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Pedro Henrique

Profissão: Filósofo

Cidade: São José dos Campos

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante; não coloca-se em nenhum enquadramento ideológico, todavia se considera conservador num sentido mais amplo que a mera opinião política e filosófica, para ele o conservadorismo é um modo de vida não uma escolha político-ideológica.

  • O livro e a fogueira

    O mundo tem medo de quem escreve, porque quanto mais escrevemos mais fica claro que as palavras ditas se tornam volumosas demais para carregar a realidade

    Postado dia 25 de novembro de 2016 às 08h em Sociedade e Política

     

    livros

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    Há pouco tempo estava estudando a história da Rússia, e passando pelos horrores das décadas comunistas que se seguiram à revolução de 1917 pude constatar o medo crescente do governo frente aos intelectuais e seus escritos; em 1920 houveram grandes queimas de livros, tudo porque o partido bolchevique considerou aquelas obras “decadentes” e “contra-revolucionárias”.

    Práticas semelhantes aconteceram na biblioteca de Alexandria (330 a.C), na Inquisição espanhola (1499), na Alemanha nazista (1933 em diante), entre outros casos que poderíamos citar. Ainda que cada um desses tenham sido motivados por ideologias ou concepções diferentes, com justificativas e pontos de vistas variados, eles são concomitantes no que se refere à ideia de que um livro possui em si uma alta periculosidade às ideias que se impõem naquele momento.

    A realidade é que quem escreve possui em mãos um poder nunca antes nominado; a escrita carrega consigo uma arte pura, uma arma contra qual não há defesas equitativas. A articulação de símbolos, a convergência semântica, os encaixes vocálicos, gramaticais e ortográficos, são apenas alguns átomos que compõem este grandioso saber.

    O que nos resta são os questionamentos: o que os bárbaros viram nos livros que o ameaçavam, o que os nazistas entenderam ser o perigo tão latente que estava em papeis tão vulneráveis e frágeis?

    A escrita traz consigo um mistério. Como pode uma arma tão grande sublimar-se em um objeto tão fraco, como pode papeis tão debilitáveis tornarem-se trincheiras tão vigorosas em meio a guerras sangrentas, mísseis e bombas atômicas? Talvez seja porque o livro consegue amalgamar ideias colossais em um espaço de apenas 23,2 x 13,4[1]?

    Talvez a arte da escrita esteja relacionada à guerra que não finda com um tiro, com uma bomba qualquer? Não sei ao certo, mas sei que arte da escrita vai muito além dos campos de concentração: a escrita descreve em minúcias. A escrita desnuda o imundo em formas simbólicas tão reais e cruentas que chega a ser nojento; necessariamente nojento.

    Muitas obras foram elevadas a pira, trincheiras de ideias foram perfuradas e destruídas. Mas nós somos a evolução da guerra, somos os homoscriptum, aqueles que destroem ditaduras pelo poder da crítica, pelo desvelar dos lupanares da devassidão política. Somos aqueles que, depois de uma granada atirada, depois do terrível estalido de um bombardeiro e da carne perfurada, pegam a pena — ou ligam o teclado — para descrever poeticamente a dor que se sente sem poesia.

    Quando calam um escritor, mil outros surgem. Se Orwell sofreu e chorou em cima de sua máquina de escrever, foi porque, quando o mundo se emudeceu frente às ideologias, quando tornou-se surdo aos gritos dos gulags, ainda sim poder-se-iam ler os protestos que não conseguiram calar.

    O proibido não era fumar maconha, como nos anos 60, o proibido não era fugir com o namorado no meio da noite, o proibido era portar 1984 na União Soviética, era falar da obra Dialogo Sopra I Due Massimi Sistemi Del Mondo de Galileu Galilei na Itália católica, e defender o heliocentrismo como uma ideia plausível.

    Foto: Cena do filme "1984", baseado no livro "1984" de George Orwell

    Foto: Cena do filme “1984”, baseado no livro “1984” de George Orwell

    As artes mais belas, por muitas vezes, foram criadas sob a luz de velas num porão sujo e escuso do mundo; numa realidade vomitada e encardida da existência. Muitos dos versos que hoje lemos comendo cookies foram escritos em jejum numa cela da Sibéria[2].

    Quem já se aventurou em Ilíada, quem já passeou pelos campos do condado, quem já quis ajudar Winston e Julia a seguirem em seu romance, quem já ofereceu ajuda a Jean Valjean para carregar Marius pelos esgotos de Paris, quem já passou uma hora para entender uma página da escrita difícil e primorosa de Faulkner, esses bem sabem o que é arte.

    O mundo tem medo de quem escreve, porque quanto mais escrevemos mais fica claro que as palavras ditas se tornam volumosas demais, secas demais, insuficientes demais para carregar toda a desconcertante e bela, toda suja e magnífica, toda exuberante e pestilenta realidade do mundo.

    A escrita é feita de muitas certezas, certezas que se autoanulam, muitas vezes, é verdade, mas que ainda encantam e fazem seus seguidores. A escrita foi feita para todos, é uma arte que transpassa classes sociais, as ideologias defendidas e as crenças vividas.

    A escrita é feita de códigos simbólicos que de alguma maneira antropomórfica — porque Deus também escreve — se avolumam aos sentimentos, à racionalidade e as intempéries tipicamente humanas. E dessa feijoada de inconsistências divinas e humanas surge, entre vírgulas e crases, consolos espirituais, respostas aritméticas e sonhos “indizíveis”.

    Para que soubéssemos que a biblioteca de Alexandria foi incendiada foi necessário que um escritor nos contasse; para que a salvação se fizesse real no cristianismo, o Verbo se fez carne.

    [1] Citando as dimensões do catálogo das obras, e comentários às obras, de Eric Voegelin pela editora É Realizações.

    [2] Referência à obra Recordação da Casa dos Mortos de Dostoievski, que foi escrito quando estava em seu exílio na Sibéria.

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  • O filósofo conservador                 

    O filósofo conservador é aquele que não deixa que aglomerações de apaixonados lhe convença de algo

    Postado dia 11 de novembro de 2016 às 09h em Sociedade e Política

     

    filósofo

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    O bom de ser conservador no Brasil é que você sempre terá que conhecer as mais variadas matrizes opinativas, isto é, prós e contras as suas convicções. Isto é um imperativo para quem se considera conservador — pensando o conservadorismo como uma condição de ser, e não como estereótipo político ou casco partidário. Se és um conservador brasileiro, então é preciso conhecer com certa destreza as posições argumentativas de Leonardo Boff, por exemplo, é preciso conhecer bem Paulo Freire e todo seu catecismo pedagógico, é preciso conhecer o ecumenismo/sincretismo enfadonho de Frei Beto, justamente porque é muito fácil estes indivíduos tornarem-se diretrizes de provas e assunto de jantares de “inteligentinhos”. Agora, pensem comigo, quando que uma prova do ENEM, por exemplo, citará Visconde de Cairu, Joaquim Nabuco, Nelson Rodrigues e João Camilo. Quando que abordaremos, por exemplo, a perspectiva de ideologias políticas nas concepções de Eric Voegelin em nossas escolas; a crítica ao pensamento universitário em Thomas Swell em nossas universidades; poderiam imaginar um tema que abordasse a crítica à teoria de gênero em Camille Paglia em nossa mídia?

