Antes de o sol raiar

Começo um novo ano com a determinação de fazer dele um período ainda melhor e mais produtivo

Postado dia 12/01/2017 às 08:00 por Junji Abe

sol

Foto: Reprodução

Nasci de parto natural pelas mãos da parteira dona Suenaga. Foi no dia 15 de dezembro de 1940. Era um menino franzino e não teria sobrevivido, se não fosse o leite de vaca trazido diariamente para complementar o leite materno. O produto vinha num caminhão que transportava toras de madeira da Fazenda de Adelino Torquato, amigo dos meus pais, para a área central de Mogi das Cruzes.

Ao lado de quatro irmãos – Hatue, Hidekazu, Shizuyo e Hissae –, nasci e cresci no campo. Como outros meninos, joguei futebol, empinei pipa, fiz arte, levei bronca, sempre gostei de chocolate e de caqui. Como todo menino que vive na roça, aprendi a acordar com o canto do galo. Como muitos, ajudei a família na lavoura. Na época, energia elétrica era coisa do futuro onde eu vivia. Quando caía a noite, à luz de velas ou de um lampião, debruçávamos sobre um livro sorvendo as palavras, embarcando na magia proporcionada pela leitura, prazer que cultivo desde menino.

Hoje, vejo maravilhado os avanços da tecnologia. A gente tem o mundo na palma da mão. Jamais imaginaria tudo isso enquanto criança. Adoro os benefícios do mundo cibernético! Graças às redes sociais, tive a felicidade de reencontrar dona Mariquinha. Ela está com 104 anos de idade, tem uma memória prodigiosa e impecável lucidez. Dona Maria de Jesus Siqueira, a Vovó Mariquinha, carregou no colo o menino que fui e ajudou a lidar com aquele moleque travesso.

Ao completar 76 anos de idade, dirijo-me a Deus com uma imensa bagagem de gratidão pela família formidável – ancorada na minha magnífica esposa Elza –, pelos amigos verdadeiros e pelo contínuo aprendizado que me proporciona. Olho para trás e percebo o quanto os anos me fizeram bem. Ganhei mais, muito mais paciência. E redobrei minha capacidade de compreensão dos outros e da vida.

Não quer dizer perder o entusiasmo nem a identidade. Significa controlar o ímpeto e depositar energia no entendimento. A gente ouve mais, fala menos e interage melhor. A idade traz algumas limitações. Para mim, entretanto, os obstáculos são minúsculos. Talvez, minha dieta rica em hortaliças e frutas, seguida desde criança, seja meu pote de ouro conquistado antes do fim do arco-íris.

Se me permitem uma sugestão, não tenham medo de envelhecer. Rugas não ofuscam os tesouros que só um veterano consegue encontrar. O mais fantástico é que eles estão dentro da gente. Quando se conserva a alma jovem, a idade não pesa. Só agrega conhecimento, experiência e compreensão.

Começo um novo ano com a determinação de fazer dele um período ainda melhor e mais produtivo. Que o Senhor me permita ter sempre novos desafios, porque eles alimentam minha alma. E que, acima de tudo, mantenha o meu privilégio de ter ao meu lado tantos seres especiais – humanos ou não – que são a razão para acordar todos os dias antes de o sol raiar.

 

#:
Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Junji Abe

Junji Abe, 75 anos, mogiano, produz e comercializa flores e plantas ornamentais, e foi prefeito de Mogi das Cruzes por duas vezes seguidas (2001-2008)

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter