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Guillermo Gumucio

Profissão: Jornalista

Cidade: São Paulo

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

  • O tamanho do estrago

    2º álbum da Fábrica de Animais chora amores sempre complicados e discos perdidos (e a vitrola não tem culpa)

    Postado dia 28 de março de 2017 às 10h em Cultura e Lazer

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    Foto: Edson Kumasaka

     

    “Para ele o reformatório foi mais difícil do que para a maioria, pelo menos no início. Filho único de uma família de classe média alta, sobressaía entre os outros jovens, quase todos párias de todas as raças. Falava com correção na terra do vulgar e do inarticulado. Recebera educação; a maioria dos outros era de iletrados. Em poucos meses, no entanto, adotou as cores do mundo que o circundava, a gíria, o jeito de andar, e os códigos que determinavam o que era virtude e o que não era. Seus sonhos, porém, nasciam no mundo dos livros, para onde ele fugia sempre que possível, para Zane Grey, Jack London, Rudyard Kipling. Troy tinha sofreguidão por influências civilizatórias e era um forasteiro no lugar que a fortuna lhe designara no mundo. Era incapaz de obedecer o 11º Mandamento: Ajustar-vo-eis.”

    Edward Bunker, Cão come Cão

    “A esperança ainda está à sua frente – mas um dia estará atrás de você. Esse é o verdadeiro papel das crianças, ter alguém em quem depositar a esperança.”

    Edward Bunker, Nem os Mais Ferozes

     

    Era um lançamento bastante aguardado, principalmente pelos frequentadores dos bares e teatros da região central de São Paulo. Depois da estreia com Fábrica de Animais (Baratos Afins, 2012), o quinteto de rock paulistano Fábrica de Animais volta com… Fábrica de Animais (Baratos Afins, 2016). Não, você não leu errado, ainda que a semelhança entre os registros fique apenas no ato batismal. Coitado do ouvinte incauto que der o play sem se atentar para um eventual volume alto. “De Quando Lamentávamos o Disco Arranhado” abre os trabalhos como um estouro. Liderados pela gaita furiosa de Flávio Vajman, os quatro músicos saem correndo para buscar a interpretação de Fernanda D’Umbra da letra em co-autoria com Beatriz Provasi.

    A abertura é explosiva e tem como objetivo claro e proposital provocar a inevitável reação de promessa garantida nos ouvidos pelos próximos trinta minutos. A banda toda já se mostra com pegada e desenvoltura em níveis altíssimos desde o primeiro segundo. A bateria de Cristiano Miranda arranca a mil por hora, é precisa mais uma vez nas semínimas de chimbal como ocorrera na abertura do disco anterior com “Ano Novo em Bagdá”, e Caio Góes completa a cozinha com um baixo recheado e maduro. Sérgio Arara encontra novamente aquele espaço inteligente entre o contemporâneo e o vintage com um trabalho notável nas seis cordas. D’Umbra insiste em inocentar as relíquias do passado por um presente conturbado, alegando que “a vitrola não tem culpa”, também um lembrete anedótico quando nos recordamos de que o disco também pode ser ouvido nos principais serviços de música por streaming.

    Na gramática da Fábrica de Animais, depois da tempestade vem a ressaca. Após o grito de liberdade das duas primeiras pauladas retumba “Tudo Errado”, faixa análoga a “Sua Esposa Ligou” do álbum anterior. Uma declaração de amor pela pessoa errada, já que “não posso falar besteira na mesa do bar / nem dar bandeira, pedir pra ficar / pegar na sua mão dentro do táxi não”. Quantas desilusões, quantos erros deliciosamente tragicômicos, e não chegamos nem à metade deste afresco anis que deveria ser pendurado em algum lugar entre a galeria underground da Praça do Patriarca e as vielas que já formaram a Boca do Lixo.

    A estratégia malandra de curar a ressaca com uma dose reduzida do mesmo princípio ativo, o mágico e paradoxal “hair of the dog”, é sabida e pode ser uma boa ideia. “Noite Daquelas” cai matando com os cães ladrando para D’Umbra, mas a caravana não para e lá vem mais uma exibição de notas rápidas e agudas por parte de Vajman e solos minimalistas e surrados como um bom jeans velho de Arara. É bom que se aproveite, porque é no miolo de Fábrica de Animais que os brutos também choram, Shane.

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    Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

    Fábrica de Animais, o motivo de celebração no palco do Sesc Belenzinho numa agradável noite de sexta-feira, 2 de setembro, prova a sua força sob os holofotes, que se fazem trepidantes e intermitentes para a banda chacoalhar e D’Umbra se esgoelar, e também quando se recolhem tímidos e se valorizam mais pelo que escondem do que pelo que mostram. A iluminação apropriada, calcada na fase sentimental que denota cada número, estava nas mãos de Marcelo Montenegro, co-autor de “Jogo de Dardos”. O show prevê uma bela seção em que o descontrole inicial se transforma em reflexão e as semicolcheias podem virar semínimas, agridoces e de tinta borrada. “Puta groove, Caio!”, alguém grita para ser ouvido de um assento mais afastado da plateia. O entusiasmado elogio faz jus ao trabalho do fretless em “Erro”, uma balada em que o baixo de Caio Góes assume a linha de frente com uma bela frase de cinco notas para complementar o canto pesaroso de Fernanda. Góes volta a empunhar o instrumento não tão usual no rock brasileiro em “Tarde Demais”, pontuando um belo refrão incorporado por uma D’Umbra impecável na interpretação de reconhecimento do fim de mais uma história.

    E ali, no palco do teatro do Sesc Belenzinho, é onde a vocalista se sente ainda mais em casa. D’Umbra é diretora e atriz e pode ser vista aos fins de semana no Espaço Satyros integrando o elenco das peças Pessoas Perfeitas e Pessoas Sublimes. Nesta, Fernanda empresta a rouquidão da sua voz a Sonata, portadora de Alzheimer e uma entre tantas personagens que não veem saída no fim do túnel, ou não sabem que não veem. Sonata mora com a irmã Melodia, quem vê na disciplina militar a solução para manter a ordem, não passar constrangimentos, nem ver o apartamento voando pelos ares. A Cia. Os Satyros e o diretor Rodolfo García Vázquez trazem luz a uma São Paulo que nem todos querem ver, uma cidade onde a solidão corrói todas as almas e os desejos reprimidos estouram pelos poros. Muito de Pessoas Perfeitas está no ótimo Hipóteses para o amor e a verdade (dir. Rodolfo García Vázquez, 2015), primeira e bem-sucedida incursão do Satyros no cinema, mas em Pessoas Sublimes há muito mais poesia, uma abordagem mais introspectiva, que dá até brecha para que um pouco de D’Umbra entre em Sonata com uma palhinha de “Tarde Demais”, total e propositadamente dissonante na trilha da cena. O espetáculo consegue trabalhar os mesmos temas de Pessoas Perfeitas e não ser mais do mesmo, conta com interpretações tocantes, e com D’Umbra não é diferente. O público se emociona com Sonata, sente pena pela sua condição, e até ri com ela quando assume que não sabe com quem realmente acabou de falar ao telefone.

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    Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

    Mais de um integrante da Fábrica reconhece que até o primeiro ensaio todos conheciam D’Umbra pela sua trajetória no teatro e não poderiam imaginar o que vinha pela frente. Com a desenvoltura que lhe é peculiar e gana de rock, ela mostrou ao que veio. “Acho que nem ela sabia que ela cantava, mas deu certo”, analisa Arara. Chegaram a tocar como Fernanda D’Umbra e Banda, até que Luiz Calanca, ícone de preservação da discografia brasileira e dono da loja e selo Baratos Afins, conferiu a performance do quinteto. Calanca organizava o Rock na Vitrine, um espaço na Galeria Olido, colado na Galeria do Rock, para lançar novos cartazes. Quando o assunto é rock, Calanca sabe que precisa ver para crer e reconheceu o potencial de imediato: “Foi paixão mesmo e aí quis gravá-los”.

    “Som Cafona”, praticamente um sucessor espiritual de “O Que é Que Tem Na Rua?”, trabalha com a divisão de versos entre D’Umbra e Arara, mas encontrando no homem um eco idêntico àquele da mulher. “No primeiro disco, eles ainda estão se conhecendo, e neste segundo já é uma separação. Não foi feita exatamente com esse propósito, mas é definitivamente uma música de separação”, admite Arara em entrevista exclusiva da banda para o Sociedade Pública. E ainda que assim seja, o encerramento, em uníssono, junta essas duas vozes, agora, solitárias. “Som Cafona” é a cereja do bolo do ébrio manual da dor de amores que se desenha no álbum. A voz de Arara também ganha mais audiência neste segundo registro, com uma rápida intervenção em “Noite Daquelas” e o primeiro plano da dobradinha de encerramento.

    A vasta maioria das músicas que integram o disco já eram figurinhas carimbadas do repertório ao vivo do conjunto pelos bares, centros culturais e espaços públicos de São Paulo há pelo menos dois anos. Com a banda já entrosada pelas muitas horas de voo em estúdio e no palco, a tarefa na hora de gravar consegue se concentrar em assuntos tão importantes para um registro em disco, mas por vezes relegados, como o próprio tom do som, o ambiente que imprime a alma de um álbum na nossa memória.

    Talvez seja essa a maior diferença entre os dois discos da Fábrica de Animais. A estreia é festiva, uma celebração do espírito boêmio nas primeiras horas da noite, com as atividades apenas começando. Quando o ritmo desacelera, temos faixas hilariantes, como “Farra de Cicatriz” e “Sua Esposa Ligou”, uma tiração de sarro mais que saudável e bem-vinda, mas não exatamente sensíveis ou com uma visão parnasiana das coisas. “Honey” seria não a festança em si, mas o que ouvimos naquelas noites em apartamentos do Copan ou casas de vários cômodos esfumaçados na Vila Madalena. Não à toa, é cantada em inglês. Ainda que o disco de 2016 tenha seu momento de alto astral com “Ritalina” e duas músicas que são entoadas praticamente como hinos nos shows da banda, “Noite Daquelas” e “Eu Não Tenho Dinheiro” (esta última, faixa “escondida” no final do disco), ele é dotado de poesia e sensibilidade que simplesmente não tinham como se encaixar entre “me tira da sala / que eu tô pra causar / faltam dez minutos / para o Ano Novo em Bagdá” e “sempre perco o telefone/ chave de casa eu já nem tenho mais / meus amigos são piores do que eu / quando eu saio do bar, ninguém vem atrás”. Enquanto um se encerra oficialmente com as constatações bêbado-motoras de “Torto, Trôpego e Cambaleante”, o outro prefere fechar com o lamento desprendido de “Bossa Nóia” conduzido por uma linha labiríntica e paranoica de contrabaixo. É muito provável que o primeiro álbum tenha pautado o tema da conversa de D’Umbra no Transando com Laerte, programa do Canal Brasil comandado pela cartunista, quando bateram um papo sobre festas. Por essa lógica, se a vocalista voltar ao papel de entrevistada antes de um terceiro disco são grandes as chances de o diálogo transitar por desilusões amorosas e bad trips.

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    Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

    Quem ouve a Telecaster de Sérgio Arara no show de lançamento no Sesc Belenzinho não imagina as inúmeras idas e voltas com volumes, retornos e equalizações na passagem de som um par de horas antes. O homem sabe tratar da ferramenta de trabalho com o devido esmero e o público presente pôde ouvir seis cordas que soavam na zona pela qual muitos anseiam, mas não são todos que alcançam, por ser tão árdua de conquistar. Aquela região entre o cristalino e o sujo, praticamente um Triângulo das Bermudas em decibéis. “Um momento sempre traumático é a passagem de som”, sumariza Cristiano Miranda.

    Cabe a Flavio Vajman tirar uma das novidades da cartola (ou, melhor dizendo, do chapéu de cangaceiro) da fábrica de rock paulistana quando uma sanfona é introduzida com senhora competência em Jogo de Dardos. Se o instrumento em “Erro” segue a cartilha do bolero, a parada em “Jogo de Dardos” é bem mais dura. Sem qualquer aviso, Fernanda ironiza que “você vai querer dizer que conhece o meu repertório” depois de ratificar seu “maldito gosto por coisas antigas” na faixa de abertura. A baqueta no aro de Cristiano Miranda abre a contagem para uma potente diatribe misantropa sobre aparências que enganam e Fernanda solta a voz em um gutural tremulante como nunca. Na sequência, as cordas operam um intrincado riff em uníssono e um Vajman homenageando Luiz Gonzaga na cabeça mais uma vez disfere uma cama com as teclas do robusto instrumento que fez a glória do Rei do Baião. A porrada inaugurada há alguns minutos por “De Quando Lamentávamos…” ainda não cessou e Arara não deixa por menos com um solo raivoso e barulhento cujo caos esconde uma técnica apurada.

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    Divulgação

    “Sabíamos que queríamos um disco mais sujo”, conta Fernanda sobre a primeira certeza desde o início do processo de confecção do segundo disco. O tamanho do estrago cantado por D’Umbra é imenso: não há dúvidas de que “Jogo de Dardos” é daqueles números que marcarão presença no setlist de todo e cada show feito pela banda, ainda que ela chegue a gravar uma centena de álbuns.

    Fábrica de Animais foi gravado entre o Viralata de Raça, de propriedade de Sérgio Arara, e o estúdio da Escola SP de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Como a prioridade do estúdio da Escola SP de Teatro é dos aprendizes dos cursos, o conjunto precisou se adaptar à agenda. D’Umbra lembra que foram finais de semana, inclusive domingos, no estúdio para finalmente selar um processo criativo que levou, ao todo, dois anos.

    A arte do disco ficou a cargo de Angeli, pai de personagens como Wood & Stock e Rê Bordosa que certamente compartilhariam de várias das preferências dos músicos da Fábrica de Animais. O cartunista conheceu o som e a presença da Fábrica em um show na cerimônia do Prêmio HQ Mix, principal premiação da banda desenhada e cartum do país. Como um Romário dos pincéis, Angeli sabe muito bem o que fazer. Entregou o trabalho após uma única audição do disco em seu estúdio na companhia atenta de Fernanda D’Umbra. Não demorou muito para entregar o projeto finalizado, em uma só versão, essa que estampa a edição da Baratos Afins. Ao não se contentar com o clichê roqueiro do som e da fúria e incorporar o sentimentalismo de quem se importa com algo mais do que a manchete do dia, Angeli acertou o dardo bem no meio do alvo. A escolha do cartunista é consequência direta da mais pura admiração artística. Cristiano Miranda se lembra de comprar a edição de Mad do mês com o pai na banca de outrora, e D’Umbra é leitora ávida de histórias em quadrinhos desde que pegou o primeiro “gibi adulto” em São José do Rio Preto, então compreende perfeitamente o que Montenegro quer dizer quando instrui que “pode levar o Crumb”. O sacrifício só se dá com o que sentimos falta, afinal de contas.