    Pois é, enquanto nós conhecemos muito bem as teorias de nossos oponentes ideológicos — por interesse, às vezes; por necessidade, quase sempre —, eles mal sabem conceituar o conservadorismo sem ligá-lo burramente ao fascismo e ao nazismo. E, quando fazem tais ligações, ainda saem com peitos estufados achando que conceituaram com maestria aquilo que não conhecem nem por fagulhas. O típico conhecer por reflexo; o típico, e já gasto, conhecimento de superfície.

    Quanto mais passa o tempo, mais eu me convenço que ser conservador não é uma escolha política, é uma necessidade contemporânea. Ou sou conservador e mantenho a sanidade do real, ou me perco em meras modinhas momentâneas e costumes efêmeros ditados por megas corporações e mídias compromissadas a montarem seus próprios status quo. O que mais existe, atualmente, são teorias que mais parecem pirotecnias filosóficas feitas para agradar doutores, do que reais reflexões que buscam chegar a uma conclusão sensata sobre um fato observado. Deus não permita que eu faça filosofia para agradar partidos, egos e diretrizes de falsas tolerâncias; Deus permita que eu nunca seja um filósofo de holofotes e de aplausos militantes. O filósofo não nasceu para ser aplaudido, o filósofo nasceu para incomodar com suas reflexões, para mexer nas bases das convicções cegas e, por vezes, mostrar que ser revolucionário em busca de miragens trata-se de uma insanidade adolescente, não de um ato de crítica e mudança de paradigmas.

    Quando um filósofo começa a ser ouvido ele ganha seguidores, admiradores e inimigos. Mas nunca um verdadeiro filósofo, comprometido com aquilo que ele conheceu e admitiu como verdade, se deixará conduzir por vontades doutrinadoras, por poderes monetários ou utopias políticas. Um verdadeiro filósofo não vende sua consciência para agradar grupos politizados, um verdadeiro filósofo não deprava suas ideias em troca de sorrisinhos, tapinhas nas costas e lugares de honra em comícios. Feliz do pensador que não se adéqua aos gritos de guerra e nem precisa levantar punhos cerrados para convencer seus seguidores da grandeza de suas ideias.

    O filósofo, para mim, é um homem que senta-se diante da realidade crua, nua, fétida, pútrida e com isso ele lida diuturnamente; é com isso que ele vai trabalhar, é isso que ele irá nos descrever e por vezes propor um caminho de sanidade. Sim, ele proporá soluções, mas o conservador será consciente que sua solução não é imaculada e nem a única, é apenas mais uma tentativa — a mais certa de todas, é óbvio —, mas apenas mais uma.

    O filósofo é um bom homem sentado numa poltrona, com um bom cachimbo na boca e uma boa caneca de cerveja belga nas mãos, olhando para a realidade numa serenidade desconcertante e, por vezes, numa profunda depressão sem igual. O filósofo conservador é aquele que não deixa que aglomerações de apaixonados lhe convença de algo, é antes papel dele convencer a eles que militar sem conhecer é burrice. O filósofo conservador, por fim, é aquele que conhece ambos os lados do debate, e por conhecer ambos os lados sempre opta pelo lado certo.

    Só sabendo o que há além das duas portas poderão dizer qual delas é a melhor escolha. É justamente este o problema do brasileiro, ele engendra todas as suas forças militantes numa marcha convicta rumo à porta larga dos militantes, dos gritos histéricos e dos diretórios políticos; fazem isso jurando conhecer a verdade. Mal sabem que a verdade está além da porta estreita do conhecimento e do ardor pela sabedoria; mal sabem eles que é mais fácil optar pela porta estreita depois que se conhece a militância burra da porta larga, mal sabem eles que a estreiteza da porta do conhecimento é justamente estreita porque não foi feita para militantes e multidões ideologizadas, mas para os obstinados homens de valores e virtudes que, diante de suas consciências solitárias, optam pela prudência e sensatez da realidade sem histeria.

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  • Homem, o mais divino dos animais

    Nenhum outro primata pode chorar com uma poesia. Nunca um macaco poderá sentir o nó na garganta após ouvir um concerto de Bach

    Postado dia 7 de novembro de 2016 às 09h em Sociedade e Política

    homem

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    O homem sempre foi um objeto de disputa na filosofia. Desde a Paideia até o indivíduo utilitarista Stuart Mill, sempre encontrou muitas definições, funções e aporias na constituição de si próprio. Muitas teorias tentam explicar aquilo que é do homem, suas características principais, suas atribuições mais basais e aquilo que faz em suas atuações mais intrínsecas.

    No entanto, no último século, e especialmente a partir de Darwin, iniciou-se um movimento de animalização do homem; tudo baseia-se em aproximar o máximo possível o homem do animal. Não que sua origem não tenha sido o reino animal; Aliás, não que ele não seja de fato um animal, apenas paramos de admitir que ele é um animal esplêndido, totalmente diferente em suas capacidades de interação, intelecção e ética.

    Não se trata de discutir se o homem veio de um anfíbio, de uma ave ou de um primata comedor de banana, ou se surgiu do barro africano sendo moldado pelas mãos de um Deus. Creio que, na verdade, Deus tem muitas formas de falar. Em suas muitas formas de didática, dirigidas a Moisés e seus profetas por volta de 1000 anos a.C, ele não apresentou nenhuma aula de biologia genética ou de história das espécies.

    Um milagre não deixa de sê-lo se leva um segundo ou um milhão de anos para se concretizar; se o homem veio do barro ou das algas marinhas, não importa neste texto, o que importa é que ele veio com uma capacidade totalmente espetacular e diferenciada de qualquer outra espécie.

    Não importa como ele evoluiu, e não me importa agora de qual primata viemos, o que me importa é mostrar-lhes que nenhum outro primata pode chorar com uma poesia, nenhum orangotango pode olhar formas geométricas num papel, formas estas que engendram uma sonoridade em nossas mentes e um calor em nossa alma, levando-nos a desfrutar de um êxtase quase que nupcial entre o espírito e o belo.

