamento de um filme num pacote de distribuição/exibição/divulgação para se alcançar números que, além de anabolizados e/ou distorcidos, estão tão longe de atestar uma real qualidade de filmes quanto de refletirem o sucesso de um modelo econômico do mercado audiovisual prestes a tornar-se obsoleto. E, no entanto, por que não é?

    Amazon e Netflix travam atualmente uma batalha pelo estabelecimento de uma nova hegemonia: o triunfo do Video On Demand, assumirmos em definitivo a completa derrota, com o fechamento de salas e a perda do lugar sagrado onde o filme todo é concebido para estar e ser apreciado com a máxima qualidade de som e imagem – além de, mais do que esta mera questão técnica, jogarmos a toalha também em relação à perda da magia de se sair de dentro de casa, este casulo cibernético cada vez mais individualista e emocionalmente anestesiado, para ganhar as ruas em busca de uma experiência extraordinária, em comunhão com cúmplices ainda assim também anônimos, mas de carne e osso, com seus perfumes e conversas deliciosamente capturadas pela vizinhança das confortáveis poltronas enquanto a luz sagrada invade as consciências, nos conduzindo a outra realidade e nos colocando diante de novos questionamentos e sensações, construindo afetos e imprimindo no tempo, para sempre, a gênese de um êxtase único, exclusivíssimo e particular. Digo isso pelo meu apreço quase que religioso ao ato de ir ao cinema. Sou uma pessoa que vai ao cinema com quem vai à missa. Como quem pretende ser arrebatado tal e qual (creio que a maioria das pessoas que vão ao cinema tenha um senso parecido com o meu). No entanto eu não duvido de que este novo modelo acabará triunfando mesmo. Gosto de ver a Amazon com certo respeito pelas pessoas, sejam realizadores ou cinéfilos, que entendem a importância da sala de cinema. Mas, quando isto interferir em sua margem de lucro, terão o mesmo pensamento? A Netflix é mais fria, menos apegada, sutilmente coloca na pauta jornalística termos como: “o importante é a obra ser vista pelo maior número possível de pessoas…” Porque mercado é assim mesmo: quanto mais, melhor. Não há preocupação com afetos, apenas com números.

    Assim sendo, não sei se podemos efetivamente comemorar. Minha irmã disponibilizou a assinatura dela para mim e claro que tenho acompanhado com deleite e muito conforto “Jessica Jones”, “Making a Murderer”, o spin of do fenômeno de Mr. Walter White e Jesse Pinkman “Better Call Saul” (por sinal quase tão bom quanto seu original, agora abordando o advogado mais picareta já filmado como um personagem de grande carga emocional e com curvatura dramática tão intensa quanto a do próprio personagem do recém-indicado ao Oscar Bryan Cranston). Poder ver tudo isso, além de filmaços, na hora em que eu quiser é fantástico, mas apenas com relação ao fato de que as TVs à cabo é que deverão dançar, com sua rigidez de programação, péssimo atendimento e elevados custos operacionais. De modo que acho um troço bastante inteligente e inovador. Mas mesmo assim me sinto mal. Porque estamos contaminados pela ambiência mercantilista e, como empresas de escala global que são, elas não terão, tanto Netflix quanto Amazon, o devido cuidado com a natureza da paixão que as pessoas têm pelo aspecto espetacular de se ver um filme, ou qualquer outro formato em que se possa acompanhar uma boa história, numa sala de cinema. Por outro lado, fizemos muito por perder este espaço. Como? Os grandes estúdios, igualmente contaminados pela lógica de mercado, dos números, dos recordes de bilheteria, dos fenômenos midiáticos e de marketing, anabolizaram tanto o sistema de distribuição e exibição de seus produtos (porque hoje são muito mais meros produtos comerciais do que efetivas obras de arte) que hoje começam a colher os frutos podres da corrupção de um valor tão caro às pessoas que deveriam servir: não se comercializa paixões, nunca dá certo monetizar afetos. E tome salas, mesmo as multiplex (antes tidas como o suprassumo da experiência de ir ao cinema) acumulando prejuízos singulares até mesmo com blockbusters, além de restrições cada vez maiores ao devido espaço que deveriam abrir para a produção autoral e aos chamados filmes de arte (principalmente os nacionais, mas mesmo os de fora do país agora). De modo que não é mesmo exagero falarmos em um trinfo da boçalidade e da prostituição de nossos afetos mais românticos. Senão, como explicar o absurdo da nova jogada de algumas empresas religiosas agora ao investirem pesado na produção audiovisual até termos vivido para presenciar o primeiro filme, “Os Dez Mandamentos”, assumidamente manipulado em termos de bilheteria por meio da maciça compra antecipada de ingressos, com salas vazias, numa tradução triste e obscena de tudo que tantos cineastas e produtores como eu vêm falando ao longo de anos e anos sobre o eterno descalabro que é a produção de Cinema no Brasil?

