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Marcelo Petersen

Profissão: Educador em desenvolvimento

Cidade: Santos

Educador caiçara, que descobriu a paixão por lecionar após a "crise dos 30", mas que sem crise nenhuma sabe o que fazer pelo resto da vida.

  • Conflitos como aprendizagem

    Conflitos fazem parte da natureza humana e na escola não é diferente. Como você está lidando com eles no ambiente escolar?

    Postado dia 23 de setembro de 2016 às 09h em Educação e Cidadania

    conflitos

    Foto: Reprodução/Internet

    Quem é educador sabe que os conflitos são inerentes às relações escolares. Há agressões, bullying, furtos. As gerações anteriores eram tratadas na política “conflito-punição”. No entanto, é perceptível que essa estratégia não tem mais eficácia. A simples punição é passiva, pois o aluno não precisa fazer nada, sente-se vítima e ainda não reflete em como consertar as coisas ou como prejudicou outras pessoas.

    Os professores, alunos e demais participantes da educação sentem-se inseguros, pois entendem os conflitos como atípicos, antinaturais. Atualmente, se ocorre um furto, por exemplo, trancam-se salas e armários, instalam-se câmeras. Tudo isso pode evitar que um novo furto ocorra, mas também inibe a aprendizagem de que não se pode pegar coisas que não lhe pertencem.

    Incivilidades, tais como empurrões e caminhadas pela sala, geram desânimo nos professores, que se utilizam de três estratégias:

    • Evitar: criam-se regras a partir dos conflitos, como por exemplo, sentar em lugares demarcados.
    • Conter: o docente resolve unilateralmente. Por exemplo, obriga o aluno a pedir desculpas e devolver o que pegou. Há ameaças, punições e terceirização do conflito (para a família ou especialistas).
    • Ignorar: geralmente, quando os conflitos ocorrem entre os próprios alunos, são vistos como “brincadeiras da idade” e nada acontece.

    criancas

    Telma Vinha, doutora em Desenvolvimento Humano e Educação pela UNICAMP, defende que essas estratégias estão defasadas e propõe a autorregulação. Assim como a contenção, ela surge após o conflito. No entanto, difere-se dessa, pois as experiências são vividas e não simplesmente coibidas. A contenção contém o desejo, mas não há mudança; a autorregulação promove a reflexão e a evolução do aluno. Exemplo: um aluno deseja o dinheiro do colega, mas o desejo de querer ser honesto lhe impede. Segundo Telma, impedir o conflito é impedir que o desenvolvimento e a construção dos valores ocorram.

    O professor, atuando como mediador, deve controlar as reações e envolver os alunos no processo de resolução, estimulando a reflexão. Ele não resolverá e nem dará as soluções. A autorregulação funciona através de espaços de participação e resolução de conflitos e divide-se em dois tipos:

    Assembleias – São espaços institucionalizados, coletivos, para diálogos e problemas e conflitos. Pode haver assembleia de classe, de professores, de escola. Nelas os alunos trazem os problemas vividos, discutem e propõem soluções, de forma geral e sem individualizar. Não serão viabilizadas punições, e sim resoluções. Os alunos transformam-se em sujeitos ativos e adquirem maiores responsabilidades sobre seus atos.

    Círculos restaurativos – Servem para conflitos privados, como, por exemplo, dois alunos que brigam por causa de uma garota. Os estudantes procuram o espaço, que conta com um mediador, e nele discutem o fato, visando restaurar as relações e não simplesmente reparar danos. Os alunos são estimulados a colocarem os sentimentos e pontos de vista e também são sujeitos ativos da solução do problema.

    E você, concorda com a visão da doutora Telma?

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  • O futuro da educação

    Vamos analisar, trecho a trecho, o projeto da Escola Sem Partido, apresentado pelo senador Magno Malta. Alguns artigos são bastante polêmicos

    Postado dia 29 de agosto de 2016 às 11h em Educação e Cidadania

    educação

    Foto: Reprodução/Internet

    No artigo anterior, falamos sobre o mito da neutralidade. Agora o projeto será analisado, trecho a trecho.

    Art. 2º. A educação nacional atenderá aos seguintes princípios:

    I – neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado;

    II – pluralismo de ideias no ambiente acadêmico;

    III – liberdade de aprender e de ensinar;

    IV – liberdade de consciência e de crença;

    V – reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado;

    VI – educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendidos em sua liberdade de consciência e de crença;

    VII – direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.

    O inciso I trata da neutralidade do Estado, que é garantida pela Constituição Federal. Embora algumas partes da sociedade queiram aulas de religião e eliminação do conteúdo de viés esquerdista, há uma vedação expressa no inciso II: pluralidade. A chave não é proibir o professor, e sim exigir que todos os pontos de vista sejam abordados. Não deve ser falado sobre Marx sem que o conteúdo não abarque Adam Smith. A liberdade de ensinar é tolhida com este projeto de lei, mesmo que o item III fale que ela exista.