    Ao findarmos tal experiência, nos deixamos contaminar por uma emoção sem igual, quando Flora morre em seu leito ensolarado, deixando Pedro e Paulo à mercê de suas brigas políticas; quando Jean Valjean, andando com Marius Pontmercy nas costas, atravessa todas as vastas canaletas de esgoto de Paris, com o único e suntuoso intento de ver vivo aquele que outrora o perseguia. Nunca um macaco poderá sentir o nó na garganta após ouvir um concerto de Bach, ou lacrimejar após assistir o pôr-do-sol ao lado de sua amada. O filme Planeta dos Macacos foi feito por uma inteligência humana, acreditem ou não.

    O que eu quero salientar aqui é a divindade na racionalidade e na constituição mais profunda do homem; desde a superfície mais mesquinha de nossos egos defeituosos, até os mais cavernosos assentamentos de nossa existência divinizada, existe algo que nos torna mais que meros animais errantes, mais que instintos em busca de metas pré-determinadas.

    O fato mais simples que podemos constatar é que os humanos pré-históricos desenhavam cavalos nas paredes das cavernas. Isto significava que eles davam valor aos cavalos. Por mais assustador que possa parecer, cavalos não desenham humanos em seus estábulos, e devemos nos conformar a isto. “A arte é assinatura do homem”[1].

    Não que os animais, sendo inferiores a nós enquanto matéria racional, nos autorizem a sermos desumanos com os animais. Todavia, não devemos ter vergonha de reafirmar nossa grandeza humana peculiar, ser mais que mero animal não desumaniza o que já não é humano.

    O que eu quero afirmar neste artigo é que devemos nos dar conta que a humanidade é sagrada, e que mesmo por entre tropeços nojentos e atitudes abjetas, nossa razão, que já amontoou corpos com escolhas erradas, é capaz de amontoar belezas com as escolhas certas. A beleza de ser humano jaz na grandeza de sermos livres.

    Enquanto os cisnes são livres em suas determinações instintivas, nós somos mais que mero instinto: somos a fusão de vontade e racionalidade, desejo e valores. O cachorro, quando está no cio ele não pode escolher não coabitar; cruzar com a fêmea é uma necessidade e um imperativo cravado em sua condição de ser cachorro. Nós, diante de uma mulher nua, podemos nos recusar ao coito. Isso porque damos sentido aos nossos atos, somos mais que meros instintos sexuais.

    O animal não ama, pois somente quem é capaz de escolha também é capaz amar, somente quem pode escolher não trair sua esposa é capaz de amar além do sexo casual. O ser humano, em algum momento estranho da história das espécies, resolveu cruzar aquela pirambeira da existência, em algum momento o homem foi capaz de ousar escolher ser mais que instintos e pré-determinações.

    Em algum momento estranho, diante de uma bela mulher nua, o homem resolveu não acasalar, pois decidiu que era o momento de iniciar uma vida casta e regrada. Neste estranho momento, o homem tornou-se mais que um lobo, mais que um cervo. Só os homens escolhem livremente não transar.

    As filosofias modernas tentam nos mostrar um homem animalizado, bruto e banal, ao mesmo tempo sensível o suficiente para não comer um bife em favor de uma vaca; homem que tornou-se capaz de falar com samambaias e ignorar mendigos. O homem que, cada vez mais animal, esqueceu-se de pensar no ser humano. Confesso que a humanidade muitas vezes nos enoja. Eu lido com o ser humano diariamente em minhas reflexões e, deveras, muitas vezes da vergonha de ser dessa espécie.

    Lembro de Hitler e me dá vontade de desistir da humanidade, mas o que ele fez senão desistir da humanidade e taxar os judeus de animais? Simplesmente não posso desistir da humanidade. Ora, para 2 Hitlers que nasçam, que venham mais 30 Madres Teresas; que para 10 Stalins que surjam, que venham mais mil São Franciscos de Assis.

    Se amanhã eu achar que sou apenas mais um animal, talvez apenas esteja preparando desculpas para mais campos de concentração – afinal, o que foram campos de concentração senão matadouros para humanos?

    O risco de não sermos superiores aos animais é amanhã nós sacrificarmos nossos filhos que estão com catapora com a mesma desculpa que usamos para matar cachorros com raiva. Talvez, amanhã, alguma ONG naturalista de defesa dos animais proponha trocarmos os camundongos de laboratórios por fetos descartáveis ou órfãos esquecidos. Afinal, não somos mais que meros animais.

    [1] CHESTERTON, G. K. O homem eterno, Ecclesiae: Campinas, 2014, p. 38

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  • Entre a vaca e o feto

    A proibição da prática da vaquejada chama atenção para uma contradição: a decisão vem do mesmo país que encerra num direito garantido o aborto

    Postado dia 28 de outubro de 2016 às 09h em Sociedade e Política

    vaca

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    Chesterton disse, certa vez, que na modernidade teríamos de provar que a grama é verde e que a água é molhada. Está acontecendo, meus caros. A cada dia que passa, o banal ganha ares de normalidade e o absurdo torna-se o arroz com feijão. Pois bem, ainda que seja um movimento natural e teológico — ou melhor dizendo, escatológico — da loucura do mundo, a perversão do que é correto em busca de uma ortodoxia do acaso desconexo, a procura por uma baderna dos princípios — ou da ausência deles[1] —, não posso suportar certas inversões de valores. Aliás, não posso, não devo e não irei.

    Há alguns dias, acompanhamos a decisão do Supremo de proibir a prática da vaquejada em todo território nacional, o que penso ser uma decisão acertada: não acho justo torturar um animal pelo prazer insano de uma diversão. Mas, ao mesmo tempo, não acho que o prazer insano de uma diversão desmedida justifique um aborto, por exemplo. No primeiro caso, a esquerda lutou com garra para a criminalização, na segunda ela luta com garra para a descriminalização. O que me leva a questionar se, para a esquerda brasileira, a vida humana não vale menos que a de uma vaca.

    Tratando do aborto de maneira geral, em que o suposto direito da mulher dá-lhe o direito de abortar em qualquer situação que lhe aprouver, vemos verdadeiras contradições de termos e prioridades em suas lutas. Percebemos, neste distinto momento de nosso país, que a esquerda erigiu certas prioridades frente a outras.

    Quando num texto o autor acaba tendo que comparar a importância da vida de uma vaca frente a de um feto humano, e não venha me falar que não é humano ainda – nunca vi o coito entre humanos gerar cavalo marinho, então o feto é indissoluvelmente ser humano, quer queira quer não queira sua filosofia idiota. Temo que estejamos com algum problema em reconhecer a dignidade humana em comparação à de uma vida animal

    Poderão dizer que o fruto dessa comparação entre a vida de uma vaca e de um feto humano é minha, e não de nenhuma ONG ou partido. É bem verdade enquanto argumentação direta, até porque, creio eu, não é nada inteligente comprar as duas dignidades. Mas tal comparação se faz possível e plausível quando olhamos panoramicamente as ideias e princípios defendidos pela a esquerda “oba oba”; quando percebemos que há lutas intensas contra vaquejadas, ao passo que há lutas intensas para a legalização do aborto, creio estarmos autorizados a pensar em quais firmamentos estão alicerçados nossas convicções. Pensemos em quantas investidas tivemos pró-aborto na última década, pensemos em quantas políticas rodeiam nossos congressos tentando encerrar, numa política pública, a morte de fetos como direitos das mães.