    Pois podem apostar que também este filão vai ser absorvido em breve pelas empresas de VOD. De modo que ficamos meio que sem saber se isso é bom ou ruim, mas meu palpite, infelizmente, longe de catastrofismos irresponsáveis e de assumir perspectivas meramente especulativas, é o de que o triunfo da boçalidade seguirá adiante. Pouco importa onde os filmes são exibidos? Será mantida a atual liberdade artística garantida pela novidade e pela segurança da internet com exibição doméstica de conteúdos? A TVs reagirão como? Os grandes estúdios entrarão nesta briga? E os produtores independentes, começarão também a aderir ao “salve-se quem puder” e, assim, vão também sucumbir? Tudo é muito obscuro. E nada será decidido com base no que é melhor para os apreciadores de Cinema e de boas histórias contadas com sons e imagens encantadoras, agora recém-convertidos em meros consumidores, num mercado que apenas se sofistica em seu cinismo para justificar perante o publico a sua única preocupação: a maior margem de lucro possível.

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  • Oscar/Bola de Ouro e demais jogatinas

    Novamente, a maioria de nós, como bem comportados cordeirinhos, convertidos em caricaturas tristes de Galvão Bueno

    Postado dia 19 de janeiro de 2016 às 00h em Cultura e Lazer

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    Eu fui um cara que cresceu consumindo futebol e cinema. Futebol e cinema brasileiros.  Mas também, muito mais por sinal (já que a capacidade de produção deles sempre foi infinitamente maior do que a nossa em termos de volume de investimentos e business), do invariavelmente mal afamado cinema americano. Propaganda imperialista, carro-chefe da revolução cultural capitalista, etc. Nunca dei tanta bola pra isso quando vibrava com Martin Scorcese, Francis Coppola, Spielberg (esse bem garoto-propaganda mesmo), mas sobretudo, Lynch, Cassavettes, Terrence Mallick, Jim Jarmusch, entre outros bambas. De modo que, pra mim, não há dúvida de que o cinema mais vigoroso feito até hoje seja mesmo o do país que se diz o mais poderoso do planeta e capitaneado pelo Obama como grande modelo progressista de modernidade e tolerância (pouco importando que eles liderem o ranking de população carcerária – que, como aqui, é majoritariamente preta e pobre – e também que colecionem massacres de grandes proporções, grande flagrante de que há algo de muito dolorido no seio da “América” – como se fossem um continente inteiro). A Major League, no entanto, não dá sinais de que vá roubar da NFL e seu Super Bowl, da NBA ou do Baseball o posto de grande fenômeno cultural esportivo de massa por lá. Mas por que este comparativo? O que uma coisa tem a ver com a outra? Estamos falando de espetáculos de massa e de ações que movimentam as maiores cifras monetárias do planeta. Mas, mais do que isso, há a tradução de um enorme vazio: a espetacularização do fracasso em escala mundial.

