A cultura sem luz

O que está acontecendo com nossos museus, memoriais, centros de cultura em São Paulo?

Postado dia 11/01/2016 às 00:00 por Fabio Barbosa

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Foto: Divulgação/Internet – Pinacoteca de SP no bairro da Luz

Há diversos segmentos do turismo que vem contribuindo com o desenvolvimento turístico e muitos outros que estão surgindo, conforme a oportunidade de cada espaço. Os mais popularmente conhecidos são o turismo de lazer, ecológico, rural, religioso e o cultural. No entanto, há muito que fazer para melhorar o receptivo e novidades em cada segmento.

Mas vamos analisar o aspecto cultural do turismo e seus atrativos, onde venho observando uma grande mudança em diversos equipamentos culturais, no que diz respeito a museus, teatros, centros culturais. Há muitos espaços culturais sendo entregues à população para desfrutarem das atividades dos espaços. Mas a que preço quando se trata de espaços administrados pelo poder púbico? Tenho observado que os gestores públicos gostam de pronunciar a palavra turismo em todo o Brasil, dizendo que se trata do segmento que mais cresce no mundo, que é a salvação da economia de muitas cidades, entre outras ladainhas que não vale a pena repetir. A verdade é que quando precisam investir, um dos primeiros segmentos a serem cortados é o turismo e cultura.

Entendo que para uma cidade ser turística, ela precisa envolver sua população e o poder público buscar forma de estimular que a população conheça e valorize seu próprio espaço e assim poder indicar às pessoas que as visitam. Isso sim gera circulação de divisas na cidade. Mas o que dizer do poder público que fecham seus museus aos finais de semana? As desculpas são sempre as mesmas: não tem funcionário, não paga-se hora extra, etc. Então para que abrir um atrativo turístico, se no dia que as pessoas têm tempo para praticar seu lazer, é interrompido por respostas como estas?! No entanto, muitos espaços privados passam pelo mesmo problema e precisam se reinventar.

O que está acontecendo com nossos museus, memoriais, centros de cultura em São Paulo? O MASP passou por um problema grave de gestão financeira, o Museu do Ipiranga entrou em um processo de restauro de nove anos e será que precisava tanto tempo se tivesse manutenção constante, o Museu da Imigração pelo mesmo problema de manutenção ficou fechado por mais de três anos, parte do Memorial da América Latina pegou fogo. Todos passaram e passam processos de recuperação e/ou reorganização que ao meu entender não precisavam se realizassem manutenção preventiva e se tivessem gestores capacitados.

Após todas essas observações o que dizer da Estação da Luz, prédio histórico tombado pelos órgãos de preservação do município, estado e federação, ícone da memória ferroviária brasileira, um dos maiores pontos de visitação turística do estado, símbolo da arquitetura britânica no Brasil. São muitos os adjetivos para esse espaço que foi acometido de mais um problema de manutenção causando um grande incêndio.

Só pela questão histórica de sua implantação, já vale um belo roteiro turístico no bairro da Luz. A estação passou por quatro fases para se chegar até ao atual prédio. Primeiro em 1867 com a inauguração da Sao Paulo Railway Company – SPR, ou popularmente conhecida como a ferrovia dos ingleses, que a administraram por noventa anos. Depois uma segunda estação construída no mesmo local da primeira em 1880 e a terceira em 1901 quando oficialmente foi entregue o prédio com a torre do relógio que conhecemos. Porém, classifico aqui uma quarta fase, quando em 06 de novembro de 1946 a estação pegou fogo na face leste e com a reconstrução e restauro ganhou mais um andar.

O mais incrível é a similaridade da causa do incêndio. Veja o que foi publicado em 07 de novembro de 1946 no jornal O CORREIO PAULISTANO, a seguir: “O fogo ao que parece, foi provocado por um curto-circuito nas instalações elétricas do terceiro andar do edifício e se alastrou com incrível rapidez às dependências…”.

Hoje o que a imprensa tem publicado foi que com a troca de uma lâmpada houve um curto circuito e iniciou o fogo. Será que o problema repetiu-se 69 anos depois, com toda tecnologia e sistemas de segurança tão modernos? A certeza é que a mesma face leste queimou-se pela segunda vez.

Até quando veremos nossa memória ser destruída por parte da classe política que muitas vezes indicam gestores para determinadas pastas que não são de sua competência? Até quando teremos que ensinar parte da população a respeitar os espaços públicos? Quem sabe se um dia poderemos aprender com os britânicos que, para entrar na maioria dos museus do Reino Unido, não pagam valor algum, mas é sugerido aos visitantes que doem voluntariamente algumas libras que ajudará na preservação e manutenção. E o poder público incentiva e apoia as ações culturais implantada naqueles países.

Importante lembrar que o bairro da Luz é um grande núcleo turístico de São Paulo, pois lá há diversos atrativos turísticos culturais como a Pinacoteca do Estado, o centenário Jardim da Luz, Museu de Arte Sacra, Mosteiro da Luz, Igreja de São Cristovão, Vila Inglesa, Estação Pinacoteca (antigo prédio da Sorocabana que virou Dops) e Estação Júlio Prestes que abriga a Sala São Paulo. São muitos os atrativos a serem visitados. Fica a dica.

Então vamos refletir sobre os atrativos turísticos históricos de nosso país, fazer a nossa parte e cobrar de quem nós elegemos. Tenho certeza que o Museu da Língua Portuguesa voltará para o espaço onde nasceu, e a Estação da Luz ressurgirá com sua imponência e seu brilho secular, pois sempre há luz no fim do túnel.

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Sobre o Autor

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Fabio Barbosa

Consultor em Turismo pela THG Consultoria e Turismo. Turismólogo pela UNIP . Mestre em turismo pela Iberoamericana.

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