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Giovanna Belluomini

Profissão: Estudante de medicina

Cidade: Sorocaba

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Drummond me descreveu décadas antes do meu nascimento. O resto é efêmero; estudante de medicina na PUC-SP, amante da natureza, feminista, defensora das minorias. Desconstruir-me é objetivo, e a consequência é evoluir como ser humano.

  • O carnaval das “santas” e das “outras”

    Um desabafo feminino em tempos de "...Bandeira Branca amor..."

    Postado dia 27 de fevereiro de 2017 às 01h em Sociedade e Política

    balen7

    À mulher cabem dois padrões: o da santa, ou para quem não consegue ser santa, da puta. Aparentemente essa frase parece mentirosa, já queimamos nossos sutiãs, já “podemos ser quem quisermos”.

    O problema é que essa cultura continua enraizada dentro de nós, sem que percebamos. Pois naturalizamos muitos comportamentos machistas. Ou seja, acreditamos que é normal. Assim como, acreditávamos ser normal a mulher só nascer e viver para ser dona de casa.

    Pesquisa realizada recentemente pelo instituto Data Popular mostrou, que 49% dos homens julgam mulheres, as quais pulam carnaval, como “não direitas”. Sim, minha gente. É isso mesmo. Todo o nosso caráter se resume desse modo: se pula carnaval não presta, e se não pula é decente.

    E sabe o motivo?  Por que os homens ainda categorizaram mulheres por um pré-julgamento de suas vidas sexuais. Ou somos as putas, ou as santas. Ou somos “para namorar”, ou somos “para pegar”.

    E vamos combinar que perder tempo se preocupando com que homem vai pensar de nós é coisa do passado. Eles podem falar o que quiser. Mas nada vai impedir que façamos o que quisermos.

    Se parasse por aí, seria um comportamento problemático, sim. Mas o pior está por vir. Baseando-se nesta categorização, homens avaliam como tratar uma mulher.

    Se ela está no carnaval é puta, se é puta, eu posso fazer o que quiser com ela, pois ela assumiu essa responsabilidade. Ela está pedindo para ser beijada a força. Para ter o seu braço puxado. O seu cabelo puxado. Para ser tratada como uma escrava sexual.

    Ter que escrever um texto assim, é assinar: a humanidade é atrasada. Não deveríamos precisar explicar que não queremos ser agarradas. E este comportamento coíbe muitas mulheres de se divertirem, entre outras coisas. É como se fosse um castigo por não ser a santa. Mas ocuparemos todos os lugares, pois são nossos por direito. Resistimos hoje, amanhã e sempre.

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  • Em nome da democracia!

    A corrupção não nasceu em um partido, pois é um mero ator. A corrupção nasceu em um cenário, e é este cenário, chamado sistema político brasileiro, que precisa de uma reforma de suas bases, quiçá de uma revolução

    Postado dia 22 de março de 2016 às 00h em Sociedade e Política

    democracia

    Foto: eprodução/Internet

    O Brasil está tenso pelo o que está por vir.  Há uma retroalimentação entre crise econômica e política, fomentada por uma camada da população que não aceita a derrota nas urnas, e por uma mídia sem qualquer regulamentação e, por consequência, manipuladora, pois a informação passa pelo filtro dos interesses dos poderosos.

    Na verdade, os brasileiros estão tensos. Mas em suma, quem está preocupado mesmo é o trabalhador. Porque são os trabalhadores sempre a pagarem as crises do sistema capitalista. São sempre eles quem são demitidos em massa, que perdem totalmente seu já limitado poder aquisitivo, levando a uma queda da já baixa qualidade de vida.

    Cazuza já dizia “eu vejo um museu de grandes novidades”. O presente do Brasil é nada mais que a repetição de outros momentos históricos no mundo. Sempre que um país passa por uma crise econômica, a direita cresce, e junto a ela, seus “valores” ultrapassados. Foi assim na Alemanha com Hitler, o que acabou resultando no nazismo e por consequência no holocausto. Foi assim no Brasil na década de 1960, que acabou resultando na ditadura e por consequência na morte de milhares de pessoas.

