A síndrome do discurso da “sofrência”

A comunicação com o público que quer ver arte depende também da nossa capacidade de avançarmos nos discursos e partir para uma prática efetivamente franca e aberta

Postado dia 20/10/2015 às 12:51 por Cidão Fernandes

Entrevisa com o Ator e Modelo Philip Morgan (2)

Não é segredo pra ninguém que fazer arte – qualquer que seja – no Brasil é um ato de coragem. Não somente pela busca da estética e identidade do artista, mas pelas dificuldades enfrentadas para que suas produções aconteçam com qualidade e alcance que todos os envolvidos almejam. Falta grana pessoal, grana privada e grana pública pras as coisas acontecerem. Falta reconhecimento, parcerias sólidas e investimentos de base na educação para que todos entendam o quanto é importante produzir e usufruir de experiências culturais. Falta um monte de coisa. Até aí nenhuma novidade.

Mas é preciso iniciar uma conversa séria e pública (sim, pública!) sobre essa onda que assola as produções artísticas há décadas: o discurso do sofrimento heroico em se manter artista e discursar isso como uma ferramenta de institucionalização da “sofrência” em nome de conquistas a todo custo de editais públicos e privilégios vários.

Vamos aqui pactuar que quem decidiu fazer arte fomos nós. Ninguém nos tirou à força da nossa cama quentinha para nos obrigar a fazer teatro, música, artes plásticas ou o que quer que seja. É duro admitir isso, mas é verdade. Às vezes, parece que a maior parte da classe artística se esqueceu disso. Mas sigamos…

Obviamente que devemos exigir mais equilíbrio entre os interesses privados e públicos para que a arte realmente se potencialize, mas não devemos nós, que escolhemos por livre e espontânea vontade – ou necessidade em ser feliz – sermos artistas, exigir do poder público investimentos em nós se não estamos dialogando com a comunidade no nosso entorno, estabelecendo padrões de qualidade perceptíveis em nossas produções, nos interessando realmente pela presença de público e mantendo nossa ética em favor daquilo que os nossos discursos já fazem há anos.

Se não há público para nossas atividades, deve-se investigar sobre isso para além do “a grana do edital não dá pra divulgar direito”, “a grana do edital não dá pra nada”, “precisamos de mais grana dos editais para alcançar mais pessoas”, “as pessoas não se interessam por arte local”, “são sempre os mesmos que vem ver as nossas coisas”. Se não há público então que lutemos por ele. Que o façamos entender o quanto é importante e que conheça nossa realidade não somente nas falas, mas também nas nossas práticas. A comunicação com o público que quer ver arte depende também da nossa capacidade de avançarmos nos discursos e partir para uma prática efetivamente franca e aberta.

Se há falta de público para a arte então é porque há falta de práticas sinceras com a plateia que nos vê. Apesar de vivermos no capitalismo e termos contas a pagar, o público não tem nada a ver com isso. O nosso ofício é uma missão e não uma busca por privilégios de migalhas e distorções de valores em nome da continuidade do meu grupo ou carreira artística.

A arte é mais. Se nos submetermos ao menos, daqui a pouco nem o discurso da “sofrência” engana o público, que é generoso, mas também é sábio. Aliás, aprendi que o público é mais sábio que nós.

Mas até aí, nenhuma novidade.

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Sobre o Autor

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Cidão Fernandes

Ator, diretor teatral e produtor artístico. Diretor Geral do Teatro da Neura, grupo com 11 anos de trabalhos sediado em Suzano. Militante cultural e curioso.

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