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Heródoto Barbeiro

Profissão: Âncora de jornal

Cidade: São Paulo

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

  • Pelas costas

    O plenário do Congresso estava vazio. Deputados e senadores correram para as suas salas. Era um momento de angústia geral. O que seria do parlamento se os boatos fossem verdadeiros?

    Postado dia 24 de maio de 2017 às 09h em Sociedade e Política

    Foto: Reprodução

    O plenário do Congresso estava vazio. Deputados e senadores correram para as suas salas. Queriam saber se o que estava na rádio corredor era verdade ou não. Era um momento de angústia geral. O que seria do parlamento se os boatos fossem verdadeiros? Afinal tudo corria ás mil maravilhas, salários em dia, salamaleques de toda ordem, título de excelência usado pelos subalternos, cabos eleitorais satisfeitos em suas bases fazendo campanha para a próxima eleição  abertamente, o presidente se submetendo docilmente aos pedidos dos políticos. Mas era verdade. O senador tinha sido preso. Era acusado de ser o autor intelectual do atentado contra o presidente da república. Prudente de Morais saiu ileso, mas o general Bittencourt morreu. Não se viu nos gabinetes viva alma nos dias que se seguiram até que o senador Pinheiro Machado fosse libertado sob o manto da falta de provas.

    O senador era useiro e vezeiro em ameaçar o presidente, fosse lá qual fosse, se seus pedidos não fossem atendidos. Afinal era um senador da república e líder de uma aguerrida bancada no Congresso Nacional. Tinha o poder de blindar seus acólitos e execrar os opositores. Apresentava –se aos jornalistas sempre sorrindo como se nenhuma das acusações lhe diziam respeito. Relacionava-se diretamente com as oligarquias regionais e se portava como o verdadeiro detentor do poder. Aliás  estava sempre ao lado dele e quando contrariado ameaçava passar para oposição. Nada de ideário, programa partidário, princípios morais ou éticos. Não pensava no Brasil, o tempo todo urdia manobras para se perpetuar no poder. Não escapou de um atentado no saguão de um hotel no Rio de Janeiro quando foi apunhalado pelas costas. Não havia ainda a legião de seguranças que perambulam em torno dos atuais donos do poder.

    A cena se repete 102 anos depois. Um tsunami se abateu sobre o poder legislativo. Os celulares confirmavam a má notícia, porem apenas com alertas. Eles precisavam mais informações, saber se os seus nomes estavam ou não na lista do ministro Fachin. Foi uma debandada em busca dos gabinetes, telefonemas apressados e a busca nos sites de notícias. Os mais corajosos foram ao encontro dos jornalistas na sala de imprensa. O plenário ficou abandonado. Só os fantasmas andavam por lá. As sessões foram suspensas no senado e na câmara  por falta absoluta de ânimo dos parlamentares. A cada golfada de notícia mais nomes era vomitados. A República Federativa da Odebrecht não poupava ninguém. Não era mais vazamento seletivo. Era a íntegra dos depoimentos do rei das empreiteiras e de seu delfim.

     

    Leia mais sobre política: 

    Big Stick Policy

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  • Propineiros e propinados

    Rui Barbosa foi ministro da fazenda em uma época onde ministro não tinha apelido e nem precisava pedir dinheiro para o caixa dois do seu partido.

    Postado dia 24 de maio de 2017 às 08h em Sociedade e Política

    Foto: Reprodução

    O visconde de Barbacena não tinha ideia do que iria criar. O império necessitava de uma órgão que acompanhasse as contas públicas, que se misturavam com as do imperador. E D.Pedro I  era um estabanado, tinha contratado mercenários  para lutar contra os colonialistas portugueses, e uma frota para cercar por terra os portos das cidades que resistiam em aderir à independência nacional. Além disso suas despesas pessoais, palácio, criadaria, a nobreza sangue suga e as amantes. Por isso o Barbacena, conhecido na intimidade como Caldeira Brandt ,propôs a criação de um órgão que acompanhasse as contas do governante . O primeiro passo foi tentar impedir que o imperador nomeasse seus amigos, apaniguados, áulicos e puxa sacos para o cargo. Afinal como alguém poderia auditar as contas do seu chefe ? E se o amigão Chalaça resolvesse fechar uma casa de prostituição com muitas garotas de programa? Como isso seria contabilizado ? Essa despesa poderia constar da coluna “Despesas do Estado “ ? Seria melhor deixar para lá e consertar as contas de chegar para no fim dar tudo certo , como dois e dois são cinco.

