A dependência química como crise transpessoal

A dependência química, muitas vezes é causada pela necessidade de uma pessoa encontrar nas drogas, a plenitude da consciência.

Postado dia 22/10/2015 às 12:02 por Sociedade Pública

drogas1

A dependência química é descrita por Stanislav Grof, em seu livro “Cura Profunda”, como uma forma de crise transpessoal (emergência espiritual).

Para Stanislav Grof, existem amplas evidências de que, por trás da ânsia por álcool ou drogas, há um desejo não reconhecido, de transcendência ou totalidade. Muitas pessoas em recuperação falam de suas incansáveis buscas por algum elemento ou dimensão que está faltando em suas vidas e descrevem suas procuras frustradas por substâncias, alimentos, relacionamentos, posses ou poder, o que reflete um esforço incansável, porém vão, para saciar seus anseios.

Grof percebe uma semelhança superficial entre os estados místicos e a intoxicação por álcool ou drogas pesadas. Os estados místicos descritos aqui são estados de ampliação da consciência atingidos através de meditação, respiração ou práticas e ritos religiosos. Tanto nesses estados místicos como nas alterações psíquicas por uso de droga há um acesso a outros níveis da psique. Porém, nos estados místicos, é possível ter insights e autoconhecimneto, porque há uma conexão com um centro organizador do psiquismo chamado de Self. O Self conduz e direciona a experiência para uma transformação interior que leva a um amadurecimento psicológico e à autocura.

Ambas as condições (estados místicos ou alteração por drogas) partilham a sensação de dissolução das fronteiras individuais, o fim de emoções perturbadoras e a transcendência dos problemas mundanos. Embora a intoxicação por álcool e drogas não apresente muitas das características dos estados místicos, como serenidade, numinosidade e autoconhecimento, os pontos em comum são suficiente para atrair os dependentes.

Um caso a ser mencionado é um paciente do importante psicólogo Carl Gustav Jung, que elaborou a teoria do inconsciente coletivo e tem relevantes estudos sobre o papel da espiritualidade no desenvolvimento psicológico do ser humano.

O paciente de Jung, Roland H., após um ano de tratamento psicológico com ele, teve uma recaída ao álcool. Jung então esclareceu para seu paciente que não havia esperança para seu caso e que sua única chance seria se juntar a uma comunidade religiosa e esperar por uma profunda experiência espiritual. Roland H. passou a participar de um grupo chamado Oxford, que enfatizava a autovigilância, a confissão e o serviço. Lá, ele teve uma experiência de conversão religiosa, que o fez se libertar do vício do alcoolismo.

Depois disso, Roland H. participou ativamente do grupo Oxford. Nesse grupo, destaca-se Bill Wilson, que teve uma poderosa experiência espiritual, levando-o a ter uma visão de uma fraternidade mundial de ajuda mútua entre alcoolistas (Alcoólicos Anônimos). Anos depois, Wilson escreveu uma carta para Jung relatando a importante influência dele para a história do AA. Em sua resposta Jung diz, a respeito de seu paciente: “Seu desejo por álcool era equivalente, em um nível mais baixo, à sede espiritual de nosso ser pela totalidade, expresso na linguagem medieval: a união com Deus.” Jung expressou que somente uma experiência espiritual profunda pode salvar as pessoas dos efeitos destrutivos do álcool. O insight de Jung tem sido confirmado pelas experiências do Programa de Doze Passos utilizado pelo AA.

No Brasil, o grupo Alcoólicos Anônimos atende pelo site www.alcoolicosanonimos.org.br, onde é possível encontrar um grupo próximo da pessoa interessada. Além do Alcoólicos Anônimos, outras atividades possibilitam uma transformação interior. Entre elas, a Respiração Holotrópica, do próprio Stanislav Grof, a Respiração do Renascimento, de Leonard Or, e diversas práticas meditativas.

 

 

Compartilhar:

Leia também

Assine a nossa newsletter