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João Anatalino

Profissão: Escritor

Cidade: Mogi das Cruzes

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário. Auditor da Receita Federal (aposentado), Professor da Escola de Administração Fazendária. É consultor empresarial na área de tributação. É Mestre Practitioner em PNL. Fundador da Associação Mogiana Oficina dos Aprendizes, ONG sediada em Mogi das Cruzes, que promove a capacitação e a inserção de jovens carentes no mercado formal de trabalho. Tem 10 livros publicados pelas Editoras Madras e Scortecci

  • Os andarilhos

    Um diálogo simples e bonito sobre a vida

    Postado dia 17 de março de 2017 às 08h em Causos e Coisas

    andarilho

    Foto: Andarilho fotografado pela jovem fotógrafa canadense Elizabeth Gadd

    Este é um conto zen:

    Numa encruzilhada de caminho, dois andarilhos se encontraram.

    .? Quem és tu? ? perguntou o primeiro.

    ?Alguém que caminha pelo mundo ?, respondeu o segundo.

    ?De onde vens?

    ? Do norte, seguindo o vento.

    ? O que tem acontecido lá?

    ? Ah! Os passarinhos estão cantando, as flores desabrochando, a chuva caindo, os arroios correndo para os rios, os rios para o mar…

    ? E agora, onde pensas que estás?

    ? Nos campos do meio-dia.

    ? Porque pensas assim?

    ?Vejo abelhas e borboletas pousando de flor em flor, a luz da manhã dançando nos lagos, o vento penteando a copa das árvores, as folhas caindo e seguindo as ondas que o pente do vento levanta…

    ? O que acontece no teu coração?

    ? Mar, luar, calor, frio, solidão, uma criança que chora…

    ? E tu  ?  perguntou o segundo ao primeiro: ? Quem és e para onde vais?

    ? Sou alguém que anda em busca de um porvir. Venho do sul e caminho para o norte e para o leste e o oeste ? respondeu o segundo.

    ? O que acontece lá de onde viestes?

    ? Gatos, leões, formigas, árvores, certidões de nascimento e atestados de óbito, leite, cópulas, chuva, sol, palhaços e equilibristas, poeira e zumbidos…

    ? E onde pensas estar agora?

    ? Nas montanhas da meia-noite.

    ? Porque pensas assim?

    ? Vejo o sol se esconder atrás da montanha, os pastores recolherem os rebanhos, as aves retornarem aos seus ninhos…

    ? O que acontece no teu coração?

    ? Música, viagem, medo, fome, tristeza, alegria….

    Assim terminou o diálogo dos dois andarilhos. Nesse justo momento, uma serpentezinha de anéis pretos acabara de botar um ovo, um tenro broto desabrochou no galho de uma árvore ressequida, uma mulher deu à luz um filho, uma gota de orvalho beijou uma flor e a natureza deu um grande e amplo sorriso para o sol que despontava no horizonte.

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  • A lógica da vida

    Peçamos aquilo que realmente merecemos. E comecemos dando o melhor de nós mesmos, que é a capacidade de amar ao próximo

     

    Postado dia 6 de fevereiro de 2017 às 08h em Causos e Coisas

    vida

    Foto: Reprodução

    A vida sempre nos dá o que a gente pede á ela. Quem pede muito, recebe muito, quem pede pouco recebe pouco. A razão para essa lógica está no nosso cérebro subconsciente. Ele é muito burrinho e só aprende a obedecer ordens. Se nós dizemos a ele que só queremos um pequeno quinhão na vida, ele acreditará e fará com que nós só procuremos pequenas recompensas. Se dissermos que merecemos muito mais, ele fará com que procuremos grandes realizações.

    É evidente que não basta só pedir, só exigir. É preciso primeiro merecer. O mérito é consequência dos bons resultados que a gente obtém na vida. Nenhum técnico colocará no time principal um centroavante que nunca marcou um gol antes. E a vida é o melhor técnico que existe no mundo. Prático, competente e justo.