    O educando é a parte mais vulnerável na relação de aprendizado e todo professor tem (ou deveria ter) consciência disso. Essa relação é transmitida nas universidades, mas, infelizmente, muitos profissionais se esquecem. Liberdade de consciência e crença estão garantidas pela Constituição Federal. Colocar em um projeto de lei é pura retórica. O item VII pode trazer alguma complicação. Os pais têm direito de que seus filhos recebam educação de acordo com suas convicções. E se a família for de racistas? E se for bastante religiosa e queira aulas de sua religião na escola pública?

    Art. 3º. O Poder Público não se imiscuirá na orientação sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero.

    O autor do projeto se equivocou nesse trecho. Não existe “ideologia de gênero”. A educação deve fortalecer o respeito ao ser humano em todas as suas variações. O Brasil ainda tem uma sociedade misógina e homofóbica. Mulheres, negros, indígenas e homossexuais, entre outros, devem ser respeitados e a escola precisa estimular a tolerância.

    Art. 4º. No exercício de suas funções, o professor:

    I – não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias;

    II – não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;

    O professor que praticar essas atitudes realmente deve ser afastado. Escola é lugar de educação e não de propaganda de nenhuma espécie.

    III – não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;

    IV – ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;

    V – respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções;

    VI – não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros, dentro da sala de aula.

    Novamente a questão do direito dos filhos receberem a educação que eles desejarem. O problema não é especificamente esse inciso, mas outro artigo que será trazido mais abaixo.

    • 1º As instituições de educação básica afixarão nas salas de aula e nas salas dos professores cartazes com o conteúdo previsto no anexo desta Lei, com, no mínimo, 90 centímetros de altura por 70 centímetros de largura, e fonte com tamanho compatível com as dimensões adotadas.
    • 2º Nas instituições de educação infantil, os cartazes referidos no caput deste artigo serão afixados somente nas salas dos professores.

    Art. 5º. As escolas confessionais e as particulares cujas práticas educativas sejam orientadas por concepções, princípios e valores morais, religiosos ou ideológicos, deverão obter dos pais ou responsáveis pelos estudantes, no ato da matrícula, autorização expressa para a veiculação de conteúdos identificados com os referidos princípios, valores e concepções.

    Parágrafo único. Para os fins do disposto no caput deste artigo, as escolas deverão apresentar e entregar aos pais ou responsáveis pelos estudantes material informativo que possibilite o pleno conhecimento dos temas ministrados e dos enfoques adotados.

    Art. 6º. Os alunos matriculados no ensino fundamental e no ensino médio serão informados e educados sobre os direitos que decorrem da liberdade de consciência e de crença assegurada pela Constituição Federal, especialmente sobre o disposto no art. 4º desta Lei.

    Art. 7º. Os professores, os estudantes e os pais ou responsáveis serão informados e educados sobre os limites éticos e jurídicos da atividade docente, especialmente no que tange aos princípios referidos no art. 2º desta Lei.

    Não será um cartaz que prejudicará o professor. É interessante que as escolas confessionais forneçam um informativo aos pais, que não poderão alegar desconhecimento.

    Art. 8º. O ministério e as secretarias de educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta Lei, assegurado o anonimato.

    Parágrafo único. As reclamações referidas no caput deste artigo deverão ser encaminhadas ao órgão do Ministério Público incumbido da defesa dos interesses da criança e do adolescente, sob pena de responsabilidade.

    A meu ver, o grande perigo deste projeto está nesse artigo. Vamos fazer a suposição de que você trabalha em uma grande empresa e tem um problema com um chefe. A primeira coisa a ser feita é conversar com o chefe. Não resolveu, vá ao chefe do chefe. Caso ainda não haja resolução, aos Recursos Jumanos da empresa. Você ainda pode recorrer à diretoria, aos sócios e, por último, denunciar no Ministério do Trabalho caso a prática seja realmente grave.

    As escolas têm um caminho que se assemelha ao de uma empresa. Há o professor, o coordenador, o diretor. Se particular, o mantenedor; se pública, o secretário de educação. Há várias instâncias. Do jeito que o projeto foi concebido, o professor vira refém de alunos, colegas, pais. Imagine que o professor de história tenho dado uma nota baixa ao filho de alguém. Esse pai pode denunciar, anonimamente, o docente, e assim prejudicá-lo. O colega substituto pode denunciar o efetivo para ficar com o lugar dele. O “denuncismo” anônimo não favorece ninguém. O que poderia ser feito é reforçar os canais oficiais de reclamação já existentes, colocando, talvez, o nome do coordenador pedagógico e o horário em que ele permanece na escola.

    Espero que esses argumentos tenham clarificado um pouco suas ideias em relação a este projeto. E você, é contra ou favorável? Deixe sua opinião nos comentários.

