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Leila Cabral

Profissão: Professora

Cidade: Mogi das Cruzes

Leila Daibs Cabral nasceu em Mogi das Cruzes, cursou o Instituto Dona Placidina, Instituto de Educação Dr. Washington Luis. Formou-se em Letras e Pedagogia pela Universidade de Mogi das Cruzes e doutorou-se em Literatura e História pela Universidade de São Paulo, com especialidade em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa.

  • Já não há mais “antigamentes” como antes

    Só hoje compreendo que o universo mental de um povo é o seu próprio mundo, sua vida, seu tempo, seu espaço

    Postado dia 1 de dezembro de 2016 às 08h em Educação e Cidadania

     

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    Foto: Reprodução

    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos eu era feliz e ninguém estava morto” (F. Pessoa; Aniversário); havia ruas, ao fim da tarde, para brincarmos de roda e cabra-cega, queimada e lenço-atrás.
    A família libanesa nos convocava e aos meus irmãos, e aos primos de montão para iniciar a convivência, embora sempre controlados pela hora do regresso. Era como se a rua entrasse casa adentro e saísse dela quando quiséssemos.

    Tamanha a euforia do momento que, para nós, não havia futuro; morava em nós a alegria de todos e, ao regressar a nossas camas, noite adentro, o tempo habitava cada um apenas como companheiros de folguedos. Embalados por mais um dia, adormecíamos sem pensar.

    A cidade se aquietava nos embalos da família, eu mergulhava nos sonhos e povoava-os de prazeres. Entre mim, a família, a casa e o meu mundo particular não cabia mais ninguém. O universo estava para cá da fechadura como o infinito para a amanhecência.

    Só hoje compreendo que o universo mental de um povo é o seu próprio mundo, sua vida, seu tempo, seu espaço; o mesmo que constrói os “antigamentes de outrora”, a memória que não dá trégua, embora existam tantos a quererem sepultá-la.

    Tudo isso se chama esperança, alma de um patrimônio que necessita de guardiões, batalhadores atuantes.

    A memória coletiva tem suporte em um grupo limitado, no espaço e no tempo, mas este só é real na medida em que tem um conteúdo, ao oferecer uma gama de acontecimentos ao pensamento. Limitado, relativo, o tempo possui realidade plena, ampla para fornecer às consciências individuais um quadro documentado e, desse modo, podermos nele dispor e encontrar suas lembranças.

    A memória coletiva não existe sem que se desenvolva em uma tela espacial; por isso explica-se o fato de gostarmos de voltar aos lugares que nos ajudaram a construir nossa identidade, para resgatar esta ou aquela categoria de lembranças.

    O mais decepcionante, contudo, é quando procuramos por antigos patrimônios que marcaram nossa infância, nosso imaginário e constatamos que sequer o lugar existe (culpa do “cupim”). Ou, então, o encontramos enterrado, juntamente com a história dos nossos antepassados, ou nos deparamos com o convite ao “nada”: nada de futuro, nada a ver, nada a mostrar aos nossos descendentes, nada a dizer aos nossos discípulos a não ser sobre a mágoa de não vermos preservadas as nossas raízes, a história vilipendiada, colocada no panorama do “ao deus dará”. Lamentável.

    Inspirado em Mia Couto

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  • O que as crianças aprendem na escola?

    Conforme dados do governo federal 98,2% das crianças, entre 9 e 14 anos, encontram-se matriculadas no ensino fundamental

    Postado dia 20 de janeiro de 2016 às 00h em Educação e Cidadania

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    Foto: Divulgação/Internet

    O acesso à escola, supõe-se, deveria ser o índice catalisador de redução das desigualdades sociais mas, infelizmente, não garante ainda uma vaga em universidade pública, muito menos uma boa posição no mercado de trabalho. Não basta que esses alunos entrem na escola, é preciso mais estímulo para assegurar sua permanência nela e que adquiram conhecimento útil para a vida e, consequentemente, para o mercado de trabalho.

    A Prova Brasil, de 2011, que avaliou as escolas públicas, mostrou, por meio dos resultados, que 29% dos matriculados no quinto ano do ensino fundamental ficaram aquém do nível de básico de aprendizado, em Matemática, por exemplo: 23% não alcançaram o nível de aprendizado, em Português.