    O grande segredo disso tudo é, portanto, aprender a pedir à vida o que queremos.

    Existe uma forma certa de fazer isso, e tudo começa com a nossa disposição de primeiro dar para depois receber. É isso mesmo. A vida é sábia e nada nos dá se não estivermos dispostos a entrar com uma contrapartida nesse jogo. Essa contrapartida se chama trabalho, dedicação, comprometimento, participação, treinamento, estudo, compartilhamento.

    Nada vem de graça. Até aqueles que adquirem seus bens através de ações criminosas sabem que estão arriscando a vida e a liberdade por conta disso. É a contrapartida que eles dão pelo prazer de gozar por pouco tempo uma riqueza conquistada ilegalmente.

    Mas não é isso que a maioria das pessoas quer. Todos queremos ser felizes e ricos pelo mérito conquistado em nossas ações.

    Peçamos à vida aquilo que realmente merecemos. E comecemos dando a ela o melhor de nós mesmos, que é a capacidade de amar ao próximo e oferecer a ele a nossa amizade, o nosso afeto, a nossa mão amiga e a nossa solidariedade. Isso são coisas que todos nós temos e não diminuem nem acabam à medida em que são distribuídas.

    E, principalmente, acreditemos que, quanto mais contribuirmos com essa previdência, mais iremos receber.

    Convém não esquecer a parábola dos talentos. Quem recebeu dez talentos tem a obrigação de devolver vinte; quem recebeu cinco deve devolver dez; quem recebeu um precisa devolver pelo menos dois. Ninguém tem o direito de esconder os talentos que recebeu e devolver somente o que lhe foi dado com a desculpa que não deve nada a ninguém e por isso está devolvendo somente o que recebeu.

    Francisco Octaviano escreveu um lindo poema que fala sobre isso. Ele diz: “ Quem passou pela vida em branca nuvem/ E em plácido repouso adormeceu/ Quem não sentiu o frio da desgraça/ Quem passou pela vida e não viveu/ Não foi homem, foi espectro de homem /Só passou pela vida, não viveu.” E eu complemento com uma frase que vi em um filme: que homem é o homem que não procura deixar melhor o lugar onde foi posto para viver?

    Pense nisso esta noite quando for fazer suas orações (se você costuma fazer isso).  Antes de pedir alguma coisa a Deus pergunte-se o que você fez para ter o direito de ser atendido. Se você puder responder a essa pergunta com sinceridade, pode ter certeza que amanhã será o seu dia. Deus o abençoe. Para encerrar, eis um soneto que escrevi sobre esse tema.

     

    Se ainda podemos sentir um coração bater
    Isso diz que nós ainda estamos bem vivos.
    Pois Deus nos deu um dia mais para viver
    Não para usar com pensamentos negativos.

    Respire fundo, encha o peito, erga a fronte,
    No que você crê, isso mesmo é o que terá.
    Jesus disse ? Se tiver fé diga a este monte:
    Sai daqui, lança-te ao mar: e ele obedecerá.

    A vida é justa e só nos dará o que pedirmos,
    Nunca mais,  nunca menos que o acordado;
    E os acordos somos nós que os redigimos.

    Exija da vida tudo que ela tem para lhe dar,

    E vá em frente. Mas não espere aí sentado;
    Porque ela dá, mas você tem que ir buscar.

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  • O vaso quebrado

    Nada sobrevive para sempre. Mais dia, menos dia, tudo vai embora. Pessoas, animais, plantas, pedras, minerais, mais cedo ou mais tarde, tudo deixa de existir

    Postado dia 11 de janeiro de 2017 às 08h em Causos e Coisas

    vaso

    Foto: Reprodução

    Dona Mercedes é uma empresária de sucesso que ficou rica investindo com muita competência cada centavo que ganhou. Comanda muitos funcionários, tanto na empresa que possui quanto na bela casa em que mora.

