A ópera

Postado dia 03/09/2015 às 17:32 por Fernando Maque

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Num sábado chuvoso, melancólico, por volta de 09:00, acordo, abro a porta do meu quarto, me dirijo ao banheiro ainda sonolento, ainda cambaleando e tropeçando em minhas meias adolescentes e desiguais, e ouço ao longe, mesmo com as portas fechadas… Um piano triste… Firme… Valente…Era a minha mãe… Sendo ela mesma…

Acostumado às notas que invadiam a minha casa a qualquer hora, sem pedir licença, sem notarmos, sem avisar que aquela era a hora de música, não me importei com o que ouvia.

Não notei a música. Era comum… Era mais um dia de nossas vidas de Massaros e Duques.

Mas o piano… Insistente… Latente e dentro de mim… E minha mãe, como extensão do instrumento… A junção do que atravessa com o que conforta, me fez ir até a sala, curioso.

Ao abrir a porta, eu a encontrei com sua postura correta, sua cabeça a 45 graus quase que quando rezamos e louvamos em respeito à Deus. Seu busto frente às teclas, seus olhos bem fechados, cerrados em outros momentos e seus braços fazendo vento, inquietos, abrindo-se ritmicamente e seus dedos, ah… Seus dedos… Esses são um capítulo à parte.

Seus dedos de unhas vermelhas e com seu temperamento mais ameno, às vezes rosa… Seus dedos se confundiam, mas não a precisão com a qual ela os controlava.

Era um ballet de falanges… Já habituadas a dançar ao som da própria música que produziam.

Seus indicadores dançantes, me indicavam que ali, naquele momento sublime, eu estava sendo apresentado à uma das coisas mais belas e profundas que a minha pouca vida ainda vivida, aos onze,  tinha me dado.

A minha mãe… Havia me dado a ópera.

Meus olhos tentaram entender o que minha mãe fazia ali, tocando “essa” música tão profunda e tão cheia de histórias e que me parecia não ter fim, infinita melodia. Meus ouvidos não compreendiam a amplitude, pois eram muitas notas, eram acordes tão dissonantes e tão sustenidos que ainda ninguém havia me dito que assim como na vida adulta, tudo se sequencia, tudo segue seu curso natural, sem intercedências do acaso e devemos ter calma para chegarmos ao final… Sobrevividos… Vivos… Assim como a vida da música… A vida daquela ópera.

Sentei-me ao seu lado e fui compreendendo o propósito daquela ópera tão invasiva ao meu coração. Fui entendendo, aos poucos, a razão da minha mãe se dedicar tanto à música e admirá-la tanto.

Aos poucos fui fechando meus olhos… E respirando lentamente… Lentamente… E calmo… Pude adentrar no universo e senti-me levado, quase em transe, minha alma se desprendeu do meu corpo franzino para flutuar… Eu quase que, ludicamente, podia ouvir as batidas do meu próprio coração. Eu fui sentindo um certo frio, quase que como um vento frio passando por mim e em segundos me tomava um conforto veraneio.

Numa subida melódica súbita, num arpejo contrariado, ela vira seus dedos da mão direita ao contrário da carne e com as unhas… Castiga o piano, sem pena das teclas, sem notar que o que a estende é o que ela exatamente bate. E ela volta, com a mesma força sem compaixão.

Ao final, meus olhos esbugalhados… Minha respiração já descompassada, ofegante e aflita, minhas mãos sem ter o que pegar, perdidas até encontrar as costas da Pianista Helenice e ampará-la.

Ao final… Eu amparei a minha mãe, quase que desequibrada… Entregue… Submissa… Repleta… Tomada… Inflada… De sua arte… Do que ela realmente era.

Eu havia acabado de compreender a ópera, e conhecer ainda mais, minha genitora, que me fez com amor… Berço… E música!

E foi desta maneira que ela me apresentou à ópera.

E é assim… Que ensinarei meus filhos a me conhecerem mais.

 

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Sobre o Autor

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Fernando Maque

Filho de uma exímia pianista, Fernando tem a música no DNA, na veia e faz dela sua razão de viver. Um artista ímpar.

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