Colunistas

avatar

Eliana Figueiredo

Profissão: Psicanalista

Cidade: Mogi das Cruzes

Psicóloga há mais de 25 anos, supervisora, associada ao CLIN-a (Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade), onde participa das atividades de ensino e pesquisa e faz parte do quadro de professores. Atende em consultório particular em Mogi das Cruzes e São Paulo. Em Mogi das Cruzes é uma das coordenadores das atividades: ateliê de leitura: fundamentos da psicanálise, cinema e psicanálise e núcleo de pesquisa em psicanálise e psicose.

  • Uma conversa entre mãe e filhos

    Ouço de muitas mães um desabafo. Elas fazem parte de um grupo de mães que sabem, acreditem, que ser mãe não é só viver coisas maravilhosas em relação aos filhos.

    Postado dia 9 de maio de 2016 às 08h em Saúde e Bem Estar

     

    mães

    Foto: Reprodução/Internet

    Em geral essa parte melhor está nos primeiros anos de vida, quando as crianças são bastante dependentes e obedecem mais ao comando dos pais. Num segundo tempo do “ser mãe” as coisas já não correm bem assim, e muitas sentem vontade de largar tudo… Mas vontade de largar e largar são coisas diferentes. É fato que não dá para se livrar deles, como objetos. Filho é para toda a vida! Você também já ouviu isso.

    Talvez uma forma de se livrar seja colocar a responsabilidade na escola, e aí um embate se dá. A escola joga pra família e a família pra escola.

    O conceito de adolescência não aparece antes do final do século XVIII, mas ganha certa expressão a partir do século XX. A passagem da infância para a vida adulta era marcada, por exemplo, quando um jovem deixava de usar roupas de criança e passava para a roupa do adulto. Não havia moda para jovens e essa passagem não era considerada um período importante de desenvolvimento.

    As crianças eram socializadas, a partir da escola e da família, para ocuparem logo um lugar no mercado do trabalho. Crianças de 7 anos iam trabalhar. A partir das sociedades modernas, industrializadas, foi se formando esse intervalo entre infância e adulto, com muitas mudanças sociais aí implicadas. Volta-se a atenção para a formação, capacitação e estudo.

    Durante esse período único na vida dos adolescentes, eles experimentam questões difíceis. A alteração não é só física e o físico não reflete o desenvolvimento psíquico. Muitas vezes as alterações no corpo são vividas como estranhas, desprazerosas, apesar de todas as informações que o jovem tem acerca dessa fase. Nesta fase é comum ele não mais querer saber da opinião dos pais, acha que sabe de tudo e pode resolver sozinho, no máximo busca suas referências nos grupos de adolescentes. Age como se o mundo e as pessoas tivessem que se organizar em função dele e do que ele precisa. Desorganiza-se com suas coisas e se despreocupa com a higiene, embora use perfumes.

    Esta é a fase mais difícil para os pais. É mais fácil, às vezes, deixar os filhos livres demais, acreditando que podem fazer suas escolhas sozinhos e se responsabilizar por elas; dizem alguns “então, dane-se, não falo mais nada”. Brigas são frequentes e intensas. De fato eles não aceitam mais as referências paternas, precisam se separar e buscar outras coisas e referências. Ao mesmo tempo em que sua existência está em xeque e em jogo. O pensamento de morte é frequente… Sentimento de não serem entendidos e aceitos, de quererem sumir.

    Mas algo é extremamente importante, para as mães e pais-mães, como disse a colega Marisa Nubile, psicanalista e doutora em educação: “não se separem dos seus filhos antes que eles possam fazer essa separação”. Isso não significa que os pais têm que manter os filhos atrelados a eles, mas que possam suportar o lugar que o adolescente lhes dá, estar acessível quando e para o que precisarem, que eles possam saber que vão experimentar do jeito deles, mas que se algo não for bem, podem contar com alguém, e não é um alguém qualquer. De resto é uma aposta fundamental no que já foi transmitido a eles ao longo dos anos.

