Integração: Um novo olhar

A relevância crescente do deficiente visual nas salas e espaços culturais

Postado dia 02/10/2015 às 13:12 por Guillermo Gumucio

blind_abilities

Os números comprovam o que o público frequentador do roteiro cultural da cidade de São Paulo já percebeu: as dependências que abrigam os eventos e espetáculos estão mais acessíveis para os deficientes. Segundo o Censo divulgado em 2010, São Paulo conta com quase dois milhões e oitocentas mil pessoas com algum tipo de deficiência, sendo a visual a mais frequente.

É natural que uma parcela dessa população tenha aspirações artísticas, e sua jornada até os palcos e teatros da cidade depende da adequação dos serviços e da infraestrutura a que têm direito. Só que o aumento no número de prédios e instalações que cumprem a Lei da Acessibilidade (Lei 10.908 de dezembro de 2000) não é a única forma de constatar que a cidade de São Paulo está finalmente começando a ser mais democrática. O número de deficientes físicos já é maior não somente nas plateias, mas também nas coxias.

DANÇANDO E ENXERGANDO COM O CORAÇÃO

Pioneira no trabalho com deficientes visuais, Fernanda Bianchini Saad é bailarina e fisioterapeuta, mas é muito mais conhecida como líder da Associação de Ballet e Artes que leva seu nome. As aulas gratuitas de balé clássico, sapateado e dança de salão na sede da associação na Vila Mariana estão abertas para deficientes de todos os tipos e idades, mas foi no preparo da companhia de balé de cegos que Fernanda se especializou, inclusive com uma tese recente de mestrado na Universidade Presbiteriana Mackenzie na qual fundamenta a metodologia que já aplica desde 1995. As conquistas do trabalho de Fernanda Bianchini e sua equipe estão por todos os lados na casa da R. Domingos de Morais.

Uma grande quantidade de troféus, certificados e honrarias como “Cidadã Emérita de São Caetano”, “Prêmio Banco do Brasil em Tecnologia Social”, entre outros reconhecimentos de diversas câmaras, sindicatos e organizações. “A Bela Adormecida” no Teatro São Pedro, “Olhando para as Estrelas” e “O Quebra-nozes”, apresentado no último dia 29 de novembro no Auditório do Ibirapuera, são alguns dos cartazes de espetáculos já realizados pela companhia, acompanhados de inúmeras matérias e reportagens de jornais de diversas cidades do Brasil, todas destacando o sucesso dos balés entre o público.

O cronograma exposto no mural da sala de ensaios revela a rotina atribulada da Associação, com idas ao Rio de Janeiro para apresentação da suíte O Quebranozes / Somos Todos Brasileiros e entrevistas para canais de televisão. O ensaio comandado pelo professor César Albuquerque era mero treino e acerto de pequenos detalhes, o grupo estava totalmente preparado para fechar o ano de 2013 com uma grande exibição com a música de Piotr Tchaikovsky no auditório projetado por Oscar Niemeyer, nas dependências do Parque do Ibirapuera.

O professor repete algumas vezes uma cena com Gisele Dantas Nakhur, aluna recém-formada da companhia e dona de um sorriso encantador e permanente, que prevalece mesmo nos saltos e piruetas mais exigentes. Ainda assim, o clima inicial é descontração e não haveria por que resistir a um bom trocadilho. “Meu arco está deficiente!”, brinca uma das bailarinas responsáveis por dançarem com arcos floridos no fundo do palco. Todos vão às gargalhadas enquanto um acessório que não comprometesse a harmonia do espetáculo fosse providenciado. A Associação de Ballet e Artes Fernanda Bianchini conta com a ajuda de doações das mais diversas fontes, empresas e grupos que se organizam para reunir itens necessários para a manutenção do estúdio.