    Não há virgens no puteiro. Para fazer parte do puteiro, ou sistema político brasileiro, o PT se corrompeu. É fato. Fez alianças, em nome da governabilidade, com o pior da política nacional. No entanto, foi, historicamente, o governo que fez mais melhorias para a base da população, com seus programas sociais, entre eles Bolsa-família, Prouni, cotas, sem contar o avanço da economia em si. E isso é o que mais incomoda a classe média/alta.

    Porém, enquanto o país estava crescendo, todo mundo (leia-se classe média/alta) com o bolso cheio de dinheiro, a corrupção não incomodava a moral de ninguém, e não levava ninguém às ruas. Prova disso que, apesar do escândalo do mensalão, houve zero mobilização “popular”.

    E se mexe no bolso de todo mundo, mexe no bolso da família Marinho, da família Civita, entre outras. E as grandes mídias, como qualquer empresa, estão à procura de lucro custe o que custar, inclusive se custar a democracia. E, para isso, elas incitam o ódio e o medo, o lado mais animal dentro do ser humano, o lado que luta pela sobrevivência.

    Esse ódio foi alimentado a tal ponto que transborda. Vemos isso claramente quando pessoas são agredidas por terem “cara de petista” (O que seria isso? Cara de pobre? O que determina a face petista?), por usarem vermelho, por não compactuarem com um golpe. Um dos alimentos desse ódio é a ideia, amplamente divulgada pela mídia, de “nós X eles”, “pessoas de bem X vermes petistas corruPTos”, “coxinhas X risoles”. Isso não existe e não podemos deixar que exista! Somos todos um único povo, ninguém é menos brasileiro por pensar diferente.

    É claro que o PT sabia da NECESSIDADE da DEMOCRATIZAÇÃO da mídia, e mesmo assim não o fez, pois não era do seu interesse. Hoje, ele paga por não ter feito essa mudança tão necessária para a nossa sociedade. E também, é claro que se o atual governo tomasse atitudes em sinergia com os interesses das 54 milhões de pessoas que votaram para elegê-lo, hoje ele teria uma defesa realmente consolidada. Mas como fez 100 % o oposto, seus eleitores estão profundamente desiludidos.

    Todos sabemos, a corrupção não nasceu em um partido, pois é um mero ator. A corrupção nasceu em um cenário, e é este cenário, chamado sistema político brasileiro, que precisa de uma reforma de suas bases, quiçá de uma revolução. Porém, até hoje, o Estado democrático de direito foi o melhor na história política do país. E precisamos defendê-lo. E retrogredir é inadmissível. Precisamos de mais direitos respeitados, e não o inverso. Lutemos em defesa da democracia, porque NINGUÉM está acima da lei, nem juiz, nem políticos, nem emissoras de TV.

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  • 8 de março: é pela vida das mulheres

    Não é dia de ganhar rosas, mas sim direitos.

    Postado dia 8 de março de 2016 às 00h em Dia Internacional da Mulher

    feminista

    Foto: Divulgação/Internet

    Dia 8 de março. Aquele lindo dia no qual homens presenteiam mulheres com rosas, mas não com direitos. Basta! O dia internacional das mulheres nunca foi criado para ganharmos rosas, foi criado para termos nossos direitos conquistados. Se nos dão flores, não é para comemorar sermos mulheres, é para nos distrair do que realmente importa. A final, o que importa o seu chefe te dar uma rosa, se pro seu colega que faz o mesmo trabalho que você, com a mesma experiência e capacitação, ele dá 30% a mais no holerite.

    Por séculos, a literatura retratou a mulher como aquela pura, BRANCA, VIRGEM perfeita mulher; glorificando mulheres que (supostamente) seguiam esse padrão. Sabe o que isso gerou? Nada de bom para as mulheres, apenas mais e mais adestramento. Então por que deveríamos acreditar que, glorificar a mulher uma vez por ano, nos trará coisas boas?

    Peguem essas rosas e transformem em respeito. Pois rosas murcham e morrem. Respeito nos dá coragem de viver. Quando sairmos às ruas suas rosas não nos protegerão. Agora, se as pessoas RESPEITAREM nossos direitos; entenderem que nossos corpos não são públicos, e não somos obrigadas a ouvir um “ei sua gostosa, quero te chupar todinha” e muito menos achar que isso é um elogio. As coisas podem começar a mudar.