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  • A escola sem partido

    Em tempos de política em êxtase, o senador Magno Malta (PR-ES) veio colocar mais combustível na fogueira: trata-se do projeto “Escola Sem Partido”

    Postado dia 11 de agosto de 2016 às 08h em Educação e Cidadania

    escola

    Foto: Reprodução/Internet

    Antes de começar propriamente o texto, sugiro a leitura de “Educadores hipócritas, alunos reféns“, de Pedro Henrique, que faz um contraponto que visa estimular o debate e a reflexão.

    Em tempos de política em êxtase, o senador Magno Malta (PR-ES) veio colocar mais combustível na fogueira: trata-se do projeto “Escola Sem Partido”. A sociedade brasileira está fragmentada com a avalanche de notícias do Congresso e do Planalto que chegam pelos meios de comunicação. São muitos projetos e processos acontecendo ao mesmo tempo e a sociedade não tem tido tempo de uma reflexão mais aprofundada. Esse projeto, assim como outros, surgiu no vácuo deixado pela esquerda brasileira em crise.

    Há campanhas contra e a favor da escola sem partido sem que as pessoas sequer tenham lido seu texto.

    escola1O Senado criou uma enquete  – que não tem nenhum valor legal, mas serve como termômetro –  a respeito. O resultado parcial mostra claramente a divisão do país.

    Todo o texto legal gira em torno da imparcialidade, que é positivista e obsoleta. Max Weber, em “A Objetividade”, já colocou por terra tal conceito. Cada indivíduo é um conjunto de valores e crenças que são indissociáveis. Assim, é impossível ser totalmente objetivo e imparcial em qualquer coisa que façamos, mesmo que seja um ato simples como comprar uma caneta: dependendo de seus valores, você pode comprar uma caneta azul simples da marca mais barata ou um modelo mais sofisticado. Há de se frisar, no entanto, que não ter imparcialidade não significa ser tendencioso. De acordo com o dicionário Caldas Aulete,

    TENDENCIOSO:  (ten.den.ci:o.so) [ô] –  Que indica segundas intenções, parcialidade ou preconceito (opinião tendenciosa).

    Isenção e imparcialidade são mitos. Hipocrisia é pensar o contrário. O professor tem de falar sobre “O Capital” (Karl Marx) e também sobre “Riqueza das Nações” (Adam Smith), obras importantíssimas para se entender o sistema econômico moderno. Não se deve deduzir o que há dentro desses livros e sim lê-los, interpretá-los e não somente repetir o que se ouve. Se o docente somente transmite o conteúdo de “O Capital”, está sendo tendencioso. Caso só fale de Adam Smith e “esqueça” que Marx existe, também está sendo tendencioso.

    O aluno precisa desenvolver o senso crítico, que só é formado quando se observam vários pontos de vista e há a devida reflexão.

    No próximo artigo continuaremos falando a respeito do projeto “Escola Sem Partido”.

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  • Desafios da educação contemporânea

    O modelo educacional vigente está falido. Os estudantes rejeitam. Os professores estão no limite. A sociedade está cansada. Você está preparado para essa mudança?

    Postado dia 27 de julho de 2016 às 09h em Educação e Cidadania

     

    educacional

    Foto: Reprodução/Internet

    Muito tem-se falado a respeito da inserção da tecnologia na educação. Os entes públicos vêm adquirindo computadores, notebooks e tablets. Com isso, esperam que os alunos demonstrem mais interesse em aprender. No entanto, percebe-se que esses equipamentos não têm cativado os estudantes.

    A simples aquisição de aparatos eletrônicos não atrairá a atenção. Há somente a transferência de meio, ou seja, antes eram livros em papel; hoje os textos estão na tela do computador. Com poucas exceções, o método ainda é o mesmo do início do século XX: alunos enfileirados, olhando para as nucas dos colegas, enquanto o professor verbaliza sem parar. A sociedade está discutindo alterações na educação, como “escola sem partido”e inserção de novas disciplinas, mas não debate o principal: como despertar o interesse do principal interessado na educação.

    Há grande resistência e desconhecimento, tanto dos gestores quanto da sociedade, a respeito de novas tecnologias na educação. Hoje podemos comprar sorvete, roupas e carros do jeito que quisermos. O meu sorvete é diferente do seu. Por que na educação todos os alunos têm que ser tratados como se fossem iguais?

    A solução desses problemas é o “blended learning” ou ensino híbrido. Trata-se de uma nova forma de ensinar que preconiza a personalização. Todos os alunos aprendem o mesmo conteúdo, mas cada um de uma forma diferente. E qual o motivo de ser tão desconhecido? Desinteresse. A implantação do ensino híbrido exige uma ruptura do padrão atual de docência. E isso gera custos de reformulação e treinamento e demanda vontade e esforço do docente.

    O modelo educacional vigente está falido. Os estudantes rejeitam. Os professores estão no limite. A sociedade está cansada. Você está preparado para essa mudança?

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