    De certa forma, este segundo disco da Fábrica de Animais é mesmo sobre a incongruência entre duas partes que não conseguem mais se entender e, na falta de recurso melhor, decidem vociferar para só depois lamentar. Reconhecem, a duras penas, que sofrem por algo tão manjado quanto o amor, tão cafona para uma geração blasé, que nem mesmo o mais maldito dos autores é uma ilha. Até mesmo “Água Salgada”, um rock mais padrão impossível com a mesma dinâmica que todos pegaram de “Jailhouse Rock”, tem a inevitável função de trazer o gosto de lágrimas à boca. No processo de composição, Caio Góes, baixista com a bagagem e responsabilidade inerente ao cargo na Central Scrutinizer Band, a maior e melhor homenagem a Frank Zappa, avisou: “Vocês sabem quantas milhões de músicas já foram feitas com essa harmonia?”. Ainda assim, como bom soldado que não foge à luta, Góes encara o desafio e entrega uma linha feroz que dá a “Água Salgada” uma pegada frenética.

    O sentimento da desilusão amorosa pode ser um tema universal, mas a Fábrica continua batendo cartão em São Paulo e transitando pelas ruas da capital de ônibus, metrô e táxi para discorrer sobre situações que só uma megalópole esquizofrênica pode produzir. São entreatos cortados pela fumaça de um maço de cigarros amassado descritos por um eu-lírico que usa o Bilhete Único para atender a mais um compromisso etílico. Na prosa paulistana da Fábrica de Animais, pisamos na lama pela garoa ininterrupta que às vezes dá lugar à tempestade e cultivamos demônios que podem ser espantados apenas temporariamente com mais um trago.

    Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

    Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

    Ao contrário do que o discurso prevalecente no disco pode aparentar e tomadas as devidas proporções, não se trata de qualquer alegoria pinkfloydiana como em The Wall (Columbia, 1979) para sinalizar uma cizânia ou partida no time. Afinal, quem vê a série de típicas intervenções e provocações entre os integrantes da banda no palco tem a nítida impressão de que estes caras definitivamente se divertem com o que fazem. É de se estranhar que Flávio Vajman tenha se sentido um tanto quanto distante no processo de composição do disco. “Eu não me senti tão presente”, confessa Vajman, para a perplexidade geral dos outros integrantes no camarim, às gargalhadas. Tanto os arranjos quanto a mixagem são bastante favoráveis ao seu virtuosismo e gosto refinado na gaita. Um instrumento que o pegou por acidente, já que os planos eram de estudos de violão erudito na Universidade Livre de Música.

    Flávio Vajman é quase sempre alvo dos amigáveis chistes, e não é apenas porque o gaitista, recém-instalado em Fortaleza, não poderá acompanhar o conjunto como antes, mas porque é assim desde os primórdios da “família” que é a Fábrica de Animais, como frisa Vajman. A pose de porra louca do gaitista não dura nem um minuto sequer: “A coisa mais difícil da minha partida de São Paulo foi me desprender da Fábrica de Animais”. Os cabelos desgrenhados e a fala rápida e solta não conseguem ser maiores que a simpatia que cativa seus colegas e o olhar atento. Em uma das cenas do curta-metragem De Carona com a Fábrica de Animais (dir. Edson Kumasaka, 2016), Arara tira o disfarce do colega blueseiro: “Essa marra dele é tudo conversa fiada”. A montagem de trechos de diversos shows diferentes com depoimentos dos entrevistados ao volante traz o relato da gênese da banda, e pelo menos uma imagem curiosa, de Vajman na função de segundo guitarrista, um desperdício do tempo em que a Fábrica era cartaz do falecido Juke Joint com outros trovadores da noite paulistana, como La Carne, Biônica e Saco de Ratos. O primeiro corte do filme foi exibido em duas sessões no 8º Festival Internacional de Documentários Musicais IN-EDIT Brasil e terá imagens da série de shows de lançamento em 2016 em uma segunda versão. Misto de casa de cultura e sede de engajamento de incentivo à adoção de animais, a sala de projeção da Matilha Cultural para o programa “Curta um Som” de que De Carona… parece ter sido escolhida a dedo.

    Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

    Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

    No terceiro show de lançamento do disco, na Escola SP de Teatro no dia 09 de setembro como uma das contrapartidas pela cessão do estúdio de gravação, um momento em especial deixava a relação que Vajman tem com os outros integrantes clara como uma dose de boa vodca. Na seção de solos improvisados de “Erro”, Fernanda D’Umbra, sempre compenetrada, cheirava de joelhos as pétalas de um buquê que alguém jogara há pouco no palco. Os músicos se comunicavam com gestos e expressões faciais para tentar acertar de quem era mesmo a hora de entrar em ação e voar solo sem deixar a peteca cair. Enfaticamente encorajado por Arara, Vajman primeiro sonda o campo com algumas notas breves e tônicas na gaita para poucos instantes soltar o coração, e os pulmões, para emocionar a todos com um solo dos mais inspirados. D’Umbra, ainda de joelhos, é a primeira a reconhecer que via a performance de um grande músico de camarote e não faz questão de esconder. Vajman é aplaudido imediatamente após o término do solo ao ponto de o público sobrepor a volta do coro com a sua homenagem e também ovacionar o gaitista ao fim do número. E se “Erro” é tão mencionada é porque ela é, de fato, um dos maiores destaques do disco. Ironicamente, a faixa entrou de última hora em Fábrica de Animais, quando muito do álbum já havia sido gravado, com um Arara adentrando o estúdio com a música praticamente pronta para apresentar aos colegas.

    Com dois álbuns tão consistentes, a estrada é aberta e promissora para o conjunto, com previsão de céu limpo e um tempo que só fecha quando o assunto é destilar a energia no palco. O teatro com assentos marcados talvez não seja o habitat de preferência do público para um show da Fábrica de Animais, contudo, a ocasião protocolar de um lançamento de disco faz com que todos os presentes respeitem fielmente o pedido da vocalista para resistir à tentação de subir ao palco no bis “Eu Não Tenho Dinheiro”. A música, um cântico da geração das incertezas, pelo menos não sofreu nesta ocasião represálias por um verso tão inocente quanto “mas o que me fode nesta porra de vida é que eu não tenho dinheiro”, como já aconteceu em certa casa tradicional de blues de Moema, segundo Vajman. “Não foi nada velado, apenas me disseram que ali não poderíamos falar palavrão”, revelou o gaitista, ao que D’Umbra ponderou que “se fosse em inglês, poderia”.

    O público da Fábrica de Animais é o frequentador de teatro e leitor inveterado que consegue dissertar sobre Herman Melville, citar Dickens, tem a coleção de bolso de Bukowski da LP&M sempre à mão ou na cabeceira da cama e aprecia o cinema de John Cassavetes e Eduardo Coutinho com a mesma habilidade. O homem que poderia muito bem estar trajando a camiseta com o escrito “Jack Kerouac ’57”, a mesma com a qual Vajman já subiu tantas vezes ao palco e não poderia faltar no Sesc Belenzinho. Ou a mulher que acompanha os espetáculos da Praça Roosevelt há tantos anos e elenca produções teatrais como Bárbara Heliodora recitava sonetos de Bill Shakespeare. Ou o Mirisola.

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    Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

    Desde o último 2 de setembro, a missão da Fábrica de Animais é apresentar o seu rock sofisticado e literário, aquele que ora convoca Paulinho da Viola e Luiz Melodia, ora se diverte com Rita Lee e Nick Cave e costuma prestar tributo a Willie Dixon, à maior quantidade de locais possível. Uma meta razoável é concentrar os esforços para tentar shows nas principais capitais do país, como conta Sérgio Arara, já que é opinião unânime da banda que o som da Fábrica é, sem dúvida nenhuma, popular. “A nossa pretensão é ser popular e isso se comprova quando tocamos na rua. Vemos as senhoras, os mendigos, as crianças, os manos e os guardas gostando, cantando e dançando”, explica D’Umbra. Sérgio Arara ainda ilustra: “Eu não quero ser a figura do rockstar. Quero ser o Luiz Gonzaga!”.

    Com efeito, é uma identificação de mão dupla, com personagens que habitam e se retroalimentam das músicas que as retratam, a trilha sonora para quem sabe que “roubada não tem idade”, como exemplifica D’Umbra. Cada governo com a trilha sonora que merece, é o que bem sabe Reinaldo Moraes, autor de Porponopéia (Objetiva, 2009) e dos libertários e desvairados Tanto Faz e Abacaxi (reeditados em volume único pela Companhia das Letras em 2011), que teria confidenciado à banda que adora “Sua Esposa Ligou”.

    Se há um acordo quanto ao potencial de atração do repertório com uma demografia além do centro velho de São Paulo, mais um motivo para uma medida tão pouco eficiente na era digital quanto dar nomes idênticos a álbuns diferentes ficar definitivamente no passado. A resolver também o papel de gaita no palco, esse lugar de conquista da banda, já que Flávio Vajman não poderá acompanhar sempre em turnê. Como preencher o vazio deixado pela gaita, tão presente na maior parte das faixas, é um mistério que só verá alguma resolução nos próximos capítulos ao vivo.

    Com este disco de 2016, não há dúvidas de que temos uma banda que precisa não apenas ser vista, mas ouvida em bons fones de ouvido também. D’Umbra conta que eles “queriam um disco mais sujo que o primeiro, que tivesse uma energia mais próxima da energia do palco, mesmo que isso seja difícil de alcançar, já que a especialidade da casa é o palco”. Pois bem, conseguiram. Mesmo sendo tão consistente na sua paleta predominantemente azul e escura, este Fábrica de Animais de 2016 é um registro sonoro de uma transformação que não se esquece de preservar aquele velho maldito gosto por coisas antigas. A Fábrica de Animais concebeu uma rica, obscura e elegante criança de mesmo nome que conquistará ainda mais mentes que só querem deixar seu coração, pulsante e à deriva, no meio da rua.

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    Os discos Fábrica de Animais (2012) e Fábrica de Animais (2016) estão à venda na Baratos Afins (Av. São João, 439 – 2º andar – Lojas 314/318), no iTunes e também estão disponíveis nas plataformas de música por streaming Spotify e Deezer.

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  • Saudade que não acaba mais

    Edição atualizada do obrigatório “Chega de saudade” já está nas livrarias

    Postado dia 7 de fevereiro de 2017 às 08h em Cultura e Lazer

     

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    João Gilberto e Tom Jobim (Divulgação)

    Acompanhar o universo das biografias nas estantes das livrarias virou uma tarefa extenuante. Haja tempo para conferir todas. Além das pessoas públicas do mundo político e celebridades do showbiz, os músicos costumam ser fonte rica de relatos curiosos, desvairados e eloquentes. E foi em 1990 que uma obra sobre um período da maior profusão de talentos musicais, amizades e relacionamentos que se fazem e desfazem e origens das mais variadas estabeleceu um novo padrão para a confecção de biografias.

    Chega de saudade foi sucesso imediato de crítica e vendas, com todos os louros para Ruy Castro pelo trabalho de resgate da bossa nova como um movimento fundamental e confluente na história da música popular. Mais de 25 anos depois, o livro ganha edição revisada e atualizada, com o devido tratamento da Companhia das Letras.

    A cronologia de Castro sobre a bossa nova não ganhou o status de “leitura obrigatória” por mero acaso. Chega de saudade traz o melhor dos dois mundos almejados por qualquer obra de não-ficção: pesquisa vasta, precisa e muito bem embasada, acompanhada por uma prosa impecável. O fio condutor do raio-x do movimento musical descrito nas mais de quatrocentas páginas não poderia ser outro, tem que ser obrigatoriamente o talento e o gênio de João Gilberto e a sua persistência na busca pelo acorde perfeito.

    Foto: DivulgaçãoRuy Castro desmitifica uma série de episódios e crenças a respeito dos bossa-novistas. O autor teve acesso ao catálogo completo de João Gilberto, inclusive as raríssimas primeiras gravações como crooner do conjunto vocal Bando da Lua. Além disso, explica que, ao contrário do que já foi muito pregado, o minimalismo de diversos arranjos de gravações da personalidade de Juazeiro do Norte (principalmente das faixas que compõem o disco que dá nome ao livro) é fruto de restrições orçamentárias aliadas ao martírio ao qual “Joãozinho” submetia os músicos da orquestra encarregada.

    Outro fator associado imediatamente à bossa nova são as capas da Elenco e Odeon para uma série de discos, como A bossa nova de Roberto Menescal e seu conjunto ou Bossa balança balada de Sylvia Telles, para citar alguns poucos exemplos, produtos também originários de falta de recursos e pressa para aproveitar a onda favorável ao gênero.

    Ainda outro exemplo disso também está na lenda de que o estilo vocal inaugurado pelo compacto Chega de saudade, marca inconfundível de João Gilberto, teria sido consequência de uma restrição, as madrugadas nas reuniões no apartamento da família de Nara Leão. Mas Ruy Castro comprova que isso não poderia estar mais longe da verdade, já que o espaço contava com mais de quatrocentos metros quadrados, dificilmente a atividade dos jovens poderia incomodar alguém.

    Indubitavelmente, um dos grandes charmes da obra está na habilidade literária de Ruy Castro a serviço do retrato de um Rio de Janeiro de um tempo que não volta mais. Um Rio de Janeiro na efervescência dos bares e boates da Zona Sul, todos parte de um roteiro em que pipocavam compositores, poetas, cantores e músicos de todos os calibres. Com relação a estes, Castro foca em histórias de feras do mais escalão e que viraram sinônimo da bossa nova carioca, como Milton Banana, Sérgio Mendes e os irmãos Castro Neves.

    chega de saudade

    Foto: Divulgação

    Não poderia ser diferente: a tríade formada por João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Morais é onipresente em todo o texto. A influência desses gigantes da música brasileira é vista por diversos ângulos, graças ao extenso trabalho de averiguação e às mais de duas centenas de entrevistas realizadas.

    As dinâmicas nem sempre sóbrias entre os compositores e músicos e as idas e vindas de João Gilberto no eixo Juazeiro-Rio, com escalas em Minas Gerais e Nova Iorque, são esmiuçadas e devidamente contextualizadas. Os romances também, evidentemente, com o ápice do episódio envolvendo Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e a indomável Maysa.

    E são nos casos mais pitorescos que impera o bom humor de Ruy Castro, com riqueza de detalhes (como no caso dos Afro-sambas de Vinícius e Baden, por exemplo) e prosa cativante, provando que, às vezes, as personagens da vida real são mais excêntricas do que qualquer roteirista poderia conceber. João Gilberto, claro, é um prato cheio em matéria de histórias de encher os olhos do romancista mais criativo, e o cronista brinda o leitor com relatos curiosíssimos sem perder a objetividade e visão periodística de lado.

    No miolo da edição, além de fotografias que dão um panorama da evolução da bossa nova, uma folha frente (São Paulo) e verso (Rio de Janeiro), preciosa com um roteiro dos principais locais onde a história do gênero foi escrita, inclusive com bares, boates e restaurantes que podem ser visitados nos dias de hoje, ente outros que já foram desativados ou não existem mais, mas vale o registro histórico.

    Não existe momento mais ou menos ideal para reeditar uma obra deste calibre, mas o timing só não é mais perfeito porque os conjuntos atuais se espelham muito mais no movimento tropicalista do que na bossa nova propriamente dita. De qualquer modo, é com grande prazer que se lê ou relê a trajetória traçada pelo autor para explicar como se deu o gênero no país, e no mundo.

    Ruy Castro lançou em 2015 outra obra bastante extensa sobre o mesmo período, A noite de meu bem: a história e as histórias do samba-canção, também pela Companhia das Letras, mas foi com Chega de saudade que o autor realmente começou a ser visto como pesquisador de mão cheia. Após o relato sobre a bossa nova, o autor ainda emplacou pelo menos três outras biografias de semelhante sucesso e importância, O anjo pornográfico (Companhia das Letras, 1992), sobre Nelson Rodrigues; Estrela solitária (Companhia das Letras, 1995); e Carmem: uma biografia (Companhia das Letras, 2005), sobre Carmem Miranda; entre outros trabalhos sobre música e cinema, além das suas crônicas.

    Leitura obrigatória para iniciantes e iniciados, esta edição atualizada de Chega de saudade conta com adendos biográficos conforme foram se dando obituários, mas este grande tributo da não-ficção brasileira já demonstrava que se tratava de trabalho inigualável em sua primeira edição de 1990.

    Chega de saudade é uma edição da Companhia das Letras.

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  • Bretanha mole e Rocha dura

    A força de Ava Rocha, o rock adolescente do Libertines e o aguardado show do Wilco no Popload Festival em São Paulo

    Postado dia 21 de novembro de 2016 às 09h em Cultura e Lazer

    Palco dia

    O espaço do Urban Stage, nas imediações do metrô Portuguesa-Tietê recebeu a edição especial de 10 anos de festas gabaritadas organizadas pelo Popload, a coluna que cresceu e virou portal com a assinatura de Lúcio Ribeiro, jornalista que se especializou em promover, descobrir e noticiar algumas das fileiras do que foi alcunhado como rock “alternativo”. No sábado ensolarado de 8 de outubro, cerca de 7.800 pessoas passaram pelo local para conferir uma escalação bastante interessante de atrações musicais. O plantel do Popload Festival estava completo com Ava Rocha, Battles, Ratatat, Wilco e The Libertines, uma seleção de consistência e certo ecletismo na medida dentro da proposta. Apenas alguns dias antes da data marcada, os nova-iorquinos do Battles voltaram atrás na sua participação alegando que o cancelamento de outras datas no continente inviabilizavam a empreitada.

    Com os admiradores do intricado rock do conjunto frustrados, a expectativa era de que a produção escalasse algum cartaz nacional na mesma verve, mas não foi o que aconteceu. O Bixiga 70 é sempre sinônimo de diversão e boas vibrações com muitíssima competência, mas, convenhamos, há um sem-número de oportunidades de conferir a big band na cidade nos espaços culturais e unidades do SESC e os nomes naturalmente ventilados para cobrir o Battles seriam Hurtmold ou Macaco Bong, por exemplo. Não há qualquer julgamento a respeito da qualidade do grupo que foi escolhido pelo staff de ninguém menos, ninguém mais que Marlena Shaw, uma das maiores divas da Blue Note e ainda deixando muita menina no chinelo do alto dos seus mais de 70 anos, quando da sua passagem pelo Brasil em agosto do ano passado. A questão em pauta é que a decisão mais acertada teria sido suplantar um cancelamento com uma substituição de mesmo DNA.

    Dia

    A reportagem chegou com a devida pontualidade para o show do Bixiga 70, o primeiro do dia, mas a produção atrasou a entrada dos meios de comunicação no local, alegando que revogara de última hora mais de 50% dos credenciamentos aprovados. Após comprovar que tal decisão não afetara o Sociedade Pública, a entrada foi liberada, mas não em tempo de conferir o show do Bixiga 70, infelizmente.

    Ava Rocha entra e traz consigo bacantes melodias. (Foto: Elayne Diniz)

    Ava Rocha entra e traz consigo bacantes melodias. (Foto: Elayne Diniz)

    Soavam as primeiras notas do contrabaixo de Pedro Dantas para anunciar que chegava Ava Rocha e a sua carga inevitável de brasilidade visceral. Ava não enganaria alguém nem que ocultasse o sobrenome: é impossível olhar para a intérprete e não se confundir com aqueles olhos, aqueles olhos cheios de vida e gana. Aqueles mesmos olhos que botaram o Brasil no mapa mundial da sétima arte com uma obra enfurecida que nos deu manifestos definitivos em película como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe.

    Ava Rocha foi impactante do início ao fim em São Paulo. (Foto: Elayne Diniz)

    Ava Rocha foi impactante do início ao fim em São Paulo. (Foto: Elayne Diniz)

    A cantora invade o palco como uma metralhadora com “Auto das Bacantes”, uma releitura antropofágica da mais nova ordem mundial em que sugere matar a você mesmo, comer do seu morto e desalinhar o corpo, ficar louco, e então convoca: “tome espaço do Estado, da polícia, da NSA, da Mulher-Maravilha e meta o grelo na geopolítica”. Ainda possuída pela entrada triunfal, emenda na mesma dobradinha de Ava Patrya Yndia Iracema (Circus, 2015) com “Hermética”. Um belíssimo cartão de visitas com duas metades que se equivalem qualitativamente, uma enfurecida, outra doce, respectivamente. O guitarrista Eduardo Manso dá conta não só das seis cordas, mas também do sintetizador Micro Brute, que dá um charme irresistível ao encontro das tradições do Velho e do Novo Mundo no palco.

    O miolo do show foi revelador em termos antropológico-sociais (de boteco). Com um segmento inteiro recheado de batidas regionais e de raiz afro, Rocha empunhou de novo o seu cocar de facas para mostrar, talvez sem querer, que o flerte de parte do público urbano com a sua história musical é puro discurso vazio. O público, que vinha acompanhando o espetáculo com as devidas cargas de deleite e admiração, se mostrou estático e pouco interessado na fonte de que bebe Rocha desde o berço. O baterista Thomas Harres, que já usara as próprias mãos para fazer soar os tambores de seu kit anteriormente no show, assume o caxixi e empresta seu ritmo à incursão de Rocha e banda pelas raízes musicadas do país. No segmento mais cênico e autorreferente de toda participação da cantora no festival, houve espaço para “Olorozui”, um cântico de candomblé entoado a plenos pulmões por Rocha, e até mesmo uma versão de “Canoa, Canoa”, celebrizada por Milton Nascimento e sua turma no Clube da Esquina 2 (EMI, 1978).

    Antropofagia e cênico lancinantes de Ava Rocha. (Foto: Elayne DIniz)

    Antropofagia e cênico lancinantes de Ava Rocha. (Foto: Elayne Diniz)

    A fuga para colocar as coisas novamente no eixo do rock de arena se deu com “Boca do Céu”, faixa de abertura do disco de estreia produzido pelo carioca Jonas Sá. De poesia ímpar, a música esbanja joga uma cama de deliciosos e aguados arpeggios para que Rocha brinque com um trava-línguas de poesia concreta com versos como “Olhos nos céus / seus que são meus / olhos nas bocas, nas bocas do céu / Saliva a chuva caindo da nuvem / Chuva saliva caindo da língua”. Finalmente, Rocha encerra a sua impecável apresentação no Popload Festival com a engajada “Você Não Vai Passar”, uma cativante faixa que poderia ser entoada em protestos de grupos feministas, bastante natural para uma música que desenha “um cara que nunca tomou conta de mim” e que “não vai passar com a dor quando me flagrar dando sopa por aí”.

    Ava Rocha

    Sem sombra de dúvida, o ponto mais baixo da noite foi o Ratatat. A dupla nova-iorquina, que já não contava exatamente com uma legião de fãs ensandecidos pela sua vinda ao país, não emplacou. No começo, o público até que foi bastante receptivo à proposta que mistura riffs de guitarra de videogame com batidas eletrônicas, mas a tolerância e a força de vontade no Urban Stage cessaram depois da primeira meia hora de apresentação, quando o constrangimento era visível em cada espectador na fila do pão do Wilco.

    Mike Stroud bem que tenta, mas quem fala mesmo é o vídeo. (Foto: Elayne Diniz)

    Mike Stroud bem que tenta, mas quem fala mesmo é o vídeo. (Foto: Elayne Diniz)

    Usando o recurso do vídeo como pesada muleta, o Ratatat faz muzak para hipster ouvir. Uma equação que talvez funcione em consultórios, elevadores e lounge bars dos Jardins, mas a performance só não

    O tímido Evan Mast no baixo do Ratatat. (Foto: Elayne Diniz)

    O tímido Evan Mast no baixo do Ratatat. (Foto: Elayne Diniz)

    foi pior porque, graças aos deuses de Nova Iorque de passagem por São Paulo, já fazia noite quando Mike Stroud e Evan Mast iniciaram a tentativa frustrada de fazer remexer alguns esqueletos, o que favorecia o impacto do fator telão no show. O problema não é o fato de ser instrumental, tampouco a presença do trabalho de VJ, mas a composição pobre, previsível até para os padrões populares do rock que só quer divertir, e pouca variação da dinâmica entre os elementos eletrônicos e os licks de guitarra. Com a execução de “Wildcat”, provavelmente a faixa mais conhecida do duo por aqui, e com o show já indo para os finalmentes, já era tarde para tapar o buraco no barco e salve-se quem puder.

    Pedro Vasconcelos

    Pedro Vasconcelos, 30, aprovou a escalação do festival. (Foto: Elayne Diniz)

    O fato era que muitos suportavam ali o Ratatat porque atrás das cortinas quem se preparava era o Wilco. A banda nunca se apresentara em São Paulo, de modo que estava mais do que claro que não faltariam os principais sucessos do vasto repertório que se iniciou há mais de 20 anos, com A.M. (Sire, 1995). Muitos fãs vieram à cidade para prestigiar a passagem da banda, como Lucas Sallum e Carolina Abras de Belo Horizonte, que não hesitaram em aproveitar a facilidade do Airbnb, popular aplicativo de hospedagem comunitária, para encontrar um cantinho por aqui e não perder a ótima oportunidade musical que se apresentava no Popload Festival deste ano.

    Lucas e Carolina vieram de Belo Horizonte para o festival. (Foto: Elayne Diniz)

    Lucas e Carolina vieram de Belo Horizonte para o festival. (Foto: Elayne Diniz)

    Embora Lucas, ex-baixista do Radiotape, banda da capital mineira que lançou o mais novo EP Luz com quatro faixas em setembro, ostentasse uma camiseta em homenagem ao Wilco, fazia parte do público que ficaria também para conferir o The Libertines. “Compramos os nossos ingressos assim que foi confirmado o nome do Wilco e ficamos aguardando quais seriam as outras atrações. Como também somos muito fãs do Libertines, ficamos muito felizes com a escalação do festival e a chance de assistir às duas bandas de que tanto gostamos em um único dia”, contou Lucas.

    Foco e diversão na medida perfeita. (Foto: Elayne Diniz)A fórmula mágica do Wilco: foco e diversão na medida perfeita. (Foto: Elayne Diniz)

    Com um repertório que contou com 28 músicas e foi iniciado no mais alto astral com “Random Name Generator”, manteve o ritmo com a mais recente “The Joke Explained” e botou o público para cantar em uníssono com Jeff Tweedy em “I Am Trying to Break Your Heart” já nos primeiros quinze minutos de espetáculo, o Wilco mostrou que estava disposto a retribuir o carinho do fã brasileiro que chegou até mesmo a fazer uma extensa campanha para que a banda volte ao país após a apresentação na etapa carioca do TIM Festival nos idos de 2005.

    Capitão Tweedy e seu mais fiel companheiro. (Foto: Elayne Diniz)

    Capitão Tweedy e seu mais fiel companheiro. (Foto: Elayne Diniz)

    Depois da bela trinca inicial veio “Art of Almost”, a estupenda faixa de abertura de The Whole Love (dBpm, 2011), com sua batida pulsante e constante e final arrebatador. Na sequência, mais hits que não poderiam faltar na ocasião e que revelam a trajetória de sucesso e competência incontestáveis do conjunto. Faixas como “Misunderstood”, “Side with the Seeds”, “Handshake Drugs”, “Heavy Metal Drummer” e “Via Chicago” são executadas há anos pelo sexteto com perfeição e uma dedicação nítida. No recheio, momentos do recém-lançado Schmilco (dBpm, 2016), breve bolacha com pouco mais de trinta minutos que não dividirá o mesmo espaço dos exemplos de polimento esmerado e alto refinamento de Being There (Reprise, 1996), Summerteeth (Reprise, 1999) e Yankee Hotel Foxtrot (2001), mas tem seu próprio mérito descompromissado.

    De um lado de Tweedy nas seis cordas, Pat Sansone... (Foto: Elayne Diniz)

    De um lado de Tweedy nas seis cordas, Pat Sansone… (Foto: Elayne Diniz)

    No palco, a banda é irrepreensível. Não importa o segundo em que o público olhar para o baixista John Stirratt, único membro fundador junto com Jeff Tweedy, ele estará sempre na batida perfeita, balançando a cabeça e sondando se estão todos ali com ele o acompanhando devidamente (e estão, sempre estão). Na ala direita de Tweedy está Nels Cline, o mago das muitas cordas do Wilco. Músico completo e com um estilo agressivo que casou maravilhosamente sabe-se lá como com as pretensões country do capitão Tweedy para a confecção de Sky Blue Sky (Nonesuch, 2007), Cline responde pela maior carga de improvisação entre os seis wilcos, com solos memoráveis e o holofote central na sempre aguardada “Impossible Germany”.

    ... e do outro, a de Nels Cline. (Foto: Elayne Diniz)

    … e do outro, o inspiradíssimo Nels Cline. (Foto: Elayne Diniz)

    Um registro bastante fiel de muitas das faixas apresentadas pelo Wilco no Popload Festival pode ser encontrado no bootleg Live at the Pitchfork Festival, quando a trupe de Chicago brilhou como headliner no primeiro dos três dias de shows do evento organizado por uma das publicações mais cultuadas do cenário musical com 21 músicas, contando com o disco Star Wars (dBpm, 2015), lançado online gratuitamente apenas dois dias antes, executado na íntegra. Para quem não pôde prestigiar esta última passagem do conjunto pelo país com única apresentação em São Paulo, é uma ótima pedida. As grandes virtudes musicais e o legado de ser uma ponte entre o rock alternativo pós-Cobain e toda uma herança de country music estadunidense estão
    todos lá.

    O carisma certeiro de Tweedy ao violão fez a graça dos fãs em São Paulo. (Foto: Elayne Diniz)

    O carisma certeiro de Tweedy ao violão fez a graça dos fãs em São Paulo. (Foto: Elayne Diniz)

    Depois dos mais incessantes pedidos de bis, mesmo com vários corações se sentindo já devidamente atendidos após “Jesus, Etc.” e “I’m the Man Who Loves You”, a banda retorna rapidamente ao palco para selar magistralmente a sua participação no Popload Festival com duas de A Ghost Is Born (Nonesuch, 2004), também muito conhecido como “o disco do ovo”: “Spiders (Kidsmoke)” e “The Late Greats”. Com a reverência dos seis integrantes ao seu público, não houve quem reclamasse, ou tivesse o que reclamar. O Wilco mostrou como se monta uma reputação, ano a ano, disco a disco, apresentação após apresentação, sempre acreditando no rock da mais alta qualidade e fazendo de tudo para manter as suas preferências criativas e profissionais, com um extenso e conhecido histórico de brigas com gravadoras.

    O “problema”, na falta de termo melhor, é a perfeição do show que o Wilco entrega. Estamos falando de um nível de execução artística em que até as microfonias e dissonâncias propositais são impecáveis. Não de uma forma matemática, intrinsicamente calculada, mas do melhor jeito, à moda de quem sabe exatamente onde está pisando e reconhece a canção como um organismo vivo, à mercê dos amores e dos humores. E a banda parecia bem à vontade na sua estreia na Terra da Garoa.

    The Libertines - Faixa

    Ao contrário das expectativas de quem tivesse uma visão otimista a respeito da evolução do rock por estas bandas, havia um público em grande número cujo maior interesse na ocasião era o The Libertines. Marcela, 21 anos, era uma dessas fãs, que chegou na metade do show do Wilco e aguardava ansiosa no Heineken Space pela entrada da dupla Carl Barât e Pete Doherty com a cozinha do baixista John Hassall e as baquetas de sotaque estadunidense de Gary Powell. “Conhecia apenas algumas músicas do Wilco, mas gostei muito do que vi, eles são muito bons”, admitiu Marcela. Quem queria ver o lado mais pesado da banda também era Letícia, 21 anos, em sintonia com a programação do Popload: “Estou ouvindo muito a Julia Holter, uma das minhas cantoras preferidas no momento, e pretendo ver o Air no Popload Gig em novembro”.

    Marcela, fã de The Libertines, no Heineken Space. (Foto: Elayne Diniz)

    Marcela, 21, no Heineken Space. (Foto: Elayne Diniz)

     

    Originalmente, já se tratava de tarefa da mais alta complexidade tentar entender como algo tão insosso e convencional ganhou um numeroso séquito para além do Tâmisa. Como explicar os milhares de fãs que compareceram ao Urban Stage e continuam idolatrando os ingleses em pleno 2016 é quase um exercício de matemática pura.

    Mas nada disso importa quando milhares vibram ao som do rock standard dos caras. Abriram com “The Delaney” e mandaram uma trinca de faixas do disco novo lançado no final do terceiro trimestre do ano passado, Anthems for the Doomed Youth (Virgin, 2015): “Barbarians”, que abre o álbum, “Heart of the Matter”, e “Fame and Fortune”.

    Letícia veio ver o Libertines, mas quem não sai do toca-discos é Julia Holter. (Foto: Elayne Diniz)

    Letícia veio ver o Libertines, mas quem não sai do toca-discos é Julia Holter. (Foto: Elayne Diniz)

     

     

    Pete Doherty é figura que expõe algo de muito errado no cenário britânico há tanto tempo e faz compreender como funciona o mainstream roqueiro no Reino Unido. Tudo parece convergir à força que a imprensa marrom ainda desempenha na ilha e remonta aos Sex Pistols, que não precisou fazer muito em termos musicais para ganhar um destaque desproporcional como ícone da juventude inglesa à época. Johnny Rotten, os irmãos Gallagher e Doherty fazem todos parte de uma mesma tradição que denuncia uma nação economicamente desenvolvida que coloca a ação espetacular da vida desregrada da celebridade em primeiríssimo plano.

    The Libertines

    Carl Barât, uma das duas vozes do The Libertines. (Foto: Elayne Diniz)

    Carl Barât, uma das duas vozes do The Libertines. (Foto: Elayne Diniz)

    Com um setlist de 23 músicas, o grupo incluiu mais algumas do disco que promove nesta turnê, “Gunga Din”, “You’re My Waterloo”, além da faixa que dá nome ao álbum, todas do lado A. O público que ficou para conferir o quarteto britânico teve exatamente o que esperava e não viu as suas expectativas irem por água abaixo com o constante receio de Doherty simplesmente não aparecer para fazer o seu trabalho, um comportamento que funciona mais como estratégia de marketing do que dor de cabeça para contratantes.

    A despedida do grupo e encerramento do festival foi tão clichê quanto tudo que o The Libertines representa, com “Don’t Look Back Into the Sun”, hit máximo de um empreendimento roqueiro que parece passar mais tempo na frente do espelho alinhando a bandana e ajeitando a boina do que efetivamente tentando construir uma obra ou expressar a voz de uma determinada realidade, seja lá ela qual for, dos camarins ou das ruas.

    John Hassall comanda os graves do The Libertines. (Foto: Elayne Diniz)

    John Hassall comanda os graves do grupo inglês. (Foto: Elayne Diniz)

    Quem se informasse pelo material de divulgação do festival sem ter ido às três edições anteriores poderia incorrer em engano de interpretação. O texto afirma: “Desde 2013, o Popload Festival se destaca por seu formato inovador, intimista, aconchegante e onde tudo funciona, proporcionando a vivência de um grande festival, mas com uma estrutura mais intimista que aproxima o público das bandas”. A iniciativa de trazer um ou outro artista do palco principal para uma pequena tenda com capacidade para aproximadamente 100 pessoas é louvável. É interessante colocar a Ava Rocha para uma sessão de autógrafos no Heineken Space ou o Gary Powell, baterista do The Libertines, para discotecar no mesmo espaço, mas a experiência como um todo está longe de ser “intimista”, considerando a dificuldade natural em fazer com que quase 8.000 pessoas se sintam na sala de estar durante as apresentações no palco principal. Além disso, a julgar pelos três jovens que a reportagem observou serem instruídos por um segurança para não sentarem no chão e se levantarem, tampouco tão confortável assim.A organização contou com food trucks e grande facilidade na compra de bebidas. (Foto: Elayne Diniz)A organização contou com food trucks e grande facilidade na compra de bebidas. (Foto: Elayne Diniz)

    Depois de 13 horas de música, é possível afirmar que entre os pontos positivos da organização estão a pontualidade britânica de todos os espetáculos e algumas soluções que de tão simples, chegam a provocar ainda mais a ira do público frequentador de outras paragens, como as garrafas de água distribuídas gratuitamente na saída do local e o bilhete do metrô inserido no folder em formatinho. O esquema de caixas ambulantes com cardápios com parte gráfica cuidadosa que facilita a vida de todos também é outra ideia claramente inspirada na vasta experiência da equipe do Popload em festivas estrangeiros. Ninguém achará um frequentador de show que reclame por uma boa ideia ser copiada, o espírito é esse.

    Até quem ficou sem um real no bolso conseguiu voltar para casa de transporte coletivo no Popload Festival.

    Festival de médio porte, ótimas sacadas e uma sensação de “por que ninguém fez isto antes por aqui?”.

    Pequenas sacadas que têm custo irrisório para ações encomendadas por grandes marcas internacionais das passarelas e do setor de bebidas e, ainda assim, surpreendem pelo simples motivo que o público está bastante acostumado a ser tratado como gado em show de rock, seja da vertente que for. Seria ótimo se pelo menos esses dois simples gestos fossem copiados daqui para frente, já seria uma evolução considerável. Noves fora e a despeito dos revezes bastante pontuais citados, a organização está muito acima da imensa maioria dos shows e festivais que reúnam mais que um punhado de fãs em São Paulo.

    Cerveja e celular

    Ao fim e ao cabo, quem mandou o maior recado foi Ava Rocha. Mesmo depois de rodar com o show de Ava Patrya Yndia Iracema, a baiana continua com a mesmíssima pegada, apresentação após apresentação. Dona de um cênico que sabe exatamente o seu lugar, sem tirar nem por, ensaiado à exaustão sem parecer mecânico, Rocha figura no feliz rol de intérpretes viscerais que estão fazendo jus a tempos e manchetes que exigem que o artista trabalhe como nunca, no melhor dos sentidos – e nisso ninguém foi mais feliz que o Macaco Bong ao dar nome ao seu primeiro rebento de Artista Igual Pedreiro (Monstro Discos, 2008). É uma imensa satisfação que se constata que seria possível fazer um dia inteiro só de shows com mulheres no centro do espetáculo e muito em comum. Ava Rocha, Tulipa Ruiz, Karol Conka, Karina Buhr, Duda Brack, Juçara Marçal. Lamentável que as marcas de cosméticos multinacionais prefiram continuar gastando seus milhões para levar Paula Toller e meia dúzia de seus amigos à Praça da Paz todos os anos em vez de investir em um projeto desse tipo.

    Valeu a pena esperar: fãs do Wilco se emocionam na primeira fila. (Foto: Elayne Diniz)

    Valeu a pena esperar: fãs do Wilco se emocionam na primeira fila. (Foto: Elayne Diniz)

    Em uma entrevista reproduzida no telão após o show do Wilco, era possível ver um Jeff Tweedy bastante descontraído e sem papas na língua ao reconhecer o esforço dos fãs brasileiros para que a banda trouxesse o seu repertório o quanto antes e ouvisse os gritos histéricos da primeira fila entre uma música e outra. É esse fã e todos os apreciadores saíram de alma absolutamente lavada do Popload Festival com o rock sofisticado do Wilco e da poesia de Tweedy. Muitos ficaram para conferir o The Libertines, mas houve quem já sabia que ficaria plenamente satisfeito com e voltasse para casa findo o espetáculo do pessoal de Chicago. Em qualquer uma das hipóteses, fica a boa lembrança de um dia de shows eclético e bem organizado e a espera para que uma nova edição não demore a vir e faça parte do calendário roqueiro da cidade.

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  • A melancolia excruciantemente bela de “Your Wilderness”

    The Pineapple Thief finalmente acerta em cheio e sai da bolha que o prendia

    Postado dia 20 de setembro de 2016 às 10h em Cultura e Lazer

     

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    Foto: Divulgação

    Quando o single “No Man’s Land” foi lançado no YouTube em 24 de maio, já estava claro que Your Wilderness (Kscope, 2016) retomaria a carga emocional da maioria dos registros do conjunto. Depois foi a vez de vir a público “In Exile”, muito mais direta e aquela que definitivamente ficará mais tempo soando na cabeça dos ouvintes logo após a audição. A canção como um todo é muito bem construída, levada por cordas constantemente lancinantes e coros e dotada de uma constância quase mântrica. O refrão é tão simples quanto belo, uma verdadeira declaração de independência: “don’t be afraid to miss me” (“não tenha medo de sentir a minha falta”). Não há qualquer outra faixa no disco que seja tão direta ao ponto quanto “In Exile”. A notória diferença é que nos discos anteriores, as faixas mais breves vinham na forma de um rock mais pesado e bastante baseado em riffs de guitarra, como “Nothing at Best” ou “Shoot First”. “In Exile” representa um salto de maturidade na medida em que atrela ótima composição tanto em termos líricos quanto musicais à forma da música pop. Os próprios vocais, sempre em uma série de densas camadas ao longo de toda a faixa, são gravados com inclinação para os tons mais agudos e quase que sussurrados. Por mais emotiva que seja uma seção, em Your Wilderness o canto nunca chega ao movimento dramático do refrão de “Sooner or Later” (de Variations on a Dream) ou “The World I Always Dreamed For” (de 10 Stories Down). Temos constatações tristes aos montes, um estado de consolo, sofreguidão por uma despedida que precisa ser esquecida. Your Wilderness abraça o ouvinte no escuro como o Pineapple Thief nunca fez.

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    Foto: Divulgação

    Difícil calcular o quanto Bruce Soord, o líder indiscutível do Pineapple Thief, foi inspirado pelo rock insular do penúltimo trabalho de David Gilmour, On an Island (Columbia, 2006), mas a questão é que Your Wilderness é todo permeado por um isolamento bastante característico. Mérito do batizado correto das oito faixas do álbum, é até mesmo possível dizer que chegar a tal conclusão não requer uma única audição: “In Exile”, “No Man’s Land”, “That Shore”, “Fend for Yourself”, “Where We Stood”. Felizmente, a sensação de notório recorte de uma realidade, de uma relação, de uma situação, de uma tragédia, não fica apenas no campo lexical dos títulos. Com uma progressão que só faz acentuar a certeza de que Your Wilderness precisa para realmente ser visto como uma obra fechada, Soord estabelece uma jornada reflexiva com a beleza melancólica, mas irresistível, de uma praia de Ingmar Bergman.

    A primeira novidade de Your Wilderness é sentida desde o primeiro segundo por qualquer fã de rock progressivo que não tenha vivido em Marte nos últimos quinze anos. Ainda que o ouvinte não esteja 100% certo sobre a identidade do convidado de honra mesmo após prestar atenção na levada e em cada virada de “In Exile”, sentir o timbre de cada peça do kit de bateria, qualquer dúvida se dissipa no ar assim que soa o primeiro solo de guitarra e surge absoluto Gavin Harrison, o monstro revelado pelo Porcupine Tree e que conquistou até mesmo Robert Fripp, que não hesitou em angariar o seu talento para mais uma volta triunfal do King Crimson com um trio de bateristas complementado por Bill Rieflin e o carismático Pat Mastelotto. Contratado para a ocasião, Gavin Harrison não deixa pedra sobre pedra em mais um trabalho de estúdio irrepreensível com direito ao acompanhamento em hi-hat tão utilizado no Porcupine Tree (“Start of Something Beautiful”, “Halo”) já em “In Exile” e os infalíveis pequenos pratos de efeito que pontuam uma infinidade de momentos, como ocorre muito claramente nos versos iniciais de “Take Your Shot” e na introdução de “The Final Thing On My Mind”. A dinâmica de bumbo duplo nas viradas, outra marca registrada de Harrison, também pode ser sentida e injeta uma bela pegada às faixas mais enérgicas de Your Wilderness.

     

    Foto: Divulgação

    Foto: Divulgação

    O “blue” progressivo de Your Wilderness é destaque do início ao fim, mas faltam pouco menos de sete minutos para o término do disco quando Soord arremata com a mais das perguntas: “how did we get to be this cold? / how did I let you get so far from me?” (“como ficamos tão frios assim? / como eu deixei que você ficasse tão longe de mim”). A próxima faixa, “Where We Stood”, apenas encerra esse amargo diagnóstico como o réquiem que se esperava de um trabalho tão consistente como este.

    Quando a caixa de bateria ataca em “Take Your Shot”, somos apresentados a um dos raros momentos de euforia do disco, mas este também não é tão duradouro. Com um canto levado pelo violão de Soord, um recurso do qual o músico não abre mão em nenhum dos exemplares da discografia, “Take Your Shot” traz uma carga roqueira e um alívio congruente com a tônica do disco na forma de provocação: “you held me down and took the fight / to the heart of my life / you set me up all of this time” (“você me segurou e entrou na briga / pelo amor da minha vida / você me enganou todo este tempo”).

    Com a descarga da raiva em “Take Your Shot” e o espírito mais leve, chega aquela que é a mais clara representação do consolo com a situação dada, a própria expressão da tentativa de algum conforto no isolamento, no diálogo com a maré que traz consigo tudo que importa e foi ali deixado, no som do rufar das vassouras de Harrison na caixa de “Fend for Yourself”.

    Fazem aparições também John Eliwell do Supertramp com um belo solo de clarinete em “Fend for Yourself”, uma faixa com um ar de fim de tarde cinzento em praia deserta irresistível, além de Darran Charles do Godsticks com algumas contribuições pontuais na guitarra e momento abrilhantado em primeiro plano no solo de “Take Your Shot”, e também Geoffrey Richardson do Caravan como responsável pelos arranjos do quarteto de cordas.

