Altos las Hormigas, ou a Balada para Locos

Como criar um vinhedo num terreno ocupado por formigueiros? Como fazer um vinhedo orgânico num lugar assim?

Postado dia 23/08/2016 às 08:30 por Edgard Reymann

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Foto: Reprodução/Internet

Chamados de loucos, quando investiram, em 1995, em terras na então geladíssima Lujan de Cuyo, em Mendoza, os italianos Alberto Antonini, Antonio Morescalchi e Attilio Pagli, junto com o agrônomo argentino Carlos Vazquez, começaram a pesquisar a fundo o solo da região. Dez anos depois, com vinhedos em Vista Flores, Altamira e Gualtallary, no Valle de Uco, todos a cerca de 1200 metros acima do nível do mar e ar mais gélido ainda, deram sequência a um “trabalho de formiga”, com o intuito de fazer vinhos que representassem a expressão do terroir local. O resultado foi apresentado em seis rótulos, todos com a varietal malbec, em degustação promovida pela importadora World Wine e pela escola Eno Cultura, que comprovou a capacidade da vinícola em fazer belos vinhos, bastante diferentes entre si, com uma mesma uva.

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O primeiro desafio da equipe da Altos Las Hormigas, em Lujan de Cuyo, era mesmo lidar com as formigas. Para que se pudesse chamar seu vinho de orgânico, e com práticas biodinâmicas, porém, era preciso combatê-las sem o uso de pesticidas, já que qualquer produto químico interferiria naquilo que se desejava enquanto expressão de terroir. A saída foi combatê-las pontualmente, nos ninhos, realizando um trabalho de atração da atenção das mesmas para outros vegetais que pudessem substituir as folhas das parreiras na “dieta”. A solução foi o desenvolvimento de uma vegetação rasteira entre as linhas das vinhas. “Em uma noite, as formigas podem acabar com uma extensa área de um vinhedo”, disse Leo Erazo, enólogo que se juntou ao grupo há 15 anos e hoje é um dos experts de terroir, acompanhado pelo enfant terrible do terroir argentino, Pedro Parra.
O segundo passo do Projeto Terroir, iniciado em 2006, foi mapear por completo o solo, a partir de tomadas aéreas e pesquisas de solo e subsolo. Com esses dados em mãos, passaram a fazer malbecs que se destacam dos “malbecões” e elevaram a cepa a um novo patamar. Foi nessa época também que chegou Pedro Parra, um dos maiores experts em terroir da América do Sul. O dilema era ter um solo fantástico, mas não ter vinhos que o representassem. A via orgânica foi o caminho encontrado. “Você pode trabalhar para que a natureza faça o vinho que você deseja, mas você pode trabalhar para que a natureza se exprima no vinho que você faz”, considerou Léo Erazo.

Os vinhos servidos são jovens, safras 2013 e 2014, e alguns ofereceram um grande potencial de guarda. O Malbec Clássico  2014 (R$ 85,80), o mais “simples” da mesa, é de vinhedos já bem definidos, com cerca de 20 anos de idade, localizados em Medrano, Lunlunta e Barrancas – as duas primeiras m  Mendoza e esta em Santa Fé. É um vinho bem fresco, com toques herbáceos e de alcaçuz, que impressionaram. Para chegar ao resultado, sua colheita é feita na época das cepas brancas, ou seja, relativamente cedo para as tintas. O Malbec Terroir 2013 (R$ 112,20) é do Valle do Uco. Além das notas de frutas vermelhas, exala herbáceos e gramíneas, e tem um toque mineral mais para o salino. O estágio se dá em foudres de carvalho, tanques de cimento e aço inox para atingir o equilíbrio perfeito.

Já o Malbec Reserve 2013 (cerca de R$ 230,00) tem estágio apenas em foudres, mas por 18 meses, além de 12 meses em garrafa. O detalhe está no solo, aqui, mais do que na altitude: as pedras do subsolo são cobertas de carbonato de cálcio, num nível acima do padrão. Assim, este é um vinho com mais extração, que lhe dá mais corpo e cor, notas de salinidade, e notas de frutas vermelhas e negras. Na boca, os taninos são bem aveludados. É um vinho elegante, certamente. Não tanto quanto os de “apelação” da vinícola.
Esses vinhos são o resultado de todo o estudo feito pela equipe da Altos las Hormigas para encontrar a verdadeira expressão dos terrenos da vinícola em Altamira, localizado ao sul do Valle do Uco, é a cobiçada área onde Catena Zapata e Achaval Ferrer possuem vinhedos. A pesquisa da equipe da ALH chegou até a análise da condutividade elétrica do solo, e verificou-se que, ali, o subsolo possui uma inigualável quantidade de carbonato de cálcio. Sua composição é de 85% de calcário, seixos e cascalhos e 3% de argila. O resultado ali obtido com o Malbec Appellation Altamira impressiona. Um vinho de muita estrutura e potencial de longevidade, fica 18 meses em foudres (3.500 litros) de carvalho francês e os aromas frutados só aparecem na taça com o tempo. Austero e fechado, tem um tanino muito suave e uma acidez natural que não agride, notas herbais e de especiarias, aos poucos aparecendo sua ameixa preta e florais. O final de boca é longo e marcante.

Já a região de Vista Flores, já no Valle de Uco, possui subsolo com pedras menores que a de Altamira, entremeadas por argila (80% calcário, seixos e cascalhos, e 5% de argila). A vinificação do Malbec Appellation Vista Flores, cujo envelhecimento se dá em foudres também por 18 meses, buscou expressar a diferença do solo. Resultou num belo vinho com muita fruta no olfato, mas sem ser apelativo, já que notam-se notas de tabaco, fumo e madeira. Na boca, um vinho de estrutura, redondo nos taninos e com acidez na medida para seu equilíbrio.

Para mim, foi o mais sedutor da degustação, embora ainda tenhamos provado o Malbec Appellation Gualtallary 2013, cujo vinhedo fica a 1300 metros de altitude, com solo à base de 50-60% de calcário, seixos e cascalhos e 3% de argila. Detalhe: é o terreno com maior conteúdo de carbonato de cálcio. Na verdade, a presença do calcário é o dobro do que se considera como padrão para uma vinificação, o que, segundo Leo Erazo, resultou num vinho com mais tanino e mais complexo, com notas herbáceas, de alcaçuz, pimenta negra, tomilho e, claro, frutas negras. Denso na estrutura, com alto potencial de envelhecimento.

Entre si, os malbec “appellation” da Altos las Hormigas são bem diversos, destacando-se ora mais pela fruta, ora pela mineralidade e estrutura, ora por sua complexidade olfativa. Para se chegar ao melhor resultado, Erazo disse que, para cada um desses vinhos, se faz entre 80 a 90 micro-vinificações. Resultado este que, no Velho Mundo, foi obtido muito às custas de intuição e vivência. Na Altos las Hormigas, a intuição ganha uma força da tecnologia para percorrer algumas etapas mais rapidamente e alcançar a verdadeira expressão de terroir.

Não é fácil, nem será, no futuro, conquistar um lugar tão celebrado como o das principais regiões vinícolas europeias. Ainda que hoje até já exista muito glamour em torno das vinícolas do Novo Mundo, com a proliferação de condomínios de luxo em seu entorno, ainda faltam a cultura e a história, elementos que só o tempo lhes dará. Mas o caminho já está aberto.

Vá além:

Importador – World Wine – www.worldwine.com.br

Altos las Hormigas – www.altoslashormigas.com.br

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Sobre o Autor

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Edgard Reymann

Jornalista que está atualmente dedicando suas atenções para o vinho e para a gastronomia

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