A crise e seus responsáveis

O Brasil fechou os olhos e chegou ao auge do surreal; é urgente identificar os responsáveis e cobrar soluções

Postado dia 29/02/2016 às 08:30 por Janaína Leite

Brasil

Foto: Divulgação/Internet

Maria chega diante do marido descabelada, olhos fundos, rosto banhado de lágrimas. “João, a empregada vai ter um filho.” O homem, impassível, faz apenas uma consideração. “Problema dela”, diz. Maria, desesperada, é mais explícita: “João, você é o pai!” O interlocutor levanta as sobrancelhas com cara de resignação. “Problema meu.” A mulher não aguenta e grita. “Mas, João, você é meu marido!” Ele, já voltando aos seus afazeres, resume: “Problema seu.” O trecho é uma anedota, mas cabe para provocar uma reflexão sobre o Brasil de hoje. De quem é a responsabilidade pela crise que lancina a pátria?

A economia está no brejo, amarrada a uma dívida explosiva e a contas arrebentadas, sem credibilidade e sem perspectiva de correção de rumo. A saúde pública conseguiu desafiar o inimaginável, ficando ainda pior do que sempre foi, golpeada por epidemias. O Congresso é ocupado em boa medida por deputados e senadores que envergonham os letrados; facções que disputam poder à semelhança do tráfico nos morros, incapazes de se organizar para nada além de salvar os próprios traseiros. O governo é formado em sua maioria por ignorantes, teimosos, nefelibatas e malandros. Mente sempre que possível, faz promessas que não cumprirá, cerca-se de conselheiros que não acertam uma e aparentemente é incapaz de compreender o mal que fez (e continua a fazer) a 200 milhões de pessoas com as lambanças na economia. A oposição veste-se de papel de parede. Omite-se por medo e sustenta-se em cabeças pouco estratégicas. Mostra-se incapaz de firmar um discurso impactante para amealhar a opinião pública.

A academia submerge em sua identificação excessiva com ideias e legendas, sendo diminuída ao preferir ver o caos a advertir aqueles com quem simpatiza. Enquanto isso, a Lava Jato tenta cortar as cabeças da corrupção endêmica, hidra que avançou impiedosamente sobre estatais e fundos de pensão.

Volta a pergunta: de quem é o problema? De todos, claro. Mas dizer que é de todos acaba por fazer com que, na visão típica dos brasileiros, não seja de ninguém. Talvez outra questão deva ser feita antes dessa. Por que os sinais de que o país caminhava a passos largos para o precipício foram (e continuam sendo) ostensivamente ignorados?

O desvio do PT de suas proposições e o esfarelamento da ética política e pessoal de sua cúpula, por exemplo. Há vinte anos o economista Paulo de Tarso Venceslau denunciava no caso CPEM o mesmo “modus operandi” que cresceria e ganharia dimensões nacionais: a contratação de empresas pela administração pública para enriquecimento pessoal por meio de propinas e obtenção de financiamentos ilegais de campanha. Ninguém deu bola. O esquema repetiu-se. Foi aperfeiçoado e passou a englobar valores cada vez maiores, até chegar às centenas de milhões descobertos pela Lava Jato.

O Brasil fechou os olhos, como fechou também para outros malfeitos de governos anteriores, e chegou ao auge do surreal. O partido que manda no governo adota um discurso de oposição ao governo, exigindo que este último abra as torneiras do dinheiro para os empréstimos, comportando-se como se a economia moribunda estivesse sambando. O partido do vice-presidente (incluindo o próprio) também faz oposição ao governo, apresentando um plano econômico alternativo. A presidente Dilma Rousseff está isolada, mas seu mandato é garantido muito em razão de seu arqui-inimigo, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, continuar no cargo.

A situação chegou a um ponto tal que as metáforas tornaram-se literais. O “mar de lama” devastou uma faixa inteira do país, do interior ao litoral, matando e sujando tudo que encontrava pela frente. Os cérebros diminuídos pelo descaso mostraram a falta de cuidado com as gerações futuras. Os museus em chamas trouxeram a imagem viva da incineração da memória, da língua, das artes. A sífilis expôs a ignorância e a sexualidade sem cuidados carcomendo o coração, a pele e a estrutura óssea. É a realidade desenhando para os que não conseguem entender.

Resolver os problemas é algo que passa pela “fórmula de João”: identificar quem os criou, delimitar quem precisa lidar com eles e cobrar de quem é o responsável. Em mais de um ano do segundo mandato, a presidente da República não demonstrou ser capaz de fazer nenhuma das três coisas.

O povo acabará seguindo a primeira voz que chegar falando de jeito firme em uma linha “toma que o filho é teu”. Graças a Lava Jato, talvez ela venha do Judiciário. Com a palavra, o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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