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João Anatalino

Profissão: Escritor

Cidade: Mogi das Cruzes

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário. Auditor da Receita Federal (aposentado), Professor da Escola de Administração Fazendária. É consultor empresarial na área de tributação. É Mestre Practitioner em PNL. Fundador da Associação Mogiana Oficina dos Aprendizes, ONG sediada em Mogi das Cruzes, que promove a capacitação e a inserção de jovens carentes no mercado formal de trabalho. Tem 10 livros publicados pelas Editoras Madras e Scortecci

  • A cigarra e a formiga

    O inverno chegara e a cigarra não conseguia achar comida em lugar nenhum. As árvores estavam todas peladas, o frio era glacial, não sobrara nenhum lugar para se abrigar.

    Postado dia 3 de maio de 2016 às 07h em Causos e Coisas

    cigarra

    Foto: Reprodução/Internet

    O inverno chegara e a cigarra não conseguia achar comida em lugar nenhum. As árvores estavam todas peladas, o frio era glacial, não sobrara nenhum lugar para se abrigar.

    Á beira da exaustão e da inanição ela chegou á porta de um formigueiro. Olhou para dentro e viu várias formigas descansando e se esquentando junto á uma convidativa lareira. O ambiente era quente e confortável. Música suave tocando. Comida aos montes por todos os lados. Cheia de esperança a cigarra bate palmas.

    ? Por favor, comadres formigas, deixem-me entrar. Está muito frio aqui fora e eu estou quase morta de fome ?, diz a cigarra.

    Logo aparece à porta do formigueiro uma formigona vermelha, bunduda e com cara de brava. Era a líder daquela colônia.

    ? O que você quer?? perguntou a formigona, com cara de poucos amigos.

    ?Abrigo e comida ? respondeu a cigarra.

    ?O que você sabe fazer na vida? ? quis saber a formiga.

    ? Sei cantar e dançar ? respondeu a cigarra.? Essas habilidades não têm utilidade aqui ? respondeu, com sarcasmo, a formiga.? Nós, as formigas, só fazemos coisas úteis. Por isso, aqui só tem lugar para quem trabalha.

    ? O que devo fazer então? ? choramingou a cigarra.

    ? O que andou fazendo o verão inteiro?? perguntou a formiga.

    ? Cantei, cantei, cantei?, disse a cigarra.

    ? Pois então agora dance, dance, dance ?, respondeu a formiga líder, com um sorriso sarcástico, que foi acompanhado por todo o formigueiro.
    .
    A cigarra foi embora cabisbaixa, e segundo algumas informações teria morrido de frio e fome. Mas essa não é a verdade. O que aconteceu foi que ela aceitou o conselho da formiga e conseguiu chegar até a cidade mais próxima. Conseguiu emprego num cabaré como cantora e dançarina. Aprendeu a dançar no poste e tornou-se uma famosa bailarina. Ganhou fama e dinheiro.

    Quando chegou o verão, ela foi passar férias no campo. Estava saudável, feliz e tinha arrumado até um namorado. Era dia de muito calor e ela resolveu fazer um piquenique. Comprou tudo do bom e melhor, encheu uma cesta e escolheu o lugar mais bucólico e bonito que encontrou no campo. Comeu, namorou, cantou, dançou, divertiu-se até a saciedade.

    Cansada e de bem com a vida, resolveu tirar uma soneca. Quando estava quase pegando no sono, ela viu algumas formigas escorregando sorrateiramente para dentro de sua cesta para recolher as sobras de comida que ela trouxera para o piquenique.

    Percebendo que a cigarra as surpreendera com a boca na botija, as formigas se prepararam para fugir. Mas a cigarra, com o ar mais cândido do mundo, lhes disse:

    ?Não precisam fugir, minhas queridas amigas formigas. Podem levar as minhas sobras. Esse é o trabalho de vocês e é o que sabem fazer muito bem. Continuem fazendo o que sabem fazer e melhorando cada dia mais. Quanto a mim, se eu estou hoje nessa situação tão confortável é por causa do conselho que me deram. Vocês me disseram para dançar e eu dancei. Descobri no que eu era boa e aperfeiçoei a minha habilidade. Agora eu sei que toda habilidade é útil quando aplicada no lugar certo e na hora certa. A vossa impiedade foi a causa da minha felicidade.
    ***
    Moral da história: Toda habilidade é útil e necessária para o mundo. Se não fosse, a natureza não a teria desenvolvido. Há hora de cantar e hora de trabalhar. Quem só faz uma coisa ou outra verá que sempre haverá um lugar vazio na sua vida. Trabalhe quando for hora de trabalhar, cante quando for hora de cantar. Se as duas coisas não fossem úteis a natureza não as teria feito.

    Outro aviso: Nunca despreze os conselhos que as pessoas lhe dão, mesmo que sejam dados com a intenção de humilhar. Ás vezes, a crítica e o castigo é justamente o que nós precisamos para descobrir a nossa própria força.

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  • A fábula da mosca na sopa

    Nós nascemos somente para desfrutar o que a vida nos oferece. Uma vez conseguido, por que lutar por mais alguma coisa?

    Postado dia 13 de abril de 2016 às 08h em Causos e Coisas

    mosca

    Foto: Reprodução/Internet

    Duas moscas que voavam inadvertidamente numa cozinha, ao passar por cima da mesa, viram lá embaixo uma panela com uma suculenta sopa. O cheiro estava bom e uma delas desceu para prová-la. Ficou logo presa no caldo. Tentou nadar até a borda da panela, mas quanto mais se debatia, mais pesadas as suas asas ficavam. Então pensou: “Não foi para isso que desci até aqui? Então vou aproveitar. E ao invés de continuar tentando escapar, comeu sopa até se fartar. Cansada e pesadona, deitou-se no grosso caldo e ali ficou, a dormir. A outra mosca viu que ela desistira de lutar e se abandonara à própria sorte. Parecia estar satisfeita, mas ela sabia que isso seria a morte da colega. “Hei amiga”, gritou ela.  “Não desista. Continue a nadar. Mexa as asas. Saia daí. Vamos, você consegue.”

    Mas a mosca, com seu último suspiro, respondeu: “Deixa para lá, amiga. Eu já comi, já bebi, já tomei meu banho. Não foi isso que nós viemos buscar aqui?”

    ***
    Essa fábula de Esopo pode ser interpretada de muitas maneiras. Um sujeito sem ambição poderia dizer: Bom, é isso mesmo. Nós nascemos somente para desfrutar o que a vida nos oferece. Uma vez conseguido, por que lutar por mais alguma coisa?

    Também se poderia interpretar essa história como sendo uma metáfora do perigo que ronda toda pessoa imprevidente, curiosa e gananciosa. Normalmente elas acabam se tornando prisioneiras das coisas que desejam. Depois de conquistadas, não sabem mais como se livrar delas, mesmo que venham a causar sua morte. Acontece muito com os vícios que adquirimos. No começo o cheiro é bom, o paladar é delicioso, o prazer é imenso. Depois…

    Essa fábula também pode ser tomada como exemplo de conformismo e abandono à providência, que algumas religiões aconselham como necessárias ao conforto do espírito, quando descobrimos que a morte é inevitável. Então paramos de lutar, porque, se a morte é o fim de tudo, de que adianta labutar tanto?

    Enfim, são muitas as interpretações. Quem quiser pode dar a sua. As fábulas de Esopo têm essa característica. Elas são verdadeiras Gestalts, que transmitem profundas mensagens de sabedoria. Por isso o grande La Fontaine, rei das fabulações, o colocava entre os maiores sábios que a humanidade já produziu.  

    Eu, por mim, vou lutar até o último suspiro. Quando a morte vier me buscar ela pode ter certeza que vai levar alguém muito inconformado.

