A vida e as mortes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão 

Mojica não é apenas um autor, um homem de cinema que criou todo um universo dentro do gênero do horror. Trata-se de um gênio

Postado dia 16/11/2015 às 08:35 por Peterson Queiroz

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Em 2006, através dos produtores Paulo Sacramento e Caio Gullane, tive o privilégio de ingressar na equipe do longa-metragem em película 35mm “Encarnação do Demônio” – o aguardado retorno de José Mojica Marins. Foi minha maior experiência no cinema, tendo trabalhado ao longo de três meses ali executando todo o tipo de tarefa em todos os setores da criação. O que mais se pode falar sobre este que é, sem dúvida, um dos nossos maiores mestres do cinema brasileiro? Que nunca o havia visto desta forma até ler “Cinema de Invenção”, de autoria de Jairo Ferreira.

Vejam que até então eu era apenas um carinha muito apaixonado pelo cinema, mas que ainda não conhecia a fundo o nosso cinema, tendo crescido sob a luz do velho e bom filmão norte-americano (sobretudo dos anos 60, 70 e 80) e também a de vários mestres europeus como os alemães Herzog, Wenders e Fassbinder, dos italianos Antonioni, Fellini, Scola, Rosselini e Monicelli, dos franceses Godard, Truffaut e Louis Malle, além de Polanski, Tarkovski, Peter Greenaway, Kiarostami, Kurosawa e Ozu.

De modo que eu tinha, digamos, um paladar relativamente apurado. E talvez até demais pra ver aquele amontoado de bestas-feras toscas em preto e branco sem, do alto de minha arrogância juvenil, achar um “grande exagero” o apreço de tantos pelo cinema de Zé do Caixão como um autor sério – e, claro, sentenciei isso sem ver sequer um filme dele, como é de praxe com pessoas metidas a besta como eu era. Porque, quando li Jairo dizendo que talvez ele seja nosso maior mestre, fiquei intrigado e só então decidi conferir. E continuei não gostando de seus filmes – talvez porque não tivesse como apreciar aquilo depois de tantas referências tão distantes daquele desfile mórbido e precário que Mojica oferecia como um banquete para a horda de fãs sedentos por algo realmente original. No entanto, há algumas questões muito importantes que eu não considerava, mas que elencarei a seguir.

M12231676_10207614087540791_338361369_nojica não é apenas um autor, um homem de cinema que criou todo um universo, dentro do gênero do horror. Trata-se de um gênio que, de um modo absolutamente original, criou uma espécie de expressionismo barroco, calcado em nosso sincretismo religioso, fundando toda uma representação do macabro diretamente do 3º mundo que ganharia o mundo, conquistando até a admiração de outro grande nome do gênero: George Romero. Como Roger Corman, Mojica também escrevia, dirigia, produzia e atuava nos próprios filmes sempre com o mínimo de condições, criando uma personagem que ganharia o mundo do mesmo modo que… Charles Chaplin. Mas Mojica fez tudo isso sem nunca ter tido nem 10% dos recursos que o criador de Carlitos teve nas mãos, movimentando multidões tanto pra ver seus filmes como também para produzi-los (em seus quase folclóricos “testes de ator” envolvendo choques elétricos e toda sorte de animais nojentos como baratas, ratos, cobras, aranhas, etc).

Mojica ainda fez tudo isso em plena ditadura militar, sendo que, por exemplo, seu “O Despertar da Besta/Ritual dos Sádicos” (1969/70) acabou levando mais de 10 anos para chegar às telas – ainda assim apenas em mostras, sem nunca ter sido lançado comercialmente e com os generais não contentando-se apenas em engavetá-lo: queriam destruir inclusive os negativos, aniquilar a obra.

Assim, convidado pelo Sociedade Pública para iniciar um contato com os amantes do cinema porque, de certo modo, me inspirei na capacidade de produção do mestre do terror (e também em Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, além do grande Glauber Rocha) para tentar alavancar a produção de cinema do extremo leste paulista (região do Alto Tietê), não havia como inaugurar esta missão sem falar de nosso grande herói, conhecido no mundo todo como Coffin Joe, e que agora ganhou exposição no MIS – Museu da Imagem e do Som (onde são apresentados materiais de seu último filme, no qual tive a honra de ser creditado como estagiário de produção, e também de outros mais de 400 itens – como fotografias, objetos cênicos, figurinos e trechos de filmes – que relatam peculiaridades do cineasta: como ter sido candidato a vereador, entre outras histórias). Por tudo isso ele é, sim, um de nossos maiores mestres do cinema brasileiro autoral e independente. Mas recentemente deu entrevista à folha dizendo que será logo apagado pela figura que criou, como se seus feitos como homem de cinema fossem ofuscados pela criatura mítica que o marcará para sempre. Mas, no que depender dos amantes do cinema e dos novos cineastas que fazem a lição de casa e sempre buscam boas referências para o seu trabalho, de modo algum, caríssimo mestre. Viva José Mojica Marins – o gênio por trás de Zé do Caixão!

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Sobre o Autor

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Peterson Queiroz

Peterson Queiroz é cineasta, ator e dramaturgo. Estudante de filososia e amante de literatura beat.

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