    puskasLonge dos holofotes, com apenas um pedido de autógrafo no tapete vermelho suíço, Wendel Lira, o David, enfrentou o Golias Messi e trinfou. Logo vieram dizer que era o triunfo do futebol de várzea, da essência perdida do futebol arte brasileiro sendo devidamente “resgatada”, “restituindo assim a nossa glória”, como bem disse Chico Buarque (no mais, outro ícone que não se deu conta ainda de seu anacronismo, à parte seu talento e sua história ou mesmo sua coragem em posicionar-se politicamente – mas que também sempre foi tão apaixonado por cinema quanto por futebol: não sei se ele ainda promove as peladas do Polytheama que, históricas, já contaram com Bob Marley e com meu brother Edvaldo Santana, entre outros). E, no entanto, acompanhei com surpresa o fato de que sequer um prêmio em dinheiro é concedido ao ganhador de qualquer um dos prêmios. Todos sabem dos escândalos em que a maior empresa de futebol do mundo, uma multinacional com chancelas de Estado, se meteu. Na verdade, muitos sempre souberam. Mesmo que milionários, como Messi, CR7 e Neymar (este prestes a ser investigado judicialmente na Espanha por envolvimento na negociata da própria transferência para o Barcelona), transferissem seus prêmios para instituições de caridade e/ou ação social espalhadas pelos seus países de origem, acho que daria sim para a FIFA separar uma parte de seus lucros biliardários e conceder estes prêmios, como contrapartida social mesmo. Mas não há qualquer dúvida de que isso não tem a mínima importância. Por essas e outras que, mais do que a Bola de Ouro de Messi ou se Neymar vai ou não ganhar isso daqui a alguns anos (e é claro que ele vai, mas não sei se conseguirei comemorar tanto quanto a derrota de Messi para o chapeiro de lanchonete de Goiás e jogador do Vila Nova da 2ª divisão do campeonato brasileiro), nunca veremos ser discutida, sim, a bola de ferro nos pés de Blatter, Valcke, Platini (que fim triste para um dos maiores jogadores de todos os tempos). Ou seja: não se trata de futebol, de arte, de transformação social e nem mesmo de entretenimento – porque trata-se simplesmente de Bu$ine$$.

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    E então chegamos ao Oscar. Novamente, a maioria de nós, como bem comportados cordeirinhos, convertidos em caricaturas tristes de Galvão Bueno torcendo por o “O Menino e o Mundo” (nada a discutir sobre o filme, que certamente honra nossa vocação de um dos países mais criativos e proeminentes em termos de cinema de animação em qualquer lugar do mundo), como se pudéssemos sonhar com alguma migalha caída do grande banquete. Eu fico pensando em hipocrisia. Os EUA comandaram a devassa na FIFA apenas porque não puderam participar da festa (leia-se Copa de 2018). Imagina se fossem investigar as transações milionárias no meio do cinema mais rico do mundo. Ou se caso se atrevessem a sondar o investimento pesado que a China faz atualmente em futebol e cinema (afinal, se vem dando certo há décadas, porque não copiar, não?). Mas não o fazem porque já não têm esse poder todo. E também porque não são burros: ainda podem estabelecer parceria comercial, potencializando seu vigor no processo geopolítico de transferência de poder para os asiáticos sem deixa-los abrir tanta vantagem. E então tome mais cerimônia do Oscar como grande recado norte-americano para o mundo de que “ainda podemos sonhar, lutar por um mundo melhor e corrigir todas as injustiças do mundo”. Pouco importa a esta altura do campeonato que seja a 2ª edição onde não há indicados negros para quaisquer das premiações (que também não conferem dinheiro aos seus vencedores – mas, neste caso, não precisa: a simples indicação já eleva o passe do jogador aqui, é ou não é?). Eu particularmente não chego ao ponto de ver todo o tipo de competição como uma verdadeira celebração da meritocracia, como algo que rouba a essência da fruição estética, quer seja a do cinema ou a do futebol. Mas então porque tudo isso incomoda a mim e a pessoas com o mesmo perfil ideológico que o meu: gente meio cascuda, que já não se ilude mais facilmente com nada e que abandonou a fé em qualquer tipo de instituição que não seja a do amor livre entre as pessoas e do sonho, e este sim possível, da comunhão, do ideário semi-utópico do aperfeiçoamento de nosso senso natural de comunidade?

     