     

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  • Sucesso, Fortuna e Amor

    Num pobre casebre, à beira de um caminho, chegaram, um dia, três viajantes. Cansados, sedentos, famintos, bateram à porta do barraco e pediram comida, água e abrigo

    Postado dia 28 de março de 2016 às 08h em Causos e Coisas

     

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    Foto: Reprodução/Internet

    Num pobre casebre, à beira de um caminho, chegaram, um dia, três viajantes. Cansados, sedentos, famintos, bateram à porta do barraco e pediram comida, água e abrigo. Lá  moravam três pessoas: um homem, sua esposa e a filha do casal, uma bonita menina de dezoito anos.

    – Quem são vocês e de onde estão vindo? – perguntou o homem.

    – Como se chamam? – perguntou a mulher.

    – O que desejam? – perguntou a filha.

    – Ah! Nós somos três andarilhos. Viemos de todos os lugares e vamos para onde formos desejados – respondeu o primeiro, que parecia ser o mais velho dos três.

    – Meu nome é Sucesso e os meus dois companheiros se chamam Fortuna e Amor – disse o segundo, com um largo sorriso no rosto.

    – Gostaríamos que vocês nos aceitassem como hóspedes em sua casa – disse o terceiro, o que se chamava Amor, e parecia ser o mais jovem entre eles.

    O homem olhou para a esposa e para a filha, que anuíram, com um sinal de cabeça.
    – Está bem – disse ele. Mas nossa casa é pequena e nós só podemos abrigar um dos três. Não temos lugar para todos. Um entra e os outros dois terão que passar a noite no paiol.

    – Tudo bem, responderam os andarilhos. –  Então escolham a qual de nós vocês desejam abrigar em sua casa.

    Pai, esposa e filha se entreolharam. Confusos, pediram um momento para confabular entre eles e escolher a qual dos três dariam abrigo na casa.

    – Vamos acolher o Sucesso – disse o pai. – Ele parece ser o mais sábio.

    – Não. É melhor abrigar o Fortuna – disse a esposa. – Acho que é mais seguro.
    – Pois eu prefiro o Amor – disse a menina. – Dos três é o mais bonito e confiável.
    Depois de alguns minutos de discussão, finalmente a família optou pelo desejo da filha.
    Então abriram a porta e pediram para o Amor entrar naquela casa.

    – Sábia decisão a de vocês – disseram Fortuna e Sucesso. – Se tivessem escolhido a um de nós dois, vocês teriam feito uma boa escolha, mas incompleta. Porém, ao escolher o Amor, vocês terão a todos nós juntos.

    E num passe de mágica, o Sucesso e o Fortuna se incorporaram no Amor, se transformando em uma pessoa só. E foi assim que os três entraram naquela casa.

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  • Ampliando possibilidades

    O investimento mais lucrativo que uma pessoa pode fazer é o recurso que ela aplica em si mesma

    Postado dia 9 de março de 2016 às 09h em Causos e Coisas

    pessoa

    Foto: Divulgação/Internet

    A nossa felicidade como indivíduos, e o progresso da espécie humana como um todo, depende da quantidade e da qualidade das opções de comportamento que conseguirmos desenvolver como resposta aos desafios que o ambiente nos apresenta. Se só aprendermos a nos defender das agressões que sofremos com outra agressão, a nossa vida será uma eterna luta, porque a cada momento somos atingidos por alguma coisa ou por alguém. Essa é a opção do animal, cujo sistema neurológico, incapaz de produzir respostas alternativas, denota a sua inferioridade na escala evolutiva das espécies. A sua extinção é devida mais à sua inflexibilidade comportamental do que ás mudanças ambientais.

    Em um nível profissional, se aprendermos somente uma forma de ganhar a vida, no dia em que essa habilidade não tiver mais utilidade para o sistema em que vivemos, ficaremos com a nossa subsistência ameaçada. É assim que muitos profissionais são expulsos do mercado e nunca mais voltam. Em termos psicológicos, se tivermos somente uma resposta – a prostração física e moral – para situações que nos provocam sentimentos de tristeza, abandono, mágoa, aborrecimento, frustração, etc… Nos transformaremos em verdadeiros poços de melancolia, pois todo dia estamos sujeitos a viver experiências que nos trazem esse tipo de sentimento; da mesma forma, se não tivermos mais que uma opção de comportamento para enfrentar situações de risco, acabaremos nos tornando criaturas extremamente frágeis, sempre necessitando da ajuda de alguém para sobreviver.