    Hoje não entrarei no mérito do aborto, o que devo fazer em breve em outro artigo. O que quero destacar é a clara realidade no qual vivemos, um país que acha um absurdo a vaquejada ao mesmo tempo que encerra num direito garantido o aborto. Devemos nos questionar sobre a sanidade de um país quando salvamos bois e matamos bebês!

    [1] Para entender meu pensamento neste assunto, leia: https://medium.com/do-contra/os-pilares-da-sociedade-e-os-ide%C3%B3logos-361316e4847e#.6ohm4y8y4
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  • Eu tento não gostar de Temer, mas ele não colabora

    Tudo que o presidente da República propôs como emergência e passos a serem seguidos, até o momento vem cumprindo

    Postado dia 21 de outubro de 2016 às 11h em Sociedade e Política

     

    temer

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    No dia 18/10 fomos agraciados com um dos acertos mais gritantes do governo Temer. Através da sua bancada na Câmara dos Deputados: a liberação de 1,1 bilhão[1], para o FIES e ENEM, foi votada e passou, agora o próximo passo é a sanção do presidente. Tal medida é urgentíssima, pois salva milhões de estudantes em suas carreiras acadêmicas e, futuramente, profissionais. O rombo nos cofres públicos resultante da corrupção sistemática de que já temos ciência, aliado à crise interna, já vinha limitando as verbas destinadas à educação ainda no governo Dilma[2].

    Minha filosofia política prevê gastos públicos necessários e extremamente vitais a qualquer nação. A educação é uma delas, talvez a mais importante de todas. A minha grande ressalva ao governo Temer até o dado momento era sua política muito voltada à economia, o que não é ruim, mas completamente insuficiente. Se a educação é um dos pilares do ordenamento civil, primeiramente deve-se cuidar dela, ou, no máximo, ao mesmo tempo que cuida da economia.

    Poderá se advogar a mudança corajosa de Temer no Ensino Médio. Entretanto, sejamos verdadeiros, ainda não temos prova alguma de sua eficácia, além dos muitos e retumbantes discursos do Ministro da Educação. A verdade é que a educação deveria ser visada por esse governo de forma primígena; ainda que tardiamente — se é que podemos considerar poucos meses como tardio — o governo parece estar investindo nesse intento atualmente.

    O que devemos levar em conta em tal medida é a praticidade e a transparência das ideias do governo atual: tudo que ele propôs como emergência e passos a serem seguidos, até o momento ele vem cumprindo. Defendi tal governo frente à inépcia do anterior, defendi como maneira emergencial dada a crise moral, política e institucional que repousa sobre o PT. Defendi, também, sabendo que não era — e nem é — o governo ideal para o país, apenas o estepe necessário.

    O PMDB possui uma atuação nojenta na política brasileira. Ele é a periguete dos partidos governantes: a ele não importa muito a visão política defendida nem as medidas e atuações previstas pelo governo em vigor, basta tão somente estar unido de maneira conjugal ao governo que se posta como reinante.

    Entretanto, como forma de justiça, devemos aplaudir a coerência das escolhas e das pautas trazidas a debate e a votação no Congresso. Pautas essas de uma sanidade estrutural em vista das urgências nacionais. Pautas realmente emergenciais foram levadas a cabo, como a diminuição dos cargos públicos e a aprovação PEC 241 que limita os gastos governamentais. A coragem de Temer e de sua equipe, sem entrar no mérito dos nomes que a compõem, merece ser verdadeiramente elogiada.

    Outro aspecto que, pela luz da justiça, eu devo efetivar em palavras é a coerência da bancada petista que votou pela liberação da verba[3]. Ainda que a política do FIES seja uma vitória do governo petista, a bancada, como voto de protesto, poderia ter se oposto, como em outras oportunidades bem o fez, atitude nojenta sobre a qual já escrevi aqui mesmo na Sociedade Pública: “Quando um partido vale mais que a nação”[4].

    Me parece que, em alguns momentos, ainda que rancorosos, governo e oposição petista podem unir força em prol do país. Ainda que, sinceramente, creio terem eles votado positivamente somente por ser um projeto petista o FIES, tendo em vista que em outras oportunidades tentaram obstruir a votação.

    O fato é que, quando há acertos, devemos elogiar. Quando há erros, devemos ferrenhamente criticar. Este é o papel do crítico político, aquele que possui a arte da escrita e o dever da retórica em suas mãos. O governo vem acertando e, ainda que eu deseje ferrenhamente as eleições de 2018, a verdade é que Temer está se mostrando um excelente líder, capaz, inteligente, profundamente diplomático e decidido em suas opiniões.

    O pulso firme que faltou a Dilma parece sobrar em Temer. Entretanto, devo me ressalvar, isso tudo em vistas do que foram feitos nesses poucos meses de governo. Futuramente ele poderá se mostrar tão corrupto, fraco e decepcionante como Dilma mostrou ser aos seus ex-seguidores mais lúcidos.

    Quando se trata de elogiar um governo, devemos sempre ficar com um pé atrás. Podemos fazê-lo, assim como podemos confiar a um dependente químico em abstinência a profissão de farmacêutico: queremos crer e confiar piamente em sua força moral, ainda que nos seja extremamente prudente desconfiar de suas possíveis fraquezas.

    [1] http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/10/congresso-aprova-credito-de-r-7025-milhoes-para-fies.html
    [2] http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/01/02/educacao-perde-r-105-bi-em-2015.htm
    [3] http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/10/18/congresso-aprova-projeto-que-libera-recursos-para-o-fies
    [4] http://sociedadepublica.com.br/quando-um-partido-vale-mais-que-nacao/
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  • Contradições, funk e feminismo

    Os poetas do funk tratam as mulheres como sendo verdadeiras maquinas de sexos, como bonecas para satisfazer os desejos vadios de alguns, como petisco de bar

    Postado dia 13 de outubro de 2016 às 12h em Sociedade e Política

    machismo-2

    Eu já cansei de sublinhar as contradições e idiotices de muitos movimentos políticos da modernidade. Para mim, como devem bem saber se me acompanham, o problema da modernidade está na falta de uma alta cultura e no monopólio da opinião nas mãos dos ideólogos. Esta última é o mal que mais faz barulho, a causa das pirotecnias sociais; enquanto que o primeiro é a base e origem do problema.

    Nós conseguimos analisar qualitativamente uma ideologia ou filosofia quando ela guarda em si a capacidade de manter seus argumentos sem cair em contradição. A contradição é o sinal primordial do erro discursivo, eu considero que é uma espécie de pane filosófica. A contradição é parte integrante de nossas vidas.

    Como somos seres falhos e possuímos uma razão também falha, não é nada espantoso que caiamos em erros. O que é realmente espantoso é tomarmos os nossos erros como fonte de plausibilidade argumentativa. É como se, ao defendermos que um homem, com toda sua estrutura biológica e genética, não pode ser uma mulher, surgissem milhares de algozes apontando dedos em minha face me tachando de milhares de coisas simplesmente porque eu fui empírico demais. Como eu bem já disse, certa vez, eis a ditadura dos tolerantes[1]. E mais, afirmarão que, se eles quiserem, poderão ser mulheres com pênis; afirmarão que eu sou transfóbico, homofóbico, gayfóbico, lesbofóbico, eurofóbico, etc.

    Ainda que eu esteja do lado da mais medular e gritante verdade factual, ainda que esteja com a mais elementar lógica dos fatos. Esperam que eu aliene a minha razoabilidade em troca de uma tolerância baseada em mentiras fofas.

    Enfim, a realidade é que a verdade dos fatos pouco importa; os ideologizados assistem um noticiário que afirma que um homem foi atropelado por um caminhão e, com toda a autoridade de suas mentes relativas, eles levantam os pulsos no ar e dizem: “Não concordo”.

    Sim, a modernidade aprendeu a duvidar do fato e ainda tomou isso como método. No século em que devemos provar que o homem é homem e a mulher é mulher, com um supremo medo de sermos processados por isso, não podemos esperar nenhuma tolerância daqueles que pregam a subjetividade desses fatos. As inclinações e desejos íntimos de cada indivíduo pouco importam a mim e à sociedade. O que dentro de quatro paredes cada um faz com seus órgãos é tão somente problema seu, o que não posso aceitar é a inversão da realidade com o objetivo de apaziguar as paixões de alguns. E aqui entra o nosso ponto.

    Esse fim-de-semana eu fui obrigado a escutar uma coletânea completa de funk, isso mesmo, obrigado. Pois meus vizinhos muito cordialmente ligaram o som no último volume e me concederam uma boa noite de estupro auditivo. Eu, sinceramente, nunca tinha parado para ouvir funk nenhum, até porque, como já devem ter percebido, não sou nenhum admirador do ritmo.

    Todavia, o meu espanto foi em descobrir que a indústria pornô lançou mais uma diretriz, o pornô em áudio. As músicas tratavam as mulheres como sendo verdadeiras maquinas de sexos, como bonecas para satisfazer os desejos vadios de alguns, como petisco de bar. A mulher no funk não passa de brinquedos sexuais e divertidas distrações de flertes. Hão de negar isso?

    Comecei a buscar na internet, e nos meios feministas que conheço, algum texto da comunidade feminista contra o funk. Afinal, tratá-las como “putas”, “vacas”, “vadias”, iam contra os princípios de luta do feminismo e de qualquer cidadão com um mínimo de moral aflorada. O funk sim é um verdadeiro expoente da dita “cultura do empoderamento masculino das mulheres” — Cabe ressalvar, a grande maioria das músicas eram grunhidas por homens. Enfim, adivinhem, não achei NADA. Absolutamente NADA, nenhum protesto feminista formal contra o funk.

    Achei alguns artigos que tratavam do tema de uma forma tão periférica e dissimulada que não mereciam nem a minha atenção. Na busca de justificar o funk, muitos tinham a pachorra de culpar a abstrata e vazia “cultura do estupro presente em nosso cotidiano”[2].

    Rio de Janeiro – Mulheres fazem ato contra a cultura do estupro na igreja da Candelária, centro do Rio (Tomaz Silva/Agência Brasil)

    Rio de Janeiro - Mulheres fazem ato contra a cultura do estupro na igreja da Candelária, centro do Rio (Tomaz Silva/Agência Brasil)

    Se há alguma “cultura do estupro” essas estão bem asseguradas nos próprios bailes funks, minha cara, e creio que não são precisos mais que alguns vídeos no YouTube para provar minha afirmação. São essas mesmas feministas, essas mesmas ideologizadas que irão entrar nas igrejas para protestar contra o Pai-Nosso dos cristãos, são essas que dirão que o cristianismo empodera as mulheres? Aquela religião que, depois de Jesus, tem uma mulher (Maria) como a mais soberana das criaturas?

    Aqui jaz uma contradição latente: a religião cristã é considerada pelas feministas como sendo o auge do patriarcalismo e do machismo institucionalizado[3]; não obstante, uma música que manda mulheres “sentar com força” é o que? A mulher que é vista como a Esposa de Cristo, a Igreja celeste e o tabernáculo da salvação, no cristianismo, é a mesma que é vista como “vadia” e “puta” no funk. Agora, mais uma vez, adivinhem em qual lugar as distintas feministas vão protestar e pichar seus símbolos? Pois é…

    Aconselho aos diretórios feministas desse país a começarem a reparar nas letras de funk. Sei que isso causa um bug enorme em vossas convicções políticas, pois, o funk advém diretamente das comunidades pobres que recebem indistintamente apoios socialistas em prol de suas culturas – inclusive a cultura do funk.

    Os poetas da era romântica dividiam-se entre razão e emoção, Max Scheler que o diga; hoje em dia, porém, vejo a divisão entre “empoderamento machistas” e “cultura das favelas”. Uma contradição que jaz no seio do socialismo que irriga todo o discurso feminista. E aí,feministas, qual defender e qual abolir? Deve estar surgindo uma mensagem tipo essa em vossas cabeças: “HTTP 404”. Pois bem, essa contradição é difícil de desfazer, afinal ambas são os palanques do socialismo moderno, não é?

    Para finalizar meus comentários, deixo-vos com a declamação de uma poesia moderna, algo tão inspirador que torna-se quase emocionante. Com vocês, Mc Jhey:

     

    “Essa delícia tá sensacional

    Eu fui no baile no funk

    E vi ela sarrar no pau

     

    Pepeca nervosa

    No pau você se joga

    Quica e se lambuza

    Sei que tu adora

    Depois faz de brinquedo

    A minha piroca”[4].

     

    [1] < https://medium.com/do-contra/a-ditadura-dos-tolerantes-b470442426d4#.k9o9sqg33>
    [2] <http://www.brasil247.com/pt/247/favela247/238705/%E2%80%9CFunk-entre-o-santo-e-o-profano-prefiro-o-empoderamento-da-mulher%E2%80%9D.htm>
    [3] <http://blog.opovo.com.br/ancoradouro/integrantes-da-marcha-das-vadias-quebraram-imagens-e-realizaram-sacrilegios-na-jmj/>
    [4] < https://www.vagalume.com.br/mc-jhey/pepeka-nervosa.html>
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  • PT – uma estrela anã

    O PT realmente cavou seu próprio túmulo na política brasileira. Seus candidatos esconderam suas bandeiras vermelhas por pura e simples vergonha

    Postado dia 4 de outubro de 2016 às 09h em Sociedade e Política

    PT

    Foto: Reprodução/Internet

    O Partido dos Trabalhadores está em queda livre, todos nós sabemos. Hoje o PT possui 635 prefeituras em todo o país. A partir da 2017, terá apenas 256, resultado do primeiro turno das eleições municipais, realizado neste domingo, dia 2[1]. A grande realidade é que o PT está sangrando em consequência dos repetidos tombos que suas políticas corruptas vêm angariando através dos últimos 4 anos.

    O partido perdeu credibilidade entre os seus. Muitos dos seus políticos debandaram, a exemplo de Marta Suplicy, outrora aguerrida candidata defensora de sua bandeira partidária e hoje crítica ferrenhamente do PT e seus líderes.

    O PT realmente cavou seu próprio túmulo na política brasileira, a verdade é que ele perdeu terreno até mesmo entre os seus. Aqueles que acreditavam em sua bandeira trabalhista e nas suas lutas contra o capital, hoje não sabem se realmente essas eram suas lutas.

    Agora que foi desvendada a trama do petrolão, conhecemos todas ligações criminosas que o PT fez com inúmeras empreiteiras donas do tão terrível capital. Ligações estas com a única e descarada intenção de se manter a todo custo no poder.

    O antigo partido de extrema esquerda, aquele que nasceu gritando contra o capital estrangeiro e pisando forte sobre o chão dos sindicatos, mostrou a todos que deixou-se seduzir pelo capital demoníaco que criticava anteriormente. Através de propinas, angariou luxuosos templos de sacrifícios de dinheiro público. Nem mesmo seus discursos piegas, ou seus punhos cerrados no ar, conseguem seduzir mais que alguns olhares errantes.

    O PT não possui mais força nacional – pelo menos não agora. O PT, entre aqueles que analisam a política de forma crítica, não possui mais expressão nenhuma, além, é claro, daquele espectro embaçado do que um dia significou aos seus eleitores. A verdade é que o partido se mostra sem forças para se reerguer. A própria esquerda que, em outras épocas, deixava de apoiar seus candidatos para apoiarem o PT, hoje está se mobilizando em novos partidos, que se coligam com outros grupos. Candidatos do PT estão escondendo suas bandeiras vermelhas por pura e simples vergonha e estratégia de marketing.

    Não posso, com nenhuma certeza metódica, dizer que o PT está se diluindo ao ponto de não poder voltar ao tamanho que um dia teve, mas posso garantir que sua má fama se espalhou de maneira viral por todos os espaços políticos desse país — e fora dele também.

    Hoje seus líderes estão lidando com os olhares de desprezo e desconfianças daqueles que um dia foram seus principais apoiadores. O PT está com a lepra da corrupção, com o fedor da devassidão moral, há pedaços de sua carne podre para todos os lados. Com certeza não é boa coisa andar ao seu lado nesse momento.

    Veremos esta semana quais serão as atitudes do partido após as apurações das eleições. A tendência é que, mais uma vez, o partido tenha que lidar com a perda de espaço no cenário político. O PT é um anão que já foi gigante e, agora, terá de aprender a lidar com o seu nanismo político.

    Aliás, é bom aprender a lidar com a pequenez política que deverá vir nos próximos anos, pois a pequenez de caráter, esta parece que eles conseguem administrar sempre com muita maestria.

    [1]<http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2016/blog/eleicao-2016-em-numeros/post/em-4-anos-pt-perde-mais-da-metade-das-prefeituras.html>
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  • Nada como um comunista burguês

    O que seria mais vergonhoso do que subir ao poder jurando lutar pelos pobres, ao passo que, atrás das cortinas, usa-se dos suados impostos dos trabalhadores para montar seus lupanares particulares?

    Postado dia 26 de setembro de 2016 às 10h em Sociedade e Política

     

    comunista

    Foto: Reprodução/nternet

    Gosto muito de estudar a história do comunismo. Não é nada raro eu comprar livros e documentários sobre o assunto. Se pudermos elencar características centrais dos regimes comunistas no século passado (e aqueles que sobrevivem no século atual), apontaria especialmente duas.

    Primeiramente: as ilusões utópicas em que todos esses regimes estavam mergulhados, a crença de que o comunismo iria dar a parúsia terrena e libertaria o homem das amarras da economia capitalizada das grandes empresas[1]. Segundo: a hipocrisia dos revolucionários chefes, dos ditos libertadores do proletariado. É desta segunda característica que iremos nos ocupar hoje.

    Não é preciso ser conservador como eu, liberal, ou qualquer outro tipo de oposição, para perceber que há uma linha tênue que corta quase todos os regimes políticos de esquerda. Esta linha tênue torna-se uma vergonha para os próprios regimes, e um disparate para aqueles que os analisam em termos panorâmicos. Se forem suficientemente emancipados de suas opiniões ideológicas, tenho certeza que vocês hão de convir comigo que, no mínimo, há uma contradição absurda no que eu irei apresentar agora. Isto é, a riqueza desconcertante dos líderes socialistas frente à pobreza acentuada e gritante da população que governam.

    Por muito tempo me abstive de usar desta argumentação por considerá-la ad hominem. Todavia, quando tive contato com três obras sobre esses fatos, percebi que talvez esse seja o argumento mais plausível contra o comunismo. Talvez, até mesmo, a prova de seu fracasso institucional.

    São elas, em primeiro lugar, Sussurros, de Orlando Figes, que mostra como era a vida das pessoas comuns na URSS, onde a população passava por dificuldades mais básicas, como a falta de saneamento e de alimentos mais simples, como pão e leite.

    Outra obra é a do poeta cubano Reinaldo Arenas. No trabalho autobiográfico intitulado Antes que Anoiteça, o autor conta sua história de vida como um homossexual em Cuba. Ele descreve as perseguições que sofreu por esse fato, e descreve a pobreza da população cubana. As pessoas comuns viam barrados seus direitos mais simples, como o de comprar o que quisessem. A “caderneta” governamental proibia a compra de certas quantias de mantimentos.