    Uma valorização mais salutar e menos ideal dos professores seria um fator a contribuir para a melhoria do ensino. Os salários, uma vez revistos e aumentados, seriam ponto de incentivo, inclusive, para a demanda da carreira do Magistério que carece de pessoas mais competentes no momento. Praticamente, os que compõem o cenário do magistério no Brasil recebem baixos salários. Isso os frustra e acaba interferindo em seu desempenho como profissionais.

    Os deveres desses profissionais são extensos face à responsabilidade que o Estado impõe aos cidadãos, tais como: todo indivíduo com idade entre 7 e 17anos deverá estar na escola; todo indivíduo com idade de 8 anos deverá dominar a leitura; os alunos deverão ter acesso a todos os conteúdos correspondentes a sua série; todos os alunos deverão concluir as etapas de estudo (fundamental e médio).

    Imagine-se ainda que no Brasil, hoje, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas com idade escolar estão fora da sala de aula e, para cada 100 alunos que entram na primeira série, 47 terminam o 9º ano na idade correspondente, 14 concluem o ensino médio sem interrupção e  11 chegam à universidade; 61% dos alunos do 5º ano não consegue interpretar textos simples. 60% dos alunos do 9º ano não interpretam textos dissertativos; 65% dos alunos do 5º ano não dominam o cálculo e 60% dos alunos do 9º ano não sabem realizar cálculos de porcentagem.

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  • Passado, memórias e retratos

    As lembranças nos roubam ao presente, as memórias abrem janelas na alma, trazem de volta as surpresas de outrora e, novamente, ficamos à mercê do encanto da viagem

    Postado dia 23 de dezembro de 2015 às 00h em Educação e Cidadania

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    Por que temos o hábito de anular passados? Porque, muitas vezes, eles revelam nossos medos e fantasmas. Esse é o tipo de comportamento que sempre se repete, segundo o escritor moçambicano, Mia Couto, principalmente quando se trata de passado recente.

    Quando “nos percebemos”, descobrimos que somos o que fomos e isso incomoda muito, devido à carga do passado. Assim, as lembranças nos roubam ao presente, as memórias abrem janelas na alma, trazem de volta as surpresas de outrora e, novamente, ficamos à mercê do encanto da viagem; divagamos, colhemos momentos, uns agradáveis, outros não, e terminamos por estagiar em paragens extremamente vivas, das quais temos a impressão de nunca ter saído.

    fotoleila2Muita razão tem o poeta Nuno Camarneiro, ao afirmar que há lugares feitos para doer, para que o mal tenha chão, morada e um código postal, ou até mesmo, ruas onde não dormimos, ruínas que foram casa, paredes que já não são…

    Há pessoas que dizem que quem vive de passado é museu… Mas, se até as fotos são passado. Que dizer desta, por exemplo?

    Ela reaquece um tempo longínquo (1917) e reabre a história desse momento, mostrando o curioso papel da civilização. Embora não tenhamos vivido ali, a nostalgia assola o nosso imaginário. Daí que, o prazer provocado por tais sensações, não depende diretamente delas, mas deve-se ao fato que, pertencendo simultaneamente ao presente e ao passado, provocam uma momentânea libertação do tempo e da contingência pela projeção do sujeito que as experimenta num plano intemporal, localizado fora do espaço limitado.

    São dois passados, dois mundos que pareciam modernos ao tempo e que, hoje, são cinzas; contudo, auxiliam-nos a compor nossa história!

    fotoleila1É como a destruição do patrimônio de uma cidade, fato tão relevante nos dias atuais.  É sono sem volta: a cidade perde-se, perde o povo, perde-se a história. Estão a esquecer-se de que uma cidade não é apenas um lugar, mas a moldura de uma vida à procura do retrato. Não bastam as ruas, as praças ou as casas para que ela exista, nela se revive um tempo, um lugar, onde se escuta a fala de nossos antepassados. Expressamos a língua da memória, da emoção chamada infância, saudade.

    Uma cidade não tem idades, sua história é o patrimônio. Por isso, não pode deixar-se morrer. Mesmo as histórias inventadas por seu povo contêm sua lucidez. Não fossem as fotografias, como conheceríamos os lugares de antes?

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  • O que fazer para ter um filho mais inteligente

    Seria lícito afirmar que metade da inteligência dos nossos filhos é fruto da genética e a outra metade depende de uma série de fatores, entre os quais a música?