O dia do último ensaio geral antes da apresentação de despedida de 2013 no Auditório do Ibirapuera viu uma série de visitas. Representantes de patrocinadoras de iniciativas da companhia já se encontravam na sala de ensaios quando dezesseis alunos devidamente enfileirados obedeciam as instruções da professora Viviane Reis do Colégio Ateneu, de São Caetano, para sentarem-se e assistirem a um dos últimos movimentos de O Quebra-nozes. A classe da pré-escola estava ali por causa das doações: “Organizamos anualmente uma doação de fim de ano com todos os alunos, pais e responsáveis. Achamos muito bonito o trabalho da companhia e decidimos que ela seria a contemplada de 2013”, conta a professora.

quebra nozesFernanda Bianchini, que chegara pouco antes para comandar o ensaio juntamente com César, agacha-se em frente aos alunos de São Caetano, agradece a doação a todos eles, e faz uma breve explicação do que eles estão prestes a conferirem in loco. “Estas lindas bailarinas são cegas. Isso quer dizer que elas enxergam assim como vocês, exceto por uma única diferença: elas enxergam com o coração”, conclui Fernanda, tão didática quanto poética, em pleno domínio de seu público.

O ensaio começa e as crianças ficam hipnotizadas, as meninas mais que os meninos, talvez sonhando que elas também gostariam de vestir o figurino rosa um dia, ou talvez ambos imaginando como devesse ser não poder enxergar e fazer movimentos tais com tanta graciosidade. Mas, tal qual numa animação da Pixar, a permanência da “barreira” entre os mundos dura alguns poucos minutos. A lembrança de que elas são deficientes visuais é esquecida após a primeira série de croise devants. A magia ganha e prevalece.

O público de cerca de quatrocentas pessoas presentes no Auditório parecia estar encantado mesmo era com a própria arte da dança, seja demonstrada por um deficiente visual ou não, questão que Fernanda Bianchi faz questão de frisar quando toma o microfone no fim do espetáculo para agradecer a plateia: “Isto sim é inclusão, e ter a oportunidade de fazer este tipo de trabalho faz o Brasil parecer um pouco mais com o primeiro mundo”, denotando com otimismo o caminho a ser trilhado pela acessibilidade no país.
NELSON RODRIGUES ÀS CEGAS

Como fazer teatro sem imagens? Como “assistir” a um espetáculo sem enxergar? As respostas estão na montagem do conto O Grande Viúvo, de Nelson Rodrigues, pelo Teatro Cego. Dois dos cinco integrantes do elenco são deficientes visuais, e esse detalhe faz toda a diferença. A proposta da companhia é fazer o público vivenciar a experiência do teatro pelo cego. Carlos Palado, produtor da companhia, faz parte da ala “vidente” (termo pelo qual deficientes visuais se referem a pessoas com visão) e explica como funciona a concepção e o preparo do aparato que torna a experiência sensorial possível sem precisar vendar ninguém.

Principal profissional por trás da parte técnica da montagem, Carlos ainda se considera um aprendiz na matéria. “Minha trajetória neste tipo de trabalho começou com o preparo de quatro grupos infantis na Sociedade Paulista de Trote, no bairro paulistano da Vila Guilherme. Havia cursos de percussão, teatro, dança e circo, e o processo de aprendizado e ensino levava o ano inteiro para que nos últimos meses fizéssemos algumas apresentações”. Ele não poupa elogios ao irmão Paulo, ator e diretor do Teatro Cego.

A admiração pelo trabalho fica nítida já na primeira ocorrência da sucessão de “esse é o cara!”, “esse é que sabe mesmo!”, entre outras frases de efeito e reconhecimento, tamanha a ênfase. Seria difícil colocá-los lado a lado e não desconfiar do parentesco. Ambos têm olhos claros e serenos que dividem com outro irmão, Luis Palado, também colaborador da produtora Caleidoscópio, responsável pelo espetáculo. O formato de teatro cego foi captado pelo diretor Paulo Palado em Córdoba, na Argentina.

