A praga do gerúndio

Além de ser um péssimo hábito de linguagem, o uso do gerúndio pode caracterizar pontos negativos na personalidade de uma pessoa?

Postado dia 22/02/2016 às 01:23 por João Anatalino

gerúndio

Foto: Divulgação/Internet

Fui a uma repartição pública verificar o andamento de um requerimento que eu havia feito. A funcionária disse: “Estamos dando andamento nele”. Depois fui à oficina mecânica, onde havia deixado meu carro para uma limpeza nos bicos de injeção. Fazia dois dias que estava lá e a promessa foi que o serviço seria feito no mesmo dia.

“Estamos fazendo o serviço” disse o responsável pela oficina. Cheguei ao escritório, abri os e-mails e li que alguém estaria me “enviando” nos próximos dias algumas informações que eu havia pedido.

Odeio gerúndios. A mente de algumas pessoas só sabe trabalhar com essa forma verbal. Se alguém diz “estou fazendo” é por que certamente não está fazendo nada. Se lhe respondem “está andando”, é por que a coisa está parada. Você já deve ter percebido que essa conversa é própria de gente que trabalha em determinadas instituições, ou empresas onde as coisas não andam, ou quando andam, perdem longe para tartarugas e bichos-preguiça.

Não é culpa delas. É o sistema que faz com que suas mentes trabalhem assim. Cartorários, funcionários públicos, advogados, gente nos fóruns e tribunais, todos que, de alguma forma, trabalham com essa máquina emperrada que são as repartições públicas do país, tendem a “programar” suas mentes pelo gerundismo. Tenho certeza que eles gostariam de dar respostas mais positivas, mas a burocracia é essencialmente gerundista e eles acabam se “conformando” com esses padrões.

O problema não é o gerúndio em si. Ele é apenas uma forma verbal que expressa uma ação que devia acontecer no tempo presente. A questão é a incerteza, a indefinição que nele se embute, quando ouvimos essa forma verbal e ela não nos dá a menor ideia do resultado. E acaba servindo de desculpa para tudo que deveria ter sido feito e não foi.

“Maria, o almoço está pronto? Tá saindo, patrão.”

“Menino, você fez a lição de casa?  Tô fazendo, mãe.”

“Querido, já resolveu onde vamos passar as férias? Tô pensando, amor.”

Pessoas proativas, que resolvem as coisas, usam poucos gerúndios. Suas formas verbais geralmente estão na voz ativa para designar as ações. “Seu processo será despachado até o dia”… Seu carro não ficará pronto hoje porque não temos a peça… Se quiser levá-lo à outra oficina, recomendo… (Claro que isso deverá ser dito na hora apropriada, não dois dias depois).

De qualquer modo, tome cuidado com o gerundismo. Até Jesus Cristo nos advertiu a esse respeito: “Seja o teu falar sim, sim, não, não, pois o que daí passa procede do mal.” Se acha que não vai dar para fazer, diga que não dá. Não enrole. Se não fez por alguma razão, diga por que não fez, não diga que está fazendo o que nem ainda começou.

É pela linguagem que a nossa mente é programada. Nossas formas verbais refletem programas neurológicos utilizados pela nossa mente para gerar os nossos comportamentos diários. E quanto mais as usamos, mais reforçamos esses comportamentos. Preste atenção em como a pessoa fala.

Se ela gosta de gerúndios, pode ser que você esteja falando com um baita enrolador.

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Sobre o Autor

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João Anatalino

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário e escritor com 10 publicações autorais.

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