Amando e negligenciando

Em números gerais, enquanto transborda o volume de animais morrendo nas ruas precisando de um lar, a preferência do brasileiro é pagar para adquirir seu “exemplar”, que deve ser semelhante àqueles que são impulsionados pela mídia

Postado dia 22/10/2015 às 11:20 por Lisandro Frederico

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Ao contrário do que muita gente pensa, os animais domésticos – felizmente – ganham a empatia da maior parte das pessoas. Os motivos para se ter um pet em casa são diversos e, até quem não tem, costuma fazer um cafuné no bicho de um amigo ou parente.

Autores e cientistas tentam esclarecer o que constrói os laços afetivos entre humanos e animais. No livro “What´s a dog for?”, o autor americano defende que a empatia por cães, por exemplo, vem da curiosidade em manter em casa um “predador que vive com humanos e deita de barriga para cima esperando por cócegas”. Já para a pesquisa de um grupo da Pensilvânia a “afeição entre o homem e o cão é o resultado de uma relação aprimorada com o tempo, que surgiu em eras mais primitivas, quando os cães eram companheiros de caça de humanos”.

Independente de quem esteja certo, o fato é que os animais de estimação são uma felicidade a parte para quem tem o seu. É inegável que a relação com os bichos tenha evoluído com o tempo. Há 40 anos não se vendia ração para os cães, que viviam obrigatoriamente no quintal. Hoje em dia, dividindo nosso sofá, os cães conquistaram – merecidamente – um espaço maior no coração de seus donos.

Felizmente essa relação mostrou avanços, mas ainda estamos longe de enxergar uma sociedade onde os cães são considerados como deveriam ser: seres conscientes, assim como nós humanos, dotados de sentidos, prazer, felicidade e sofrimento. Eles merecem um lar digno para matar sua fome, sede, ter segurança e acesso a assistência veterinária.

Atualmente o Brasil só engrossa a estatística de animais que vivem nas ruas em situação de abandono. Segundo a OMS, estima-se que 30 milhões de cães e gatos vivam nas ruas. Dois terços desse número são formados por cães, o que nos deixa em destaque nesse lamentável cenário.

Por outro lado, o país se destaca em outro ranking, que por sinal é contraditório: O Brasil é líder da América Latina em cães de porte pequeno, aqueles que chegam a custar cinco mil reais em pet shops, como cães da raça shih tzu e chihuahua.

Em números gerais, enquanto transborda o volume de animais morrendo nas ruas precisando de um lar, a preferência do brasileiro é pagar para adquirir seu “exemplar”, que deve ser semelhante àqueles que são impulsionados pela mídia, como o Yorkshire do Programa da Xuxa, ou o Maltês da Ana Maria Braga.

Essa matéria não tem o objetivo de condenar quem tem um animal de raça pequena, mas de refletir sobre uma questão de cidadania e compromisso com as deficiências do país. As ONGs e os grupos de proteção enfrentam dificuldades para manter animais recolhidos das ruas que ficam anos aguardando por adoção. Eles não são adotados, pois não se assemelham ao estereótipo que coloca o animal em uma imaginária prateleira de artigos da moda.

O comércio de animais é um mercado que, por vezes, oculta uma lamentável linha de produção acelerada que negligencia direitos básicos a vida. As “matrizes”, como são chamadas as cadelas reprodutoras, estão findadas a uma vida reprodutiva acelerada que pode ser assimilado a um maquinário fabril, mas devemos nos lembrar de que se trata de um ser vivo, que inclusive, é bem semelhante a nós.

 

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Sobre o Autor

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Lisandro Frederico

É formado em Marketing, é atual vereador da cidade de Suzano e atualmente preside o Projeto Adote Suzano, ONG que atua na proteção dos animais

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