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Luis Misiara

Profissão: Tradutor

Cidade: São Paulo

tradutor freelancer e músico nas horas vagas, tocando guitarra, bateria, teclado e o que estiver à mão! Nascido em St. Louis, os EUA, viveu com a cabeça entre as Américas do Norte e do Sul. Um apaixonado pelo som, seja o quão esquisito for!

  • Dicas ocultas do Bandcamp em 2016

    Cinco bandas com material hospedado na plataforma para grupos independentes. Todas são interessantes e valem alguns minutos de sua atenção

    Postado dia 16 de fevereiro de 2017 às 08h em Cultura e Lazer

    Foto: Divulgação - Secret Chiefs 3

    Foto: Divulgação – Secret Chiefs 3

    Ao pensar no que dividir com vocês nesse espaço quinzenal, decidi diversificar. Em vez de falar de uma banda só, que tal cinco?

    Consideremos isso um jabá gratuito. Estes artistas estão com seu material hospedado no Bandcamp, uma das plataforma mais interessantes para grupos independentes. Espero que vocês gostem de conhecê-los e percebam como, apesar de às vezes não parecer, estamos em uma época repleta de música criativa e instigante!

    The Dwarfs of East Agouza

    band1 dwarfs

    Formado pelo americano Alan Bishop (Sun City Girls, Invisible Hands), o canadense Sam Shalabi (Shalabi Effect, Land of Kush) e o egípcio Maurice Louca (Bikya, Alif), todos multi-instrumentistas, o Dwarfs of East Agouza se encontra na encruzilhada das estradas do minimalismo e da psicodelia. Com uma instrumentação orientada por loops de sintetizador, bases de violão e voos alçados pela guitarra e o saxofone, o disco de estreia Bes é um convite para outra dimensão auditiva. O material deve tanto às melodias tradicionais árabes que podem ser ouvidas no Cairo (onde o disco foi gravado) quanto à disciplina e a repetição do Krautrock alemão de grupos como Can e Neu. Ouça em uma tarde livre e ensolarada!

    Porest

    porest

    Porest, pseudônimo artístico de Mark Gergis (Neung Phak, Mono Pause), é uma entidade musical que funciona em várias dimensões. Há letras e samples com uma análise profunda e sarcástica dos Estados Unidos, suas interações com países do Oriente Médio na sua infame Guerra ao Terror e outros aspectos da vida contemporânea. Ao mesmo tempo, há batidas e melodias parelhas à música síria e ao synthpop às quais é impossível resistir. A dança é inevitável. Tire a prova com este petardo de 2016, Modern Journal of Popular Savagery. Dica: há uma cover de uma canção pop muito familiar para os brasileiros no meio do disco. Qual será?

    The Gabriel Construct

    gabriel

    Descobri esse grupo por uma dica quentíssima de um colega americano, Matt Tate (ele próprio músico, com um projeto chamado Pavlov que abordaremos nesta coluna futuramente!). Gabriel Lucas Riccio, o Gabriel do nome da banda, é o tecladista, vocalista e compositor principal da empreitada. Seria fácil categorizar o projeto como Metal Progressivo, mas esqueça as firulas e da ginástica instrumental sem propósito associada ao estilo. No primeiro disco do projeto, Interior City, todos os músicos envolvidos são incrivelmente habilidosos, mas cada nota é usada a serviço da criação de um clima complexo e obscuro. Confesso que há tempos algo próximo ao Metal não me tocava tanto. Recomendo especialmente a faixa Defense Highway. Duvido que o coro do refrão não fique grudado na sua cabeça! Dê uma chance a esse disco, que é tão dark quanto alienígena, tão melódico quanto agressivo, tão bom que é bom demais!

    Curiosidade para os fãs de rock progressivo: o Gabriel também está elaborando um livro de partituras para o disco Thrak, do lendário King Crimson. Só aí já dá para ter uma ideia do calibre musical do figura!

    Bodies Floating Ashore

    MATT

    Essa banda de um homem só é liderada pelo multi-instrumentista (tema recorrente nessa lista!) Matt Lebofsky (MoeTar, miRthkon e Secret Chiefs 3 – aliás, guardem esse nome). Ao contrário de outros grupos nos quais Matt participa, o Bodies tem uma instrumentação um pouco mais enxuta, variando entre piano+voz e um quarteto de rock tradicional. Vale a pena se debruçar nas letras e no clima melancólico do grupo. Recomendo tanto o EP do ano passado, Causes, quanto o disco completo de 2014, auto-entitulado. Fica a dica para dias chuvosos!