Desde os espetáculos na Vila Guilherme, ele sempre trabalhou a imersão total de todos os profissionais envolvidos no espetáculo no momento da fruição e derrubando as eventuais barreiras que possam existir entre o público e o grupo artístico. “É muito mais do que inclusão, é integração em favor da igualdade. Quando alguém está dançando em um palco, não importa se ela é rica ou pobre, feia ou bonita, cega ou vidente, isso não faz diferença. E é isso que tentamos trazer ao teatro ao misturar pessoas com e sem visão no elenco”, explica o diretor de fala rápida e muita disposição para explicar o processo de concepção da companhia. Sara Bentes nasceu sem visão devido a um glaucoma.

Com três anos de idade passou por cirurgias e ficou com baixa visão, mas há quatro anos começou a perder. Sara representa a mãe do viúvo e também o fantasma da falecida na montagem de Nelson Rodrigues. Ela comemora o fato de todos ficarem em iguais condições no momento da representação, ou seja, iguais a ela no quesito da enxergar. “Às vezes algum ator que enxerga fica um pouco perdido no meio do espetáculo, aí eu ajudo”, se diverte a atriz que hoje reside em Volta Redonda. Sara é fã do roqueiro argentino Fito Páez. Sua música preferida do repertório?
Mariposa Technicolor, sucesso do cantor que carrega nas tintas já no título. E essas cores Sara enxerga melhor que muitos dotados de visão. Carlos descreve como dependemos da visão com fé cega. “Quando sentimos cheiro de alguma coisa, olhamos mesmo assim, como que para confirmar. A plateia fica de olho aberto durante os 50 minutos do espetáculo, mas precisa trabalhar todos os sentidos, exceto a visão”. E explica a verdadeira equação aritmética e cronológica das sensações. “As palavras têm um período muito bem determinado e você pode até mesmo ter várias delas simultaneamente, como ocorre quando mais de uma personagem fala ao mesmo tempo. Com os cheiros, por exemplo, a coisa é um pouco mais complicada”. A comparação não poderia ser mais reveladora.

De fato, dificilmente percebemos vários cheiros simultâneos, mas nos concentramos apenas naquele que mais se destaca no ambiente. Percorremos a sala de espetáculos e Carlos indica a localização das entradas dos atores e os cabos suspensos que servem como espécie de trilho para o elenco. Afinal de conta, o ambiente precisa ser absolutamente vedado contra a entrada de qualquer tipo de iluminação. O público é dividido em pequenos blocos com três ou quatro fileiras de assentos distribuídos ao redor da arena central, com palco e plateia no mesmo nível. O espetáculo também conta com música ao vivo a cargo de um trio, o que quer dizer que os músicos também experimentam o que é ser um músico deficiente visual por praticamente uma hora. “Os olhos vão para os dedos”, brinca Marcel Ortiz, violão e bandolim (ao lado de piano de Jonas Dantas e contrabaixo de Eric Budney), admitindo que o melhor preparo foi ensaiar sem qualquer tipo de iluminação o repertório que conta com algumas vinhetas incidentais e destaque para belo arranjo de “Caminhos Cruzados” de Tom Jobim e Newton Mendonça.

No conceito de Carlos Palado, esta adaptação em particular do texto de Nelson Rodrigues é recheada de sentidos reversos, paradoxos tão significativos como enxergar sem ver. Seu discurso deixa claro que, acima de tudo, o processo criativo é de desconstrução. Cita neologismos como “desiluminação”, “dessonorização”. Ele precisa preparar toda a sala para que o público possa fruir a interpretação de atores cuja aparência o espectador só percebe na hora dos aplausos. A impressão que fica é que, doce ironia, somos analfabetos em matéria de olhar.