    Freud, em 1910, faz uma crítica ao papel da escola, no 1º Simpósio sobre Suicídio nas escolas secundaristas da época: “as escolas devem conseguir mais do que não compelir seus alunos ao suicídio; devem lhes dar o desejo de viver, oferecendo-lhes apoio e amparo numa época da vida em que as condições de seu desenvolvimento os levam a afrouxar seus vínculos parentais”. Está aí uma boa função para a escola nos dias atuais e, sem dúvida, uma aposta!

     

    Compartilhar:

  • Sobre a dor de existir…

    “Todas as coisas tem nome/ Casa, janela e jardim/ Coisas não tem sobrenome/ Mas a gente sim/ Todas as flores tem nome rosa, camélia e jasmim/ Flores não tem sobrenome/ Mas a gente sim…” (Gente tem sobrenome – Toquinho)

    Postado dia 29 de março de 2016 às 09h em Saúde e Bem Estar

    Foto: Reprodução/Internet

    Foto: Reprodução/Internet

    Tomando uma das várias definições de mágica, podemos pensar que ela pode ser entendida como um truque ou trapaça, como ilusionismo, mas também como a arte de agir sobre a natureza produzindo efeitos contrários às suas leis[1].

    Podemos trazer essa ideia para as questões do humano, para as questões subjetivas? Ligadas ao mais íntimo de cada um, a mágica não funciona. Não podemos agir sobre as leis do inconsciente, produzindo efeitos contrários às suas leis! O humano não pode ser domesticado, iludido, ter seus sintomas apagados, deletados, como algumas teorias podem crer. E por que?

    A Coreia do Sul, sociedade paternalista, tem no mínimo dois grandes problemas: é extremamente competitivo e tem uma das maiores taxas de suicídio do mundo.

    Duas cenas. Uma mostra o que envolve um vestibular que seleciona os candidatos adolescentes para uma universidade de elite ou para as menos prestigiadas; outros candidatos simplesmente nada conseguem. O que será que acontece com eles?

    Por 12 semanas seus pais, mães e avós, sobem as montanhas até um templo budista, fazendo um ritual de orações, ajoelhados e curvados, segurando lanternas com os nomes dos alunos. No dia da prova, alunos são recebidos com aplausos e abraços. A cidade toda começa a trabalhar uma hora depois do início das provas, para liberar o trânsito e os voos da tarde ficam suspensos por 35 minutos, para que não haja barulho na prova oral de inglês. Uma forte pressão por boas notas, bons empregos, sinônimos de sucesso.

    Em outra cena temos o mundo adulto. Empresas modernas em Seul apostam numa forma de ajudar seus funcionários na aceitação dos seus próprios problemas, buscando que eles encontrem um sentido para a vida.

    A simulação de seus próprios funerais, com tudo que envolve um funeral, tem até um Anjo da Morte. Eles assistem a vídeos de pessoas que enfrentam problemas e doenças graves, mas se mostram valorizando a vida. O ritual propriamente dito começa com os funcionários vestidos de branco e sentados escrevendo suas cartas de despedidas. Ao som de choros, entram e se deitam em caixões de madeiras, onde cada um abraça sua foto envolvida numa fita preta. Aparece o Anjo da Morte, um homem de preto, com chapéu, que fecha os caixões. Ali eles refletem, num exercício de união, segundo eles, sobre o valor da vida!

    Dá mesmo para acreditar que a difícil tarefa de viver, todos os dias, e suportar a nossa existência, a chamada dor de existir, pode ser resolvida com técnicas que valha para todo mundo? Cada um de nós busca a sua receita. Não há um único jeito para todos. Não há mágica!

