A culpa não é só da Dilma

Eis que a divulgação do PIB negativo e do orçamento deficitário para 2016 rasgou de vez as roupas da mentira: ao longo dos últimos anos, à corrupção endêmica e histórica existente no setor público somou-se total incompetência administrativa.

Postado dia 31/08/2015 às 22:26 por Janaína Leite

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Eis que a divulgação do PIB negativo e do orçamento deficitário para 2016 rasgou de vez as roupas da mentira: ao longo dos últimos anos, à corrupção endêmica e histórica existente no setor público somou-se total incompetência administrativa.

Os recursos coletivos foram torrados, os investidores debandaram, a inflação voltou, o desemprego só aumenta. Submetido a uma sofreguidão bestial por parte de quem deveria administrá-lo, o corpo do Brasil tornou-se esquálido e murcho, embora inchado nas entranhas, tal prostituta gabiru entregue à velhice precoce, tal morcego envenenado caído com as asas abertas. A nudez medonha faz com que alguns políticos saiam agora de seus caixões e chorem lágrimas reptilianas, como se não tivessem contribuído, eles próprios, integrantes do governo que sempre foram, para o desgoverno que aí está. Tomam-nos por idiotas sempre, talvez não de todo sem motivo, uma vez que há a iminência de um terremoto político-econômico de larguíssima escala e o grande objeto de discussão é uma moleca que viveu seu dia de heroína ao furar um boneco inflável.

Chega de tolice, senhores. A responsabilidade do beco em que nos metemos não é unicamente de Dilma Rousseff, a despeito de a presidente ter dirigido o jeep até o atoleiro. Qualquer um que esteja lendo este texto, é mais do que capaz de entender que Dilma e seu português cambaio, Dilma e sua ausência de lógica, Dilma e sua valentia teimosa são apenas o nosso próprio reflexo escandalosamente projetado. Os brasileiros não queriam ordem e progresso, queriam progresso fácil, milagreiro, sem obrigações. Isso vale do mais pobrezinho ao mais requintado — eu mesma consto do rol.

O problema é que até onde podemos recordar não existe avanço de um país sob tais condições e precisávamos ter levado isso em conta. Tão responsáveis (ou culpados, como queiram) quanto Dilma foram seus aliados, tanto os explícitos e voluntários (em maior escala), quanto os disfarçados e a reboque. Aqueles que defenderam que melhorar de vida era algo restrito a trocar a margarina por requeijão e comprar uma TV 42 polegadas em doze vezes sem acréscimo. Que engoliram por decisão própria a tese de que ir mais longe era sinônimo de o “proletário” visitar a família de avião sentadinho ao lado da “burguesia”; que defenderam os benefícios assistenciais como uma panaceia sem se preocupar com o tipo de família que é formada sem a oferta de educação de qualidade.

Aqueles que gritaram pelos direitos excluindo qualquer contrapartida em deveres. Os que colocaram a ideologia, o sectarismo e o apego partidário acima da realidade. Que fique claro: n’alguma medida, eles somos nós. Desde 2007 o Brasil está descarrilado na economia, mas nós, os ditos esclarecidos e escolarizados, aceitamos a cesta de loucuras como se os desmandos não nos dissessem respeito, como se não fôssemos nós, junto com nossos irmãos menos favorecidos, esses que alardeamos tanto tentar proteger, os que pagariam a conta de tantas fantasias. Na política a coisa é ainda pior. Ao escarcéu da compra de votos para a reeleição de FHC, fim dos anos 90, sucedeu-se uma linha de escândalos que abarcou de dólares na cueca a assassinatos de prefeito, de máquinas de bingo à maior petrolífera de capital aberto do mundo.

O resgate ético, promessa tão alardeada, esperança que venceria o medo, jamais aconteceu. E nós? Cobramos a sério os nossos representantes? Não. Nós compramos pipoca e assistimos aos depoimentos acontecidos nas CPIs como se fossem sessão da tarde. Depois nos cansamos e fomos mastigar nossa ração de milho torcendo pela Carminha de Adriana Esteves. Em 2013 ensaiamos uma reação, mas ela foi logo abafada por seriados acompanhados pelo computador. Os anos passados foram um teste para os nossos ilustres, para a nossa “intelligentsia”, e eles mostraram-se absolutamente despreparados, incapazes de ajudar a detectar os problemas e a empurrar o governo a corrigir o rumo.