    Secret Chiefs 3

    secret

    Dessa banda há muito, muito o que falar. Inclusive é capaz que vocês os conheçam – já foram duas passagens em terras brasileiras, em 2012 e 2014. Capitaneada por Trey Spruance (ex-Mr. Bungle e Faith No More), mais um multi-instrumentista que toca também as cordas dos nossos corações, o grupo acaba de lançar um compacto digital, exclusivo para o Bandcamp e focado na sub-banda (assunto de um artigo futuro) UR. O “lado A” é uma cover do lendário tema Telstar, composto por Joe Meek e Geoff Goddard em 1962 para comemorar o lançamento do satélite da Comsat para o espaço. Já o “lado B”, The New Daylight, retoma temas já tocados pela banda com novas cores e frequências, com uma pegada quase surf-rockabilly-terror cósmico. Repare nas risadas sinistras!

    Para fãs do grupo, é ainda mais interessante adquirir esse compacto – o dinheiro arrecadado pelos downloads pagos será usado para compor o orçamento dos dois próximos discos de estúdio da banda. Já sabem o que fazer, certo?

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  • Caroliner: A dor e a delícia do século XIX

    Baseada em uma antiga lenda, a banda traz uma proposta completamente original e bizarra.

    Postado dia 24 de janeiro de 2017 às 08h em Cultura e Lazer

    caroliner

    Foto: Divulgação

    Antes de mais nada, vou pedir a sua licença para falar de um grupo que produz sons estranhíssimos, talvez até desagradáveis. Ruídos, estouros de sintetizador, barulhos industriais, banjos desafinados, órgãos que lembram filmes de terror. Pode parecer contra-intuitivo ouvir algo potencialmente desagradável, mas quem sabe até o final desse e dos próximos artigos você mesmo não acabe sacudindo o esqueleto ao som dessa balbúrdia? Vamos juntos entender o porquê dessa fuzarca:

    caroliner 1

    Reza a lenda que, nos idos dos anos 1800, havia um touro que cantava no Wisconsin, EUA. Suas canções descreviam as agruras da vida na época – além de personagens surrealistas, como caminhões vivos, gêmeos siameses usados para adivinhação e esquilos famintos com 12 cabeças. A dona desse touro, que chamava-se Caroliner, o levava do campo para a cidade para cobrar dinheiro de quem ouvisse seus lamentos melódicos. Posteriormente, o touro foi morto e desmembrado, sem no entanto deixar de cantar.

    Façamos agora um salto no tempo para meados dos anos 80 em San Francisco, Califórnia. Um grupo relativamente anônimo de músicos e artistas, capitaneados por uma misteriosa figura a quem chamam de Buttonup Skeletone, tomou para si a empreitada de ressuscitar o cancioneiro do tal touro. Estas canções formam o material musical em torno do qual foram criados LPs e apresentações ao vivo elaboradíssimos – embora fossem, à sua maneira, sujos e aterrorizantes – da banda Caroliner.

    caroliner2

    Tudo envolvendo essa banda fascina pelo hermetismo. O nome da banda muda de disco para disco (seguindo a fórmula “Caroliner Rainbow _______”, com o segundo trecho sendo preenchido por trechos de letras ou frases crípticas). Todos os seus integrantes são conhecidos por pseudônimos confusos – embora alguns membros do grupo possam ser descobertos com certo grau de pesquisa e paciência. Ao assistir uma apresentação ao vivo, dá-lhe mais confusão: todos os músicos se apresentam fantasiados e mascarados com vestes e cores indescritíveis (o mais familiar são as máscaras, que imitam crânios de boi ou mesmo igrejas) contra um pano de fundo colorido e fantasmagórico – além de objetos cênicos e motorizados, todos cobertos da característica tinta e iluminados por luz negra.

    [Sim, as imagens que enfeitam esta matéria são registros visuais dessas apresentações. Acredite.]

    caroliner3

    Segundo um porta-voz oficial e anônimo do grupo, a montagem do palco podia levar entre uma hora (para shows em turnê com menos elementos), um dia inteiro ou até mesmo uma semana (caso todos os objetos fossem posicionados). Motores, papelão, tecido, instrumentos, fantasias, lâmpadas de luz negra… Tamanho é o esforço para trazer a público uma proposta e atitude que é justamente avessa à fama e ao lucro. Não deixa de ser tão admirável quanto bizarro.