    Rui Barbosa foi ministro da fazenda em uma época onde ministro não tinha apelido e nem precisava pedir dinheiro para o caixa dois do seu partido. Daí ter criado o Tribunal de Contas da União na primeira constituição republicana do Brasil. Era mais uma cópia mal feita do sistema americano de governo. Ele teria competência para liquidar e verificar a legalidade das contas da receita e despesa antes de serem apresentadas no Congresso Nacional. Na atual, não última, constituição se estabeleceu que seria composto por nove ministros. O título era para emparelhar com os juízes do Supremo e outros tribunais superiores. Todo mundo é ministro com a pompa e circunstância que o cargo merece. Ganham e tem as mesmas regalias que os ministros do Superior Tribunal de Justiça. Teoricamente não são subordinados a qualquer outro poder haja vista que tem que  controlar as contas de todos. Contudo são chamados de órgãos  auxiliares do legislativo que dá a última palavra se aprova ou não as contas do poder fiscalizado. Tudo muito bonito, os estados têm os seus tribunais, e dois municípios também têm São Paulo e Rio de Janeiro. Nunca de perguntou quanto isso tudo custa para o contribuinte. Seria melhor contratar a FGV ?

    Os professores ensinam nas escolas que dois mais dois são quatro. E assim é reproduzido por um funcionário técnico público ou privado. No  entanto quando se faz a mesma pergunta para um político a soma pode ser três ou cinco. Raramente são quatro. Por isso se acostumou a nomear para os tribunais de contas federal, estadual e municipal, políticos e não técnicos. Estes atuam na retaguarda, não tem poder de decisão. Os políticos encastelados nos cargos decidem, não com base nos cálculos e estudos mas no viés que interessa às forças  econômicas e políticas. Assim pesam empreiteiras e todo tipo de empresa que tem o Estado como cliente e os políticos que assinaram os contratos de compra como presidente, governador e prefeito. Também interferem os intermediários de toda espécie como lobistas, propineiros, propinados, senadores, deputados federais e estaduais, vereadores e outros espertos que aguardam a oportunidade para levar um naco. Quando o escândalo é impossível de ser abafado, se lança mão das inócuas CPIs controladas pelos mesmos protagonistas. Nada se apura, ninguém passa pelo apuro e ser questionado sobre operações suspeitas, e o resultado só tem um destino: um arquivo qualquer. Na outra ponta, abobado, o pagador de imposto assiste a tudo impassivelmente.

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  • Big Stick Policy

    Parece nome de seriado da tevê, mas não é. Fale com delicadeza, mas leve um porrete grande, você vai chegar longe.

    Postado dia 23 de maio de 2017 às 08h em Sociedade e Política

    Foto: Reprodução

    Parece nome de seriado da tevê, mas não é. Fale com delicadeza, mas leve um porrete grande, você vai chegar longe. Trump recuperou mais uma herança de tempos passados. Ao mesmo tempo que deslocou uma poderosa esquadra da marinha para a península da Coréia, espalhava pelo seu espalhafatoso twitter que se sentiria orgulhoso em se encontrar com o ditador fanfarrão sediado em Pyongyang. Seria o encontro do século dos egos. Os norte coreanos tem um argumento considerável para se relacionar com os seus vizinhos, aliados dos Estados Unidos, especialmente a Coreia do Sul e o Japão, uma coleção de seis bombas atômicas devidamente testadas e estocadas. O exótico Kim Jong-un sabe promover um show de audiência mundial. A cada comemoração da dinastia que se apossou do poder faz um desfile monumental com muita arma, soldados, mísseis, exibição  de ginástica coletiva sob o aplauso aparvalhado dos militares que o cercam. As palmas precisam ser convincentes para que o dissidente não tenha o mesmo destino do tio e do meio irmão, ambos assassinados. Para negociar com um dos países que fez parte do que Bush chamou do eixo do Mal, nada como buscar no passado uma solução que deu certo, ainda que em outra conjuntura: a política do Big Stick.