Reprovaram fragorosamente. A maioria esmagadora dos acadêmicos, jornalistas, empresários, artistas e seus congêneres perdeu-se em seus próprios labirintos. O pessoal das universidade agarrou-se a teorias que explicavam o mundo antes da queda do Muro de Berlim, os jornalistas transformaram-se em hienas atacando-se uns aos outros enquanto as redações perdiam espaço para a meninada dos blogs e para as redes sociais, os empresários contentaram-se em pegar dinheiro mais barato do BNDES e a sonegar impostos como sempre, os artistas mantiveram-se como eternos meninos da Terra do Nunca, duelando com o Gancho do capitalismo, recusando-se a envelhecer com sabedoria.

A pretensa elite intelectual preferiu manter a expectativa otimista quando tudo lhe mostrava apenas o vazio do discurso. Isolou as vozes dissonantes, permitiu a destruição de reputações daqueles que não seguiam com a boiada e ousavam colocar em dúvida as boas intenções da “esquerda”. Eximiu-se da análise e do acerto da rota, não teve vergonha de rebaixar a política ao futebol, nem de agir à moda das torcidas organizadas.

Como o Rei Lear de Shakespeare, os ditos pensantes escolheram as mentiras que adoçavam seus ouvidos ao amargo de certas verdades. Autoengano? Ignorância? Má-fé? Fica a questão para os historiadores de amanhã. No instante atual o resultado é que o descontentamento começou a morder a população de forma inconsciente. A omissão daqueles que poderiam explicar aos demais a natureza e a extensão dos problemas, bem como sugerir possíveis alternativas para soluções, implicou o crescimento desordenado de um sentimento raivoso que mistura indignação, frustração, medo e vontade de revide. Assim criam-se os bodes expiatórios: a massa precisa que o mal seja nomeado e punido num ritual público de humilhação, a massa precisa que alguém seja imolado para que ela se sinta segura de novo.

E se pela falta de rosto o bode expiatório for a democracia ou forem as leis, o que faremos? A CPMF e outros impostos, por si só, não dariam jeito. A troca de governo às pressas e fora da ordem institucional não dará jeito. A condescendência com os erros e maldades dos governantes jamais deu jeito. Como fica? Na minha avaliação de sofá apenas uma coisa pode ser feita agora para que efetivamente consigamos reduzir ao mínimo possível os estragos inevitáveis da crise que provocamos: planejamento de longo prazo calcado em metas paulatinas. Dilma ainda tem uma carta na manga caso deseje ficar, mas precisa usá-la imediatamente, pois o PMDB é um leviatã que mantém os olhos acima da linha d’água e ataca de supetão.

Ela pode derrubar parte do governo e colocar gente de calibre grosso e técnico nos postos-chave, pessoas dispostas a fazer o que é preciso e não o que é bonito. Sua briga ficaria restrita à política, mas, como nesse quesito a oposição consegue ser ainda mais incompetente que a presidente, haveria uma chance de acordos irem sendo costurados aos poucos, enquanto a faxina começa. A conta do ajuste seria partilhada entre todos que querem evitar o pior. Duvido, no entanto, que isso aconteça. O governo mordeu a isca do PMDB quando Janot tirou de cima do partido a espada de Dâmocles que o TSE mantinha, ou seja, a possibilidade de impugnar a chapa eleita, de maneira a derrubar Michel Temer junto com Dilma. Um dia depois os peemedebistas já estão assanhadíssimos, acreditam que o vice é a alternativa para uma transição e sonham com encabeçar uma chapa em 2018. A outra alternativa no horizonte, assim me parece, é a renúncia da presidente. Sai Dilma e todos os que ela levou para lá, nomeia-se outra equipe, na esperança de aumentar a credibilidade. Essa segunda alternativa, a exemplo de um suposto “impeachment”, favoreceria o PT.

O partido mostrou inúmeras vezes que tem dificuldade de modificar sua forma de atuar. Poderia jogar com a dúvida, fazer-se de coitado e defensor dos oprimidos, atribuindo toda a lambança à luta de classes e aos inimigos que não suportam ver os legítimos representantes do povo no poder. “Os homens prudentes sabem sempre tirar vantagens dos atos aos quais a necessidade os constrangeu”, disse Maquiavel. É provável que os espertos saibam ainda mais, digo eu. O PSDB? O PSDB é um ninho de mafagafos de peito inflado. Penso neles e imediatamente aparece em minha mente é Louis Cyphre, de Coração Satânico, resumindo as coisas: “Eles dizem que há religiões suficientes no mundo para fazer com que os homens se odeiem, mas não o suficiente para fazer com que se amem.” Troque ‘religiões’ por ‘poder’ e voilà! Passamos a falar dos tucanos. No meio disso tudo, a Lava Jato. Mas aí já é demais, até para mim…

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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