    O que há são formas e destinos que cada um de nós dá à sua pulsão. A pulsão quer se satisfazer, sempre, não importa como. O objeto que ela vai encarnar não importa (corpo, jogos, álcool, drogas, comida, televisão, gadgets etc). Os sintomas denunciam o que vai mal em nós, nosso mal estar. Há sempre um desejo em jogo para cada um, para cada sujeito do inconsciente, e formas de satisfação para cada um. Não há como domesticar a pulsão, ela é sempre parcial e persiste numa busca indefinida, daí sua indestrutibilidade. E dessa dor de existir o poeta bem diz:

    O que será que será
    Que dá dentro da gente e que não devia
    Que desacata a gente, que é revelia
    Que é feito uma aguardente que não sacia
    Que é feito estar doente de uma folia
    Que nem dez mandamentos vão conciliar
    Nem todos os unguentos vão aliviar
    Nem todos os quebrantos, toda alquimia
    Que nem todos os santos, será que será
    O que não tem descanso, nem nunca terá
    O que não tem cansaço, nem nunca terá
    O que não tem limite[2]
    [1] www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/mágica
    [2] O Que Será (À Flor da Pele) – Chico Buarque:
    http://www.vagalume.com.br/chico-buarque/o-que-sera-a-flor-da-pele.html#ixzz449Ecze6j
    Compartilhar:

  • O amor começou com a mulher

    As importantes lições que um texto literário ensina sobre a sexualidade e os instintos dos seres humanos

    Postado dia 8 de março de 2016 às 03h em Dia Internacional da Mulher

    amor mulheres

    Foto: Divulgação/Internet

    “Pastoris, Daphnis e Chloé”, texto literário, provavelmente do grego e retórico Longus (séc. II ou III d.C.) e do qual nada se conhece. É um romance no estilo pastoral que conta a história de Daphnis e Chloé, duas crianças que foram abandonadas e em seguida adotadas por dois casais de pastores. Pelos objetos encontrados ao lado dos bebês, os pais adotivos entenderam que eles vinham de famílias abastadas e, por isso mesmo, eram tratados com cuidados especiais e não como simples pastores.

    Entretanto Eros, em sonho, aparece aos pais e ordena que criassem as crianças no bosque. Passaram então a viver no bosque, ela, Chloé, tecendo oferendas às ninfas e ele, Daphnis, homenageando o Deus Pan, tocando lindamente sua flauta, a siringe.

    Queria Eros que eles se transformassem num casal, o mais belo e famoso casal de amantes do mundo!

    Já crescido, Daphnis caiu numa armadilha de lobos e sujou-se de lama. Chloé o ajudou a se limpar e se banhar, surpreendida e fascinada ficou com o corpo dele, nu, com a suavidade e cor da sua pele que ela naquele momento tocava. Depois disso foi provocada por um desejo insistente de vê-lo e tocá-lo novamente, o que tomava seus dias e a impedia de comer e dormir direito, ou mesmo de cuidar de seu rebanho.

    Um tempo depois Dorcon apaixonou-se por ela e lançou a Daphnis um desafio. Quem vencesse ganharia um beijo de Chloé. Daphnis venceu. Ao beijá-la ele também foi surpreendido por um desejo ardente. Logo, em pouco tempo, ele também sentia no corpo o reflexo daquele beijo: não comia e mal dormia… Chegou a pensar que aquele beijo era venenoso!

    Ambos estavam embaraçados com aquele desejo e não sabiam o que fazer com isso.

    Eis que Eros aparece novamente em cena, desta vez para incumbir Philétas, homem velho, justo e hábil tocador de siringe, a ir ter com Daphnis e Chloé, para lhes falar das coisas do Amor! Philétas vai encontrá-los no Bosque das Ninfas e diz que toda aquela inquietação e tomento que estavam sentindo era a doença do Amor e lhes dá a receita para o alívio: que se abraçassem, que se beijassem e deitassem nus, um ao lado do outro. As duas primeiras partes eles fizeram, mas a terceira não. Daphnis tentava convencer Chloé, mostrando que os animais se acalmavam após deitarem-se lado a lado.

    Fizeram. Chloé não entendia direito por que os animais não se despiam, tampouco se deitavam para se amarem. Daphnis então consentiu que tentassem fazer como os animais: vestidos e em pé. Mas para a decepção de ambos, Daphnis não conseguiu e chorou muito.