    Era desta forma que os países devedores e instáveis politicamente deveriam ser tratados. Pegaram dinheiro dos bancos americanos e não pagaram, era inaceitável. O embaixador deveria tentar de todas as formas receber a dívida, mas em último caso se a delicadeza não fosse suficiente… Ai então usava-se o porrete grande: os marines. A frota de guerra crescia muito no início do século 20 e buscava reservar os mares que banham o Caribe, a América Central e do Sul só para os marinheiros do Tio Sam. Era uma meia sola na velha e boa Doutrina Monroe, a que dizia que a América era para os americanos. Graças a essa forma de convencimento foi nomeado um conselheiro americano para o governo da Republica Dominicana que de fato era o ministro da fazenda. Outro sucesso de Roosevelt, o Theodore, foi o de apoiar um movimento que terminou com a independência do Panamá da Colômbia, que em troca concedeu a licença para que os Estados Unidos construíssem o celebre canal. 

    Ted era o mesmo homem que impediu um caçador de matar uma mamãe urso e por isso o filhote ganhou o nome de Ted Bear. Todo ursinho de pelúcia tem esse apelido. A política da fala macia culminou com o Premio Nobel da Paz para um homem que viveu aventuras perigosas, lutou na guerra, era partidário de um poder militar forte e não vacilava em ocupar áreas estratégicas como o protetorado sobre Cuba. O Nobel foi a recompensa pelos esforços que o belicoso Theodore Roosevelt fez para pôr um fim à guerra entre Rússia e Japão. Em 1906 trouxe os dois contendores para uma conferência de paz nos Estados Unidos e saiu de la com um tratado de paz. Era um contra senso que poucos entendiam. O que sua política realmente tinha como objetivo era estabelecer um equilíbrio de poder na Ásia que garantisse a presença americana nos mercados asiáticos especialmente no da China. Na primeira oportunidade usou o Big Stick contra o Japão quando restringiu drasticamente a imigração dos japoneses para a Califórnia atendendo aos reclamos xenofóbicos dos nativos. Poder militar e xenofobia estão entre as heranças de Donald Trump. 

    A história não se repete. Mas pode inspirar sucessores.

     

    Leia mais sobre política: 

    A farsa da democracia no Brasil

     

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  • Plana ou redonda?

    Postado dia 2 de fevereiro de 2017 às 08h em Sociedade e Política

     

     

    plana

    Foto: Reprodução

    O agricultor José talvez nunca tivesse deixado a sua aldeia. A maior distância percorrida em sua juventude era a estrada que liga o povoado de Pocariça a sede de Leiria, em Portugal. Sua mobilidade equivalia à mesma de seus ancestrais da Idade Média, quando a península foi invadida pelos mouros provenientes do norte da África e, por causas não registradas, ganhou uma pele escura, não muito comum por lá.

    Seu mundo, em pleno século 19, se resumia às plantações de oliveira e videira e uma ou outra cultura de subsistência, e nem pensar em conhecer outras terras ou mesmo atravessar o mar oceano. José ganhou o sobrenome dos que se dedicavam à sangria e à extração de dentes e verrugas – ou seja, Barbeiro.

    Movimento mais agudo, em Portugal era associado à insegurança de nobres que disputavam as quintas, ou as perseguições políticas e religiosas que as dinastias lusas incitaram ao longo dos séculos. Por essas e outras andanças, o agricultor adotou mais um nome, Souza, de origem cristão novo. O mundo se resumia em pouca informação, nenhuma leitura, desconhecimento do que se passava nos continentes, e trabalhar de sol a sol, como um escravo, para garantir o que comer à noite, quando se recolhia em uma modesta construção.

