Aquilo que os olhos não veêm

Uma história de dois amigos filosofando sobre valores religiosos

Postado dia 26/05/2016 às 07:30 por Luiz Edmundo

religiosos

Foto: Reprodução/Internet

Em frente à minha casa havia um grande bosque de mangueiras, que apesar de ser uma propriedade particular era aberta, sem cercas e frequentada naturalmente por muitos moradores do bairro. Suas sombras agradáveis atraiam, em momentos alternados, crianças buscando mangas, casais de namorados e solitários, que naquele lugar tinham o ambiente ideal para as conversas amenas, a meditação, o estudo. Foi nesse lugar que eu conheci Wilson (Magrão para os chegados).

Eu vivia envolto nos estudos, na busca ávida de conhecimento e do diploma para o exercício profissional. O bairro era próximo ao campus universitário onde dispúnhamos de uma biblioteca de excelência e, se não bastasse convivíamos em um ambiente onde a informação circulava com mais intensidade que em qualquer outro lugar da sociedade. (Isso foi antes de existir a Internet).

O Magrão era pedreiro e, além do seu trabalho na construção civil, era religioso, frequentava a sua igreja e, junto a seus irmãos de fé fazia visitas a hospitais, presídios para confortar doentes e desesperados. Acordava de madrugada para estudar e meditar sobre a Bíblia. O curioso é que o Magrão lia bem, mas por falta de exercício não escrevia. Um pouco talvez pela rusticidade de suas mãos que, moldadas no trabalho com a pá, eram pouco adaptadas ao lápis.

Éramos jovens, buscávamos o crescimento e nossos encontros naquele bosque de mangueiras em frente à minha casa eram camaradas, agradáveis e invariavelmente conversarmos sobre a leitura bíblica. Eu, estudante universitário, versado em vários assuntos e enfoques, quis trazer às nossas conversas uma visão original do texto bíblico e citei um livro do poeta paranaense Paulo Leminski, publicado na saudosa editora Brasiliense em uma coleção denominada ‘Encantos Radicais’. Nesse texto Leminski chamava a atenção para a coincidência de que tanto Jesus como Sócrates, dois grandes mestres, não terem escrito nada, mas foram os seus discípulos que legaram ao mundo os escritos sobre os mestres. Aliás, a exceção daquele momento que levaram diante de Jesus uma mulher acusada de adultério e lhe perguntaram se deviam apedrejá-la, o mestre inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo (João 8:6).

– É isso ai Magrão, somente nesse momento que Jesus escreveu e, pior, ninguém sabe o que Ele estava escrevendo!

– Como não? Está claro…

-Pode consultar. A Bíblia não diz o que Jesus escrevia. – Eu lembrava claramente do texto de Leminski…”mas ninguém sabe o que ele escrevia”.

Magrão refuta: – Ele denunciava os pecados dos presentes, do mais velho para o mais novo, de modo que todos largaram suas pedras e foram embora.

De fato, isso não estava escrito no texto bíblico, porém o argumento do Magrão era uma dedução tão lógica e simples que eu vasculhei minhas ideias para a contra argumentação e o que veio à cabeça foi outro texto bíblico que diz: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos.” (Mateus 11:25)

 

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Sobre o Autor

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Luiz Edmundo

Economista e doutor em engenharia da produção, dedicam-se ao ensino superior como professor.

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