    leoEu já vibrei com cada prêmio da Meryl Streep e do Jack Nicholson, dos ótimos roteiros da indústria americana, da disputa acirrada entre performers de cada setor de produção de um filme (por sinal, foi assim que comecei a aprender que meu ator predileto ou aquele diretor que todos amam não seria nada sem um intenso e super tecnológico trabalho de equipe). Eu também acho que o Leo DiCaprio merece ganhar esse falo dourado tão cobiçado pelo mais machista e materialista dos países do globo. Eu continuo me divertindo à beça com Mad Max, Vingadores, cheguei até a ficar curioso e a ponto de vencer minha preguiça pra conferir o reinício da franquia de Star Wars, tudo porque os caras dominam como ninguém essa parada quase paleolítica da jornada do herói: a essência é essa, não? Homens das cavernas em volta do fogo ouvindo histórias de mais uma grande caçada. Ou no coliseu romano ou na ágora grega, sempre sedentos pelo trinfo do bem contra o mal. Mas quando é que passamos a nos contentar com tão pouco? Quando é que vamos parar de almejar algo que não é para nós. Esta é uma festa para ricos. Como aquelas promovidas por fundações milionárias bancadas por grandes corporações para comprarem um pouco de paz de espírito por tanta exploração e apego material. Quando poderemos nos regozijar novamente, apenas pela beleza em si, com o gol de Wendel Lira, com Paulo César Pereio mandando palavrões tão bem quanto empresta canalhice para qualquer personagem de um modo que nem Marlon Brando conseguiria? Eu particularmente acho a Andrea Horta muito mais sexy e deslumbrante do que a super-mais-sexy-de-todos-os-tempos-do-planeta Scarlett Johansson.

    BhxWutnCEAAtEQ6Não se trata de desvalorizar o que há lá fora, fechando-se num nacionalismo míope perigosamente patriótico até. Mesmo porque, não há como: há tanta grana investida que acaba sendo impossível não reconhecer qualidade, mesmo que seja em aspectos meramente técnicos (e mesmo artísticos também, já que há também inúmeros artistas genuinamente talentosos em todos os campos do cinema e da arte em geral entre os compatriotas de Kevin Space e Robin Wright de House of Cards), em praticamente qualquer filme norte-americano.

    Trata-se, na verdade, de apreciar as coisas em seu real tamanho. Trata-se de buscar respostas. De recuperar a capacidade de sonhar, buscando novos vislumbres. De romper paradigmas e ousar produzir tão bem ou melhor que os detentores do poder econômico, não porque podemos ser melhores (eu até acredito que podemos, mas não se trata aqui de iniciar novamente outra competição). Mas porque merecemos ter mais à mão nossa melhor representação de nós mesmos. E sobretudo porque não merecemos que nos roubem isso.

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  • Cinema do Futuro: o que as pessoas esperam dos novos filmes?

    Creio que algo novo realmente pode surgir, embora os desafios também se amplifiquem e mesmo o desafio maior, ampliar o interesse das pessoas por algo efetivamente novo em termos de conteúdo, também deverá perdurar por muito tempo

    Postado dia 22 de dezembro de 2015 às 00h em Cultura e Lazer

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    Outro dia postei em minha página da rede social uma matéria com o grande Francis Ford Coppola falando sobre o cinema do futuro. E claro que ele não traz nenhuma novidade quando diz que definitivamente o 3D é coisa do passado. Lembrei-me de uma piada sobre isso que circulou também pela rede há um tempo, dizendo que o cinema do futuro já existe faz tempo e chama-se Teatro. Mas acho que o grande cineasta ítalo-americano, que foi de clássicos como a trilogia dos chefões a Apocalipse Now, passando por filmes menores, mas não menos importantes como “O Selvagem da Motocicleta” e “Peggy Sue: seu passado a espera”, até chegar a filmes ainda menores (em termos de investimento na produção, bem entendido) e independentes como “Tetro” e “Youth Without Youth” (numa tendência que pretende seguir e que chama a atenção pelo frescor e por não haverem perdas significativas em termos de seu sempre caprichado desenho de produção) trouxe ao menos algo novo. Coppola diz que o cinema do futuro será uma espécie de live act, filme ao vivo (e, de certo modo, teatro mesmo… rsrsrs), só que com uma superprodução espalhando câmeras, improvisação, direção de arte (enfim, tudo o que o cinema profissional sempre busca), mas tudo sendo rodado ao vivo e diante dos olhos do público, sem abdicar de ficar gravado para que também possa ser visto posteriormente “à moda antiga”.