    As potências industriais e bélicas se preparavam para disputar os mercados produtores de matérias-primas baratas, ou sem valor agregado como se diz hoje, e exportar os manufaturados com valor. Investiam os capitais públicos e estatais na produção, no comércio e no domínio de rotas marítimas com acesso às matérias-primas estratégicas, como o petróleo, cobre, salitre e outras.

    O século 19 foi o período do auge do imperialismo industrial. As economias centrais, Europa, depois Estados Unidos e Japão, impuseram uma divisão mundial de trabalho que remunerava os acionistas da City, de Wall Street e outras bolsas emergentes do novo capitalismo. Os alvos principais localizavam-se no Oriente Médio petrolífero, partes do continente africano de matérias primas estratégicas, a Ásia superpovoada (e, portanto, um mercado altamente lucrativo para os manufaturados). Enquanto uma parte da humanidade se espraiava pelos continentes, a bordo de navios e trens a vapor, a outra circulava em volta da pequena aldeia, onde tinha nascido.

    O imperialismo, as guerras, as alianças, as armas de destruição em massa, como a metralhadora, as bombas e o gás de mostarda não foram capazes de sustentar uma paz armada. O adágio chauvinista se espraiava: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra.” O resultado foi uma passagem catastrófica do século 19 para o 20. Mortes, destruição, fome, desesperança e o anseio de se procurar um outro lugar para viver.

    O Brasil era um deles. Estava fora da rota do choque imperialista, vivia da monocultura do café, tinha muita terra devoluta e uma oligarquia que dominava o campo. Uma força gravitacional para quem não tinha o que comer.

    Tudo isso fez com que homens e mulheres que não sabiam se o mundo era redondo ou plano, como na Idade Média, buscassem uma saída pelo mar. José veio para o Brasil, seu irmão foi para Macau, na costa da China. As correntes imigratórias se formaram na Europa em busca do alívio para seus sofrimentos. Da Espanha emigrou Pedro Garcia. Da Itália, especialmente do Vêneto, saíram as famílias de Amábile Valvassori e Angélica Cassonatti.

    Deixaram o mundo medieval, pré-capitalista e miserável para se aventurar em outras terras e constituíram minha família.

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  • Pública e corporativa

    O Estado pode criar marcas. É um engano acreditar que apenas corporações comerciais possam criar marcas

    Postado dia 19 de janeiro de 2017 às 09h em Sociedade e Política

    marcas

    Foto: Reprodução – Carro da polícia de New York City

    Hospitais públicos, policia, forças militares, universidades e outros entes estatais podem criar marcas.

    Um exemplo notório é a NYP ou a polícia de Nova York. Ela é mais do que as iniciais de um serviço policial. Representa mais do que carros com sirenes ou policiais uniformizados. Ostenta um valor intangível que remete a segurança do cidadão e eficiência em prestação de serviços públicos. Não é à toa que existem espalhados pelo mundo todo camisetas, bonés, relógios, viseiras, bolsas, mochilas com o logo NYT.

    O logo é apenas a representação gráfica de uma marca. O M maiúsculo, amarelo, representa a rede de fast food da Mc Donald´s, mas remete à lembrança de um valor abstrato e intangível que contribui para a credibilidade e admirabilidade da corporação. Obviamente que uma entidade pública, estatal não tem  uma marca de consumo, associada a um produto ou serviço oferecidos no mercado. Isto não  quer dizer que não possam ser criadas por agências de publicidade, mas há uma diferença fundamental entre uma marca comercial e outra que representa o Estado. Esta, necessariamente simboliza algo maior, ou seja um propósito ligado ao  exercício da cidadania.

    Ela acredita que todas as pessoas são igualmente importantes e que a liderança se dá pelo exemplo e não por discursos pomposos, vazios e sem credibilidade. Elas são geridas por pessoas que acreditam que fazer o certo é muito mais difícil do que  fazer o errado. Governar com programa de governo é muito mais dificultoso do que cavalgar no populismo, de resultados imediatos e grande repercussão eleitoral. Optar por saídas amargas são ações de estadistas e não de políticos.