    Por fim, mas não menos importante, a obra do jornalista brasileiro Osvaldo Peralva. Em O Retrato, ele descreve sua entrada e sua estadia no Kominform, o maior serviço de informação — e desinformação — da URSS. Ali, comenta as mentiras gritantes que eles próprios fabricavam para manter a fidelidade dos sindicatos do mundo todo. Também mostra como os chefes da URSS viviam cercados de luxos pagos com dinheiro da população pobre.

    Ele próprio, que era um socialista influente na URSS, participou dessas festas em verdadeiros palácios, festas banhadas de vinhos caros, vodkas caras e champanhes mais caros ainda. Tudo cercado de uma riqueza tão discrepante da realidade social da URSS que ele próprio decidiu assumir os riscos de desertar dessa realidade mentirosa do “comunismo para os pobres”. Mentira que jazia entranhada nos discursos soviéticos e ainda jazem nos discursos comunistas de todo o globo.

    Vale a pena ressaltar que, apesar de toda mentira vista por ele na URSS, o jornalista morre se considerando um socialista liberal, o que acaba dando mais credibilidade aos seus relatos. Vale a pena a leitura atenta dessas obras.

    A revista Forbes, mundialmente reconhecida por suas análises econômicas no que concerne às riquezas particulares de muitos famosos, em 2006, havia calculado como riqueza pessoal de Fidel Castro o montante de 900 milhões de dólares[2]. O que daria hoje, em reais, a quantia de R$ 2.915.790.425,17[3]. Não é segredo ao mundo que Fidel possui resorts somente para ele e os seus íntimos, se é que não podemos afirmar que Cuba seja de fato sua propriedade privada.

    E mais: são 900 milhões de dólares em bens declarados, sem falar que o UOL afirma que a revista Forbes ainda não contabilizou as sabidas contas na Suíça que o cubano possui, e que, possivelmente, não declara como suas. Tal quantia de dinheiro ultrapassa os montantes de propriedades da rainha Elizabeth, por exemplo, e de outros monarcas. Fidel Castro é um verdadeiro rei – e um dos mais caros, aliás.

    O que me leva a questionar a plausibilidade e a sensatez dessa ideologia. Que prega contra as riquezas extremadas e o capital acumulado, ainda que, quando estão em posição de usufruir dessas bonanças, estes líderes simplesmente contrariam os seus discursos e tornam-se burgueses com o dinheiro do pão do pobre.

    Não tenho nada contra quem é rico; todavia, sou rigorosamente contra aqueles que ficam ricos a custo de impostos, de imposições estatais. A população venezuelana está comendo com, e como cachorros[4], não possui sequer papel higiênico. Confiscos e mais confiscos são corriqueiros. Entretanto, pergunte como está Nicolas Maduro…. Muito bem, obrigado. Está em seu palácio governamental sem passar nenhum tipo de dificuldade financeira, tenha certeza disso.

    Sabidamente, hoje, temos a consciência de que Lula usou de propinas e desvios de dinheiro público, o que acarretou para ele presentes dos carteis de empreiteiras. Presentes, por exemplo, como um tríplex no Guarujá. Sua propriedade pessoal cresceu 300% em oito anos. Qual é a porcentagem de aumento do salário mínimo mesmo? Aquele homem, que fez história andando nos chãos dos sindicatos, pregando com toda a fúria revolucionária contra o capital estrangeiro, contra o acúmulo de bens e contra a propriedade privada, hoje é um burguês. Hoje senta-se nas poltronas da grande casa para cear com os humanos[5]. Um homem de negócios que anda com seguranças e os mimos dos capitalistas.

    A contradição faz parte de nossa condição de homens falhos. Diria até que ela é necessária para o crescimento individual e social. A contradição é um dos aparatos naturais da vida. A contradição, por vezes, é necessária para que nossos erros se transformem em reformulações de caráter ou cicatrizes daquilo que fomos frente àquilo que nos tornamos. Cicatrizes de guerras vencidas. Todavia, a contradição, quando é posta como modelo de vida, quando é institucionalizada como sendo o pilar da existência de um modelo político, gera uma dissonância crônica na ordem do discurso e na ordem social.

    Ou seja, a contradição, quando é tomada como essência de um agir individual e social, torna-se hipocrisia. Se a contradição é a marca do erro lógico, a hipocrisia é a marca putrefata do erro de caráter.

    O que seria mais cômico e criminoso do que uma instituição beneficente de tratamento contra o câncer usar das verbas públicas e privadas para enriquecer seus diretores? O que seria mais vergonhoso do que subir ao poder jurando lutar pelos pobres, ao passo que, atrás das cortinas da devassidão pública, usa-se dos suados impostos dos trabalhadores para montar seus lupanares particulares, para financiar suas orgias políticas comunitárias?

    Enquanto houver discursos como: “diminuímos a miséria e a fome no Brasil”, vindo de salões luxuosos, de tríplexes a beira-mar, de palácios recheados de funcionários e riquezas amontoadas em dunas de libertinagens públicas, enquanto houver isso, não acreditarei no discurso comunista. No moralismo pró pobres, enquanto suas práxis são pró burgueses; o mínimo que se pede é a coerência, o mínimo que esperamos dos notáveis heróis do proletariado é o caráter de fazer da coisa pública o terreno de melhoria ao “soberano”, para usar a nomenclatura de Rousseau.

    O problema não é ser rico, o problema é ser rico às custas de meus impostos; o problema não é a mansão do bilionário, o problema é eu não conseguir reformar meu telhado porque o governo acha que sabe gastar meu dinheiro melhor do que eu mesmo. É o governo achar que eu devo pagar a gasolina do jatinho do deputado e do presidente!

    No fim, pouca coisa mudou do Império para a República. Antes o monarca era escolhido segundo a hereditariedade, vivia dos impostos dos plebeus e das riquezas saqueada dos terrenos inimigos derrotados em guerras. Na República os reis são eletivos, possuem quatro ou oito anos para serem sustentados por impostos da plebe para saquearem dos fundos públicos aqueles que eles veem como eleitores e conspiradores, como sufragistas e golpistas, como “companheiros” e inimigos. Aliás, contra os quais recentemente declararam guerra[6]; somos todos taxados segundo suas diretrizes que dizem: me apoiam, então é companheiro; se opõe, então é inimigo.

    Ave comunismo!