    É certo o ditado que diz: “quem vive à espera de um salvador, não merece ser salvo”. É verdade, pois quem coloca o leme do seu destino em mãos alheias não tem direito de escolher para onde quer ir. Isso acontece com muitas pessoas que instalam, inconscientemente, ou permitem, por livre vontade, que outras pessoas instalem em seus sistemas neurológicos “programas” que não lhes oferecem possibilidade de gerar respostas eficientes aos desafios da vida. São pessoas extremamente conformadas, preguiçosas, sem vontade própria, que estão sempre esperando que alguém tome decisões por elas.

    É verdade que nós só podemos viver no presente e que o futuro é mera abstração. Mas, se cada dia procurarmos fazer alguma coisa para adquirir novas habilidades, as vicissitudes da vida jamais nos pegarão desprevenidas. Por isso, o investimento mais lucrativo que uma pessoa pode fazer é o recurso que ela aplica em si mesma. E quando dessa aplicação o seu leque de escolhas se amplia, então ela está no rumo certo para encontrar sempre a melhor resposta para os problemas da vida.

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  • A praga do gerúndio

    Além de ser um péssimo hábito de linguagem, o uso do gerúndio pode caracterizar pontos negativos na personalidade de uma pessoa?

    Postado dia 22 de fevereiro de 2016 às 01h em Causos e Coisas

    gerúndio

    Foto: Divulgação/Internet

    Fui a uma repartição pública verificar o andamento de um requerimento que eu havia feito. A funcionária disse: “Estamos dando andamento nele”. Depois fui à oficina mecânica, onde havia deixado meu carro para uma limpeza nos bicos de injeção. Fazia dois dias que estava lá e a promessa foi que o serviço seria feito no mesmo dia.

    “Estamos fazendo o serviço” disse o responsável pela oficina. Cheguei ao escritório, abri os e-mails e li que alguém estaria me “enviando” nos próximos dias algumas informações que eu havia pedido.

    Odeio gerúndios. A mente de algumas pessoas só sabe trabalhar com essa forma verbal. Se alguém diz “estou fazendo” é por que certamente não está fazendo nada. Se lhe respondem “está andando”, é por que a coisa está parada. Você já deve ter percebido que essa conversa é própria de gente que trabalha em determinadas instituições, ou empresas onde as coisas não andam, ou quando andam, perdem longe para tartarugas e bichos-preguiça.

    Não é culpa delas. É o sistema que faz com que suas mentes trabalhem assim. Cartorários, funcionários públicos, advogados, gente nos fóruns e tribunais, todos que, de alguma forma, trabalham com essa máquina emperrada que são as repartições públicas do país, tendem a “programar” suas mentes pelo gerundismo. Tenho certeza que eles gostariam de dar respostas mais positivas, mas a burocracia é essencialmente gerundista e eles acabam se “conformando” com esses padrões.

    O problema não é o gerúndio em si. Ele é apenas uma forma verbal que expressa uma ação que devia acontecer no tempo presente. A questão é a incerteza, a indefinição que nele se embute, quando ouvimos essa forma verbal e ela não nos dá a menor ideia do resultado. E acaba servindo de desculpa para tudo que deveria ter sido feito e não foi.

    “Maria, o almoço está pronto? Tá saindo, patrão.”

    “Menino, você fez a lição de casa?  Tô fazendo, mãe.”

    “Querido, já resolveu onde vamos passar as férias? Tô pensando, amor.”