    Postado dia 9 de dezembro de 2015 às 00h em Educação e Cidadania

    Afastar o tablet da criança e dar-lhe uma guitarra, por exemplo, poderia ser a sugestão, já que as aulas de música potenciam a inteligência, enquanto a tecnologia fomenta determinadas capacidades. A investigação do neuropsicólogo Álvaro Bilbao, autor do livro “El cerebro del niño explicado a los padres”, ressalta que cerca de 50% da inteligência das crianças determina-se pelos genes. Sua relação com o meio, ao longo da vida, determinará o resto. O estudioso salienta que, sem a presença dos pais, o potencial intelectual da criança não se desenvolve e os primeiros seis anos de vida são especialmente importantes para que o cérebro crie ligações neurais relevantes.

    Para se ter um filho inteligente, o principal é dar-lhe amor, partilhar com ele sua vida, reforçando condutas positivas, apoio e brincadeiras, permitindo que cometam enganos, se socializem, discorram acerca de seus problemas. O jornal espanhol El País, em referência a vários estudos acerca do assunto, sugere maneiras eficazes de estimular e desenvolver a inteligência da criança, tais como: inscrevê-la em atividades artísticas, a exemplo da música e do teatro; não permitir que a criança veja televisão até os dois anos de idade; promover o entretenimento cerebral a fim de melhorar a memória em curto prazo, estimulando o uso de jogos de memória, puzzles ou atividades criativas; não deixar que a criança mexa em dispositivos tecnológicos até os três anos de idade. Sugere, ainda, que assistam a filmes em inglês, ou em outra língua estrangeira, acompanhadas dos pais, para que se familiarizem com um novo idioma. Promover a leitura de uma história com a criança antes de ela dormir, à noite, também é importante e facilitará melhorar suas capacidades e estratégias de aprendizagem, além da criatividade.

    Contudo, seria relevante lembrar que, segundo estudo intitulado “Crianças, múltiplas linguagens e tecnologias móveis na Educação Infantil”, elaborado por Juliana Costa Muller e Monia Fantin, compreender aspectos da infância na contemporaneidade requer, dentre várias coisas, a percepção das relações que as crianças estabelecem em diferentes contextos sociais, mediados pela família, escola, cultura em geral e pelos artefatos tecnológicos em particular. Ao empregar tecnologias móveis, crianças pequenas podem antecipar vivências, embora corram o risco de queimar etapas e substituam linguagens e formas de expressão que não teriam construído sem instrumentos tecnológicos. Desde cedo, parte significativa de crianças já possui acesso à cultura digital; daí a necessidade de problematizar tal utilização, uma vez que muitas escolas parecem distantes dessa realidade. Várias pesquisas vêm sendo desenvolvidas no espaço infantil, com abordagem qualitativa, buscando-se principalmente uma aproximação com um grupo de crianças entre 5 e 6 anos, em uma instituição pública federal. Uma das propostas inovadoras a incluir-se aqui é a de Cícero Lucena, de João Pessoa, que diz acreditar que a adoção do tablets por professores e alunos da rede municipal de ensino, por exemplo, trará inúmeros benefícios para a educação das crianças e jovens. Vantagens que, certamente, tornarão as aulas mais atraentes, educativas e produtivas aos alunos, além de proporcionar igualdade de condições com os alunos da rede particular de ensino. Haja fôlego para os pais, educadores e crianças. Medidas cabíveis ou utópicas?

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  • O Turista Aprendiz

    A obra "O Turista Aprendiz", de Mário de Andrade, foi relançada a 12 de novembro de 2015 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (apoiados pela Fundação Vale)

    Postado dia 18 de novembro de 2015 às 23h em Educação e Cidadania

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    A obra “O Turista Aprendiz”, de Mário de Andrade, relançada a 12 de novembro de 2015 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (apoiados pela Fundação Vale), é um relato de viagens que o autor modernista empreendeu, primeiramente, em companhia de Olívia Guedes Pinto, aristocrata do café e protetora dos modernistas; da sobrinha, Margarida Guedes Penteado e de Dulce do Amaral Pinto, filha de Tarsila do Amaral.

    A partir de maio de 1927, quando o autor tinha 34 anos, a comitiva viajou por um período de três meses, pelos rios Amazonas, Solimões e Madeira, desde o Rio de Janeiro até Iquitos, no Peru. Em novembro de 1928, Mário de Andrade segue sozinho ao Nordeste e permanece até fevereiro do ano seguinte.