    Os valores, ideais e objetivos precisam ser claros e transparentes nas marcas. O Estado precisa entender que os produtos mais valiosos que oferece para os cidadãos são a honestidade, transparência  e autenticidade. Sem isso nada se torna permanente, e dá espaço para que a corrupção se alastre como a ferrugem em uma estrutura de ferro no litoral.

    Sem esses valores ninguém ostentaria uma marca em público seja ela de uma empresa ou de uma entidade estatal. Todas elas tem que representar  um conceito abstrato relacionado ao bem público. A polícia deve ser identificada mais do que uma entidade que cuida da segurança pública. Deve inspirar o orgulho de servir a uma comunidade.

    Uma universidade pública, mais do que um distintivo nos jogos acadêmicos, deve transparecer o esforço que reúne alunos e professores voltados para o desenvolvimento da ciência e do bem estar. Um hospital público comprometido com a pesquisa e a preservação da vida, uma força militar identificada com a defesa da constituição e do território nacional. A recepção pelo público avalia a importância que ela tem na sociedade.

    As entidades públicas demoraram para descobrir que podiam construir marcas. Houve uma confusão com propaganda política como a estrela vermelha, identificada como o comunismo, ou a cruz gamada, símbolo do nazismo. No entanto nem uma nem outra foi criada nem pelo Estado soviético, nem o Estado Nazista.

    A estrela é uma identificação religiosa que vem da antiguidade mesopotâmica e passou pela cultura de diversos povos. O mesmo se deu com a suástica, nome de origem sânscrita e que está associada ao budismo hinayana e a seitas hinduístas. Esses emblemas traduzem uma ideologia, abstrata e intangível. É preciso ficar claro que o que se entende por marca hoje nada tem a ver com os exemplos citados.

    Hoje é uma forma de comunicação e que, no caso de uma empresa privada, é valiosa, é um ativo importante da corporação. O mesmo não se dá com instituições públicas que não tem preço de mercado nem está ranqueada entre as cem marcas mais valiosas do mundo do Interbrands. Seu valor é institucional, cidadão, social, democrático.

     

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  • Republicanismo às avessas

    Primeiro se elege um presidente e depois se consegue maioria no Congresso. Não aprendemos com o passado: a operação do poder continua a mesma

    Postado dia 13 de janeiro de 2017 às 08h em Sociedade e Política

    republicanismo

    Foto: Renan Calheiros

    É preciso aprender com os erros do passado. Quando não se aprende, está se condenado a repeti-los no presente. No segundo reinado brasileiro era o imperador quem escolhia o chefe do governo. Era o presidente do conselho de ministros. Uma espécie de primeiro-ministro. Este, por sua vez, escolhia os demais ministros que, juntos, governavam o Brazil (com z).

    Contudo, nem sempre o chefe do governo tinha maioria no parlamento. Para isso precisava de uma base aliada. Ao invés de comprar deputados e senadores com emendas no orçamento, nomeação de cabos eleitorais, permissão para a realização de lobby a favor das empreiteiras da época, ou qualquer outra troca de favores, a Câmara era dissolvida e novas eleições eram marcadas. A máquina central manipulava as eleições, fraudava os resultados e o partido do chefe do governo ganhava maioria para governar.

    Assim, o presidente do conselho tinha o apoio do parlamento e governava. Todavia, se houvesse uma crise o imperador derrubava o governo e começava tudo de novo. Foi assim até o golpe militar que derrubou o império e impôs a república. Como se vê, funcionava de forma diferente do reino da Inglaterra, de onde o modelo foi copiado.

    É verdade que com dois partidos, liberal e conservador, era muito mais fácil compor a base aliada no legislativo. Seria muito diferente se houvesse 28 partidos famélicos de verbas, emendas, e com a boca aberta para abiscoitar qualquer vantagem possível. Sem o fundo partidário, os conservadores e liberais tinham os seus próprios méritos para aumentar a bancada de deputados. Estes não dispunham de dinheiro público, que hoje chega perto de um bilhão de reais, e tempo na tevê e no rádio, para vender para os grandes partidos.