    Pessoas proativas, que resolvem as coisas, usam poucos gerúndios. Suas formas verbais geralmente estão na voz ativa para designar as ações. “Seu processo será despachado até o dia”… Seu carro não ficará pronto hoje porque não temos a peça… Se quiser levá-lo à outra oficina, recomendo… (Claro que isso deverá ser dito na hora apropriada, não dois dias depois).

    De qualquer modo, tome cuidado com o gerundismo. Até Jesus Cristo nos advertiu a esse respeito: “Seja o teu falar sim, sim, não, não, pois o que daí passa procede do mal.” Se acha que não vai dar para fazer, diga que não dá. Não enrole. Se não fez por alguma razão, diga por que não fez, não diga que está fazendo o que nem ainda começou.

    É pela linguagem que a nossa mente é programada. Nossas formas verbais refletem programas neurológicos utilizados pela nossa mente para gerar os nossos comportamentos diários. E quanto mais as usamos, mais reforçamos esses comportamentos. Preste atenção em como a pessoa fala.

    Se ela gosta de gerúndios, pode ser que você esteja falando com um baita enrolador.

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  • Negociar não é discutir

    As pessoas se digladiam como se fossem pugilistas em um ringue. Empenham-se tanto em demolir os argumentos do outro que nem se propõem a analisar suas razões

    Postado dia 20 de janeiro de 2016 às 00h em Causos e Coisas

    Foto: Divulgação/Internet

    Toda ofensa é uma carapuça que a gente só usa se quiser. Se uma pessoa entra em nossa sala com disposição para brigar, se não achar alguém com a mesma disposição, não terá ninguém com quem dividir o ringue. Isso quebra o padrão dela. Podemos deixá-la falar o que quiser e depois responder expondo o nosso ponto de vista de uma forma que não estejamos meramente contestando o dela.

    É possível fazer isso evitando o uso de conjunções adversativas, do tipo mas, contudo, todavia, entretanto, só que…etc. Esse tipo de conjunção denota, de início, que tudo que ela disse já foi julgado e contestado dentro da nossa mente. Podemos usar, no lugar das adversativas, conjunções aditivas ou alternativas do tipo e, ou, e mais, etc. É um tipo de linguagem que indica que nós vamos somar, ou alternar alguma coisa aos argumentos dela e não simplesmente descartá-los.

    Seja o que for que se diga, é bom não deixar que ela pense que foi completamente derrotada. Muitas vezes, o que a pessoa quer é apenas uma satisfação. Se nós a dermos, é o que basta. É só observar como se iniciam as discussões. As pessoas se digladiam como se fossem pugilistas em um ringue. Empenham-se tanto em demolir os argumentos do outro que nem se propõem a analisar suas razões. Vencer a discussão lhes parece um caso de vida ou morte.

    Mas alguém pode vencer uma discussão? Você já viu alguém que já tivesse, de fato, vencido uma discussão? Discussões são como debates políticos. Há pessoas que dizem que determinado candidato venceu. Quando você lhe pergunta qual é o candidato dele descobre por que ele acha que o tal candidato venceu. É claro, mesmo que o sujeito fosse mudo, gago, ou incapaz de formular uma única frase coerente, ele teria vencido.

    Discutir é como torcer por um time de futebol. Mesmo que o nosso time seja rebaixado à segunda divisão, nós nunca o trocaremos por outro. Se você está acostumado a discutir com sua mulher, seus filhos, chefes, patrões, etc. você sabe do que estou falando. Mesmo que eles abandonem o ringue você saberá que não venceu.

    Discussões são jogos que não podem ser vencidos. Vitória é um resultado que não existe nesse torneio. A vida não é um tribunal onde os argumentos são julgados por um terceiro que não nos conhece e só leva em conta o que está no processo. No campo dos relacionamentos humanos, não se pode obter bons resultados com uma parte tentando impor-se à outra. Uma discussão é sempre um confronto de mapas mentais. E eles nunca são idênticos, nunca dividem, pacificamente, o mesmo espaço, nem se conformam aos mesmos limites. Por isso, nesse jogo, se você quiser não perder, não faça força para ganhar. Você só ganha negociando. E negociar não é discutir.

