A sedução do terrorismo

Jovens ocidentais são presa fácil para os psicopatas do Estado Islâmico; o Ocidente precisa de uma visão estratégica sobre o assunto que vá além do militarismo

Postado dia 25/11/2015 às 00:06 por Janaína Leite

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ilustração: “La Grande Odalisque”, Jean Auguste Dominique Ingres, 1814

 

Nasceu para virar um clássico, e virou, a cena da adolescente mineira que, após receber um monte de sopapos da amiga no meio da rua, levanta-se ajeitando os cabelos, faz pose de super-heroína e provoca a oponente: “Já acabou, Jéssica?” Incrível. Lara, a autora do bordão, envolvida na fama súbita, deve estar em plena curtição de sua onda de popularidade, mas dificilmente tem ideia da real amplitude de seu feito. Ela conseguiu aos 14 anos o que inúmeros cientistas sociais, sociólogos, economistas, historiadores e jornalistas sequer tentaram: condensou os valores de uma civilização em três palavras, dois segundos e um queixinho erguido.

O modo de agir que desperta a admiração social estava inteiro lá, na pose afetada e no tom de voz dramático daquela mocinha. “Já acabou, Jéssica?” significa, na prática, uma lista de outras sentenças. “Eu não me rendo, luto até vencer”; “pouco importa o quanto o adversário pense que pode me subjugar, ele descobrirá que suas investidas jamais serão o bastante”; “eu sou forte e resiliente, enquanto o outro é um fraco que deve ser confrontado”; “revidar de alguma forma é preciso”; “mais importante do que o ocorrido é a percepção que eu faço os outros terem sobre o ocorrido”; “em um momento onde tudo é filmado e fotografado, não basta acontecer, o que vale é ‘imitar’ e ser imitado”.

Lara, o mito, a diva, apareceu para que todos recordassem uma regra simples: jovens adoram demonstrações de poder e autoconfiança. Eles identificam-se com exibições do tipo. Propagam-nas sem pestanejar.

Tal propensão, quando transportada a cenários extremos, pode ser assustadora. Radicalismos ideológicos, por exemplo. Quem sabe como o Estado Islâmico alicia jovens pela internet, por meio de vídeos onde os jihadistas são glamourizados e transformados em “guerreiros de Alá”, compreende a fundura do problema.

A repórter francesa Anna Erelle sabe. Durante um período considerável ela conversou virtualmente com Abu Bilel, francês radicado supostamente na Síria e um dos europeus mais próximos a Abu Bakr al-Baghdadi, o principal homem do Estado Islâmico.

Usando uma identidade falsa, a da jovem muçulmana Mélodie, a jornalista foi abordada em uma rede social por Bilel, que, sem saber com quem tratava, acabou se interessando por ela e pedindo sua mão em casamento, sob as juras de uma vida de alegrias em Raqqa, a cidade do território sírio escolhida como a capital do califado que o Estado Islâmico pretende em espalhar pelo mundo.

Os diálogos e as tratativas entre a personagem e o matador, sempre testemunhados por um fotógrafo, transformaram-se em um livro-reportagem publicado no Brasil pela Editora Paralela, chamado “Na Pele de Uma Jihadista”.

As informações trazidas por Erelle dizem respeito a um mundo globalizado, palco onde arma-se uma bomba-relógio a partir da combinação de um fator simples e outros três bastante complicados.

O simples é também o item óbvio. Estado Islâmico e seus congêneres, como o Boko Haram e o Taliban, são excelentes meios para psicopatas com altas doses de sadismo exercerem suas piores características publicamente, sendo louvados dentro de seu grupo. Provavelmente serão deles as posições de comando e proeminência na hierarquia terrorista, mesmo que para alguns, com traços narcísicos exacerbados, as características pessoais impeçam longa permanência no alto do ranking.

Os outros três pontos derivam da lei de interação — onde quer que exista um psicopata, haverá codependentes. É possível que o vazio existencial resultante da dissolução do antigo modelo de família, do fracasso na inclusão sócio-econômica dos menos favorecidos e da virtualização das relações tenha levado o Ocidente a tornar-se um celeiro de presas fáceis para monstros que usam o nome de Deus? Sim, é.

Na tentativa de conquistar Mélodie, a personagem inventada pela jornalista Ana Erelle, Bilel apresenta-se como um homem corajoso, respeitado pelos pares, dono de muito dinheiro e, garante, com testosterona suficiente para fazê-la esquecer dos pais, dos amigos e da vida em geral. Ele frequenta cyber cafés e gosta de exibir seus objetos, especialmente as armas. Faz insinuações de cunho sexual, traça planos de vida idílica com a amada, anda vestido com roupas de boa marca.

Nada distante da forma como boa parte dos homens jovens e comuns, ocidentais e não religiosos, estimaria pavonear-se, exceto o fato de que suas as armas estão restritas aos videogame.

E a moça do outro lado da linha? Ana Erelle construiu Mélodie a partir de diversas entrevistas com jovens muçulmanas. Delineou uma garota que não tem muitos recursos, crescida no subúrbio sem conhecer o pai. Na turma ela é a “amiga que sabe ouvir”, pois tenta calar os próprios males. “Não quer mal a ninguém, só a si mesma”. Romântica, volúvel e imprevisível, entedia-se frequentemente. Procura um grande amor, um companheiro “forte o suficiente para lhe dar audácia e energia de viver”. Teme entregar-se a algum bêbado, ou irresponsável, ou violento, ou traidor, como muitos dos homens que conhece. Fantasia com alguém que inspire uma “confiança absoluta”.

A moça não se acha bonita. Sente-se aliviada por usar costumes pesados e largos, de modo a não ser obrigada a bancar a sexy, ou ter seu corpo e suas roupas comparadas com os de outras mulheres. Orgulha-se de andar com o véu; faz crer que os outros veem nela algum mistério. É curiosa e gostaria de ser mais culta, mas receia errar e ser julgada, por isso sente-se feliz quando recebe instruções e interpretações fáceis de entender.

Mélodie é uma criação francesa, mas poderia ser inglesa, africana, japonesa, brasileira. Tem 20 anos, mas está longe do absurdo encontrar clones seus em mulheres de 30, 40 ou 50 (em muitos casos, a fragilidade emocional se perpetua). Carrega um Corão, mas outras iguais a ela agarram-se à Bíblia ou a algum outro livro sagrado com igual fervor. Entende as coisas literalmente como costumam ser as pessoas pouco educadas aqui ou no Rajastão. É uma mulher que almeja a estabilidade, mas não sabe como obtê-la, vendo-se paralisada no vão escuro que há entre a dureza da realidade e os sonhos de princesa. Mélodie é um fruto do tempo atual e de muitos tempos acumulados, inclusive o seu próprio tempo, o interno.

Como todo o predador, Bilel fareja a vulnerabilidade da caça. Ao casar-se com sua prometida, diz, ela passará os dias em uma linda casa, divertindo-se com suas amigas. Se quiser, está livre para ajudar as crianças necessitadas. O marido lidará com todos os aspectos da vida prática, com toda as provações do mundo externo. Ela ainda poderá brincar de soldado e ter sua própria arma.

Em troca, basta Mélodie prometer obediência ao marido e ao Estado Islâmico, organização que, segundo ele, objetiva apenas uma retomada de pureza no comportamento e no pensamento daqueles que acreditam nas palavras de Maomé. A guerra pelo califado não passa de um estágio.

“Vocês, mulheres da Europa, são maltratadas e usadas como objetos. (…) Os homens exibem vocês como troféus. O maior número possível de pessoas precisa se unir ao Daesh [sigla para o Estado Islâmico usada nos países árabes], mas, em primeiro lugar, as que são mais maltratadas, como as mulheres”, diz Bilel à certa altura do livro.