    O que ela mais detesta é quando alguém lhe dá algum prejuízo. Ela odeia perder ou ser privada de alguma coisa. Por conta disso já mandou embora muito empregado por ter quebrado uma máquina, motoristas por terem batido o seu carro, empregadas por terem quebrado objetos em casa, etc.

    As duas coisas que Dona Mercedes mais ama são sua filha de sete anos, uma linda menina chamada Iasmine, e um vaso de porcelana Ming que ela comprou numa viagem que fez à China.
    São os dois xodós dela.

    Dona Mercedes ficou viúva há dois anos. Seu marido morreu num acidente de avião e ela foi obrigada a assumir todos os negócios da família.

    Iasmine amava muito o pai e ficou muito triste com a morte dele. Dona Mercedes ajudou a menina a superar a sua falta fazendo-a entender que tudo, no mundo, um dia desaparece.

    Nada sobrevive para sempre, disse ela à menina. Mais dia, menos dia, tudo vai embora.

    Pessoas, animais, plantas, pedras, minerais, mais cedo ou mais tarde, tudo deixa de existir.

    Essa é a lei da vida e nós não podemos mudar isso. A menina entendeu, e embora sinta muita saudade, conseguiu superar a falta do pai e voltou a ser uma criança alegre e feliz.

    Dona Mercedes tem uma empregada meio descuidada chamada Maria. Um dia, ao espanar os móveis da sala, ela bateu com o cabo do espanador no precioso vaso Ming de Dona Mercedes. O vaso caiu e se espatifou no chão.

    Ela sabia o quanto a patroa gostava daquele vaso. Sabia também que custava uma fortuna. Nem que trabalhasse cem anos conseguiria pagar o prejuízo. Sentou-se no chão e chorou.

    Iasmine entrou na sala e encontrou Maria em prantos. Ela gostava muito da espevitada empregada. Perguntou o que aconteceu. Maria contou.

    ? Chora não ? disse a menina. ?Mamãe não vai brigar com você por causa disso. Maria não tinha certeza e continuou a chorar.

    ?Deixa comigo ? disse a garotinha. Em seguida pegou os casos do precioso vaso e os colocou em sua maleta de escola.

    Dona Mercedes chegou em casa nessa tarde e encontrou Iasmine esperando no jardim.

    ? Mãe ? foi logo perguntando a menina. ? Você disse que tudo desaparece, não disse?

    ? Sim, filha ? tudo que existe, um dia deixa de existir ? disse Mercedes, pensando que a filha estivesse se referindo ao pai.

    ?Tudo mesmo, inclusive plantas, pessoas, animais, pedras, vasos, livros e tudo que existe no mundo, um dia deixam de existir?

    ? Sim, filha. É verdade. Tudo que existe, um dia deixa de existir. Mas porque você está me perguntando isso?

    Então Iasmine abriu a sua maleta de escola e mostrou os cacos do precioso vaso Ming.

    ? Eu não briguei com Deus quando ele quebrou o meu pai. Você vai brigar com a Maria porque ela quebrou o seu vaso?

    Dona Mercedes chorou. O que ela disse ou fez com Maria depois disso eu não sei. Mas os empregados dela dizem que ela mudou muito. Está agora bem mais simpática, amiga e tolerante. Parece bem mais saudável também.

     

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  • As duas mulheres de Paulo

    Na vida é preciso fazer escolhas. Não importa que, às vezes, nós nos enganemos ao fazê-las. O que não se pode é tentar passar a vida querendo ser o que não somos

    Postado dia 31 de dezembro de 2016 às 08h em Causos e Coisas

    Mulheres

    Foto: Reprodução

                                   
    Paulo era um sujeito que se julgava sábio e forte ao mesmo tempo. Com as pessoas mais velhas e experientes, ele se portava como uma delas; quando estava junto de jovens, se fazia de forte e tentava acompanhá-los de toda forma.