 

CULTURA AO PÉ DO OUVIDO

E como tudo isso é captado pelos deficientes visuais que frequentam cada vez mais as atrações do roteiro cultural da cidade de São Paulo? Desenvolvida na década de 1980 no Reino Unido, a audiodescrição é o guia do cego nos mais variados tipos de eventos culturais. Espécie de interpretação (os aparelhos usados, um receptor e fones de ouvido, são os mesmos, inclusive), a audiodescrição se encarrega de passar ao espectador cego aquilo que só poderia enxergado. Lívia Motta é pioneira da matéria no Brasil. Sua empresa, a Ver Com Palavras, oferece cursos e consultoria em audiodescrição para companhias e organizações que precisam ou querem oferecer o serviço a seu público espectador.

O trabalho do profissional de audiodescrição não começa apenas com o espetáculo de fato. As pessoas ainda adentravam o Auditório do Ibirapuera e ouço Lívia ler o texto do programa. “Baseada na versão de Alexandre Dumas (pai) de um conto infantil de E. T. A. Hoffmann – O Quebra-nozes e o Rei dos Camundongos –, a obra é um dos três balés de autoria do compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky.

O médico e prefeito da cidade, Jan Stahlbaum, organiza uma grande festa de natal…”. Ao final da sinopse, segue-se a enumeração das personagens e seus respectivos intérpretes: “Clara Drosselmeyer é a bailarina Geyza Pereira. Geyza é morena, olhos um pouquinho puxados, estatura média, dentes muito brancos”. Após a descrição dos principais bailarinos da companhia, Lívia descreve o cenário que predomina toda a primeira parte do balé e depois dá um breve histórico da sala. Ou seja, serviço completo para receber o deficiente visual e atendê-lo da melhor forma possível.

Apenas duas semanas depois, Lívia também poderia ser ouvida nas duas sessões com audiodescrição da temporada de O Duelo de Anton Tchekhov pela mundana companhia no Centro Cultural São Paulo, desta vez com uma companheira de cabine, Gilmara. O espetáculo teatral espetaculaimpõe uma dificuldade a mais para o intérprete, que é a de não se mesclar às falas das personagens. “Nesse caso, eu preciso atrasar a descrição das ações ou antecipá-las, mas tomando cuidado para não estragar nenhuma surpresa”, explica Lívia Motta. O trabalho da audiodescrição é o relato de uma série de ações e estados no palco. Cada palavra falada por Lívia carrega o espírito do momento cênico em que está inserida.

Se a menina Clara abraça o boneco quebra-nozes com um sorriso estampado no rosto, a felicidade da protagonista está na só na descrição, mas na voz de Lívia. Se os ratos chegam para amedrontar, a ameaça não poderia ser mais nítida no tom de voz que chega pelos fones. Ivan Laiévski e Atchmiánov apresentam-se para o duelo do título e é possível ouvir toda a preparação para o desfecho do texto de Tchekhov em minúcias, com destaque para os objetos e aglomerações entre as demais personagens. Nadiejda Fiódorovna é interpretada por uma Camila Pitanga em histeria e delirante, que rola constantemente pelo piso e sofre intensamente as reviravoltas de seu destino. E o cego percebe tudo isso graças à habilidade das intérpretes em traduzirem o visual para seu universo. O Duelo tem mais de quatro horas de duração, e o trabalho da intérprete de audiodescrição é extremamente ativo conforme mais ações ocorrem simultaneamente no espaço cênico, e ganha relativo descanso nos diálogos mais longos e textuais.

Os sinais de que a audiodescrição ganha espaço no roteiro cultural da cidade são vários, desde o bom preparo dos organizadores e funcionários dos locais que abrigam os espetáculos, até a presença e integração natural do cão-guia na plateia (eram dois, de grande porte, em uma função de O Duelo). Ao término do espetáculo, Lívia e Gilmara são chamadas à arena do Espaço Ademar Guerra do Centro Cultural São Paulo para também receberem os aplausos de todo o público. Um reconhecimento que, senão pode ser visto por todos, pode certamente ser sentido e usufruído por uma parcela da população que prestigia e participa cada vez mais da vida cultural da cidade.

Licença Creative Commons
Integração: Um novo olhar de Guillermo Gumucio está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter