A política da farofa

Os caciques da retomada democrática mostraram-se incapazes de escolher e criar seus herdeiros políticos

Postado dia 08/01/2016 às 00:01 por Janaína Leite

Brasilia catedral metropolitana

Impressiona o pugilato de rua que tomou conta da política brasileira já na primeira semana do ano: todo mundo brigando contra todo mundo em todos os partidos e em todas as instâncias de poder. Mais extraordinário ainda é observar que a barafunda tem raízes antigas e profundas, fincadas no coração das legendas há pelo menos uma década, muito além de meras batalhas circunstanciais.

Não se trata de o PT apenas ter acordado para as tolices e a surdez de Dilma Rousseff. Nem de somente o PMDB dividir-se entre os do Norte e os do Sul, com parte da tropa seguindo atrás do presidente do Senado, Renan Calheiros, e outra parcela cerrando fileiras com o vice-presidente, Michel Temer. Menos ainda de o PSDB trincar-se sob o peso de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra.

Embora todas as divisões acima realmente estejam em curso, o que chama atenção de verdade é como os grandes caciques da retomada democrática mostraram-se incapazes de escolher e criar seus herdeiros políticos. Na lista de motivos, talvez estejam um tanto de soberba e de desconfiança patológica, junto com a tendência de colocar os aliados uns contra os outros e a lambuzeira com o poder.

O caso mais gritante é o dos petistas, de longe os mais bem-sucedidos na construção de um partido forte e representativo. Dez anos atrás sua agremiação era um manancial de políticos conhecidos, donos de sólida base eleitoral, com facilidade de trânsito na mídia, no Congresso e nos meios acadêmicos. Hoje, o que se vê é um desarrimo absoluto de nomes.

O massacre não aconteceu à toa. Boa parte do problema deve ser debitado da conta de Lula, que não pensou duas vezes em oferecer as cabeças ao seu redor para se livrar dos diversos escândalos que respingaram em sua cadeira. Aliada à necessidade de bodes expiatórios, a personalidade do ex-presidente, característica dos escorpiões, deixa entrever uma paranoia macbethiana. Nenhum dos que poderiam lhe desafiar dentro do PT sobreviveu.

Restou a Lula Dilma Rousseff, herdeira de Leonel Brizola, mulher de gênio firme, mas uma figura política menor em se tratando de negociações políticas ou visão estratégica, como o país constatou a duras penas, depois de minadas as bases da economia. A presidente reciclou as promessas não cumpridas de 2015, mas nada indica que terá força (nem vontade real) de arregimentar o apoio necessário no Legislativo para cumpri-las.

Constrangedora, aliás, a comparação das últimas falas da presidente com as análises da mídia internacional, em especial a da revista Economist, uma das publicações econômicas mais importantes do mundo. Têm-se a impressão que a Dilmalândia e seu governo nada têm com o Brasil.

Fernando Henrique Cardoso não se saiu melhor que Lula. A tentação de agir como observador altaneiro e de manter consigo a avaliação final sobre os destinos do país ajudou o PSDB a virar um ninho de hárpias – seus filiados ilustres laceram-se com garras de rapina enquanto mantêm a sedução de um pretenso comportamento elitista. O resultado é que vira e mexe o ex-presidente atua como o vovô Saverio do filme “Parente é Serpente”: tira a enguia da sala de visitas, enquanto o veneno está mesmo é na saliva da família.

O PMDB, por sua vez, sempre foi um ajuntamento de forças irregulares, mas elegeu dois presidentes por vias tortas desde a redemocratização, José Sarney e Itamar Franco (este último falecido em 2011).

Roseana Sarney está fora de Brasília. E ninguém pode dizer que o deputado Sarney Filho é um político de primeira grandeza. Os demais nomes que costumavam importar nos quadros do partido — Renan Calheiros, Jader Barbalho, Geddel Vieira Lima, Ney Suassuna, Pedro Simon, Nelson Jobim, Jarbas Vasconcelos, Michel Temer – também comungam da esterilidade política dos ex-presidentes. Seus afilhados têm importância barbaramente reduzida em relação aos padrinhos.

Agora existe a possibilidade de o PMDB fazer um terceiro presidente, com a ameaça do impeachment de Dilma Rousseff. Mas qual é a orientação do PMDB? Coalizão sempre, embora nunca se saiba direito com quem. O “Centrão” da Constituinte eternizou-se e espalhou tentáculos por todos os lados.

É razoável supor que os peemedebistas serão pragmáticos. Tendem a seguir os políticos agasalhados nos Executivos regionais, como governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, e apoiar Dilma em troca de dinheiro para cobrir buracos gigantescos na contabilidade de seus respectivos estados. A dúvida é se esse apoio continuará a ser bancado após a liberação dos recursos. Para muita gente, não compensará atrelar a própria imagem em ano eleitoral à de uma presidente com índices pífios de aprovação. Dilma terá de enrolar os governadores o máximo possível, ou continuar oferecendo-lhes vantagens. Como? A ver.

Sobram Marina Silva e a Rede, que não brigaram de maneira significativa com ninguém, apostando no estilo “faz-de-conta-que-não-estou-aqui”, a despeito de começarem a defender publicamente um impeachment via Tribunal Superior Eleitoral. Por quanto tempo será válida a estratégia de mesclar-se ao papel de parede e falar a veículos pequenos, tendo uma repercussão limitada, contudo, é outra incógnita.

As lideranças surgidas dos movimentos de rua, fora dos partidos, dançam ao sabor do vento. A princípio não mostraram capacidade de entender que a política nacional está mais para um quadro de Bosch que para os traços de Pedro Américo. O resultado são fotos constrangedoras ao lado de políticos que se fazem de muitos preocupados em incorporar uma suposta oposição, mas têm mesmo a atenção engatada nas manchetes policiais.

De modo que, ao que se depreende numa primeira olhada, o Brasil sofre de total acefalia político-partidária.

Em paralelo a essa farofa toda, a economia derrete a olhos vistos, ajoelhada diante de um ministro da Fazenda dono de ideias que poderiam ser publicadas na extinta revista Manchete e de um Banco Central sinônimo de incompetência.

Dois mil e dezesseis, danado. Promete.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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