    Pouco tempo depois, Lycénion, moça bela e originária da cidade, ao presenciar os amantes, ficou compadecida com a inexperiência de Daphnis e encantada por ele. Inventou para seu marido uma desculpa e foi procurar Daphnis. Disse-lhe que as ninfas, em sonhos, mandaram-na ensinar-lhe a se desincumbir com Chloé: ele deveria beijá-la e abraçá-la com a mesma intensidade que beijava Chloé.

    Lycénion mostrou na prática a Daphnis como se faz Amor. Ele, satisfeito, se apressou em experimentar com Chloé, mas antes Lycénion o advertiu: Chloé sangrará muito, mas não se preocupe; e também orientou que não deixasse que outros a vissem chorando. Antes de partir disse: lembre-se de que fui eu, e não Chloé, quem fez de você um homem!

    Algum tempo depois resolveram casar-se, com grande alegria, praticando nus, tal como havia sido ensinado, a plenitude do Amor.

    Com este conto podemos apreender que no humano nada converge para a reprodução, para o congresso sexual. No homem nada corresponde ao instinto animal de cruzamento sexual ou de procriação. E é por isso mesmo que a sexualidade se desenvolve: falta no homem esse instinto. O congresso sexual no humano se dá pela transmissão, pelo que se passa de geração para geração.

    Lacan nos diz que “… o que se deve fazer, como homem ou como mulher, o ser humano tem sempre que aprender, peça por peça, do Outro. (…) o campo da realização sexual, no final das contas, o inocente não sabe”. Daphnis e Chloé também não sabiam. Algo brotou em seus corpos, algo desconhecido por eles.

    Foi Eros que incumbiu o velho Philétas de dizer a eles que o que sentiam era Amor. Mas foi Lycénion, uma mulher, quem o ensinou na prática.

    O Amor começou com a mulher, provocadora e sábia! Ao escutá-las em nossos consultórios é esse saber, que cada mulher possui sobre si e suas escolhas, que buscamos, uma a uma, em sua singularidade, sem modelos, nem regras que as aprisionem, para que possam despertar!

     

    #:
    Compartilhar:

  • O caso do Ken humano

    Ken é o namorado da Barbie, certo? Não na vida real

    Postado dia 16 de fevereiro de 2016 às 02h em Saúde e Bem Estar

     

    ken human

    O Ken humano, americano de 32 anos, submeteu-se a 90 cirurgias plásticas e gastou cerca de 100 mil dólares nos últimos dez anos para ficar “parecido” com o boneco Ken, namorado da Barbie. Ele disse: “Eu adoro me metamorfosear, e quanto mais estranha é a cirurgia, melhor”. Quando foi proposto um encontro com uma Barbie humana, de 21 anos, ele disse: “Honestamente, ela é realmente esquisita, muito formal, e falta personalidade”.

    Enquanto o americano parece estar bastante envolvido narcisicamente com sua obsessão de ser parecido, o Ken brasileiro de apenas 20 anos, definitivamente queria ser o boneco Ken.

    Num primeiro momento o Ken humano brasileiro parece não ter nada que o diferencie de outros e outras bonecas humanas, que buscam através da medicina estética um ideal de perfeição, a transformação e a fama. Mas no caso dele, será que era só um personagem que ele buscava? Ele queria sair da realidade, do que é imperfeito e ser o perfeito boneco Ken.

    Desde menino sonhava em ser famoso: seus traços perfeitos, olhos azuis tais como do pai que nem conheceu direito, chamavam a atenção de todos. Ainda criança, uma amiguinha de escola levou o boneco Ken para mostrar o quanto os dois eram parecidos. Parece ter surgido daí a obsessão do rapaz. Começou a participar de concursos de beleza, fez cursos de manequim e teatro.

    Em pouco tempo passou por vários programas de televisão no Brasil e ficou conhecido mundialmente. Além de ser o Ken humano logo teria seu boneco lançado… Uma carreira curta e de sucesso, com muita ajuda da mídia.