    [1] Sobre isso, recomendo meu artigo ao Instituto liberal de Minas Gerais: http://ilmg.org.br/utopia-a-receita-para-o-fracasso-social/.
    [2] Ver: http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2006/05/05/ult34u153848.jhtm.
    [3] Usei o site https://conversor-moedas.com para calcular a taxa de câmbio de dólares para reais.
    [4] Ver: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/06/1779773-venezuelanos-disputam-comida-com-caes-no-lixo-de-feira-de-caracas.shtml>
    [5] Ver: <http://sociedadepublica.com.br/revolucao-dos-bichos-petistas/>
    [6] O presidente da CUT, em ato em defesa de Dilma e Lula, chegou a falar em pegar em armas e montar trincheiras. Ver: <http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/08/declaracao-do-presidente-da-cut-provoca-constrangimento.html>
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  • Lula: o homem que vendeu os pobres

    O partido que subiu ao poder jurando lutar pelos pobres agora mandará a conta para eles pagarem

    Postado dia 19 de setembro de 2016 às 09h em Sociedade e Política

    lula

    Foto: Reprodução/Internet

    Nesta semana pudemos constatar, com uma apresentação fulminante do Ministério Público, aquilo que víamos embaçado por entre vidros enegrecidos pela corrupção sistêmica. Tudo o que víamos por meio de espectros de uma desconfiança foi confirmado com ares de plausibilidade irrefutável: Lula foi o comandante de todo o esquema do “petrolão”.

    Todos os analistas políticos sérios, aqueles que não possuem compromissos com partidos ou ideologias, já apontavam tal situação há tempos. Tudo que sabíamos do petrolão, até a acusação do MP, tratava do sistema de propinas que saíam das grandes empreiteiras, principalmente da OAS, para conseguir licitações e superfaturamento de obras para a Petrobrás. Tais propinas se direcionavam aos partidos políticos coligados ao grupo do governo (PT). Em resumo, três eram os partidos que faziam com que o esquema criminoso de propinas funcionasse: PT, PMDB e PP.

    Os carteis pagavam propinas altíssimas para o PT, que era o partido do governo e o grupo que chefiava o esquema. Era o PT que pagava tais propinas aos demais partidos coligados. Tais propinas se direcionavam a dois intentos: comprar deputados para que leis criadas pelo governo obtivessem a maioria dos votos e, também, garantir que os nomeados aos grandes cargos na Petrobrás aceitassem o esquema de licitações direcionadas ao carteis das ditas empreiteiras.

    Tudo girava de tal maneira: o carteis pagavam propinas aos políticos, os políticos criavam coligações para repassar as propinas aos outros políticos — para conseguirem a maioria na Câmara dos Deputados, pagando ou oferecendo cargos para tal propósito. Assim feito, com a maioria dos parlamentares ao lado do governo, leis que interessavam ao governo ou ao grupo de carteis eram passadas adiante.

    Em troca, os partidos cediam as licitações superfaturadas — pagas com dinheiro público — ao cartel de empreiteiras que geravam propinas aos políticos. Uma troca de favores muito bem organizada, uma quadrilha muito bem estruturada, denomine-os como quiserem.

    Mas o que eu gostaria realmente de sublinhar é que tal esquema possuía um coração. Isto é, um centro de comando, sem o qual nada funcionaria. Tal coração era aquele que possuía o poder de nomear os altos cargos da maior estatal brasileira, isto é, o presidente da república. Se não houvesse pessoas no comando da Petrobrás que continuassem o esquema de carteis, todo o jogo sujo pararia no mesmo momento; afinal, somente com a autorização dos chefes da Petrobrás era possível a burla das licitações e do superfaturamento.

    Não obstante, veja, para tal comando era necessária a nomeação do presidente da república. Ele necessariamente teria que conhecer e participar do sistema de corrupção para bem escolher seus indicados, indicados esses que continuariam a jogatina suja das propinas. Tudo dependia das nomeações presidenciais, ou seja, de Lula.

    A prova contra Lula, além daquelas que por segredo de justiça não foram totalmente reveladas, é o próprio fato de o esquema ter existido. O petrolão dependia do presidente para funcionar, dependia, também, obviamente, de homens corrompidos que aceitassem o esquema e lhe dessem continuidade. Sem as nomeações corretas, o esquema teria sido revelado ou pausado.

    Quando escuto petistas pedindo provas, ou inventando frases que nunca foram ditas, vejo o desespero de esconder toda a sujeira humana e política que jaziam sob seus olhos. Homens e mulheres que, diante da plausibilidade e lógica inconteste dos fatos, mostram-se atordoados. Partindo para as teorias já conhecidas de perseguições e tramas dignas de Oscar.

    No fim, tudo continua sendo culpa do “capital estrangeiro”, que montou uma arapuca contra os “proletários do poder”. Entretanto, não há como negar aquilo que se mostra de forma clara. Provas factuais não são somente flagras em vídeos, notas fiscais e áudios gravados. Ora, sejamos minimamente sensatos, um esquema corruptor a base de propinas, isto é, dinheiro sujo, não gera comprovantes; corruptores que estão colocando no lixo da vergonha bilhões de dinheiro público não se reúnem sob câmeras nem aceitam dispositivos de áudios.

    Provas de crimes se fazem, também, pela ligação lógica dos fatos descobertos, pelo emaranhado de testemunhas e delações que, de forma incontestável, levam todos a um denominador comum, a um comando sem o qual não seria possível todo o combo de ações criminosas.

    Alguns dados: Lula enriqueceu 360% no período em que foi presidente, no período em que propinas comiam soltas. Como? Palestras? Ah sim, é bom dizer, o Ministério Público auditou os ganhos do Instituto Lula: tal instituição recebeu R$ 30 milhões de propinas. Lula, através de propinas da OAS, ganhou um tríplex no Guarujá, testemunhas visuais e delações dos próprios empreiteiros dão conta do fato. Ao calcularem os prejuízos do petrolão aos cofres públicos, se constatou que o rombo já ultrapassa R$ 42 bilhões. Quem pagará tudo isso? Pois é: eu, você e os próprios defensores do PT.

    Eu vejo como o brasileiro foi ludibriado e sinto nojo do PT por isso. Segundo o MP, os principais beneficiados foram o PT e o Lula. O presidente que se elegeu com o voto do pobre prostituiu-se com o dinheiro dos ricos. O partido que subiu ao poder jurando lutar pelos pobres, agora mandará a conta para eles pagarem.

    Não que seu evasivo caráter sublimado já não fosse conhecido por aqueles que não o tinham como um deus. O PT mostrou em vistas panorâmicas toda a podridão de seus atos, toda a mentira corruptora que jaz em seus discursos. Um partido que mostrou que seu modo de governar é a “propinocracia”.

    O Lula tornou-se um Robin Hood às avessas, o homem que tira dos pobres para satisfazer os cabarés dos ricos. Eu quero muito entender como é possível que haja pessoas defendendo o Lula e seu partido. Não se trata de esquerda ou direita, socialismo ou conservadorismo, mas de lógica, de sensatez humana.

    Boa parte do povo insiste em deitar-se com aqueles que os agridem, uma forma assustadora de masoquismo social. Uma burrice que merece palmas e plateias, pois, não me recordo, na história da humanidade, qual foi a última vez que o povo tenha com tanto gosto se depravado em defesa daqueles que o mata!

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