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  • Quem disse que errar é humano?

    Muitos ditados populares carregam preconceitos embutidos. Outros denunciam traços de personalidade da pessoa que os usa..

    Postado dia 11 de janeiro de 2016 às 00h em Causos e Coisas

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    Foto: Divulgação/Internet

    Frases feitas são pressupostos que embutem crenças, e estas, se não forem desafiadas, ancora comportamentos limitadores. Isso porque muitos ditados populares são oriundos de experiências malogradas ou doloridas que alguém teve e, por conta disso, registrou-as em um ditado que passou a ser repetido inconscientemente sem que jamais alguém o tenha contestado. Quem prova que cruzar com gato preto na sexta-feira dá azar? Ou que manga com leite faz mal? Que de cavalo dado não se olham os dentes?

    Muitos ditados populares carregam preconceitos embutidos. Outros denunciam traços de personalidade da pessoa que os usa. Quem diz que lugar de mulher é na cozinha não quer dividir com ela todas as coisas da vida, só algumas; quem acredita que água mole em pedra dura tanto bate até que fura pode estar mostrando que é muito persistente ou que é teimoso como uma mula. E quem disse que mulas são teimosas? Empacar é a maneira que elas têm de dizer não. Nós, seres humanos, temos muitas formas de dizer não. Alguns animais, como as mulas, só tem essa.

    É preciso tomar cuidado com as mensagens embutidas nos ditos populares. Muitos ancoram comportamentos indesejáveis e hoje em dia, até politicamente incorretos. Acreditar que é de pequeno que se torce o pepino pode levar-nos a um processo frente ao Conselho Tutelar; acreditar que à noite todos os gatos são pardos pode fazer com que nós nos tornemos descuidados em nossas escolhas; acreditar que os opostos se atraem pode nos levar a escolher amigos e parceiros totalmente diferentes de nós, e isso fatalmente nos levará a muitos conflitos. Crer que a morte é preferível à determinada sorte revela uma predisposição de caráter fraco, incapaz de enfrentar os desafios da vida. Achar que cachorro velho não aprende truque novo é criar limitações ao próprio desenvolvimento pessoal. E assim por diante.

    Alguém disse um dia que errar é humano. Essa pessoa, quando disse isso, certamente queria justificar a si mesma por algo que tentou fazer e não obteve bom resultado. Como a desculpa era boa, as pessoas passaram a repeti-la quando cometiam alguma besteira. Mas qual é a prova que justifica esse pressuposto? Porque errar é humano? O que quer dizer esse ditado infeliz? Que a humanidade já tem, na sua estrutura neurológica, uma falha congênita que fatalmente leva todas as pessoas ao erro?

    Mentira. Errar não é humano. Errar, na verdade, é desumano. Quando admitimos pressupostos desse tipo estamos programando para nós mesmos um comportamento de conformidade e limitação. Estamos procurando desculpas para mitigar a culpa que sentimos por não termos atingido um bom resultado na nossa ação.

    Fazemos isso diariamente. Encaixotamos o universo infinito em nossas mentes e lhe damos um nome: sabedoria. Mas o que é a nossa sabedoria além da quantidade, e principalmente, da qualidade de informação que temos? Falta de informação ou interpretação de má qualidade que fazemos dela é que são as causas dos nossos erros. Nossa mente não erra. Ela é como um computador da mais alta e moderna tecnologia. Ela só nos dá respostas erradas quando os dados com os quais a alimentamos são falsos ou incompletos. Se ela tiver as informações corretas ela nos dará respostas corretas. Pense nisso da próxima vez que for repetir um ditado ou uma frase feita.