    Ao destacar este caso do amontoado de casos de bonecos e bonecas humanas, quis isolar sua singularidade. O ser humano desenvolve um sintoma, seu companheiro ao longo da vida, mas quando esse sintoma provoca um mal estar, provoca um tropeço, algo que faz com que cada um não consiga mais lidar sozinho com seu sintoma, eis o momento de buscar ajuda. O Ken brasileiro não teve tempo para isso…

    Acompanhamos com Miller[1], que “A causa do desejo para cada um é sempre contingente. É uma propriedade fundamental do ser falante, a causa de seu desejo sempre tem a ver com um encontro (…)”. E esse encontro não é genérico, não é igual para todo mundo.

    Podemos então dizer que cada ser humano tem um corpo. Não é um corpo. Ele o tem. E se o tem pode fazer o que quer com ele: negligenciá-lo ou embonecá-lo. Isolando o caso, pensando no caso a caso, pode-se dizer que o Ken buscou no mercado das imagens o império de seu gozo, levado às últimas consequências.

    [1] MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

    Compartilhar:

  • O que a psicanálise nos ensina?

    Acompanhe um relato que exemplifica o caso de uma psicose.

    Postado dia 19 de janeiro de 2016 às 00h em Saúde e Bem Estar

    paranoia

    Foto: Divulgação/Internet

    A psicanálise trabalha com o caso a caso, o caso único, se preferirmos chamar assim. Isso de saída nos mostra que não existe uma solução que valha para todo mundo. A escuta é individual e, embora duas pessoas possam passar pela mesma cena, um assalto por exemplo, cada uma vai reagir de um jeito. Algumas demorarão alguns dias para se recuperar, outras alguns meses, outras ainda permanecerão paralisadas por algum tempo, outras estarão traumatizadas e não se recuperarão se não procurarem ajuda.

    A paranoia é o estado nascente do sujeito, nos diz Jacques Lacan, o que significa que todos nós somos paranoicos, em maior ou menor intensidade, e sempre nos perguntamos, por exemplo, “o que o Outro quer de mim?”, ou seja, o que meu pai ou minha mãe quer de mim, o que meu chefe quer de mim, o que meu companheiro(a) quer de mim? E o que nos diferencia dos loucos? Talvez uma das respostas seja a forma como cada um se vira com nosso lado paranoico e com o Outro mau.

    Abaixo trago um relato que nos exemplifica o caso de uma psicose e sua relação com o Outro social, caracterizada na forma como esse sujeito lida com sua paranoia.

    Cidade de São Paulo, um acontecimento, um encontro com o real a cada esquina… Assistimos diariamente a apropriação dos espaços públicos na cidade, por aqueles que gritam, não mais aos nossos ouvidos, mas aos nossos olhos! Uma praça e tudo acontece ali, à luz do dia ou da noite…

    Avenida Paulista, coração e símbolo da cidade de São Paulo, e um pedido inusitado! Ouvir um morador de rua, no caso, de praça, pois naquele momento algo não ia bem com ele e ele estava pedindo ajuda.

    Fui! Ao chegar à praça, eu me apresento e ele, com um livro nas mãos, me diz: “por favor, venha ao meu escritório”. Eu o sigo até um ponto da praça. Duas caixas de cimento no chão são as nossas poltronas. Há livros de Marx, Maquiavel, Sartre, Hegel, dentre outros. Ele me conta sua vida e mostra sua casa: “Estou aqui há dois anos. Aqui tenho tudo de que preciso: roupas, sapato, cobertores, comida, água, sexo e livros!”.

    Decorrido algum tempo ele me conta o seu problema: “O problema, doutora, é que a praça é pública, mas eu não sou público! As pessoas que vem aqui diariamente acham que eu tenho que cumprimentá-las, dizer bom dia, boa tarde e boa noite; que tenho que sorrir para todos. A praça é pública, eu não!” Em seguida, diz do seu outro incômodo: “há câmeras por toda praça. Antes não era assim. Onde está minha privacidade?”

    Compartilhar:

Página 1 de 11