    Com oito faixas que totalizam apenas 41 minutos de duração, Your Wilderness é o trabalho mais curto de toda a discografia do The Pineapple Thief, que agora conta com onze títulos. O trabalho anterior, Magnolia (Kscope, 2014), representou um nítido esforço para tentar se aproximar mais do público estadunidense e cair no gosto de um nicho além daquele ávido por qualquer coisa que flerte ligeiramente com o rock progressivo, mas resultou em um disco bastante insosso de modo geral, já esquecido pouco tempo depois. Mas Your Wilderness veio para retificar isso e trazer o melhor dos dois mundos: um som tão sofisticado e belo quanto capaz de ser difundido em públicos de vários perfis diferentes.

     

    Foto: Rob Monk

    Foto: Rob Monk

    Não é só a banda que esteve todo este tempo relegada a um segundo plano do cenário do rock progressivo mundial, mas Bruce Soord é muito provavelmente um dos guitarristas mais subestimados da sua geração. Coloque a agulha em qualquer sulco de qualquer exemplar da discografia do The Pineapple Thief e não demorará muito até que um exemplo de excelente bom gosto guitarrístico surja. Podem ser riffs roqueiros de grande pegada como em “Nothing a Best”, “Show a Little Love” (de Someone Here Is Missing, 2010) “Judge the Girl” (Abducting the Unicorn, 1999) “Catch the Jumping Fool” (10 Stories Down, 2005) ou “Burning Pieces” (All The Wars, 2012), solos memoráveis como em “Kid Chameleon” ou “PVS” (137, 2002), ou partes essencialmente acústicas tão singelas quanto em “God Bless The Child” e Snowdrops” (Little Man, 2006), a atenção de Soord para o trabalho nas seis cordas é admirável. As notas abafadas e repletas de harmônicos acidentais com uma mão direita leve e solta, uma das marcas registradas de Soord, podem ser conferidas já na faixa de abertura de Your Wilderness, principalmente na passagem que marca a entrada dos instrumentos de forma mais agressiva do “overture” “In Exile” (aos 1’34”), e em diversos outros momentos do álbum. Não há muito espaço para improvisos, é tudo muitíssimo bem controlado em um trabalho de produção e engenharia de som de primeira linha a cargo também de Soord. As guitarras repletas de sujeira da faixa-título de Tightly Unwound parecem algo vindo de uma banda absolutamente diferente, uma anomalia na paisagem sonora de Your Wilderness.

    As comparações com a trajetória de Steven Wilson são inevitáveis. Assim como fez Wilson no fim da década de 1980, Soord lançou seu trabalho sob a alcunha The Pineapple Thief em 1994, depois de sair do Vulgar Unicorn, um projeto bastante de tons bastante groovados e espaciais, o que também explica o título do primeiro disco. Seria Abducting the Unicorn a versão britânica de Matança do Porco (EMI, 1973) do nosso Som Imaginário? Claro, a irônica semelhança entre os nomes (Porcupine Tree, Pineapple Thief; o artigo “The” dependerá do disco que tiver em mãos) e ambas as bandas serem referenciadas pela sigla “PT” ou “TPT” não ajuda, tampouco o estúdio de Wilson se chamar No Man’s Land, nesse sentido.

    Nos primeiros registros do The Pineapple Thief, não eram poucas as vezes em que a voz anasalada de Bruce Soord fazia lembrar muito Billy Corgan, as mãos e o cérebro do Smashing Pumpkins. No entanto, foi apenas em Little Man (Cyclops, 2005) que Soord realmente encontrou o registro ideal e o seu próprio caminho vocal, o que foi especialmente importante nesse álbum em particular. Sob qualquer prisma, Little Man é o trabalho mais sofrido já gravado por Soord. Sofrido, não sofrível. Mesmo que você esqueça a arte do disco (seja na versão original ou no “remaster” de 2010 da Kscope) e fingir não saber de Felix, o bebê prematuro que o líder do The Pineapple Thief perdeu com apenas três meses de vida, Little Man é de um sofrimento ímpar. Como ouvir o piano simplório e repetitivo de “Wilting Violet” e fingir que “I wish I thought a little harder / To make the mess I’m in / Learned to crawl a little further / When there was someone within”) é apenas mais uma letra sem sentido para ocupar o ambiente sonoro de uma banda de rock? E Soord continua pelo resto da canção se lamentando: “I wish I gave a better answer” (“Eu gostaria de ter dado uma resposta melhor”). O encerramento, “We Love You”, não é para os fracos. É, na verdade, um teste de resistência, um final com o qual é difícil não se comover e se sentir pelo menos por aquele momento junto de pais abalados pela inversão da ordem natural das coisas. O disco precisa acabar em algum momento, mas com Little Man não restam dúvidas de que Soord poderia gritar aos quatro cantos que “we need your soul / to feed our world” (“Nós precisamos da sua alma / para alimentar o nosso mundo”) até o fim dos tempos.

    Tightly Unwound (o tipo de título paradoxal que faz pensar se o músico não seria fã do último filme de Stanley Kubrick, Eyes Wide Shut), a estreia da banda na gravadora Kscope (que também conta com Porcupine Tree, Anathema, TesseracT, entre outros em seu catálogo) em 2008 veio junto de uma produção muito mais apurada e uma vontade de trabalhar de bons riffs em músicas mais curtas e deixar as partes mais sentimentais para os épicos “Different World” e “Too Much To Lose”, um fechamento bastante inspirado em “Comfortably Numb”. Uma pena que o mesmo não possa se dizer da parte gráfica do disco, remanescente de um recorte mal feito de alguma tela que Max Ernst esqueceu de jogar fora.

    Essa tendência prosseguiu com Someone Here Is Missing (Kscope, 2010), um dos melhores trabalhos de toda a trajetória do conjunto de sotaque britânico. O disco todo é inspiradíssimo e surpreende logo de cara com a excelente dobradinha “Nothing At Best”/”Wake Up The Dead”. As guitarras estavam tinindo e a cozinha arrumada como nunca, com destaque para o baterista Keith Harrison (mais uma tremenda coincidência, já que não há qualquer parentesco entre Keith e Gavin). Além do louvor por um bom disco, a banda atraía mais alguns novos holofotes com a capa assinada por Storm Thorgerson, célebre pela identidade visual de discos icônicos do rock progressivo de ontem e de hoje, como Atom Heart Mother, Dark Side of the Moon, Animals, The Division Bell, entre muitos outros do Pink Floyd, Houses of the Holy e Presence do Led Zeppelin, The Lamb Lies Down on Broadway e Trick of the Tail do Genesis, De-loused in the Comatorium e Frances The Mute do The Mars Volta. All The Wars (Kscope, 2012) manteve o alto patamar de produção e composição e conta com faixas-chave, como a faixa-título e “Build a World”, que também rendeu um EP homônimo mas a maré de boa sorte e bons esforços, retomada agora com Your Wilderness, fora interrompida abruptamente com o decepcionante Magnolia, quando Bruce Soord dispensou os colaboradores habituais e tomou as rédeas, mas não vingou.

    Your Wilderness consegue a façanha de configurar o trabalho mais denso e completo nos 15 anos de vida do Pineapple Thief com o menor “running time”. A constatação aritmética de que se trata do álbum mais curto da carreira da banda parece falaciosa quando soa a última nota de “Where We Stood”. Ou seja, o todo deste belíssimo registro é muito maior do que a mera soma das suas partes. Um convite bastante curioso para quem descartaria um disco como Abducting the Unicorn baseado exclusivamente em uma informação sintomática, os mais de 18 minutos da última faixa, “Parted Forever” (não, o tema da separação não é exatamente uma novidade na obra da banda). Este lançamento de 2016 faz com que o empreendimento de Soord conquiste mais ouvidos propensos a se sensibilizarem com um trabalho com a virtude inegável de carregar na tinta emotiva sem escorregar para o piegas nem se assemelhar a um teste de resistência musical. O mesmo não pode ser dito com tamanha veemência a respeito do cardápio anterior do conjunto e, afinal de contas, de nada adiantaria ter um chamariz como Gavin Harrison assinando as baquetas do registro se o saldo final não fosse de qualidade equivalente.

     

    Foto: Rob Monk

    Foto: Rob Monk

    A dedicação a um trabalho mais polido, de produção irretocável, e belas melodias estão rendendo frutos cada vez maiores a Bruce Soord e seus companheiros. Os primeiros comentários sobre Your Wilderness a pipocar na imprensa britânica não poderiam ser mais elogiosos. Antes, Soord já participara de uma roda de perguntas e respostas com os bastiões do progressivo moderno Steven Wilson do Porcupine Tree e Mikael Åkerfeldt do Opeth em matéria publicada na edição de agosto da Total Guitar. Como ocorre com o bom goleiro, que não precisa ser competente apenas, mas ter sorte também, a edição traz ninguém mais, ninguém menos que a divindade viva da guitarra Jeff Beck na capa, algo que por si só já deve levar a figura de Soord a um público mais amplo que talvez ignorasse a discografia do The Pineapple Thief até então.

    É curioso notar como um disco cujo lírico procura compreender o desconhecido do outro para adentrar na sua própria floresta repleta de sentimentos selvagens seja responsável por aquela que é a melhor aposta do Pineapple Thief para se comunicar com toda uma geração de apreciadores que desconheciam a banda até o momento ou simplesmente nunca lhe tinha dado a devida atenção. De alguma forma, ao abrir o disco com “In Exile”, Soord parece elaborar uma interessante figura alegórica. Assim como Steven Wilson fez com “Dark Matter” ao comparar o conceito de matéria escura da física quântica ao artista independente, Soord canta sobre um casal que visivelmente não pode mais ser, mas também pode ser o caso de estar se despedindo de todo um cenário que não comporta mais as suas pretensões, altas e justificadas. Compreensivo, deixa que sintamos a sua falta e até que o odiemos simplesmente por ter evoluído como todo bom artista sabe fazer. “Don’t be afraid to miss me. Don’t be afraid to hate me.

    _______________________________________________________________

    Your Wilderness está à venda na loja virtual da gravadora Kscope, no iTunes e também está disponível nas plataformas de música por streaming Spotify e Deezer.

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  • Sobre redes, erros e o quanto ainda temos a percorrer         

    Quando a realidade é nebulosa, a ficção científica elucida

    Postado dia 1 de setembro de 2016 às 08h em Cultura e Lazer

    akphaville

    Anna Karina e Eddie Constantine em Alphaville (1965)

    [Fala de abertura da mesa “Estratégias de comunicação em redes sociais” do II ECAT – Encontro de Comunicação do Alto Tietê, realizado em 9 de abril de 2016 na Escola Estadual Dr. Washington Luís, em Mogi das Cruzes]

    Ainda que na função de representante da academia nesta mesa, resistirei à citação de estudiosos e teóricos (que é tão-somente o que nós professores fazemos, não é mesmo?) para trazer alguns questionamentos en passant e, por que não, algumas provocações também. Pero no mucho. Fui informado de que a ocasião se trata de um encontro que privilegia o botar a mão na massa, o labor como produto tanto do aprendizado formal quanto do conhecimento empírico, o que não poderia me agradar mais nesta manhã de sábado. Então, promessa: serei absolutamente pragmático nos próximos dez minutos, como constatarão não só pela abordagem, breve e simples, mas também pela profusão de exemplos oriundos de obras de ficção científica, esse gênero tão útil para analisar qualquer “realidade”, quando esta começa a se tornar cada vez mais complexa e imprevisível.

    Quando penso em estratégias de comunicação em ambientes virtuais, vejo que temos duas limitações às quais devemos nos ater antes de qualquer outra coisa. Primeiramente, de modo geral, qualquer profissional de comunicação que preste seus serviços a um cliente, seja ele público ou privado, se vê cercado pelas fronteiras da intenção de quem encomendou tais serviços. O que equivale a dizer que o candidato ou governante que não trabalha no sentido de melhorar as condições de vida dos cidadãos, mas se utiliza das redes sociais como mero exercício de culto da sua personalidade, apenas reproduz o carregar e beijar a fronte do bebê no colo na tela dos telefones celulares e outros dispositivos.

    Em segundo lugar, há a questão das ferramentas utilizadas no ofício. Ora, como músicos que acompanham Piazzolla, podemos usar o piano ou o contrabaixo como instrumentos de percussão, isto é, novas formas de aproveitar o que temos em mãos. E no caso do músico argentino, definitivamente o faríamos, já que é o chefe que manda. Entretanto, as ferramentas não são desenvolvidas por comunicólogos, mas por pessoal técnico que presta sua familiaridade com o código binário para facilitar a nossa vida.

    Lições do mestre

    alphaville (1)No que tange a recepção, poderíamos nos estender por dias trancados nesta sala para apenas introduzir a infinidade de problemáticas amplamente constatadas nesse âmbito na atualidade, apenas em nossa região. Prefiro, nesta ocasião, trazer a memória de um mestre. Muitas das representações usadas para criticar a sociedade em Alphaville, de Jean-Luc Godard, sempre ele, o médico geral que nos dá as mesmas recomendações todos os anos (saia do sedentarismo, coma melhor, não se estresse à toa e seja feliz) não resistiram ao teste do tempo e pouco depois de 1965 já aparentavam datadas em sua forma.

    Exceto uma representação. Os condenados, por não se adequarem à vida em Alphaville, essa cidade que não tolera o incomum e em que todos são iguais, são enfileirados na prancha de uma piscina, lhes é concedida a extraordinária liberdade de proferirem algumas últimas palavras, e são metralhados por um robô, caindo na piscina.

    Ato contínuo, mulheres em trajes de banho, muito semelhantes a figurantes de um típico musical da era de ouro, mergulham na piscina para apunhalarem os corpos recém-alvejados. A mensagem de Godard não poderia ser mais clara: tudo pode virar entretenimento, e graças a ele e muitíssimos, porém insuficientes para reverter o processo em questão, outros artistas e estudiosos, sabemos disso há muito tempo.

    Trinta anos depois, a mesma ideia seria um dos fios condutores de uma grande obra sobre os nossos tempos. Em Graça Infinita, David Foster Wallace, ele próprio um cinéfilo assumidíssimo, concebe uma trama tão labiríntica quanto satírica em que um cineasta excêntrico e decadente realiza o seu último filme, intitulado “Entretenimento”, e que seria tão poderoso, mas tão poderoso, que qualquer espectador é levado a óbito ao seu término.

    Afinal, o que queremos com as redes sociais? Queremos ser a máquina fuziladora, o condenado, a nadadora que se assegura da morte, o público, incauto ou não, desse espetáculo?  Ou queremos um conteúdo que, seja qual for seu fim, desperte pelo menos a reflexão de todo e qualquer cidadão? Evidente, enfrentamos barreiras intransponíveis no presente e no futuro próximo, principalmente no continente sul-americano, que, me parece, sempre teve problemas mais urgentes para retificar, como a fome e a miséria latentes.

     

    Comunicação para a mudança

    Não obstante, a comunicação também deve tratar de promover a mudança, aliando-se a agentes interessados nesse objetivo. Infelizmente, parece que vamos perdendo ótimos colaboradores de gerações passadas que tanto têm a contribuir, mas se frustram quando constatam que não somos muitos os jovens que enxergamos na comunicação como catalisador de benfeitorias reais.

    Acredito que, fosse diferente, Philip Roth, o laureado autor de Newark, quiçá o último escritor de ofício em língua inglesa, sentiria, no auge de seus mais de oitenta anos, o mais irresistível afã de desenvolver algo que explicitasse o admirável mundo nem tão novo assim da comunidade virtual. Roth, pelo contrário, após a novidade da sua aposentadoria chegar aos ouvidos da imprensa internacional, foi cínico a ponto de dizer que estava, do contrário, produzindo um texto realizado com Amelia, a filha de uma de suas ex-namoradas, por e-mail. Amelia tinha oito anos de idade quando do anúncio, em 2013[1].

    Que tipos de redes sociais virtuais queremos? Será que apenas porque sou publicitário quero uma rede confortável em sua própria bolha e uma mera vitrine de produtos mais semelhante a um centro de compras do que um local apropriado para a disseminação do conhecimento? Apenas porque sou um livre pensador quero que reine a liberdade total de expressão, inclusive com eventual prejuízo da honra de outrem pela minha fala? Falando nisso, qual o limite e a relação que devem ser estabelecidos entre o texto do emissor e a compreensão do receptor? Para o publicitário, continua valendo a regra de que, se o seu público o considerou ofensivo, de modo geral, isso não é benéfico para a sua marca/produto/cliente. No que tange o repórter, idem.

    Não é o foco do nosso encontro, mas não resisto à provocação: e quanto ao humor? A Cauda Longa não deveria também nos munir do poder do cinismo e da ironia ao nosso bel prazer? Temos algum compromisso dessa prática sem o auxílio fácil de “érre-ésses” (“rs”), “rá-rá-rás” (“hahaha”) ou “cá-cá-cás” (“kkk”). Passo por esta reflexão para ratificar que, pelo menos nesse âmbito, o comportamento deveria ser o mesmo para aqueles que exercem algum papel na comunicação de um meio ou cliente. Ainda assim, os exemplos malsucedidos não cessam, seja pela miopia quanto ao que há além das quatro paredes de uma agência, seja pelo mais puro desleixo com o ofício.

    Não posso deixar de me surpreender quando, na atual conjetura, uma cervejaria agride uma parcela considerável de seu público com uma mensagem de gosto discutível no feriado de carnaval. Ou quando, no intuito de transmitir segurança aos usuários de metrô do sexo feminino, o cartaz estampa brutamontes enfileirados e com uma expressão nada amigável como os mais ícones mais casca-grossa da luta livre.

     

    Trem nazista em Nova York

    Por coincidência, produzo atualmente um artigo acadêmico sobre uma série produzida pela Amazon que é uma adaptação de O Homem do Castelo Alto, do autor de ficção científica Philip K. Dick[2]. Na obra, a Segunda Guerra é vencida pelos nazistas, que dividem o território dos Estados Unidos com o império japonês. Pois bem, os responsáveis pela promoção do produto televisivo acharam seria uma boa ideia transformar um trem inteiro da linha metroviária de Nova York, a maior colônia de judeus do Ocidente, para servir de cenografia publicitária da série, com assentos cobertos com imagens de inspiração nazista, inclusive o emblema da águia, entre outros símbolos do Reich e do Japão imperial da produção pelo espaço físico dos vagões.

    As reclamações de usuários da linha S do metrô de Nova Iorque não demoraram a se manifestar e, ainda mais surpreendente, a campanha foi retirada pela companhia que opera o metrô sob ordem do prefeito da cidade e do governador do estado, e não porque os responsáveis (a Amazon ou qualquer agência de publicidade responsável pelo feito de mau gosto) fizeram algo a respeito, mesmo a par da reação do público[3][4].

    Trago esses exemplos malsucedidos não porque seja um pessimista na certeza de que os nossos convidados terão um bom senso mais apurado do que o meu e exporão projetos dos quais têm orgulho em falar.

    Por outro lado, voltando às dificuldades impostas em matéria de instrução e repertório, me parece emblemático o recente caso em que uma parcela do público tenha reclamado de uma campanha (ainda sendo veiculada, inclusive) que fazia um trocadilho com o nome da instituição bancária por meio da semelhança fonética entre palavras com final com a letra “u” e “l”.

    Para encerrar, e sempre lembrando em ater-me ao conceito aristotélico que nos recorda de não termos a ridícula pretensão de alcançar qualquer plenitude intelectual e, ao mesmo tempo, ciente do caráter pragmático do nosso encontro de hoje, gostaria, após a série de colocações que, ao fim e ao cabo, espero que acrescentem à nossa mesa, ainda que pouco ortodoxas, trazer à baila algo de natureza mais jovial, no perigo de ser alcunhado de fanfarrão pelos colegas aqui presentes.

    No divertido Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams escolhe como real protagonista de sua estória uma paródia da Enciclopédia Galáctica de Isaac Asimov, o próprio guia do título da série de cinco livros. Como muitos de vocês devem saber, qualquer um que tenha lido pelo menos um dos livros da série encontra fácil analogia entre a Enciclopédia Galáctica, o Guia do Mochileiro das Galáxias e a Wikipedia. Bem, a questão é que, em pleno 2016, a Wikipedia ainda não se sentiu compelida a estampar na sua página inicial não o aviso da capa do guia fictício de Douglas Adams, “não entre em pânico”, mas uma informação tão verdadeira quanto crucial para descrever em que estágio da compreensão da interação entre redes cibernéticas nos encontramos.

    Quando vem a conhecimento do terráqueo Arthur Dent que o projeto do pesquisador alienígena Ford Prefect envolvia agregar mais conteúdo ao verbete “Terra” do Guia do Mochileiro das Galáxias, Dent tem a sua curiosidade atiçada e pergunta qual era a descrição atual do planeta em que vivemos. O pesquisador responde que a entrada “Terra” no Guia, até aquele momento, apresentava apenas o texto “Inofensiva”. Prefect explica que, com seus muitos anos de pesquisa de campo, já contribuíra para que os outros planetas tivessem uma ideia mais acurada sobre a Terra. Com sobriedade, contou que agora o verbete lia “Praticamente inofensiva”.

     

    REFERÊNCIAS

    [1] PHILIP Roth: “I don’t wish to be a slave any longer to the stringent exigencies of literature”. Le Monde. [S.l.]: Le Monde, 2013. Disponível em: <http://www.lemonde.fr/livres/article/2013/02/14/philip-roth-i-don-t-wish-to-be-a-slave-any-longer-to-the-stringent-exigencies-of-literature_1831662_3260.html>. Acesso em 8 abr. 2016.

    [2] Tal artigo foi apresentado no Intercom Sudeste, ocorrido após a ocasião do II ECAT 2016, e pode ser conferido aqui.

    [3] ‘MAN IN THE high castle’ subway ads, featuring Nazi symbols, removed from trains. CBS New York.  Nova Iorque: CBS, 2015. Disponível em: <http://newyork.cbslocal.com/2015/11/24/man-in-the-high-castle-subway-ads/>. Acesso em 8 abr 2016.

    [4] NAZI-INSPIRED inspired ads for the Man in the high castle pulled from New York subway. The Guardian. [S.l.]: Guardian, 2015. Disponível em: <http://www.theguardian.com/us-news/2015/nov/25/nazi-inspired-ads-for-the-man-in-the-high-castle-pulled-from-new-york-subway>. Acesso em 8 abr 2016.

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  • Tentáculos à mesa: Cthulhu Realms

    Versão digital do game da White Wizard faz sorrir. É uma ótima pedida principalmente para aqueles que ainda não foram iniciados no mundo dos card games

    Postado dia 16 de agosto de 2016 às 08h em Cultura e Lazer

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    Foto: Reprodução/Internet

    Há card games para todos os gostos, seja em versão analógica ou digital. As temáticas são as mais diversas. Vão dos tradicionais universos de capa e espada baseados diretamente nos RPGs (role-playing games), com Magic: The Gathering, o mais popular e longevo desde o seu advento nos idos de 1993.

    E incluem a introdução do mundo de Warcraft, o pote de ouro dos MMOs, no gênero com Hearthstone:

    Foto: Divulgação

    Foto: Divulgação

    Heroes of Warcraft (Blizzard, 2014), passando pelos atualmente onipresentes bichinhos orientais com Pokémon TCG Online (The Pokémon Company, 2011). E também pela ficção científica de X-COM: The Board Game (Fantasy Flight Games, 2015), bastante calcado também em jogos de tabuleiro. Isso para não falar nos guerreiros tridimensionais de Combat Monster (Rubicon, 2013) e seu grande número de expansões. Há espaço também para projetos ainda mais peculiares, como o familiar, colorido e descomplicado Aquarius (Looney Labs, 2004), ou coisas bem fora da curva, como Falling (Cheapass Games, 1998).

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    É inevitável que os jogos de cartas que alcançam grande popularidade nas mesas da sala de estar sejam transpostos às plataformas digitais. Com X-COM: The Board Game ocorreu o contrário, por exemplo, mas se trata de exceção (daí o subtítulo explicativo). Na maioria das vezes, a disposição das cartas na mesa é traduzida diretamente à tela do computador, celular ou tablet e a questão crucial é ser o mais fiel possível à dinâmica do jogo original. Entre as vantagens naturais do digital estão o modo online com desconhecidos e a opção de jogadas aceleradas por parte da inteligência artificial para os usuários mais experientes.

    A primeira incursão da White Wizard Games no gênero se deu com Star Realms, em março deste ano, também um jogo originalmente físico, mas é com Cthulhu Realms que realmente a desenvolvedora põe a imagem também para divertir os olhos dos jogadores.

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    Para quem nunca esteve em contato com o jogo de cartas original da White Wizard, se há algo que chama a atenção em Cthulhu Realms no primeiro instante é o nível do trabalho de ilustração presente nas cartas. As representações das figuras imaginadas por H. P. Lovecraft são deliciosas e transbordam um senso de humor irrepreensível em uma interpretação da mitologia do escritor estadunidense absolutamente fora do comum. As figuras humanas são hilárias, quase sempre em estado de loucura, com olhos esbugalhados e até mesmo sorrindo em delírio. Já os monstros e seres grotescos são representados em tons de verde, cinza e roxo com uma parcimônia exemplar. A competência no uso das cores no baralho pode ser conferida também na sinalização que efetivamente serve ao jogador, com uma paleta mais clara e divertida para indicar nome da carta, valores de compra e poderes.

    Além do visual com excelente senso de humor, o léxico do jogo também é modificado. Contrariando a esmagadora maioria dos jogos da mesma natureza, o handicap de cada jogador não é algum aspecto físico ou genérico, como “saúde” ou “nível sanguíneo”, mas “sanidade mental”, devidamente acompanhado de um ícone representando cabeça e cérebro.

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    Na versão do jogo para a plataforma Steam avaliada pela reportagem foi possível notar a excelente fluidez com que as jogadas são demonstradas na tela. É natural que o player de primeira viagem ainda não compreenda a dinâmica da maioria das jogadas, mas as interações entre cartas e os tipos de combinações possíveis para confrontar o adversário só vêm com o tempo e a prática necessários neste e em qualquer card game. O primeiro passo é entender a morfologia, ou seja, a função direta e objetiva de todas as cartas.

    Depois, é hora de compreender como as cartas podem interagir entre si em prol do jogador, isto é, pensar de forma estratégica e assimilar as combinações em potencial no deck. É admirável que uma empresa formada por designers que foram campeões de Magic: The Gathering, além de profissionais que chegaram a trabalhar em projetos avalizados pela Wizards of the Coast, tenha concebido um jogo tão simplificado e com uma curva de aprendizado tão acelerada. Afinal de contas, o próprio universo expandido de Magic: The Gathering exige certa dedicação de qualquer um que se propuser a dominar o jogo.

    Uma das chaves para vencer em Cthulhu Realms é saber se desfazer das cartas mais fracas no início de cada partida. Com a função “abjure” é possível retirar uma carta da mesa ou da sua mão (em definitivo, salvo habilidade específica de uma ou outra carta mais avançada) para dar vez às cartas compradas de maior poder de fogo. A habilidade de retirar cartas do jogo também é extremamente útil para habilitar funções especiais de outras cartas e é aqui que combos destruidores podem ser realizados, com compra de cartas do baralho, descarte do adversário e acúmulo de dano.

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    Na versão de Cthulhu Realms para PC testada pela reportagem não houve qualquer tipo de falha ou glitch, mas se trata de um game de recursos gráficos, ainda que belos, simples até para o gênero dos card games. Mas é tudo muito redondo, tanto jogabilidade quanto visual. Após a sondagem de terreno de praxe para aprender as principais estratégias e vencer todas as fases da campanha nos modos fácil e difícil, aí está na hora de enfrentar outros usuários no multiplayer e realmente colocar as habilidades a toda prova. No período avaliado pela reportagem, de modo geral, havia entre 30 e 50 jogadores online nos mais diferentes horários.

    Cthulhu Realms é uma ótima pedida principalmente para aqueles que ainda não foram iniciados no mundo dos card games ou conhecem o gênero apenas de forma superficial. O jogo faz um ótimo trabalho ao ser fácil de jogar e aprender, ao mesmo tempo em que proporciona uma série de combos com um baralho relativamente pequeno. O modo multiplayer está disponível apenas na versão completa e paga do jogo, mas o usuário curioso pode fazer bom proveito da versão gratuita e conferir se a lógica de Cthulhu Realms o atrai e tem potencial para mais algumas dezenas de horas de entretenimento.

    Cthulhu Realms pode ser adquirido na Steam, na App Store do iTunes e na Google Store.
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  • Tyto Ecology: biologia simplificada

    Fundamentos da matéria em game em busca do equilíbrio

    Postado dia 29 de julho de 2016 às 08h em Cultura e Lazer

     

    tyto

    Foto: Divulgação

    O objetivo principal de Tyto Ecology (Immersed Games, 2016) fica bem claro com alguns poucos minutos de experiência no jogo: manter o equilíbrio. O próprio sistema de pontuação do jogo é uma evidência clara disso, com recompensas dadas de acordo com a diversidade, assinalada em porcentagem e nada mais do que isso. Uma pena que as opções à disposição para tornar essa jornada mais interessante não sejam em grande número, tampouco muito entusiasmantes.

    No jogo principal, após escolher entre floresta amazônica, deserto de Mojave e pradaria, chega a hora de

    Foto: Divulgação

    Foto: Divulgação

    habitar esse cenário com as alternativas de fauna, flora e decompositores. Com os primeiros resultados de saúde das espécies aquém da marca de 100%, se tenta averiguar o que não está dando tão certo para, naturalmente, corrigi-lo. O caminho mais óbvio está na leitura dedicada das informações a respeito da fauna e flora, mas é com pesar que se nota que o aprendizado no Biodex, a enciclopédia com as informações relevantes sobre as espécies no jogo, simplesmente não rende o quanto esperado. Para bom gamer, meio recado basta, e a lógica é desvendada em pouquíssimo tempo. O recado é que a diversidade premia e, claro, os atores interagem entre eles, mas a chave para ser bem-sucedido no jogo é diversificar as três categorias de seres que podem ser inseridos no seu “biome”. Ou seja, se é preciso aumentar o seu índice de diversidade da fauna, basta ver os números absolutos de espécimes que vivem no ecossistema no momento e diagnosticar quais precisam de uma maior representatividade. Na prática, começando um cenário do zero, basta inserir um espécime de cada tipo na lista para não falhar.

    Foto: Divulgação

    A experiência ainda poderia ser recompensadora se, mesmo que fosse um game de simulação fácil, houvesse algum tipo de prazer na observação do habitat se desenvolvendo, na interação entre os habitantes. Mas esse aspecto praticamente inexiste, mesmo após décadas, no tempo do jogo, de evolução do ambiente. Qualquer um que já teve um aquário sabe, por exemplo, que o grande barato do hobby é construir um ambiente, sentir e constatar que aquele pequeno ecossistema é equilibrado e que todos que o habitam estão confortáveis.

    O poder de atração que um belo aquário, não importa o seu volume, desperta no observador está absolutamente relacionado a esse aspecto de organização, tanto biológica quanto estética. Há muitos desenvolvedores que sabem disso. Desde Shadow of the Collosus (Team ICO, 2006) e Assassin’s Creed (Ubisoft, 2007) a praticamente qualquer jogo de exploração na atualidade, são inúmeros os exemplos de títulos que contam com esse aspecto como crucial. Basta pensar nos álbuns de fotografias virtuais feitos essencialmente com capturas de tela de Grand Theft Auto V (Rockstar, 2013), por exemplo.

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    A impressão inicial é que a aparente monotonia de Tyto Ecology ficará para trás com o avanço dos anos na cronologia do jogo, mas em vão. O game oferece cinco regiões do mapa (“slots”) que são desbloqueados gastando a moeda em pontos do jogo. Ocorre que a inclusão desses novos territórios não faz qualquer diferença significativa na partida, exceto pelo maior número de pontos (com o símbolo do raio) para inclusão de espécimes.

    A partida só vai ficando de proporções maiores em matéria de espaço ocupado, mas não em complexidade nem, por consequência, em divertimento. A maior dificuldade em todo o jogo talvez esteja mesmo relacionada a esse aspecto: encontrar espaços vagos para a inserção de novos animais, plantas ou cogumelos, uma característica notória dos primórdios das simulações de cidades nas quais os desafios financeiros eram superados rápida e facilmente. No caso do reino vegetal em Tyto Ecology, inclusive, essa tarefa de encaixar um conjunto de plantas em um espaço pode ser bastante entediante.

    Foto: Divulgação

    Alguns bugs notados ao longo das sessões de jogo para a realização desta análise foram corrigidos recentemente com os patches 1.7 e 1.9, como animais andando na água ou plantas terrestres que podiam ser colocadas na água, além de detritos, etc. O menu de notificações, recurso bastante importante em qualquer game de simulação e estratégia desta natureza, não leva à área ou objeto abordados no alerta, por exemplo.

    Pode parecer algo banal, mas se você recebe constantemente um alerta de que um determinado grupo de animais morreu é provável que vá querer averiguar o que está ocorrendo para sanar o problema. A inclusão do Owlbot, o robozinho que percorre o mapa e guia o jogador ao longo do cenário, não se justifica sob qualquer prisma e a maioria dos usuários deve simplesmente eliminá-lo nos primeiros instantes da primeira partida.

    Pode até ser intencional, mas não ser possível mexer na própria topografia do mapa é bastante frustrante. Isso fica ainda mais problemático no cenário desértico, uma das três opções disponíveis no pacote básico de Tyto Ecology. O biodome Himalaya é vendido separadamente na forma de DLC.

    O deserto se assemelha muito a uma página em branco e isso, inclusive, dificulta a visualização de indicações úteis e frequentes no jogo, como o alcance de uma determinada espécie. O paradoxo é que a as inclinações e declives não atendem a qualquer outra finalidade que atrapalhar a inclusão de plantas e animais.

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    A impressão é que Tyto Ecology pode até realizar uma série de cálculos complexos e prever interações entre os elementos do ambiente do jogador, mas não faz muita questão de mostrar isso. Não vemos predador devorando a presa, tampouco colônias de insetos realmente se espalhando pela região. O jogo não oferece muitos recursos de simulação: em um segundo o veado está vivo, no outro vemos apenas uma carcaça e um leopardo zanzando nas suas proximidades.

    A causa e o efeito podem ser óbvios, mas, até mesmo considerando a baixa qualidade gráfica, era de se esperar algo mais descritivo, já que os animais podem se movimentar pelos quadros. Nesse sentido, até algo tão rudimentar quanto Sim City (Maxis, 1989) consegue se sair melhor, com um sistema claro de ação e reação que pode ser compreendido por qualquer um e conta com o seu próprio charme.

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    A grande verdade é que, além da problemática da resposta visual às causas e consequências, Tyto Ecology precisaria de mais profundidade para ser realmente interessante. Mais dados, mais recursos, mais possibilidades. Um simulador voltado para os aspectos mais diretamente ligados à biologia poderia ser muito interessante com uma atenção mais concentrada nos detalhes, ainda que essa tarefa seja bastante difícil quando a missão é cuidar de todo um ecossistema.

    Viabilizado via a curadoria comunitária do Steam Greenlight, Tyto Ecology continua sendo aprimorado com novas atualizações por meio de bugs cadastrados pelos próprios usuários. Fica a esperança de que na trajetória de desenvolvimento do jogo, um caminho seja escolhido e seguido com veemência, se Tyto Ecology será um jogo que busca a recompensa do bom estrategista ou pretende atrair um observador paciente que aprecia a biologia e tem A Origem das Espécies como livro de cabeceira. Para um jogo cujo desafio é manter o equilíbrio, não deixa de ser irônico que ele ainda não seja nem uma coisa nem outra.


     

    Tyto Ecology pode ser adquirido no Steam.

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  • O Mundo Cão nosso de cada dia

    Novo longa de Marcos Jorge expõe dilemas com certa leveza e muito swing

    Postado dia 5 de julho de 2016 às 09h em Cultura e Lazer

     

    mundo cão

    Foto: Divulgação

    Nada como contar uma história. Por mais surpreendente que isso possa parecer, a ausência de uma história convincente ou um roteiro cheio de furos são problemas comuns a muitas produções da atualidade. Ainda mais escassos são os filmes baseados em bons roteiros originais (como já destacamos nesta nossa resenha de Divertida Mente, por exemplo).

    Marcos Jorge, diretor do precioso Estômago (2007), comédia de humor negro que merece todos os louros e lugar de destaque na cinematografia nacional recente, voltou à telona este ano com Mundo Cão. O longa ficou algumas semanas em cartaz em março em São Paulo e já está disponível na Netflix desde 17 de junho, no que representa um grande salto para o cinema brasileiro no serviço.

    Além do ineditismo da janela curtíssima entre a exibição nas salas de cinema e a estreia na plataforma de vídeo sob demanda, surpreende de forma extremamente positiva o tipo de produção brasileira que a Netflix está experimentando em seu catálogo, em um movimento que ganhou contornos bastante otimistas com a inclusão do brilhante e originalíssimo Branco Sai, Preto Fica (Adirley Queirós, 2015).

    Foto: Divulgação

    Foto: Divulgação

    Em Mundo Cão, Santana (Babu Santana, o inesquecível Bujiú de Estômago) é um agente do Departamento de Controle de Zoonoses cujo destino o coloca no caminho de Nenê (Lázaro Ramos), um agente de outro controle, o da milícia e suas máquinas de caça-níqueis naturalmente ilegais.

    Nenê é o mafioso temperamental e impulsivo de Scarface, a Vergonha de uma Nação (dir. Howard Hawks, Richard Rosson, 1932) e da versão atualizada de Brian De Palma, Scarface (1984), imortalizado por Al Pacino, que vê seu melhor companheiro no leito de morte e decide que alguém precisa pagar o preço. Esse alguém, é claro, é Santana, quem embalava o cachorro para encaminhar ao crematório, ou simplesmente estava no lugar errado e na hora errada.

    Os antagonismos são uma constante no longa-metragem. Santana é o típico cidadão comum paulistano: trabalhador honesto, mora na periferia com a esposa (Adriana Esteves) e um casal de filhos, o caçula João (Vini Carvalho) e a adolescente Isaura (Thainá Duarte), esta surda-muda, dado imprescindível para o ato final da trama. Nenê vive em casa com ampla piscina em região nobre da cidade e achaca pequenos comerciantes com requintes de crueldade dignos de imperador romano. Nenê perde Nero, seu fiel companheiro canino (“um soldado”, diz a personagem no funeral doméstico), e Santana, que “apenas” cumpria seu ofício no Centro de Zoonoses, vira automaticamente nêmese e raiz de todo o mal na visão de Nenê. “Eu só trabalho aqui” poderia muito bem estar na boca da Santana na cena. Se Santana torce para o Corinthians, Nenê é palmeirense, claro. Quando medidas extremas precisam ser tomadas, Santana conta com um velho revólver 38, enquanto Nenê esbanja uma fálica pistola prateada.

    São características que impõem contradições inevitáveis. O trabalho de Santana está enquadrado em um sistema de eficiência discutível e engendrado em políticas públicas igualmente polêmicas e que precisam, ao fim e ao cabo, atender a questões orçamentárias. O funcionário compreende um engenho que, ainda que seja de difícil contestação e reformulação por parte dos esforços de seu pessoal, garante o sustento da família desse empregado, que tem a sua própria cota de preocupações, como dar um bom estudo aos filhos e, principalmente, não ficar desempregado. Uma figura marginalizada na suposta igualdade de oportunidades, mas absolutamente enquadrada na lei, como a maior parte da população. Nenê não. Nenê está à margem dessa lei e não sabe fazer outra coisa que ser, ele mesmo, a própria lei. Com ordens e gritos desenfreados, Nenê não admite que os seus valores sejam contestados sob qualquer circunstância.

    Santana é razoável e tolerante, como explicita a sua relação com a esposa e a igreja evangélica, onde parece frequentar apenas para conciliar seu gosto pela bateria e um tempo saudável com a família. Trajetórias aparentemente opostas que se cruzam e transformam ambas as vidas para muito pior.

    Foto: Divulgação

    Foto: Divulgação

    Nenê é totalmente passional, em todos os sentidos: frui o momento de ser criminoso a sangue frio, com direito às caricatas gargalhadas dos vilões de filmes B, assim como se deixa levar pelo amor à Sociedade Esportiva Palmeiras. Em uma condução familiar para quem assistiu a Alpha Dog (dir. Nick Cassavetes, 2006), Nenê passa de torturador de donos de boteco a alguém que consegue simpatizar por um menino que tem um pai que não compartilha dos momentos de lazer nem da preferência pela mesma agremiação de futebol.

    O futebol, inclusive, é um elemento à parte no filme e atende a algumas finalidades. Em total consonância com a temática, os diálogos citam nominalmente “gambás”, “bambis” e “porcos” para fazer referência às torcidas do Corinthians, São Paulo e Palmeiras, respectivamente. As trajetórias em rota de colisão chegam ao cúmulo de formular uma homenagem ao já célebre plano-sequência de grande pirotecnia de O Segredo dos seus Olhos (dir. Juan José Campanella, 2009), mas em lógica inversa. No filme argentino, os personagens de Ricardo Darín e Guillermo Francella procuram um foragido como uma agulha no palheiro, no meio da torcida do River Plate, e, de fato, o acham. Em Mundo Cão, João, filho do protagonista, acredita que se perdeu de seu sequestrador quando este o havia alertado sobre as consequências brutais em tal hipótese. Para ratificar a característica de oposição das situações, a câmera de Marcos Jorge apresenta a situação para depois sair do estádio por via aérea, o exato oposto do que acontece na cena central do vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010 que também deu fruto a um remake para o mercado estadunidense, Olhos da Justiça (dir. Billy Ray, 2015).

    Foto: Divulgação

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    O roteiro de Mundo Cão recebeu o prêmio do Concurso de Desenvolvimento de Roteiros do Ministério da Cultura, o que deve ter sido de grande ajuda para viabilizar o filme, e não foi à toa. Um enredo redondo no qual todas as pontas se ligam, ainda que é muito possível que umas quantas explicitações tenham sido feitas para entregar algo que pudesse conquistar o interesse da Globo Filmes e da Paramount.

    Seria possível filmar algo extremamente sombrio e tenso com o mesmíssimo roteiro, mas a trilha, a dinâmica e as fusões entre cenas que parecem uma espécie de homenagem aos seriados policiais da década de 1970 simplesmente impedem que esse efeito seja alcançado. Talvez o que incomode em Mundo Cão é o mesmo que incomoda no também recente O Clã (dir. Pablo Trapero, 2015), ou seja, tratar um crime tão hediondo quanto o sequestro com um viés que dá chance a alguma simpatia.

    Trapero faz uso intenso e constante da trilha sonora para aliviar o horror do sequestro (que, no caso da personagem da vida real Arquimedes Puccio, interpretado pelo mesmo Guillermo Francella de O Segredo dos seus Olhos, atendia apenas a interesses financeiros, diferente do que os recados de fantasioso cunho nacionalista-militar tentavam forjar), mas a música é diegética, seria artifício do sequestrador para despistar as filhas que supostamente não teriam qualquer conhecimento da atividade criminoso do patriarca da família, e é neste ponto que o filme de Trapero é imperdoável e falha miseravelmente em seu discurso.

    Excetuando as cenas em que o protagonista toca bateria, não se pode defender Mundo Cão da mesma forma. A trilha no longa-metragem brasileiro parece atender apenas a fins climáticos que atenuam a intensidade da carga dramática, o que pode causar estranhamento àqueles sensibilizados com o desenrolar dos acontecimentos na trama.

    Com o desenvolvimento da estória, as posições se invertem e o título se justifica. Em um mundo de valores invertidos e onde tudo é cinza, o mal não só está sempre à espreita, mas pode lhe tragar e nunca mais soltar. Os crimes ficam evidentes em Mundo Cão, os castigos nem tanto. Santana tem a sua cota significativa de perdas, mas o desfecho não é tão cruel com ele quanto é com Nenê. Atendendo a premissas fundamentais do roteiro padrão de cinema e como Chekhov já dizia, se você mostra uma arma, precisa usá-la, ensinamento que em Mundo Cão não se aplica apenas às pistolas e revólveres, mas à caixa d’água da residência de Santana, evidentemente.

    Foto: Divulgação

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    Mundo Cão é uma ótima estória para todos os públicos, que permite uma leitura mais aprofundada sobre a cidade e as ironias das políticas públicas ao mesmo tempo em que consegue entreter com ótima execução e uma produção que, por exemplo, não deixa a peteca cair nem no que tange o uso dos cachorros de grande porte, tarefa muito mais difícil do que parece. Os alívios cômicos incongruentes com a situação podem realmente irritar alguns, mas a conferida ainda será uma experiência interessante à luz da atual safra do cinema brasileiro.

    Curioso notar que nesse âmbito o cineasta não tenha repetido o feito de Estômago, um retrato que pode ser considerado igualmente violento, salvo pela tortura, que não está presente no longa gastronômico protagonizado por João Miguel (Cinema, Aspirinas e Urubus; Xingu). Como contrapeso, traz em plano secundário elementos que discutem o conflito geracional entre mãe e filha e qual é o papel da religião, até onde ela deve interferir em uma família que precisa manter o sustento de alguma forma, mais um dilema no rico cardápio de questionamentos do filme.

    E quem se empolgou com a trilha balançante de “Nem Vem Que Não Tem” (célebre na voz da Wilson Simonal, mas não é essa a versão que se ouve no filme) ao longo dos 90 minutos de duração, que confira Eu Sou Carlos Imperial (2014), o necessário documentário de Renato Terra e Ricardo Calil sobre o figuraça (e FDP de marca maior, como o filme deixa bastante claro) da música brasileira.