    Vindo de quem veio esta informação e sendo eu um entusiasta tanto de hibridismos de expressões artísticas quanto de novidades em meio a tanto marasmo mercantilizado, não é que acabei vendo uma luz no fim do túnel? Não que eu acredite numa revolução em curto prazo, ainda mais se considerarmos que tudo tem seu preço e nunca é o público que acaba decidindo o que será e o que não será “o grande lance” daqui por diante. Mas creio que algo novo realmente pode surgir, embora os desafios também se amplifiquem e mesmo o desafio maior, ampliar o interesse das pessoas por algo efetivamente novo em termos de conteúdo (e não da mera forma), também deverá perdurar por muito tempo. Tanto que isto estimulou-me a refletir sobre essas projeções de futuro que tanto fazemos ao final de cada ano e que, de tempos em tempos, pretendem cravar algo que de fato vingará (e claro que não estou falando de Os Vingadores: esse modelo já vingou, né? Mas aqui podemos tentar ver como mesmo ele pode vir a tornar-se coisa do passado). Ou não? Enumero aqui 3 temas que acho serem interessantes em relação a esta reflexão sobre o futuro do cinema então:

    1- Já é um clichê um tanto batido dizer que o público é sempre “sedento por novidades”. Será mesmo? Neste momento as salas de cinema do mundo inteiro novamente sucumbem ao modelão blockbuster alavancado pela velha e boa Jornada do Herói e anabolizada pelo também velho e bom marketing americano que dissemina não apenas projetos biliardários, feito o dessa “nova” franquia Star Wars, como também todo um culto a este modelo por meio de Comic Cons e afins, gerando uma legião de fiéis adeptos consumidores. Alguém pode dizer: “mas, ah, Star Wars é um clássico! Você é muito chato!”. Veja bem: eu até gosto de conferir de vez em quando. Eu gosto de super-herois, de ver como os caras fazem algo tão extraordinário em termos de efeitos e etc. Mas faço parte do outro lado também. Por isso tenho certeza que para o estúdio que o produziu, é apenas mais um filme, um produto – claro, cercado de pressões e com tudo o que de melhor o dinheiro pode comprar, mas, em termos de produção e de projeto econômico de cinema, você acha mesmo que há diferenças significativas entre ele e os novos filmes de super-herois?

    2 – Outro clichê é o de acreditar que está ligado à tecnologia o futuro do cinema. E lá ficaram para trás as invencionices de Cameron com seus Avatares e Titanics faturando sempre alto sem que efetivamente alguma novidade chegasse pra podermos alçar em definitivo qualquer de seus filmes como sendo o tal “Cinema do Futuro” que tanto dizem que as pessoas querem, quando, na verdade, as pessoas continuam (e talvez sempre continuarão) interessadas mesmo é em boas histórias. Ou  será que não? Vamos seguir.

    3 – “As pessoas querem é boas histórias”. Tornou-se outro clichê também. Falaram há alguns anos em crise do roteiro. Pois quando houve a greve dos roteiristas, pra mim ficou provado que não: o público continuou indo pro cinema e não se desligou da TV, como se não fizesse tanta diferença assim a trama do que estavam vendo. Como roteirista e dramaturgo, particularmente eu acho que há muito o que se conquistar e explorar ainda em termos de experimentação sobre temas, personagens, situações mais complexas, linguagens e estruturação narrativa. Isso sem nem falar sobre o hibridismo com o qual mostro-me muito interessado ao ponto de acreditar que talvez seja, isso sim, uma possibilidade efetiva de se alcançar o futuro. Mas por quê? Digo isso porque o público parece ter sido vencido pelos departamentos de marketing dos grandes estúdios: eles sim os grandes deuses que determinam o que vai ser produzido e, portanto, do que você DEVE gostar e até O QUE VAI SER O FUTURO. A bola da vez. E então as pessoas fazem filas e elevam os índices de audiência destas coisas todas, como se fossem zumbis. Exagero? Não sei. Acho que poucas coisas efetivamente novas surgiram em termos de séries de TV e filmes. Ou seja, houve muita, mas muita mesmo, produção, mas pouca novidade se compararmos justamente com o volume desta produção e os bilhões gastos pra alavancar a produção do mais-do-mesmo.