    Por conta disso, arrumou duas amantes. A primeira era uma mulher mais experiente, que sabia todos os truques do amor. Mas, até pela idade que tinha, era mais comedida e tranquila, não se submetendo a todos os desejos dele. A outra era jovem e fogosa. Sua pouca experiência a levava a querer experimentar de tudo.

    Assim, com a mais velha, Paulo se satisfazia, mas sempre ficava querendo mais. Com a mais nova, ele se saciava, mas ficava sempre a impressão que o prazer nunca havia sido completo.

    Sentindo-se infeliz com a situação, Paulo foi procurar ajuda profissional. E o terapeuta contou-lhe a seguinte fábula:

    “Havia um homem já meio grisalho que tinha duas mulheres, em duas cidades diferentes. Uma era mais velha e a outra era mais nova. Numa semana ele visitava uma, na outra semana ele passava com a outra. Quando estava com a mais nova, ele pintava os seus cabelos de preto para parecer mais jovem. Quando estava com a mais velha, lavava os cabelos para fazer desaparecer a tinta e mostrar a verdadeira idade.

    De tanto pintar e lavar, seus cabelos começaram a cair e ele logo ficou careca. Nenhuma das duas mulheres gostava de homens carecas. E ele acabou perdendo as duas.”

    Paulo entendeu. Na vida é preciso fazer escolhas. Não importa que, às vezes, nós nos enganemos ao fazê-las. O que não se pode é tentar passar a vida querendo ser o que não somos. Não sei dizer com qual das duas ele ficou. Talvez esteja esperando a nossa opinião. Se quiser, pode dar a sua, só não tente imitá-lo. Entre o céu e o inferno, Deus colocou a terra para que os homens pudessem ter uma alternativa entre ser anjo ou demônio.

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  • Filosofoemas

    Que travesseiro é mais confortável do que uma consciência tranquila?

    Postado dia 21 de dezembro de 2016 às 08h em Causos e Coisas

    poesia

    Foto: Reprodução

    1. Há oficinas que são Portos Seguros,
    Outras há que só fazem desmontes.
    Algumas pessoas só erguem muros,
    Enquanto outras constroem pontes.

    2. Importante é ser sempre confiável,
    Quem chega cedo nunca pega a fila.
    Que travesseiro é mais confortável,
    Do que uma consciência tranquila?

    3. Gente que pára no meio da estrada
    É porque está cansada e desiludida;
    E escolhe entre morrer atropelada,
    Ou ser para sempre carona na vida.

    4. Os momentos mais bonitos do sol,
    São quando ele vem ou vai embora,
    No vermelho agitado do seu arrebol
    Ou no rubor pudico da sua aurora.

    5. Melhor ser um bom caráter na vida,
    Do que ter uma reputação excelente ;
    Pois a reputação pode ser destruída,
    Mas o caráter só morre com a gente.

    6. A mágoa que fica quando se é traído,
    É a ferida cruel que mais nos tortura.
    A vingança ameniza o orgulho ferido,
    Mas só o perdão é remédio que cura.

    7. Quem ama o feio, bonito lhe parece,
    Pois o amor, qualquer feiura adorna,
    Mas sem amor, a beleza desaparece,
    E a feiúra que foi maquiada retorna.

    8. A vida é como uma perigosa estrada
    Sem sinalização e sem acostamento;
    Quem pára no meio leva a trombada,
    E quem pára do lado fica ao relento.

    9. E a fortuna passou nesta madrugada,
    Porém, eu estava dormindo e não vi,
    Quem não enxerga a beleza em nada,
    É porque está olhando apenas para si.

    10. O homem que não aprendeu a servir,
    Na verdade, nada na vida, aprendeu;
    Mas quando morrer ele vai descobrir,
    Que passou pela vida e nunca viveu.

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  • Mestres e professores

    O que é ensinar? Um artigo que revela a diferença entre um professor e um mestre

    Postado dia 13 de dezembro de 2016 às 09h em Causos e Coisas

    mestre

    Foto: Reprodução

    Certa vez um conhecido professor foi convidado para dar uma série de aulas sobre um determinado assunto em uma escola, famosa pela ignorância e pelo desinteresse dos seus alunos. Na primeira palestra o auditório estava cheio e ele ficou muito satisfeito com o tamanho da platéia. Todavia, na segunda palestra, a platéia havia diminuído pela metade, e na terceira já se resumia a uns poucos gatos pingados. Na quarta, somente um aluno compareceu.

    O professor notara que esse aluno estivera presente em todas as palestras anteriores.

    “Muito obrigado pela sua presença”, disse o professor. “Notei que você compareceu em todas as minhas aulas. Percebo que você tem interesse nos assuntos sobre os quais eu lecionei. Infelizmente vou ter que parar com as minhas aulas, pois não posso lecionar para um aluno só”, disse o professor.

    “Se o problema é assistência”, disse o aluno, “o senhor pode continuar com suas aulas. Amanhã eu lhe trarei uma grande platéia.”

    “Se você promete, tudo bem”, disse o professor. “Amanhã estarei aqui de novo.”

    No dia seguinte o professor compareceu ao auditório, mas lá só encontrou novamente o mesmo aluno.

    “Onde está a platéia que me prometeu?” perguntou o professor.

    “Está nas cadeiras”, respondeu o aluno.

    O professor olhou para o auditório e percebeu que ele estava lotado com pequenos tocos de madeira, que o aluno espalhara por todas as cadeiras.

    “Que brincadeira é essa? perguntou o professor. “Você quer que eu dê aulas para pedaços de pau?”

    “Não é isso que o senhor têm feito até agora, professor?”, respondeu o aluno.

    Então ele entendeu. Depois desse dia deixou de se preocupar com o continente e passou se ocupar com o conteúdo. E quando entrava na sala de aula imaginava-se falando para verdadeiros alunos e não para uma platéia.

    “Ainda que seja apenas um”, dizia para si mesmo.

    É que naquela noite o professor ganhara um discípulo. Desde então ele nunca mais se preocupou com a quantidade dos seus ouvintes, mas falava, com toda sua alma, para aqueles que realmente queriam escutá-lo. E era para estes que ele dirigia o seu discurso.

    Lembrou-se do que Deus dissera acerca de Sodoma e Gomorra: “Se lá se encontrar ao menos um, pouparei a cidade inteira”. E concluiu: “Eu fui mais feliz que Deus, pois encontrei ao menos um. Deus não achou nenhum e por isso teve que destruir a cidade inteira.”

    Só então o professor compreendeu qual era a sua missão. Descobriu que a natureza não realiza o seu trabalho de preservação e evolução da vida pelo todo. Que o sol e a chuva derramam seus dons para a floresta toda, mas somente algumas sementes frutificam e transmitem a herança da vida.

    É que o verdadeiro mestre não tem alunos. Ele faz discípulos.

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  • Balada à moda antiga

    Quando dois corações solitários podem se encontrar em uma noite qualquer

    Postado dia 14 de novembro de 2016 às 08h em Causos e Coisas

    janela

    Foto: Reprodução

    Quando sinto que a solidão é mais intensa, abro a janela para a cidade adormecida, e vejo ao longe, como estrela explodida, outra janela se abrindo na noite imensa.

    Ah! você que se sente sozinha, como eu, aí nesse seu quarto, e abriu sua janela, volte os olhos e veja na distância aquela lâmpada que de repente se acendeu. Ali talvez esteja outro viajante solitário, procurando nesse deserto de cimento, um oásis para descansar o pensamento, e encontrar talvez, um coração solidário.

    Se pensar em mim como penso em você, é possível que estes nossos pensamentos, possam aproveitar o vai e vem dos ventos, e nos levar além do que o olho não vê: Então, tudo o que na noite procuramos ? Um coração que nos dê correspondência ? Para trocar esperança e confidência, esteja tão perto que sequer o notamos.

    Pois você deve ter visto, aí da sua janela, que á noite, a solidão é bem mais densa; É que durante o dia a nossa vida é tão tensa, que não dá sequer para pensar muito nela. Porém, quando o sol completa o seu turno, e no mar se deita para o merecido descanso, eis que a solidão chega com todo seu ranço e nos aborda como um bêbado importuno. E sua presença nos incomoda e aporrinha; Ela se parece com aquele ébrio inveterado que vive repetindo sempre o mesmo ditado, como se fosse um refrão de marchinha. Porém quando a madrugada se aproxima, no justo momento em que a sensibilidade  atinge o máximo de toda a sua intensidade, ele desaba sobre o balcão, como uma ruína.

    É que a solidão nunca foi de beber com a gente. Mas se você estiver numa janela, sonhando, e por acaso é para a minha que está olhando, saiba que eu posso ser um bom confidente. E ainda que seja de uma maneira invulgar, nunca mais a deixarei se sentir tão sozinha. Eu terei sua companhia e você terá a minha. Juntos formaremos, de certo, um belo par.

    E nas noites vindouras, seja qual for a lua ? E bem pouco importa o tempo que faça ? Você encontrará aberta a minha vidraça. E eu espero que você também abra a sua. Então nós trocaremos amizade e conselho, Pois seja qual for a distância, hora ou lugar, todos os rios sempre encontram o seu mar e não há coração que não tenha seu espelho.

    (Uma janela se abriu do outro lado da rua, Ah! Que bom seria se por acaso fosse a sua!)

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  • A herança dos currais

    É o preço da nossa ignorância que financia este paraíso de vigaristas e estelionatários que tomaram de assalto o nosso país

    Postado dia 24 de outubro de 2016 às 09h em Causos e Coisas

     

    currais

    Foto: Reprodução

    Lembro-me de uma história que o pai de minha falecida esposa contava. Ele foi prefeito de uma cidadezinha no interior da Paraíba. Toda noite ele se sentava numa cadeira de balanço, na varanda da sua casa, e os habitantes da cidade faziam fila para conversar com ele. Um par de botinas para um, uma enxada para outro, emprego público para o filho de outro, carro para levar alguém para o hospital na capital e assim por diante. Com isso o coronel Octacílio foi eleito várias vezes. Quando não era ele, elegia algum parente. Eis a história que ele me contou: houve um coronel (não foi ele, isso ele jurava de pés juntos) que fretava vários ônibus para buscar os eleitores no dia da eleição. Trazia o povo para a fazenda, botava dentro de um curral e enchia o povaréu de comida. Depois pegava os títulos de eleitor de todos e só os devolvia á noitinha, após terminada a votação. Na hora de ir embora, um ou outro caboclo perguntava para ele: “Coronel, o senhor pode me dizer em quem eu votei? “

    Isso pode parecer engraçado, mas tem um alto custo. Políticos como Fernando Collor, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Edson Lobão, Jader Barbalho e outros da mesma laia já deveriam ter sido banidos da politica nacional há muito tempo. Mas a maioria continua na política, não só sendo sempre bem votados, mas ainda patrocinando a carreira de outras tranqueiras como eles. Agora estão sendo investigados pela Lava Jato. Tomara que desta vez o Supremo Tribunal Federal faça o que a maioria do povo deste país deseja, que é botar toa essa corja na cadeia, acabando de vez por todas com essa maldita herança dos currais.

    Também não dá para entender porque ainda se mantém essa indecência jurídica que é o foro privilegiado. A ditadura já acabou. Não se justifica mais a carapuça que a Constituição criou para proteger o direito de opinião. Hoje esse instituto só serve a bandidos, vigaristas, estelionatários e ladrões, que se travestem de políticos para poder roubar impunemente. O Supremo levou quase dez anos para julgar o Mensalão. A maioria dos condenados pegou pena menor que isso. Alguns deles, como o José Dirceu, continuou delinquindo até quando cumpria pena. Com privilégios como esses não admira que a criminalidade no Brasil continue crescendo mais que o PIB da China e que mais e mais jovens e adolescentes queiram entrar para esse mercado. Ele garante bons rendimentos, status social e impunidade.

    É o preço da nossa ignorância que financia este paraíso de vigaristas e estelionatários que tomaram de assalto o nosso país. E nós continuamos todos dentro do curral.

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  • Ponto de vista

    A teoria da relatividade trabalha com essa perspectiva. Fisicamente nós sabemos que a cada vez que mudamos o nosso ângulo de observação, um mundo diferente aparece aos nossos olhos.

    Postado dia 26 de setembro de 2016 às 10h em Causos e Coisas

    vista

    Foto: Reprodução/Internet

    Minha filha está morando em Sidney, na Austrália. Só depois de dois anos morando lá é que as autoridades australianas deixaram que ela começasse o procedimento para tirar carta de motorista. Na época eu pensei que era exagero das autoridades australianas, pois  a menina já dirigia a mais dez anos. Ela morou quatro anos em São Paulo, cidade que tem um dos trânsitos mais malucos do mundo. Quem dirige em São Paulo, pensava eu, tem condição para dirigir em qualquer lugar do mundo. É como a canção do Frank Sinatra que fala de New York. Quem faz em New York, faz em qualquer parte.

    Eu pensava assim até que fui visitá-la na Austrália e ver que os carros lá têm a direção do lado direito. E que lá se anda pelo lado esquerdo da rua. É igual na Inglaterra e  outros países de tradição inglesa. Quer dizer: o lado certo da rua para eles é o lado errado para nós. Para dirigir um carro na Austrália ou na Inglaterra é preciso mudar a orientação geográfica do nosso cérebro e aprender a enxergar a direita na esquerda e a esquerda na direita. Cara, é um baita exercício! Isso me deu o que pensar. Será que não é por isso que temos tanta dificuldade para entendermos uns aos outros?

    Foto: Reprodução/Internet

    Explico: veja a figura ao lado:  Imagine-se entrando nessa imagem. Coloque-se nessa figura. O que aconteceu? Seu olho direito não se tornou o esquerdo, e o esquerdo o direito?

    Quando falamos diretamente com uma pessoa, frente a frente, o lado direito dela é o nosso esquerdo e vice-versa. Dai a nossa percepção fica prejudicada porque há um desajuste de posição nesse sentido. O que ela está vendo em você está do lado contrário do que você vê nela. Teste essa proposição um dia. Verifique se você consegue entender melhor uma pessoa quando conversa com ela de lado, ou de frente para ela. Você vai ter uma surpresa.

    Essa é apenas uma curiosidade neurolinguística. O importante disso tudo é o questionamento que pode ser deduzido dela. Se, no processo de comunicação, o lado esquerdo das pessoas é o lado direito para nós e vice versa, é lícito pensar que o nosso cérebro, antes de decodificar a mensagem que vem do nosso interlocutor, precisa fazer um ajuste geográfico na fonte dessa mensagem. E ele faz isso sempre, senão a nossa comunicação seria um verdadeiro caos. Seria como chegar hoje na Inglaterra ou na Austrália, pegar um carro e sair dirigindo. Você pode imaginar o que aconteceria.

    Há outra questão importante aí. Se o lado certo dos ingleses e australianos é o errado para nós, e vice-versa, o que acontece com os conceitos de certo e errado? Não serão também questões de ponto de vista? E quantas coisas mais, pelas quais matamos e morremos, não seriam igualmente apenas pontos de vista? Einstein disse que era. A teoria da relatividade trabalha com essa perspectiva. Fisicamente nós sabemos que a cada vez que mudamos o nosso ângulo de observação, um mundo diferente aparece aos nossos olhos. Mas na prática temos muita dificuldade para entender e aceitar isso. Por isso é tão difícil calçar o sapato alheio. Principalmente quando ele não nos serve. E assim vamos continuar eternamente brigando por causa dos nossos pontos de vista.

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