    Recepcionado por Ascenso Ferreira, Jorge de Lima, Cícero Dias, Câmara Cascudo e outros, toma contato com a floresta, com o sertão, com diversos tipos humanos e manifestações culturais. Incluem-se contatos com as danças, músicas, religiosidade, folguedos, num misto de sincretismo e superstição que dão ao autor a oportunidade de contemplar a nacionalidade abrangente que se opõe às concepções regionais. A viagem ao Nordeste revela-se extremamente produtiva em termos de registro fotográfico.

    No arquivo do autor (Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, série Fotografias) ganha relevo a foto que o apresenta como um fotógrafo moderno, em que maneja uma câmera Kodak de caixão, fato constatado no autorretrato datado do ano de 1928.

    A subsérie Mário de Andrade -fotógrafo reúne 1.538 imagens em positivo e um número expressivo de negativos: os positivos, em preto e branco, medem, a maioria, 6,1 cm x 3,7 cm, permitem diversas ampliações de 17,5 cm x 12,5 cm, em PB, assim como em viragens sépia ou avermelhadas. Sabe-se que fez registros fotográficos e escritos sobre a paisagem, o homem e a cultura local, o trabalho no campo com a cana, café, gado; o labor de populações ribeirinhas, como o transporte de madeira e alimentos; os mercados de grupos urbanos; trocas entre citadinos e indígenas; referências aos trabalhos femininos, a exemplo da lavagem de roupas etc.

    As fotos desvelam o empenho do escritor ao transmitir fidedignamente o retratado numa mixagem de informação e valor artístico, registro de imagens com títulos e legendas esclarecedoras, aliado a um trabalho de ação turistico-etnógrafico, enquanto fotógrafo-poeta.

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  • Contra fatos não há argumentos

    Trata-se de toda uma nação, já em excessos emocionais, que não se vincula mais aos fatos promovidos por essa ditadura declarada

    Postado dia 30 de outubro de 2015 às 09h em Educação e Cidadania

    O estado “antropofágico” em que vivem atualmente os brasileiros, devorados não mais pelas beiradas, mas por inteiro, leva-os à reflexão de que é preciso deslocar e rever a propriedade nata – de povo sofrido e esperançoso – para uma prática mais direta e democrática de olhar a situação. Sabe-se que o sistema político brasileiro encontra-se há muito fragmentado, tornando-se difícil captar com precisão quais serão os destinos da nação. Por outro lado, o (des)governo tenta manter uma relação histórica irrealista entre seus pares e o povo, ao mesmo tempo em que insiste em querer ocultar os verdadeiros fatos de sua intrínseca fragilidade.

    Instala-se a cada dia um novo espetáculo, uma nova paródia e a recorrente leitura do povo está voltada para um contexto bifronte: de um lado as faces inaceitáveis da postura governamental; de outro, um povo exaurido, quase que “em guerra”. Realidades que, espacial e temporalmente, completam o quadro histórico desalentador do brasileiro. Como a corda rói pelo lado mais fraco, maior constrangimento se impõe, não apenas à classe trabalhadora em geral, mas aos aposentados e aos trabalhadores de menor escala social.

    Definindo, embora timidamente, todo o panorama do país, pode-se afirmar que se vive um tempo de terror, de temor pessoal, numa ambiência de marcada polarização política. É a face visível que se põe em foco – o alienante – além do lado nada camuflado da corrupção, como uma espécie de apropriação indébita dos direitos do cidadão. Os autores de tais desmandos desempenham com grande mérito seu papel tresloucado em meio ao clima de insatisfação de uma nação inteira.

    O eleitor não é o ingênuo de antes, articula-se muito bem com a urdidura em que o meteram e reputa como desastroso todo o quadro arquitetado pelos (des)governantes que querem tapar o sol com a peneira da retórica. O povo encontra-se revoltado pelas condições de miséria e de aviltamento em que o submeteram. As “sutilezas” que se quer demonstrar pelas falas vazias no Congresso, no Senado, nos discursos em geral, inclusive pelos candidatos a candidato, senhores políticos, se distanciam, e muito, das perspectivas do brasileiro.

    Trata-se de toda uma nação, já em excessos emocionais, que não se vincula mais aos fatos promovidos por essa ditadura declarada. Além do mais, contra fatos não há argumentos.

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  • O negócio do Brasil: Portugal, os países baixos e o Nordeste

    Autor Evaldo Cabral de Mello traz relatos de negociações diplomáticas e o contexto político dos países europeus à época

    Postado dia 20 de outubro de 2015 às 14h em Educação e Cidadania

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    Obra ao estilo clássico, assinada pelo renomado historiador brasileiro, Evaldo Cabral de Mello, ilustrada com documentos e imagens de época, é uma iniciativa inédita em meio às edições de histórias já publicadas em nosso país. O autor acessou uma variedade de fontes iconográficas do tempo, o que foi reforçado pela Capivara Editora, que contrabalançou a rudeza peculiar aos textos de história diplomática, soprou-lhe vida, forma e ainda concedeu-lhe perfil estimulante à compreensão do leitor.

    O texto revela as negociações diplomáticas portuguesas no sentido de reaver o Nordeste brasileiro conquistado pelos Países Baixos, estimulando, assim, a importância de se estudar História do Brasil concomitantemente com a História de Portugal, além de expandir nossos conhecimentos em relação ao contexto político dos países europeus. Sabe-se que Portugal, uma vez liberto da Espanha, retomara as negociações para reaver “o Brasil Holandês”.

    Portugal lutava contra a Espanha em sua fronteira e buscava aliados europeus para reconhecer sua independência. Assim, Portugal buscava uma aliança política com a França e a Inglaterra a fim de se defender da Espanha. A França tinha interesses em que o conflito hispanoportuguês se perpetuasse e enfraquecesse a Espanha; poderia invadir a Espanha e tomar alguns territórios de seu interesse. Ocorre que, a esse tempo, Cromwell e o Parlamento deram um golpe na Monarquia Inglesa (aliada de Portugal) e a situação de Portugal se complicou, vendo-se forçado a ceder o Nordeste aos Países Baixos, em troca de uma aliança contra a Espanha.

    Lembre-se que Cromwell foi um dos iniciadores do capitalismo na era industrial da Inglaterra, tendo sido o primeiro a notar a importância de exportar produtos manufaturados ingleses, ideia amplamente apoiada pelo parlamento. Os súditos portugueses entram em guerra contra os holandeses do Brasil, reconquistam boa parte do “Brasil Holandês”, mas devido a problemas internos fracassa a armada enviada para reconquistar o Nordeste. Surge uma guerra entre Países Baixos, Suécia e Inglaterra pela conquista da navegação no Mar do Norte.

    Os Países Baixos entram em dificuldades para sustentar duas frentes de batalha – no norte da Europa e em Portugal. Uma vez enfraquecida a frota marítima portuguesa, Portugal teve de se aliar a uma das duas potências navais da Europa – Países Baixos ou Inglaterra, para se defender contra eventual bloqueio marítimo espanhol. Seria ideal se pudesse fazer aliança com ambos para equilibrar poderes, mas as circunstâncias levaram Portugal a cair em mãos inglesas. Com isso, mais as ações da Companhia das Índias caindo para 3% do seu valor nominal, os Países Baixos se conscientizaram de que era melhor devolver o Nordeste a Portugal e fazer acordo que lhe concedesse vantagens comerciais tal como sua concorrente inglesa.

    O Nordeste foi reintegrado ao Brasil, contrariamente a algumas versões antes veiculadas, a exemplo de: a rebelião dos portugueses no Brasil, apesar das mortes, bravura, etc. teve uma influência mínima no resultado final. Ou, então, que Portugal não cedeu à Inglaterra, por infantilidade; ou que essa era a única solução possível para manter a independência territorial portugueses. Que Maurício de Nassau não era mal visto nem pelos batavos, nem pelos brasileiros e que fora convidado a retornar ao governo brasileiro por duas vezes.

    Quem conhece Evaldo Cabral de Mello sabe que é recifense, nascido em 1936, e tem por formação o curso de Filosofia da História (leia-se, Londres e Madri). Ingressou no Instituto Rio Branco, trilhou a carreira diplomática, serviu nas embaixadas do Brasil em Washington, Madri, Paris, Lima e Barbados, assim como em missões brasileiras em Nova York, Genebra e consulados gerais do Brasil, em Lisboa e em Marselha. Um dos mais valiosos historiadores brasileiros, Evaldo Cabral de Mello especializou-se em História regional e no período do domínio holandês, em Pernambuco, no século XVII, acerca do qual produziu várias obras: Olinda Restaurada (1975), Rubro Veio (1986), sobre o imaginário da guerra entre Portugal e Holanda, e O Negócio do Brasil (1998), em que analisa as características econômicas e diplomáticas do enfrentamento entre portugueses e holandeses. A Guerra dos Mascates e a rivalidade entre brasileiros e portugueses em Recife originou a obra A Fronda dos Mazombos (1995). É autor de O Norte Agrário e o Império (1984), O nome e o Sangue (1989), A Ferida de Narciso (2001), Nassau: governador do Brasil Holandês (2006), e O Bagaço da Cana (2012).