    Então, porque me entusiasmo ainda? Porque ainda acreditar uma virada? Porque ainda ter esperança em coisas como essa que o Coppola disse? Creio que este modelo atual pode sofrer muita retração com o agravamento da crise econômica mundial e, simplesmente, pode então haver mais critério na hora de se decidir qual será a bola da vez. Business, com futuro ou sem futuro, sempre será Business, não é? Creio que a internet está tornando o público mais exigente e menos disposto a seguir a boiada. Creio que ela se tornou um problema grave. Creio sim que o público queira novas histórias, mas não só isso: também querem novas maneiras de serem contadas, querem novas experiências (e não só um par de óculos). Mais do que uma lente vermelha e outra azul, creio que o público esteja sedento mesmo é por algo vivo e pulsante, mas que também ultrapasse barreiras culturais e supere preconceitos, que o público tem agora mais interesse em acompanhar obras com proposições filosóficas mais densas, que possam abordar a religião, a intolerância, o preconceito, a política, mas de um modo novo, sagaz, podendo, inclusive, brincar com os clichês existentes todos em torno de cada gênero cinematográfico, inspirando-se no espectro muito mais amplo em termos narrativos e estéticos que o próprio Teatro tem. E tudo sem abdicar da clássica história de amor, ou do filme de tirar o fôlego entre uma ou outra correria, ou mesmo da coisa da superação de uma situação extremamente difícil e etc, etc, etc. Então, talvez, o futuro do Cinema esteja na experiência, algo que nos fascina há tanto tempo. Meu grupo de teatro, a Companhia Vagabunda, está iniciando pesquisas nesse sentido com nosso espetáculo novo: “Madrugether – cenas de uma noite que nunca termina”. Mas há grupos muito avançados nessa pesquisa já, como o hoje radicado na Alemanha (ou na Bélgica… não sei ao certo porque os caras rodam muito pela Europa toda), chamado Peeping Tom (quem quiser dar uma conferida no que estou falando sobre hibridismo de linguagens, dá uma conferida só no site dos caras e caia de quatro por querer saber quando será possível ver coisas assim por aqui ou mesmo dentro desse conceito novo de Cinema que o Coppola falou. Eis aqui o link: http://www.peepingtom.be/en/). Assim, pra mim, o cinema do amanhã é o futuro do pretérito. Do contrário, continuaremos agregando sempre novas peças para o velho Museu de Grandes Novidades que o Cazuza bem falou. Agora, se vão ou não botar dinheiro suficiente pra coisa acontecer como merece, aí já é outra história, claro.

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  • Sobre poder público e cultura

    Acredito que artistas e produtores culturais deveriam aprender a se virar efetivamente sozinhos e sem nunca se deixar corromper, do contrário serão sempre presas fáceis de empreitadas envolvendo negociatas milionárias e marketing

    Postado dia 1 de dezembro de 2015 às 00h em Cultura e Lazer

    Com grande surpresa recebi um convite para compor algo chamado Câmaras Setoriais de Cultura na cidade de Suzano. Recusei-me. Porque trata-se do poder público deliberadamente escolhendo outra vez como, quando e com quem vai conversar sobre o que quer que seja –  ainda mais dado que este é o último ano de mandato (e, portanto, já um ano de campanha eleitoral em que eles são obrigados a ao menos fingir que realizaram algum investimento em Cultura). Assim, no raciocínio pragmático peculiar das pessoas amarradas neste tipo de situação (remuneradas mais pra isso do que para servir ao povo), nada mais justo do que eles escolherem bem quem, entre os artistas, é corruptível o suficiente para se vender e trair seus pares por uns míseros trocados que sejam.

    Afinal, o modus operandi já é clássico em nosso país e não só na área da Cultura: primeiro sucateia-se tudo até que não haja mais qualquer perspectiva de trabalho no setor (com ou sem dinheiro público envolvido), em seguida, com a miséria implantada, escolhe-se a dedo quem é capaz de qualquer coisa para defender um projeto que exclui aos principais interessados (trabalhadores e população) em troca de uma ou outra migalha caída de cima da mesa do grande banquete, virando as costas para colegas ao lado de quem costumavam caminhar juntos antes. Assim, seguimos nossa triste sina de descaminhos e estagnação nas mais diversas áreas e, de modo muito implacável, na área da Cultura que, juntamente com a Educação, merece especial atenção por parte dos altos escalões de poder de municípios, estados e mesmo do país – afinal, pra que correr o risco de sentir na pele aquele ditado espanhol que diz que não se deve criar corvos porque eles lhes bicarão os olhos depois, não é? Agora, um breve histórico pra que fique ainda mais clara a falta de compromisso por parte de uma Secretaria de Cultura para com a população a quem deveria atender:

    Em 2012, no apagar das luzes da gestão anterior e após quatro anos de negociações representando o segmento das pessoas interessadas em desenvolver o Cinema e o Audiovisual não apenas na cidade como em todo o Alto Tietê (no extremo leste metropolitano paulista), finalmente foi inaugurado um projeto tímido (mas revolucionário): o Estúdio Público de Cinema de Suzano. Depois de ter trazido Carlos Reichenbach, Zé do Caixão, Sara Silveira, Paulo Betti e Caio Blat para cidade (entre outros monstros sagrados de nosso cinema nacional), finalmente teríamos oito meses para produzir o que quiséssemos (não sabíamos que eram apenas oito meses, pois confiávamos na reeleição da administração da época, o que acabou não acontecendo). Caio Blat mesmo disse a nós todos que, naquela época (hoje existem vários, alguns inclusive se inspiraram neste meu projeto, em várias cidades do país), nunca havia visto algo tão revolucionário. Pois, tão logo a atual administração desta cidade assumiu, eles já enfiaram um cadeado lá e o mantém fechado até os dias de hoje, passados quase quatro anos (ouvi dizer outro dia que o local já tinha virado depósito de pinturas exatamente como era antes de ter sido reformado e equipado para a produção audiovisual de um modo totalmente democrático e aberto para quem quisesse produzir filmes na cidade – o que aconteceu no breve período em que estive à frente dele, até o término do mandato). Então, que lições tirei disso como artista e produtor independente e autoral?

    A principal delas é que não é mais possível acreditar em ilusões. Também acredito que artistas e produtores culturais deveriam aprender a se virar efetivamente sozinhos e sem nunca se deixar corromper, do contrário serão sempre presas fáceis de empreitadas envolvendo negociatas milionárias e marketing (seja político ou envolvendo empresas que faturam milhões com a terceirização criminosa das ações culturais executadas de modo precário e enganoso – como a da atual secretaria de cultura de Suzano, por exemplo). E também aprender ainda que a crise de representação político partidária generalizada sempre costuma sangrar, sem dó, sonhadores desavisados (como os trabalhadores da Cultura, de um modo geral, em qualquer lugar do país).

    Em tempo: acabei de lançar hoje minha campanha de arrecadação de fundos para cobrir gastos com a produção de um curta produzido junto a artistas lutadores sem qualquer apoio ao seu trabalho de quem quer que seja, assim como eu. Eu pessoalmente não vou recolher um centavo deste dinheiro, porque assim o valor arrecadado não seria suficiente para “remunerar” minimamente o generoso trabalho dos atores e nem ressarcir a equipe que tirou do próprio bolso os custos de alimentação, gasolina, produção de arte, etc. Era um curta-metragem, mas com mais um dia de filmagem em externas creio que, como resposta a tanto descaso e desrespeito com os artistas e trabalhadores da Cultura da cidade de Suzano (e acho que também posso dizer das cidades vizinhas, onde mais ou menos acontece a mesma coisa), o filme será o primeiro longa-metragem a ser lançado em nossa região sem qualquer apoio público ou privado e, portanto, totalmente independente e coproduzido por pessoas que se sensibilizam com nosso descaso e que sabem fazer a diferença quando é necessário. Então, agradecerei infinitamente se alguém puder colaborar (em quaisquer das modalidades disponíveis, bem acessíveis por sinal). Ajude-nos a dar uma resposta artística à exploração e ao sucateamento da Cultura não apenas em Suzano e região, mas na esmagadora maioria das cidades de nosso país. O link é este:

    http://www.banque.com.br/campanhas/triangulo-escaleno-curta-metragem

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  • A vida e as mortes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão 

    Mojica não é apenas um autor, um homem de cinema que criou todo um universo dentro do gênero do horror. Trata-se de um gênio

    Postado dia 16 de novembro de 2015 às 08h em Cultura e Lazer

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    Em 2006, através dos produtores Paulo Sacramento e Caio Gullane, tive o privilégio de ingressar na equipe do longa-metragem em película 35mm “Encarnação do Demônio” – o aguardado retorno de José Mojica Marins. Foi minha maior experiência no cinema, tendo trabalhado ao longo de três meses ali executando todo o tipo de tarefa em todos os setores da criação. O que mais se pode falar sobre este que é, sem dúvida, um dos nossos maiores mestres do cinema brasileiro? Que nunca o havia visto desta forma até ler “Cinema de Invenção”, de autoria de Jairo Ferreira.