    E este foi o exemplo mais básico. Esta desumanização da mulher, essa objetificação, tanto como objeto sexual, quanto reprodutivo e serviçal, leva a uma violação gravíssima de nossos corpos. Como objetos sexuais não temos o direito de dizer “não, eu não quero transar com você” e por não termos esse direito, quando o fazemos, somos ignoradas e estupradas. Afinal estamos ali, como um objeto sexual, é justamente para satisfazer o todo poderoso homem.

    Como objeto serviçal, devemos ser a dona de casa e mãe de família exemplar. Aquela que desenvolve transtorno obsessivo-compulsivo (só assim para conseguir) para manter tudo perfeito. A casa cheirando flores, e as crianças estudando matemática felizes (os meninos, as meninas devem nos ajudar para aprenderem como serem usadas como nós). Enquanto trabalhamos 12 horas por dia. Assim como o bonachão do marido, porém ele ganha, no mínimo, 30% a mais que você. E quando chega em casa está tão cansadinho que precisa urgente pegar sua “gelada” e ver o jogo de futebol “top”. E se não conseguirmos podemos entrar nas estatísticas, e sermos mais uma vítima de violência doméstica.

    Como objeto reprodutivo, somos portadoras de fetos. Não temos o direito de dizer “eu não quero esse feto dentro de mim”. Somos obrigadas a continuar com ele dentro de nós. Mesmo se que quisermos fazer um aborto pelo bem da FUTURA criança, para que ela não sofra em um ambiente hostil, sem as mínimas condições, muitas vezes sem um pai. Mas pra que se preocupar com a FUTURA vida da criança né? Se podemos dizer o que uma mulher pode ou não fazer com o seu próprio corpo.

    Essa divisão é puramente didática. Na vida real, a mulher sofre com as três opressões (sem contar outras tantas) ao mesmo tempo. Por exemplo, a mesma dona-de-casa que apanha do marido, também é estuprada por ele, e também é obrigada a levar a diante uma gestação que não quer.

    O tempo de aceitarmos rosas e opressões caladas está chegando ao fim. Mais cedo ou mais tarde, faremos com que sejamos ouvidas, e assim teremos nossos direitos assegurados. Para isso lutaremos em todas as vias possíveis. Desde filtro da foto do facebook pela legalização do aborto; passando por protestos. E dentro das esferas do poder também. Como diz a música, se cuida seu machista, a América Latina será toda feminista.

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  • Oscar: o circo da elite racista e machista

    O Oscar sempre foi uma celebração da meritocracia realizada por uma elite branca e machista dos EUA. Tal elite que só premia quem a ela pertence

    Postado dia 3 de março de 2016 às 09h em Sociedade e Política

    rock

    Foto: Divulgação/Internet

    O Oscar sempre foi uma celebração da meritocracia realizada por uma elite branca e machista dos EUA. Tal elite que só premia quem a ela pertence

    Esse ano, algumas atrações nos surpreenderam na premiação. Como Chris Rock falando sobre o racismo da própria academia. É claro que a academia não o fez por agora se tornar boazinha. Isso ocorreu para amenizar a polêmica da campanha de boicote por falta de negros nas indicações, promovida pela hashtag #oscarsowhite (Oscar tão branco).

    Já que é tão mais fácil chamar um negro para fazer rir centenas de brancos da platéia, do que por para concorrerem brancos e negros em nível de igualdade, pois aí afetaria de verdade o ego dos brancos.

    Assim como Lady Gaga catando “Til it Happens to You” foi incrível. Música que é trilha sonora do documentário “The hunting Ground” pela qual ela e Diana Warren foram indicadas ao Oscar por melhor canção original.

    No documentário é relatado os milhares de casos de estupro nas universidades estadunidenses, e como as instituições de ensino são coniventes com os estupradores, para não manchar a sua reputação. Pois é, a reputação da faculdade é mais importante que a segurança de todas as alunas, visto que um estuprador tende a cometer o crime inúmeras vezes.

    Conivente é uma palavra bonita para essas instituições. Por culpa delas que esse crime tem índices tão altos. Elas, com sua mão invisível, estão ajudando estupradores a estuprarem suas alunas. E claro que no Brasil a situação se repete, vide casos de estupro na USP.