     

     

     

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  • Homenageando Mogi das Cruzes

    Uma linda homenagem feita com história e poesia.

    Postado dia 22 de agosto de 2015 às 13h em Educação e Cidadania

    MCruzes AVA

    Há modos e modos de ser-no-mundo. No seu, Luiz Miguel, não se limitando apenas ao sentido, prepondera a presença – relação necessária espacial e corporalmente com o mundo e suas coisas. Atente, porém, ao seguinte: qual o saldo dessa empreitada intelectual? O principal, me parece, está no fato de você vislumbrar possibilidades de ressituar atitudes, utilizando corpo e consciência neste espaço de Deus, que é Mogi.

    Aspirando a uma transformação do espaço em que vive, o da sua cidade, em objeto a ser sempre inteligido, interpretado e conservado, sem excluir o sujeito cognoscente moderno, reduzido à condição de produtor de progresso, por força do protocolo de se governar, você sempre foi contra esse império do progresso inerte que cresce para os lados, sem planos e sem direção.

    Admirei seu poema que abertamente se insurge, não contra a evolução do nosso município, que não é do seu feitio, mas contra a interlocução vazia que caminha sem diagnóstico, desconstruindo um patrimônio que, a seu ver deveria ser mais respeitado.

    Há infelizmente e sempre haverá os arautos da demolição, da desprodução, que evidenciam a falta de originalidade, a força política em estado dessubstancializado do mundo, força essa que frequenta há tempos os bolsos já cheios (como você mencionou o caso Itapety) imersos em crises mal resolvidas, metafisicamente falando. Contrariando o bom ou mau gosto intelectual, o homem mogiano, assim como você, deveria ser incansável na busca por um debate mais amplo sobre a crise do nosso patrimônio.

    A DANÇA DOS TEMPOS

    …a visão do teto…a visão do arquiteto…

    Na constante dança dos tempos

    O inexorável descompasso histórico

    E o progresso da modernidade absurda

    Afugentam nossas culturas passadas…

    No constante bolero dos tempos

    A desmemória fatídica

    O alumínio esconde nossos adornos Eurocoloniais-indígenas

    Veda as arquiteturas passadas

    Nossa herança eclética-racial…

    No constante balé das horas

    A destruição da lendária serra do Itapety

    O progresso imobiliário, o progresso industrial

    Exalam a fumaça urbana, contaminam as águas mogianas

    Anhemby (Tietê), Guaió, Jundiaí Taiaçupeba Mirim-Açu, Negro

    Os ventos levam por seus leitos:

    O lixo, o excreto, os execráveis agentes químicos terceiromundanos…

    Na quadrilha cortesã Pulam e saltam os veados, as pacas, os nambus

    Voam os pássaros nos quintais concretinos…

    No ritmo do rock-and-roll

    Abalamos os paralelepípedos, cobrimos as pedras

    Benditas pedras, maldito fóssil viscoso:

    O asfalto no Centro Histórico de Mogi das Cruzes…

    No eletrizante heavy-metal

    Abaixamos a cabeça à descaracterização mogiana

    Curvamo-nos como nipônicos milenares

    Às atrocidades ao nosso meio ambiente cultural

    Ensurdecemos com decibéis malucos

    A buzina, a lei do trânsito caótico…

    E agora?

    Agora já não ouvimos mais os sinos das

    Centenárias igrejas do Carmo, o revoar dos pássaros itapetianos,

    O ranger dos carros de boi

    O trote dos cavalos e cavalheiros, aventureiros

    E bandeirantes que por aqui passaram tempos atrás

    Atrás – através das cirandas de roda

    Das crianças mogianas, iremos nos encontrar

    Até um dia, civilizações indígenas:

    Muiramomis (pés-largos), Guayanas

    Guerreiros Tamoyos do Paraíba, atrozes Tupiniquins

    Até o dia profético de Caetano Veloso em que

    Descerão de uma estrela e falarão aos homens, o óbvio:

    “As matas atlânticas subtropicais, devastadas por nós

    Se voltarão contra nós, Os rios ingentes de vida nos sertões mogianos

    Nos envenenarão Os animais impávidos voarão contra nossas

    Cabeças desnudas de consciência das belezas

    Das terras e arquiteturas mogianas”

    (Autor: Luiz Miguel Franco Baida – Arquiteto e artista mogiano.)

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