    Perto dos gastos atuais, os partidos do império eram uns mendigos. Não tinham passagem para ir e voltar para o Rio de Janeiro, a capital do império, nem um exército de apaniguados pendurados nos gabinetes de suas excelências. O que gastavam com os saraus, soirées, footings, passeios de carruagem era um pixuleco perto do que se gasta hoje com o Congresso Nacional.

    Era inimaginável que o custo do legislativo chegasse aos atuais 10 bilhões de reais. Era um país de ingênuos aristocratas, escravistas, adoradores do rapé, portadores de finos pince nez, abotuaduras e pasta no cabelo.

    O parlamentarismo funcionava de cima para baixo, por isso era chamado de “às avessas”. Ou seja, o parlamento se ajustava ao governo e não o contrário. Atualmente vivemos o republicanismo às avessas. Primeiro se elege um presidente e depois se consegue maioria no Congresso Nacional, a famosa base aliada, ou alugada. Em outras palavras, não aprendemos com o passado. Mudou o sistema de governo da monarquia para a república, mas a operação do poder continua a mesma.

    Ainda que tenham acontecido mudanças como o voto universal, multidão de partidos, urna eletrônica, e o advento das redes sociais. O resultado é o mesmo. A maioria da nação, de uma forma ou de outra, é excluída das decisões sobre os rumos do país. No passado havia o voto censitário, só os proprietários votavam, hoje há um esquema político/empresarial.

    Assim como os políticos imperiais viviam de rapapés e bailes na Ilha Fiscal, os atuais vivem sob o ar condicionado e sobre os carpetes, a bordo dos aviões, nos restaurantes pagos pelo contribuinte  e nas ante salas das empreiteiras. Em tempo, esse baile foi o último antes da queda do império e se repete constantemente em Brasília.

     

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  • A paciência de Gaia

    O que está em risco é muito mais do que os ecossistemas. O que está em risco é a sua resiliência. O que está em risco é a propriedade que alguns corpos apresentam de retomar a forma original, após serem submetidos a deformação.

    Postado dia 28 de dezembro de 2016 às 08h em Sociedade e Política

    geleiras

    Foto: Reprodução

    A devastação que o planeta sofre no século 21 ameaça esse mecanismo de recuperação que a Terra pratica desde a sua formação. Em alguns momentos não foi capaz de se recompor, como quando foi atingida por um meteoro que modificou o clima do planeta e pôs fim a era dos dinossauros. Naquele momento não houve resiliência, as adversidades, os golpes desferidos foram de tal brutalidade que tudo sucumbiu. Desta vez não houve a reversão mais forte. Vários acontecimentos estão na direção de provocar novos desastres semelhantes. A diferença agora é que o protagonista é o ser humano com consequências sobre a sua própria sobrevivência, como a crescente falta de água potável. Além de escassa, é finita, mas as pessoas não estão conscientes que destroem o que vai faltar no futuro e por causa da água novos conflitos poderão surgir entre povos.

    As sete irmãs do petróleo sempre estiveram entre os inimigos dos países produtores. Ao longo do tempo eram a face mais visível do imperialismo das nações desenvolvidas. Com o crescimento mundial do consumo de petróleo, culminando com preços recordes de até US$130,00 o barril. Este número foi comemorado pelos acionistas internacionais da petroleiras e pelos governantes populistas dos países produtores. Os motores de combustão interna cresceram exponencialmente, ávidos de gasolina, diesel e seus derivados e a maior parte deles montados nas plataformas do objeto de desejo da civilização de consumo de massa: o automóvel. Em algumas cidades como Beijing, São Paulo, Bogotá ou Deli o ar que a população respira pode ser visto. As camadas de gás cobrem essas cidades como verdadeiras calotas com todos os reflexos possíveis sobre a saúde humana. Com esse quadro devastador e a queda do preço do barril, as sete irmãs entenderam o recado e se juntaram para constituir um fundo de um bilhão de dólares para pesquisar combustíveis alternativos. Benemerência? Filantropia? Nada disso, uma decisão estratégica de direcionar os investimentos em outras atividades.

    Romper com a resiliência do ecossistema é comprometer irreversivelmente as florestas, entre elas a Amazônica, o desaparecimento da outra metade dos animais que escaparam a dizimação que se iniciou com as primeiras civilizações de caçadores no continente africano, o derretimento das placas de gelos nos polos e nas suas proximidades, com a aceleração da elevação do nível do mar. Sem o gelo permanente na Sibéria o estoque da gás metano exalado seria suficiente para turbinar o efeito estufa e o ciclo vicioso se completaria. No passado o ministro do petróleo da Arábia Saudita lembrou que a idade da pedra não acabou por falta de pedra. Houve quebra de paradigma com o advento da metalurgia. Hoje, mais do que nunca, novos paradigmas precisam ser quebrados, não para salvar empresas, mas a própria humanidade. E isso deve começar pelas nações desenvolvidas que já poluíram o suficiente. Será que vem aí a vingança de Gaia como escreveu James Lovelock?

     

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  • Gurus de plantão

    Despertar a atenção das pessoas é um grande desafio

    Postado dia 21 de dezembro de 2016 às 08h em Sociedade e Política

    gurus

    Foto: Reprodução

    Especialmente hoje saturadas pelo excesso de informações. Ninguém está a salvo de ser impactado por uma informação que pode brotar automaticamente na tela do seu smart phone, nos monitores de uma estação do metrô, ou de um elevador, ou estar conectado no wi fi de um ônibus ou avião. Não é possível mais se esconder dela. Nem alegar que não sabia que o presidente do senado foi afastado pelo Supremo Tribunal, ou o avião que levava o time de futebol chocou-se com uma montanha. A informação deixou de ser transmitida oralmente como no passado. A vizinha da minha rua que sabia de tudo e informava a todos, dos assuntos do governo, ao último caso amoroso da garota mais bonita da redondeza, perdeu sua função. Dona Juventina, a fofoqueira de plantão, não tem nem a agilidade, nem os detalhes mais fogosos das fofocas. Está tudo na tela, com imagem e som, não importa o tamanho que ela tenha. Ainda por cima tem um sistema de alarme que ou treme ou apita avisando que tem alguma coisa que o portador ainda não sabe. Nada escapa do mundo da informação, ainda que apenas pequena parte dela se converta em notícia.
    O fato é que vivemos no mundo do excesso de informações. Ficamos dependente delas como da Coca Cola. Em 25 mil anos de civilização anterior não tivemos tanta informação como em um único ano do século 21. E há uma aceleração no processo, que é irreversível. A não ser que a humanidade tenha uma destruição em massa provocada pelo choque de um asteroide gigante no planeta ou uma guerra nuclear, agora entre nações capitalistas. Os dois casos não são prováveis, mas são possíveis. Para atingir 30 milhões de pessoas o rádio levou 30 anos. A tevê alcançou o mesmo número na metade do tempo. A passividade era uma das características desses dois veículos. Ouvindo ou assistindo na poltrona ao lado da cervejinha ou diante da direção de um carro. Eles foram desbancados pela web que em apenas 10 anos alcançou 600 milhões de seres humanos e hoje mais de 3 bilhões. Espalham-se dos polos ainda gelados até os desertos da Ásia, África. América ou Austrália. Com um detalhe vital: as pessoas trocaram a passividade do processo de comunicação pela assertividade. Ou seja somos receptores e emissores de informações 24 horas.
    No meio de tanta informação que jorra de toda parte passa a ser impossível se livrar dela. Talvez em um templo budista, desde que se deixe na entrada os celulares. Todos nos tornamos editores, ou selecionadores de informações. Decidimos o que vai ter nossa atenção, as que serão descartadas e as que vão ser compartilhadas com o nosso público. Todos nós agora temos audiência, maiores ou menores. Por isso é necessário mais um expertise: despertar a atenção das pessoas o mais rápido possível, uma vez que elas estão saturadas do excesso de informação. É preciso extrair do interlocutor a informação no menor tempo possível. Ele é escasso por isso é mais um desafio do cotidiano. Assim é preciso eleger o que é mais relevante nos diálogos cotidianos, seja no âmbito pessoal, seja no profissional. Não dá mais para “jogar conversa fora“ com a mesma frequência que se fazia no passado. É reconhecido como talento a pessoa que nunca usa duas palavras quando só uma pode resolver. Ou como dizem os gurus de plantão: menos é mais. Concisão é a key message da moda. Se isso tudo vai ou não fazer o ser humano mais feliz, ainda não foi possível saber.