Quando Mélodie faz perguntas, o terrorista corta qualquer indagação. “Você só precisa saber o seguinte: o verdadeiro Islã é a restauração de um califado e o Daesh é o único que se dedica a essa causa. Os outros não passam de infieis.” Inexiste espaço para dúvidas reais na cabeça de um manipulador. Suas indagações constantes estão sempre restritas a coisas prosaicas.

Sobre os conflitos, Bilel desconversa. “Irmã, as guerras sempre precedem a paz. E eu quero a paz, conforme manda Alá.” Quer a paz, mas adora mostrar-se armado até os dentes e ostentar o celular repleto de fotografias das cabeças decepadas em uma tarde de trabalho. “Você pode matar, se for para livrar o mundo de uma vida humana que não tem respeito por Alá”, explica.

A maior parte das vítimas do Estado Islâmico, vale sublinhar, está no Oriente e é composta por muçulmanos que não querem aderir ao barbarismo.

A moral do extremista, duvidosa, típica da sociopatia, também se manifesta em relação às posses. “O capitalismo, menina, é o câncer do mundo”, sentencia. O fato de o Estado Islâmico produzir e negociar mais petróleo que o governo sírio é deixado de lado, bem como todas as outras atividades paralelas e ilegais do movimento, como o tráfico de armas e de pessoas. A luta de classes é algo complexa: “Enquanto arriscamos a vida, vocês passam os dias em preocupações fúteis. Ser religioso significa lutar para impor seus valores. (…) A exploração do homem pelo homem, você sabe o que é isso?” Bilel e seus símiles certamente sabem.

Mélodie quer ser rainha e odalisca de um sheik amoroso, que só tenha olhos para as batalhas quando está fora de casa. Bilel oferece isso a ela. Mesmo que algo em seu íntimo avise que a promessa é uma armadilha, que tudo não passa de mentira, o pedido de casamento é a chance de arriscar que a moça tanto esperava.

Aqui, um minuto. A tática do Estado Islâmico passa pela sedução, uma palavra que nasce do verbo latino “seduco”, que significa “levar à parte”, muitas vezes entendida como “desviar do caminho”. “Um sedutor é uma pessoa que te leva à parte que ele quer”, diria o filósofo romeno Gabriel Liiceanu. “O sedutor seduz pelo mundo que ele abre e que é um mundo fora do comum”.

Entretanto, “qualquer sedução cai em um terreno preparado pela expectativa e desejo”. O sedutor personifica uma realidade que aplaca aflições secretas ou inconscientes, um cotidiano mágico, diferente, empolgante, que só pode ser descortinado por ele próprio, “porque, ao contrário do seduzido, o sedutor conhece o objeto que o seduzido deseja conhecer”.

Diante de tal arrazoado, a pergunta: faz sentido a manutenção indefinida de ofensivas armadas contra o Estado Islâmico, operações militares que assassinam e machucam milhares de inocentes, sem que exista um ação complementar, uma oferta de bálsamo para as feridas emocionais dos jovens passíveis de serem aliciados e de virarem carne moída nas fileiras sanguinolentas do terrorismo?

Ao jogar bombas que estilhaçam as cabeças sírias, os governos unidos contra o Estado Islâmico pretendem mandar um recado — “qualquer um que ousar se unir aos radicais irá morrer de forma dolorosa”. Talvez seja preciso levar em conta, todavia, que os seduzidos já vivem imersos em uma vida morta, de dor psíquica e, portanto, arriscar a luta por um mundo onde todos devem se submeter a um único Deus inquestionável não é algo tão sem pé nem cabeça assim. Esses moços não pensarão sobre seu extermínio e sim como, depois dos ataques, levantar-se-ão em pose impecável, com seus Kalashnikovs em punho e os queixos projetados: “Já acabou, Ocidente?”

Passou a hora de a humanidade entender que nenhuma dominação unicamente pela força termina em paz sólida. Ao contrário. Afinal, Leste e Oeste não têm uma professora tão bacana quanto a de Lara e Jéssica para garantir que ambos estarão em acordo, bonitos, sorridentes e bem iluminados na foto do dia seguinte ao enfrentamento. Infelizmente.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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