    Além dos chamarizes Lázaro Ramos e Babu Santana, o filme conta com a participação de Paulo Serra, Eduardo Estrela e Milhem Cortaz, que já protagonizou O Lobo Atrás da Porta (dir. Fernando Coimbra, 2013), longa que também aborda a violência no cotidiano e cujo enredo envolve o sequestro de menor, mas sofre com a interpretação pouco convincente de Cortaz, entre outros revezes.


    Mundo Cão pode ser assistido na Netflix.

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  • 5 momentos em que o Dream Theater não foi ele mesmo

    Volta ao formato da ópera-rock com The Astonishing é um bom momento para lembrar peculiaridades na discografia

    Postado dia 15 de junho de 2016 às 08h em Cultura e Lazer

     

    Com 30 anos de história, poucas bandas no rock dividem tanto as opiniões quanto o Dream Theater. Os fãs defendem o conjunto com fervor, levados pelos épicos repletos de solos e alçando seus integrantes ao posto de melhores instrumentistas do cenário mainstream. Já seus detratores ridicularizam a composição calcada na destreza dos músicos em seus respectivos instrumentos e não enxergam absolutamente qualquer traço de emoção na execução das músicas de longa duração.

    Seja como for, é certo que a banda conseguiu imprimir a sua marca desde o início da sua trajetória, com Images and Words (Atlantic, 1992), um disco de heavy metal que reunia as guitarras em destaque da segunda metade da década de 1980 com “21st Century Schizoid Man” e era sucessor do inaugural When Day and Dream Unite (MCA, 1989), que tinha o Queensrÿche como referência mais evidente, mas já trazia vários dos elementos que seriam mantidos nos trabalhos posteriores.

    O grande marco na carreira veio com Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory (Atlantic, 1999), uma unanimidade entre os seguidores do grupo de Nova Iorque. O disco foi seguido de uma turnê pelos EUA que trazia a ópera-rock na íntegra ao público e culminou em uma apresentação especial na cidade-natal do conjunto que rendeu um CD triplo, Live Scenes from New York, e um DVD e home video, Metropolis 2000: Scenes from New York, ambos da Elektra (2001).

    Com uma nova formação consolidada com dois discos de estúdio, A Dramatic Turn of Events (Roadrunner, 2011) e Dream Theater (Roadrunner, 2013), e dois registros em DVD e Blu-ray ilustrando as turnês de divulgação desses álbuns, Live at Luna Park (Eagle Rock, 2013) e Breaking the Fourth Wall (Roadrunner, 2014), com Mike Mangini no lugar do fundador Mike Portnoy na bateria, o Dream Theater volta ao formato da ópera-rock com The Astonishing (Roadrunner, 2015).

    Com produção do guitarrista John Petrucci, o lançamento descreve uma fantasia distópica para enaltecer o poder da música contra os avanços apocalípticos da tecnologia entre duas facções opostas de uma sociedade ficcional. O conceito, em tese, não é uma grande novidade, já que os próprios fãs de rock progressivo podem se lembrar rapidamente de 2112 (Mercury, 1976), clássico do Rush, e alguns outros tantos talvez se recordem também de Joe’s Garage (Zappa Records, 1979).

    Com mais de duas horas de música, The Astonishing é uma gravação que faz jus ao atual potencial da banda e demonstra a liderança de Petrucci e do tecladista Jordan Rudess, ambos em bastante evidência ao longo de todo o disco, muito baseado em composições que usam variações de uma mesma frase musical como leitmotiv e contam com os dois pontos de vista da trama concebida pelo guitarrista. É notório que The Astonishing não só agrada aos fãs, mas também deve resgatar algumas almas perdidas pelo caminho que não haviam ficado satisfeitas com a produção da banda na era pós-Portnoy.

    Com uma trajetória que abrange três décadas de atividades, são diversas as características que definem a obra do Dream Theater, mas houve momentos em que o grupo não foi ele mesmo, como veremos adiante. Talvez uma virtude inerente a todos os estilos que flertam com o rock progressivo, certa medida de experimentação é sempre salutar e pode render boas passagens. Consideramos apenas os treze discos de estúdio e o relevante EP A Change of Seasons (EastWest, 1995), já que as peripécias ao vivo nesse sentido, seja em gravações oficiais ou não, renderiam outro artigo ainda mais extenso. Vamos aos cinco momentos selecionados:

    1. “Take the Time” (Images and Words, 1992)

    Muitos não percebem, mas há algo de muito estranho nesta faixa do disco de estreia do vocalista James LaBrie no Dream Theater que vai além das inserções de Beastie Boys, Frank Zappa e Public Enemy. O bumbo duplo no refrão, o solo em uníssono de guitarra e teclado e as brincadeiras com os silêncios e intervalos (que também são muito lembradas em “Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper”, do mesmo disco, e na instrumental “Overture 1928”, por exemplo) estão todos aqui e fazem parte do arsenal típico do gênero.

    Mas ouça bem a seção do primeiro canto, principalmente o que faz a guitarra, e você perceberá que é uma linha que poderia estar nos melhores hits da new wave da década de 1980. Claro, o vocal estridente não faz o mesmo estilo e já no segundo canto as coisas mudam de tom, com a guitarra optando por um caminho mais romântico e melodioso e Portnoy deixando a sua uma marca registrada à época, uma série de drum fills que fazem a levada passear pelo kit, mas a ginga da guitarra (na marca de 0:28 até 0:50 no vídeo acima, uma versão editada para videoclipe da música original) é um dos mais saborosos dos muitos momentos de grande originalidade no disco que colocou a banda no mapa do sucesso com a música de abertura, “Pull Me Under”.

    Assim como ocorre com os samples do início da música, a inserção de um diálogo de Cinema Paradiso (dir. Giuseppe Tornatore, 1988) é outra clara indicação da influência do repertório cultural de Mike Portnoy, cinéfilo de carteirinha, que fazem deste um ótimo exemplo de uma faixa de grande destaque que, graças aos múltiplos andamentos que percorre em seus mais de oito minutos de duração, agrada a todo o público da banda, seja pelo clima “pra cima” ou pela execução de padrões bem definidos.

    Inclusive, o primeiro verso desta música serviu de inspiração para outra música mais ou menos na mesma linha, “Just Let Me Breathe”, de Falling Into Infinity (East West, 1997), que também poderia estar nesta lista nem que fosse pelas inusitadas referências a Kurt Cobain e Shanon Hoon, vocalista do Blind Melon, e a crítica nada velada à MTV.

    “Take The Time” sempre foi uma das mais pedidas pelo público nos shows e uma versão recente pode ser conferida no DVD duplo Chaos in Motion 2007-2008 (Roadrunner, 2008).

    1. “Hell’s Kitchen” (Falling Into Infinity, 1997)

    A mais diferenciada das músicas da banda inserida no álbum que é amplamente considerado a “ovelha negra” da discografia por suas manifestas pretensões comerciais (que não se concretizaram como esperado, diga-se de passagem), “Hell’s Kitchen” é a única música sem voz do conjunto que não se baseia em pirotecnias e prefere privilegiar o ambiente. É curioso que, mesmo com o feedback positivo por boa parte dos fãs, o Dream Theater não tenha mais investido neste tipo de número instrumental que deixa um pouco o virtuosismo de lado e conta com apenas algumas milhares de notas, e não milhões, como de praxe em todo o restante do catálogo.

    A calma com que a introdução de “Hell’s Kitchen” é construída já é surpreendente em se tratando do quinteto de Nova Iorque. Em seguida, um solo bastante inspirado por parte de Petrucci que casa com a cozinha com perfeição. O fraseado típico de rock progressivo após o solo de guitarra dá lugar ao destaque para o teclado de Derek Sherinian e um desfecho um pouco mais movimentado, se não tão belo, pelo menos bem encaixado em todo o desenvolvimento da peça.

    Para terminar, “Hell’s Kitchen” dá a deixa para “Lines in the Sand”, outra faixa que poderia muito bem estar nesta lista pelo ineditismo de um convidado no microfone, o excelente Doug Pinnick, fundador do King’s X, uma das melhores bandas de hard rock da década de 1990, e também integrante de projetos como The Mob, KXM, Pinnick Gales Pridgen.

    1. “Honor Thy Father” (Train of Thought, 2003)

    Uma coisa é fundamentar um disco nas principais características do new metal, estilo em voga na virada do século, e fazer uma releitura à moda da casa progressiva, como ocorre de maneira exemplar em “This Dying Soul” e “In The Name of God”. Outra é soltar uma pedrada sem aviso prévio como faz “Honor Thy Father”. Espécie de carta endereçada ao padrasto (e não ao pai, que recebeu a devida homenagem um pouco depois, em “The Best of Times”), a composição é puro Mike Portnoy, como não deixam de atestar os diálogos inteiros de Magnólia (dir. Paul Thomas Anderson, 1999).

    Para os fãs que estranharam Train of Thought (Elektra, 2003) desde a capa em preto e branco até o último acorde, “Honor Thy Father” era tudo que eles não queriam ouvir: repetições de riffs simplórios em baixa afinação, teclado com aspirações de música eletrônica que poderiam ilustrar uma faixa bem movimentada do Daft Punk e o maior de todos os pesadelos: James LaBrie fazendo rap (na marca do 1:55 do vídeo acima).

    O tempo se encarregou de mostrar que o estranhamento dos admiradores com o disco como um todo não era mais do que isso, uma falta de familiaridade com a sonoridade, e não são poucos os que consideram Train of Thought hoje um dos trabalhos mais consistentes do conjunto de heavy metal progressivo.

    A história do rock recente conta com alguns episódios bem semelhantes, como os casos de Metallica com a dobradinha Load/Reload (Elektra, 1995 e 1997, respectivamente) e Smashing Pumpkins com Adore (Virgin, 1998), álbuns que foram rechaçados em um primeiro instante, mas demonstraram grande vigor artístico depois de anos de audição e, no caso de empreendimento de Billy Corgan, foram abraçados pelos fãs com louvor depois que a tese do disco se mostrava acertada e suas virtudes brilhavam até para os mais míopes.

    1. “A Rite of Passage” (Black Clouds and Silver Linings, 2009)

    Primeiro single do último disco do baterista Mike Portnoy com o Dream Theater, “A Rite of Passage” traz a maçonaria como tema e diversos clichês do estilo. Nada de muito novo nem atraente no horizonte, exceto pela picardia que Jordan Rudess comete passada a marca de 6:40 de duração da faixa: dois solos reproduzidos em um aplicativo de iPhone. Não que fosse necessária uma extensa explicação do músico para chegar a essa conclusão, pois a sonoridade dos solos deu conta sozinha de provocar a ira de muitos fãs e pode ser que a Roadrunner tenha se arrependido na escolha desta música em particular para divulgar o lançamento.

    Aos contrariados, o culpado tinha nome: Bebot – Robot Synth, um aplicativo que custa 1,99 dólar e roda em qualquer dispositivo Apple compatível. A sacada foi surpreendente na medida em que nos habituamos a ver Rudess nos palcos e estúdios com uma parafernália mastodôntica que deve precisar de uma equipe dedicada da Nasa para a sua manutenção.

    Aos mais curiosos, a complexidade dessa questão tecnológica, inclusive, já rendeu um disco em consonância com a natureza peculiar desta lista, When the Keyboard Breaks: Live in Chicago (Lazy Tomato Entertainment, 2009), um registro ao vivo do Liquid Tension Experiment, projeto formado por três dos integrantes do Dream Theater mais a lenda Tony Levin do King Crimson no Chapman Stick. Como Rudess tocou por alguns poucos minutos até a deflagração da falha técnica e o problema não foi resolvido, o disco leva a assinatura do Liquid Trio Experiment, que já gravara seus improvisos em Spontaneous Combustion (Magna Carta, 2007). 

    1. “The Great Debate” (Six Degrees of Inner Turbulence, 2002)

    A introdução de “The Great Debate” é uma das coisas mais interessantes que o Dream Theater já gravou. Com caráter literalmente progressivo (ou seja, os elementos musicais são agregados um a um até que formam toda a paisagem sonora), a faixa contém uma característica absolutamente exclusiva em se tratando do catálogo do Dream Theater: a abordagem de uma questão polêmica pela sociedade civil e científica.

    No início da década de 2000, o mundo acompanhava com atenção os desdobramentos da aprovação ou não das pesquisas com células-tronco nos tribunais estadunidenses. A controvérsia foi muito alimentada pelos grupos religiosos e dividiu os EUA entre aqueles que consideravam um avanço natural e bem-vindo da ciência e quem julgava que tal medida efetivamente faria com que médicos e cientistas pudessem brincar de deus a seu bel-prazer.

    O assunto é bastante complexo, já que há diversos tipos diferentes de pesquisa com células-troncos, para diversas finalidades e com várias metodologias, e “The Great Debate” acerta em cheio ao trazer os dois lados da discussão, tanto na parte lírica quanto com um recurso que também não foi muito explorado na discografia da banda.

    A letra é bem direta com relação ao tema, não dá muitas voltas para revelar do que se trata e faz referências bastante explícitas à controvérsia, seja para demonstrar um ponto daqueles a favor das pesquisas (“life won’t have to end, you could walk again”), ou para retratar os grupos contrários à questão (“harvesting existence only to destroy, carelessly together we are sliding”). Agora, a verdadeira cereja no bolo da faixa pode ser encontrada já na sua introdução: os argumentos da esquerda e da direita estadunidenses são colocados em seus respectivos canais de áudio, esquerdo e direito. As inserções trazem tanto depoimentos de ambos os lados quanto fragmentos informativos na voz de apresentadores televisivos, tudo recolhido dos meios de imprensa.

    As inserções começam se intercalando, mas conforme a música evolui, elas se sobrepõem até que a versão mais pesada do riff é dada e James LaBrie entra em cena. O encerramento da música adota a mesma lógica de seu início, mas a inverte, com o processo de desmontagem da paisagem sonora e mais inserções de representantes da esquerda e da direita podem ser ouvidas até alguns segundos antes do final, de fato, da canção. Comprove munido dos devidos fones de ouvido.

    O principal riff da música em si, como muito discutido à época do lançamento, demonstrava uma nítida admiração pelo trabalho do Tool mais uma vez (a primeira foi em “Home”, cujo riff é quase um plágio de “Forty Six & Two”) e tinha o título provisório de “Conflict at Ground Zero” graças ao verso “humankind has reached a turning point, poised for conflict at ground zero”, mas o nome foi descartado após os incidentes de 11 de setembro em Nova Iorque.

    Depois da infeliz coincidência com o lançamento de Live Scenes from New York, que ocorreu no fatídico dia dos atentados e cuja capa estampava uma maça (o símbolo da cidade, “Big Apple”) em chamas, o grupo decidiu que não precisava de outro mal-entendido envolvendo uma questão já delicada por si só, já que Marco Zero (“Ground Zero”) é o nome dado ao memorial às vítimas dos ataques ao World Trade Center.

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    Os ingressos para a turnê The Astonishing Live em São Paulo no dia 22 de junho podem ser adquiridos na Ticket360.com. A banda também se apresenta em Belo Horizonte (21 de junho), no Rio de Janeiro (23 de junho) e em Curitiba (25 de junho).

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