A Arte e a questão econômica

Para viver de arte é preciso pagar as contas no final do mês, artista não vive de fotossíntese.

Postado dia 12/02/2016 às 11:29 por Wilson ADM

Arte

Foto: Divulgação/Internet – A arte de fazer sorrir

A falta de perspectiva é um dos motivos que vem afastando as pessoas dos movimentos culturais. Falando do exemplo de Mogi das Cruzes, que é meu quintal: agora temos uma Lei de Incentivo (que pode ter todas as críticas do mundo se tomarmos como base a Lei Rouanet, mas penso que é preciso dimensionar que estamos falando de Mogi das Cruzes – a cidade que tem um esqueleto de jumento enterrado na entrada – e não do eixo Rio-São Paulo e isto muda muita coisa) e eu só ouvi dos artistas (que deveriam ser os primeiros e principais interessados) opiniões muito desfavoráveis. Não digo que a crítica não seja necessária mas digo que prefiro morar em uma cidade em que há uma Lei de Incentivo, passível de melhorias e adequações do que não ter nada.

Porque hoje o que temos é NADA!

Atualmente há um movimento encabeçado pelo Poder Público para a criação de uma Lei de Fomento, desejo de todos, aparentemente. Na última reunião chamada pela Secretaria de Cultura estavam presentes 06 pessoas (entre elas, eu). Seis pessoas. De um universo de tantos auto – intitulados fazedores culturais, produtores, artistas, intelectuais, pensadores, críticos, inclusive da da Lei de Incentivo, seis pessoas.

E na reunião ficamos sabendo que o dinheiro será curto mesmo (sem novidades), que os projetos aprovados serão poucos (poucos mesmo) e que (isto é importante) se a pessoa, grupo, coletivo, seja lá o que for não escrever o projeto e se arriscar não vai ganhar (não importa que seja o baluarte do conhecimento total daquele segmento e  que o sujeito já tenha feito tanto pela cultura de Mogi. O prêmio não vai bater porta de ninguém!) A vida é dura mesmo. Fica a dica.

E eis a questão: as pessoas vão percebendo que não há perspectivas. As políticas públicas (há políticas públicas?) são sempre excludentes (para mim que já estou na estrada faz um tempo e para o menino da periferia – este ente tão defendido, sem sucesso, por alguns, que sonha ainda em ser artista). Não tem espaço, não tem recurso, não tem trabalho e sendo clara, muito clara, para que não haja enganos, sobre o que estou falando: não há dinheiro!

E, pedindo licença `aqueles que pensam que artista é uma entidade que vive da fotossíntese realizada com a luz dos refletores, aviso: a conta vence no final do mês.

Apenas para dar um exemplo mais amplo: quando exatamente o Programa Cultura Viva  do Governo Federal, criado pelo brilhante Célio Turino, hoje reconhecido em vários países como revolucionário e aclamado inclusive pelo Papa Francisco começou a desmoronar?

Exatamente quando os prêmios deixaram de ser pagos e os editais não mais saíram. Acabou no Brasil.

O Ministério da Cultura faz caravanas, diz que o Programa continua e que a vida ainda pode ser bela.  E dizer que Ponto de Cultura é um conceito que vai além de qualquer edital ou repasse financeiro é lindo!!! Diga isto `a uma associação que tem sob sua responsabilidade 200 adolescentes que faziam aulas e aprendiam arte, cultura, empoderamento, protagonismo e cidadania  e agora ficarão na rua da amargura porque  é certo que o aluguel vence e o professor-artista precisa comer (pois é, pasmem com esta!) e que sem dinheiro, ou recurso que é uma palavra mais digestiva, as portas se fecharão. é cruel  e é perverso.

Ser artista não é fazer voto de pobreza. Não é ter que fazer caridade sempre. E hoje em nossa região vivemos em situação de miséria, colocando nossa força de trabalho `a disposição de promessas de migalhas. Um guardador de carros ganha mais que eu que só de Teoria do Teatro, estudei cinco anos.

Chega uma hora em que arte e caridade se divorciam e engrossam as estatísticas dos casais: a questão econômica determina a consciência.  Na arte não é diferente. Vivemos no sistema do capital.

 

arte

Autora: Priscila Nicoliche
Profissão: Produtora e atriz
Cidade: Mogi das Cruzes
Priscila Nicoliche é atriz, diretora de teatro, produtora cultural por necessidade, estudiosa livre e fundadora do grupo Quântica Teatro Laboratório.
Entre em contato com Priscila Nicoliche pelo Facebook!

 

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