    Para o entretenimento/envenenamento por ergotismo domiciliar, a banda lançou, de 1983 até 2007, LPs e CD-Rs com os títulos mais escabrosos (algumas traduções, para exemplificar: “Estou Armado com Quartis de Sangue”, “A Besta do Fogão”, “Anéis em torno da Sombra Estranha”, “Selar, Curar, Berrar” e, o meu favorito pessoal, “Teatro de Fantoches da Hérnia Lombar”). As embalagens não ficam devendo: ao encomendar os discos através da gravadora Subterranean Records, corre-se o risco de receber um LP embalado com lixo encontrado nas ruas de San Francisco – há relatos de discos que vieram com fraldas usadas, baratas mortas, livros destruídos e cartões de colecionador.

    Confira aqui alguns vídeos que trazem uma amostra desses sons. Há mais de 14 álbuns de estúdio para buscar – todos disponíveis para compra no site do selo Subterranean Records.

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    A segunda parte dessa matéria trará, de maneira inédita, depoimentos de pessoas que estão ou já estiveram no grupo – todos creditados sob pseudônimos, já que a ideia do projeto é evitar também o culto à personalidade e deixar a música e o visual falarem por si. Também analisaremos de maneira mais aprofundada os álbuns lançados até hoje, cada um deles único e “caoticamente organizado”, por assim dizer.

    Agradeço sua companhia ao acompanhar esse grupo fantástico e espero você aqui novamente na próxima matéria!

    Veja vídeos abaixo:

    Caroliner Rainbow – Figodean Doctor of the Lariat Rope

    Caroliner Rainbow – Live at the Dreamland Theater 1/3

    Caroliner Rainbow – Day of the Terrible Cocksuns 

     

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  • Você e o som

    Todo som conta uma história

    Postado dia 21 de dezembro de 2016 às 09h em Cultura e Lazer

    som

    Foto: Reprodução

    É inegável que a música e o som nos cercam diariamente.  Seja por vontade própria ou inércia, somos sujeitos a estímulos sonoros através de infindáveis dispositivos e objetos. Falando como uma pessoa que ama o som, sinto que posso dividir um pouco do motivo pelo qual prezo tanto por essa “força invisível.

    Todo som conta uma história.

    Seja o timbre ou a coloração de um baixo em uma música de rock – que se apresenta da maneira que ouvimos devido a escolhas do músico, do produtor e dos engenheiros de som – até o zumbido da geladeira ou o estalido de britadeiras em obras públicas, todo som encontra seu fundamento na física e no engenho (que corresponde à ação humana ou à física se manifestando na natureza).

    É na constituição material de cada objeto ou meio que reside o motivo pelo qual cada som é o que é, o chamado “timbre”  – nos nossos exemplos acima, o material do qual são feitas as ferramentas e os objetos com os quais elas entram em contato, ou ainda o instrumento específico e a maneira como o seu impulso elétrico foi transmitido do baixo até o amplificador e deste até o microfone, indo até a mesa de som, sendo então transformado em sinal de som ou em código binário.

    Tudo isso parece muito técnico e talvez desnecessário para esta reflexão, mas o foco aqui é que nenhum som se dá por acaso. Há muitas explicações esotéricas ou místicas quanto a uma harmonia cósmica de sons na qual estaríamos inseridos – dependendo de onde se procurar, pode estar aí a explicação do meio urbano ser percebido como tão caótico e dissonante, já que seus sons assim o são.

    O que eu sugeriria para você, leitor, antes de qualquer outra coisa, é exercer uma escuta ativa. Escolha dois sons no seu dia e, de início, tente mentalizá-los isoladamente. Pode ser mais difícil experimentar isso com a guitarra de uma música complexa, com muitos instrumentos em seu arranjo, mas também aí há um desafio interessante. Tente comparar os dois sons em alguns quesitos: agudo vs. grave, ruidoso vs. suave, distorcido vs. limpo… Com o tempo, esse exercício torna-se quase que uma meditação. Conhecendo os sons do mundo (e o seu ouvido interagindo com eles, e até mesmo como o seu cérebro reage a determinados sons), você encontrará uma fonte de prazer e uma curiosidade que talvez não existisse antes.

    A partir deste ponto, qualquer música poderá ser fonte de um estudo informal mas não por isso desimportante. Trata-se de um exercício que trará benefícios inegáveis tanto para músicos (iniciantes ou experientes) quanto para pessoas que simplesmente se interessam pelo que entra em seus ouvidos.

    Lembre-se: nenhum som é do jeito que é por acaso. Descubra essa infinita e invisível variedade!

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