    Vejam que até então eu era apenas um carinha muito apaixonado pelo cinema, mas que ainda não conhecia a fundo o nosso cinema, tendo crescido sob a luz do velho e bom filmão norte-americano (sobretudo dos anos 60, 70 e 80) e também a de vários mestres europeus como os alemães Herzog, Wenders e Fassbinder, dos italianos Antonioni, Fellini, Scola, Rosselini e Monicelli, dos franceses Godard, Truffaut e Louis Malle, além de Polanski, Tarkovski, Peter Greenaway, Kiarostami, Kurosawa e Ozu.

    De modo que eu tinha, digamos, um paladar relativamente apurado. E talvez até demais pra ver aquele amontoado de bestas-feras toscas em preto e branco sem, do alto de minha arrogância juvenil, achar um “grande exagero” o apreço de tantos pelo cinema de Zé do Caixão como um autor sério – e, claro, sentenciei isso sem ver sequer um filme dele, como é de praxe com pessoas metidas a besta como eu era. Porque, quando li Jairo dizendo que talvez ele seja nosso maior mestre, fiquei intrigado e só então decidi conferir. E continuei não gostando de seus filmes – talvez porque não tivesse como apreciar aquilo depois de tantas referências tão distantes daquele desfile mórbido e precário que Mojica oferecia como um banquete para a horda de fãs sedentos por algo realmente original. No entanto, há algumas questões muito importantes que eu não considerava, mas que elencarei a seguir.

    M12231676_10207614087540791_338361369_nojica não é apenas um autor, um homem de cinema que criou todo um universo, dentro do gênero do horror. Trata-se de um gênio que, de um modo absolutamente original, criou uma espécie de expressionismo barroco, calcado em nosso sincretismo religioso, fundando toda uma representação do macabro diretamente do 3º mundo que ganharia o mundo, conquistando até a admiração de outro grande nome do gênero: George Romero. Como Roger Corman, Mojica também escrevia, dirigia, produzia e atuava nos próprios filmes sempre com o mínimo de condições, criando uma personagem que ganharia o mundo do mesmo modo que… Charles Chaplin. Mas Mojica fez tudo isso sem nunca ter tido nem 10% dos recursos que o criador de Carlitos teve nas mãos, movimentando multidões tanto pra ver seus filmes como também para produzi-los (em seus quase folclóricos “testes de ator” envolvendo choques elétricos e toda sorte de animais nojentos como baratas, ratos, cobras, aranhas, etc).

    Mojica ainda fez tudo isso em plena ditadura militar, sendo que, por exemplo, seu “O Despertar da Besta/Ritual dos Sádicos” (1969/70) acabou levando mais de 10 anos para chegar às telas – ainda assim apenas em mostras, sem nunca ter sido lançado comercialmente e com os generais não contentando-se apenas em engavetá-lo: queriam destruir inclusive os negativos, aniquilar a obra.

    Assim, convidado pelo Sociedade Pública para iniciar um contato com os amantes do cinema porque, de certo modo, me inspirei na capacidade de produção do mestre do terror (e também em Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, além do grande Glauber Rocha) para tentar alavancar a produção de cinema do extremo leste paulista (região do Alto Tietê), não havia como inaugurar esta missão sem falar de nosso grande herói, conhecido no mundo todo como Coffin Joe, e que agora ganhou exposição no MIS – Museu da Imagem e do Som (onde são apresentados materiais de seu último filme, no qual tive a honra de ser creditado como estagiário de produção, e também de outros mais de 400 itens – como fotografias, objetos cênicos, figurinos e trechos de filmes – que relatam peculiaridades do cineasta: como ter sido candidato a vereador, entre outras histórias). Por tudo isso ele é, sim, um de nossos maiores mestres do cinema brasileiro autoral e independente. Mas recentemente deu entrevista à folha dizendo que será logo apagado pela figura que criou, como se seus feitos como homem de cinema fossem ofuscados pela criatura mítica que o marcará para sempre. Mas, no que depender dos amantes do cinema e dos novos cineastas que fazem a lição de casa e sempre buscam boas referências para o seu trabalho, de modo algum, caríssimo mestre. Viva José Mojica Marins – o gênio por trás de Zé do Caixão!

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