A morte contradança

"Vou te encontrar, vestida de cetim, pois em qualquer lugar, espera só por mim..."

Postado dia 19/12/2016 às 08:00 por Rick Ferreira

morte

Foto: Reprodução

Girando entre tudo que existe,

Ela baila em pausa

Entre a matéria e o eterno repouso das possibilidades.

A morte tem a beleza

Que tem nenhuma outra tristeza.

Seu segredo é que espalha a verdade.

 

Ingrato parceiro de salão

Ela tem em mim.

De quem o tempo fugaz,

A cada novo rodopio entre casais,

Ri dos contratempos da charlatanice humana,

Que arrisca novos passos de fuga

Pari passo com a música que o ouvido espanta.

 

Mas não será a morte uma vida que transborda?

Assim como é o que fica?

Vida pura e desmedida!

O tempo, olhar quente

Que a morte põe sobre coisa, bicho, gente.

De imanente certeza,

De número quebrado e ímpar.

 

À exata hora de partir,

Difícil haver quem nasça pronto.

Antes dirão estar prestes,

A dizerem-se plenos, no ponto!

Sempre resta um trabalho a terminar,

Uma última ida ao banheiro,

Um levantar de sobrancelhas para o espelho…

 

Então aí vem ela…

Entra pela porta que fechada se quis.

Pega minha mão e nela põe o frescor dos ventos.

Embaralha meus pronomes,

Objetos sujeitos.

Conduz meu verbo transitivo desencarnado

À beira-mar de porto nenhum.

E comigo entra n’água…

 

Vamos nós de mãos dadas!

Agora somos a sós.

Silêncio e som

Entre pausa e movimento,

À procura de uma foz.

 

Ainda na viva rua d’outra margem,

Um cão segue ladrando,

Mas não chora mais.

Na cabeceira da cama

Dorme um livro inacabado.

 

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Rick Ferreira

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