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  • Gaia agradece

    Uma alternativa para a defesa da floresta é a participação dos cidadãos e das empresas. Os particulares podem comprar terras públicas e destiná-las à preservação

    Postado dia 6 de dezembro de 2016 às 09h em Sociedade e Política

    floresta

    Foto: A bela floresta amazônica

    O Estado é chamado para regular, proteger e organizar a sociedade. Assim, os bens públicos devem estar sob a proteção Estado. No entanto, as florestas públicas não recebem a proteção devida pelos mais diversos motivos. Não são entendidas como uma propriedade do povo brasileiro. Não há verba, não há interesse, não dá voto.

    Isto abre uma avenida para os aproveitadores que sabem do valor das terras, especialmente as que têm florestas. Ao invadir o espaço público, não encontram resistência por parte do Estado. E os que se opõem são ameaçado ou assassinados pelos jagunços contratados – eles ainda existem no Brasil.

    O poder público tem outras prioridades do que enviar guardas e soldados para impedir as invasões. Com isso, brotam fazendas imensas que, a pretexto de desenvolver a economia e criar empregos, empregam os tratores que puxam correntes. Não sobra nada, tudo é posto abaixo e o que não tem valor de venda acaba queimado.

    Há mais de 500 anos que se derrubam e queimam florestas no Brasil sob os mais diversos pretextos. Se é terra pública, não é de ninguém; portanto, é de quem pegar. Grandes fazendas de soja, gado, milho e outras commodities nasceram dessa forma.

    A outra alternativa para a defesa da floresta e dos biomas é a participação dos cidadãos e das empresas. Ou seja, eles substituiriam o papel do Estado na preservação ambiental. Os críticos diriam que isso é incentivar a tese do Estado mínimo. Mas então, a quem apelar para impedir a devastação, a contaminação, a destruição das florestas e de mananciais?

    Os particulares podem se interessar pela compra de terras públicas e destiná-las à preservação. Teriam que apresentar planos de manejo para que houvesse alguma alternativa econômica, caso houvesse essa possibilidade. Essas unidades podem gerar renda, trabalho e, ao mesmo tempo, salvar o que resta.

    Para tanto, o primeiro passo é divulgar essa ideia e incentivar pessoas e empresas a comprarem essas áreas e destiná-las a preservação. O Estado se livraria de custos e dores de cabeça provocadas por políticos que, ou são donos de imensas extensão de terras, ou são testas de ferro de seus proprietários. Há, como todos sabem, uma bancada de latifundiários no Congresso, com senadora e tudo mais. Políticos conhecem bem os caminhos de como burlar a legislação e são os ases em dar um jeitinho.

    Alguns empreendimentos imobiliários reservaram uma área de preservação. Isto é um atrativo de marketing e valoriza o preço dos terrenos. Outros simplesmente separaram parte da propriedade para a vegetação nativa. Podem transformá-las em uma reserva particular de patrimônio natural, ou RPPN.

    O tombamento é perpétuo, reconhecido pelo Estado, e averbado no cartório de registro de imóveis. Em São Paulo já são mais de 80 e este número está em fase de crescimento. A área pode ser de qualquer dimensão, mas precisa ser avaliada pelo Instituto Florestal. Uma RPPN tem isenção de impostos, pode ter plano de manejo para atividades como turismo, educação e pesquisa científica.

    Mais recentemente, podem receber pequenas verbas à título de serviços ambientais prestados. Nada que se aproxime das maracutaias petrolíferas. Essa iniciativa vai salvar manchas dos biomas com a participação direta da população, do cidadão, que está consciente da importância de preservar a biodiversidade e o próprio planeta.

    Não é um ato de altruísmo, é a defesa de um patrimônio que pertence a todos. Gaia agradece.

     

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