As lágrimas secas de Hector Babenco

Há escritores que escancaram sua vida no primeiro livro como um ponto de partida para, quem sabe, ganhar fôlego e credibilidade para contar histórias mais buriladas nas obras seguintes

Postado dia 01/03/2016 às 08:00 por Edgard Reymann

hindu

Foto: Divulgação/Internet

Há cineastas que fazem testamentos em seus filmes derradeiros, antecipando, como um canto do cisne, o ocaso de sua trajetória profissional. Como fez magistralmente Federico Fellini no genial Amarcord. Como fez Arnaldo Jabor, no fraquíssimo A Suprema Felicidade (2010). E como fez agora Hector Babenco, em Meu Amigo Hindu, que estreia em 2 de março.  O argentino mais brasileiro Babenco tem uma bela história no cinema nacional. Mas foram seus problemas de saúde, nos anos  1990, que serviram de pano de fundo deste filme duro. Cada testamento revela a profundidade ou superficialidade de suas vidas, ainda que ninguém afirme serem filmes autobiográficos. Só que sim.

“Ou você vai agora, ou terá enfrentará a velhice, que é ridícula e indigna”, diz o emissário da morte (Selton Mello) a Diego, vivido pelo talentoso Willem Dafoe. Mas Diego está já mais velho do que Babenco quando o câncer o acometeu – tinha 44 anos, muito jovem. Natural que pedisse mais algumas velinhas ao emissário – os diálogos remetem às negociações entre Joe Gideon (Roy Scheider) e o anjo (Jessica Lange, linda!) em All That Jazz (1979), de Bob Fosse. Não há beleza no filme de Jabor – ainda que a parceira de Dafoe seja Maria Fernanda Candido. Não há beleza na vida dos judeus nascidos no pós-Guerra, cujas atrocidades marcaram suas memórias e a de seus familiares indelevelmente. Assim, por mais que exista sexo no filme, não tem nem aquele glamourzinho bossa nova carioca, de mulher de biquíni à beira do mar. São encontros fortuitos no dia ou na noite paulistanas, um casamento que se desfaz no meio do processo de cura do câncer, uma cena quase onírica com Barbara Paz, ex-mulher de Babenco, dançando na chuva seminua. A cerimônia de casamento é cara aos que pertencem à elite paulistana, onde se insere também a judaica. A celebração se dá num apartamento recheado de amigos e familiares, com desafetos e traições se escancarando. E, sim, onde a única pessoa negra vem pela porta da cozinha.

Há muito realismo nessa fantasia que Babenco renega como autobiográfica, que só uma arte como o cinema poderia conceder ao autor e diretor. Babenco não incorre no erro de explorar o menino indiano (o amigo hindu), com quem compartilha algum tempo e aproveita para lhe contar histórias. O menino, atento ao jogo eletrônico, mostra que está ouvindo o que Diego lhe conta. Mas isso não é capaz de marejar os olhos da plateia. Meu Amigo Hindu não é um filme feito pra chorar nem pra rir – ainda que Dafoe cantando Cheek to Cheek numa maca de UTI seja o momento mais impactante. Isso deve tornar difícil sua digestão pelo público acostumado ao riso e ao choro fáceis. Mas é bem coerente com toda a sua obra, que inclui filmes importantes como Lúcio Flavio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), que lhe abriu as portas para Hollywood, onde filmou O Beijo da Mulher Aranha (1985), Ironweed (1987), Brincando nos Campos do Senhor (1990), entre outros . Ele voltaria ainda para o Brasil, já no período da retomada, para filmar, em 2003, o contundente Carandiru. Meu Amigo Hindu tem elenco quase todo brasileiro, embora seja falado em inglês. Sente-se a dificuldade de se interpretar falando uma língua não nativa – por mais que se esforcem, Maria Fernanda Candido, Reynaldo Gianecchini (no papel do dr. Drauzio Varella), Selton Mello, Dan Stulbach e Guilherme Weber fazem o que podem para dar naturalidade aos seus personagens na língua de Shakespeare. Mas não é isso que vai atrapalhar o testemunho de Babenco. É o filme em si, o tema árduo da doença, a dureza da vida, e o ritmo lento passam longe das expectativas do grande público. Mas Babenco é Babenco, marcou uma época no século 20. O cinema do século 21 que se vire para ter seu significado.

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Sobre o Autor

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Edgard Reymann

Jornalista que está atualmente dedicando suas atenções para o vinho e para a gastronomia

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