    Mas, voltando ao Oscar. Todos acharam lindo e comovente a apresentação de Gaga, com sobreviventes no palco (incluindo ela mesma).

    Porém poucos minutos depois Jenny Beaven levou o Oscar por melhor figurino por Mad Max: estrada da fúria. E as pessoas ao invés de aplaudiram sua conquista, riram dela, riram de sua roupa, riram de sua ESCOLHA.

    Sabe porquê? Porque mulher não escolhe! Mulher faz o que os outros dizem para ela fazer. Como ela não estava com a roupa a qual dizem que ela deveria estar, ela não é digna de crédito.

    Assim como se uma menina na faculdade resolve ir à uma festa beber, ela não está seguindo o que ela deveria fazer: ficar dentro de casa protegida de estupradores. E então quando ela ESCOLHE não transar, ela não é digna de crédito, e por isso eu homem dou risada da cara dela e transo do mesmo jeito.

    E é assim que a elite se mostra comovida na causa negra, e na luta das mulheres. A gente pensa “nossa, desse jeito em breve estará tranquilo e favorável pra mim”. Porém, até que se prove o contrário, a elite continua essa classe repleta de privilégios. A qual nos faz acreditar que um dia seremos como eles, enquanto na base, na vida real, no dia-a-dia tudo continua igual. Preto continua pobre e sem oportunidades. Mulheres continuam como uma sub-categoria da humanidade. E mulheres negras continuam como a população que mais sofre devido à intersecção de opressões sofridas.

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  • Vitimismo nos olhos dos outros é refresco

    Feminismo não quer mulheres com privilégios aos homens, nem o movimento negro aos brancos, entre outros; o que querem é igualdade, e a cima de tudo respeito às suas diferenças

    Postado dia 1 de fevereiro de 2016 às 01h em Sociedade e Política

    cotas

    Foto: Divulgação/Internet

    Há certa ignorância falaciosa que nos ronda incansavelmente, a qual acusa os movimentos sociais de luta por direitos de vitimismo. Mas isso não é surpresa para quem participa desses movimentos. Na realidade, é algo natural do ser humano, é como um cachorro que é ameaçado e rosna para defender-se. O problema é que tais movimentos não querem ameaçar ninguém, apenas seus privilégios.

    Feminismo não quer mulheres com privilégios aos homens, nem o movimento negro aos brancos, entre outros; o que querem é igualdade, e a cima de tudo respeito às suas diferenças. É aí que começa a cegueira de certos setores da sociedade brasileira. Pois, para quem não sente na pele (muitas vezes literalmente) o que é passar por machismo, racismo, preconceito, é difícil enxergar que alguém passa por isso.

    cota

    Charge de Vini Oliveira

    E nessa luta por di-rei-tos (aquilo que é nosso por di-rei-to), conseguimos alguns avanços. Como por exemplo, as cotas sociais/ raciais. Sim! Por incrível que pareça é uma pequena reparação histórica (e não um privilégio) para a população, em geral negra, pobre e marginalizada desse país. Sim, foram seus parentes escravizados por séculos, então largados a Deus-dará nos morros; enquanto o governo brasileiro praticava uma política de embranquecimento da sociedade, incentivando com terras e trabalho, europeus a virem para terras tupiniquins. E toda essa política, e o racismo constitucional de séculos e séculos, geraram consequências. Hoje, segundo dados estatísticos do IPEA, apesar de serem 51% da população brasileira, os negros são 70% dos pobres.

    “Mas vai baixar o nível das universidades federais”. Não, não vai, assim como não foi. Segundo estudo feito pela UFMG, cotistas têm notas superiores a não cotistas. Afirmar isso é aceitar o vestibular como uma maneira perfeita de avaliar a inteligência humana, ignorar a máfia que são os cursinhos. Eles sabem o que caí na prova e passam de maneira graciosa a seus estudantes, passam questões iguais uma semana antes. Mas lembra do preto pobre? Pois é, ele não tem dinheiro para pagar por tais informações.

    A conquista das cotas é só uma, entre tantas, e tantas e tantas que virão. Há um só recado para esses setores cegos: nós somos a mosca na sopa, estamos aqui para perturbar o sono. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E não adianta vir nos dedetizar, pois nem o DDT pode assim nos exterminar. Porque você mata uma e vem outra em nosso lugar.

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