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  • Anacleto Rosas Junior – O poeta do sertão

    O mogiano Anacleto Rosas Júnior possui uma obra cheia de riqueza de imagem e simbologia sertaneja. Vale a pena conhecê-la e resgatá-la

    Postado dia 15 de dezembro de 2015 às 00h em Cultura e Lazer

     

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    Quem já ouviu falar de Anacleto Rosas Júnior? Creio que pelo umas dez pessoas, em Mogi das Cruzes, levantarão a mão para dizer que sim. Alguns dirão que ele foi um compositor de músicas sertanejas de raiz e tinha um programa de rádio que tocava esse tipo de música. Mas se perguntarmos se alguém sabe que ele nasceu em Mogi das Cruzes e se criou em Poá é bem provável que nenhum braço se levante para dizer que sabia.

    Nem eu. O Brasil tem raízes e estas, como as raízes das árvores mais nobres, às vezes estão tão ocultas que ninguém as vê até que tropecemos nelas. Anacleto Rosas Júnior é uma delas. Nasceu no dia 18 de julho de 1911, em Mogi das Cruzes. Não conseguimos descobrir a rua e o bairro, mas isso não importa. Ele é mogiano e isso já nos enche de orgulho. Faleceu em Taubaté em 04/02/1978. Tudo que sabemos é que seu pai era espanhol e se chamava Anacleto Rosas e sua mãe, italiana, se chamava Maria Bourbon. Seu pai era comerciante, e trabalhou com açougue, armazém e padaria.  Consta que passou a maior parte da infância e juventude em Poá e notabilizou-se como seresteiro e tocador de violão dos bons. Fazendo seresta, conheceu sua amada Clementina, com quem se casou em 1932.

    Poeta desde menino, escrevia versos de madrugada, que mais tarde musicava. Por volta de 1930, sua fama como compositor já era bem conhecida. Embora nunca tenha estudado música, suas melodias eram reconhecidamente perfeitas e admiradas por grandes artistas da época, tais como Tonico e Tinoco, Mario Zan, Raul Torres, Arlindo Pinto, João Pacífico e outros.

    Grandes sucessos de sua lavra, como “Os Três Boiadeiros”, gravada pela dupla Pedro Bento e Zé da Estrada, e “Fogo no Rancho”, foram tema do antológico filme “Jeca Tatu”, de Mazzaropi.

    Uma das mais conhecidas canções de Anacleto Rosas é “Aparecida do Norte”, gravada pela dupla Tonico e Tinoco. Tornou-se um verdadeiro hino em homenagem à Padroeira do Brasil, cantada por todos os romeiros que vão à cidade santuário prestar homenagem à santa.

    Outras canções que ficaram famosas são “Baldrana Macia”, gravada pelo grande Luiz Gonzaga, e “Cortando Estradão”, regravada pela dupla Sérgio Reis e Almir Sater, para fazer parte da trilha sonora da novela “O Rei do Gado”. Outras canções, como “Confissão”, “Cruz de Ferro”, “Filho de Mato Grosso”, “Flor Matogrossense”, “Zé Tartuiano”, “Zé Valente”, “Boi de Carro”, “Burro Picaço”, “Vaca Mestiça” se tornaram clássicos da música sertaneja raiz. Só para Tonico e Tinoco, a mais famosa dupla caipira de todos os tempos, ele compôs 60 canções.

    Seu trabalho envolvia também atividades culturais. Como diretor da Copacabana Discos produziu o antológico LP “Cantos do Brasil”, com o grande engenheiro e pesquisador Dalgas Frisch, no qual gravou para a posteridade o canto da maioria dos pássaros nativos do Brasil. Como radialista Anacleto trabalhou na Rádio Difusora do Paraná, Rádio clube de São José dos Campos e por vários anos, na Rádio Difusora de Taubaté. Seu programa “Manhãs Sertanejas” ainda hoje está no ar, dirigido pelo filho Luiz Rosas. Na linha dos saudosos Capitão Barduino, Nho-Zé, o Comendador Biguá e outros famosos radialistas sertanejos, ele fez escola e ainda hoje é muito lembrado no Vale do Paraíba e sul de Minas.

    A obra de Anacleto Rosas Júnior, por sua riqueza de imagem e simbologia sertaneja é comparável á de Catulo da Paixão Cearense. Vale a pena conhecê-la e resgatá-la.

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